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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.20 no.2 Ribeirão Preto May/Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692012000200005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Prevalência de doenças musculoesqueléticas entre trabalhadores portuários avulsos

 

 

Marlise Capa Verde de AlmeidaI; Marta Regina Cezar-VazII; Jorgana Fernanda de Souza SoaresIII; Mara Regina Santos da SilvaII

IDoutoranda, Universidade Federal do Rio Grande, Brasil
IIDoutor, Professor Associado, Escola de Enfermagem, Universidade Federal do Rio Grande, Brasil
IIIDoutoranda, Universidade Federal da Bahia, Brasil. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi identificar a prevalência de doenças musculoesqueléticas relacionadas ao trabalho, entre trabalhadores portuários avulsos. É estudo quantitativo, retrospectivo. A fonte de dados constituiu-se de fichas de atendimento médico dos trabalhadores portuários avulsos, no período de 2000 a 2009. A coleta de dados foi realizada em um serviço de medicina do trabalho portuário, a partir de formulário pré-determinado. Procedeu-se à análise quantitativa descritiva. Aspectos éticos foram respeitados. Identificaram-se 15,8% de diagnósticos de doenças osteomusculares, entre trabalhadores do sexo masculino. Predominaram indivíduos com mais de 52 anos de idade e com tempo de atuação laboral superior a 21 anos. As doenças osteomusculares prevalentes foram lombalgias (38,8%), tendinites (19,7%) e cervicalgias (12,5%), que podem ser prevenidas por meio de ações interventoras em saúde, ratificando a importante construção de subsídios clínicos em enfermagem para a qualidade do trabalho portuário.

Descritores: Enfermagem em Saúde Pública; Saúde do Trabalhador; Transtornos Traumáticos Cumulativos.


 

 

Introdução

O contexto organizacional e estrutural que compõe a realidade de trabalho da sociedade pode acarretar tanto benefícios à vida humana quanto produzir problemas à saúde do trabalhador, confluindo para o surgimento de patologias de incidência significativa como as lesões por esforços repetitivos (LER), recentemente denominadas doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho (DORT)(1) ou, ainda, transtornos traumáticos cumulativos (TCC) e doenças musculoesqueléticas.

Esse grupo de doenças se caracteriza pela ocorrência de sintomas como dor, parestesia, sensação de peso e fadiga que, em geral, ocorre de maneira insidiosa, especialmente em membros superiores, podendo também afetar membros inferiores(2). As doenças se desenvolvem devido às sobrecargas excessivas dos músculos, expostos a movimentos repetitivos e esforços localizados, bem como nos casos de trabalho sob vibração de corpo inteiro e de manutenção de membros superiores acima da região do ombro(2). São geralmente originadas por movimentos repetitivos que superam a capacidade de resistência dos componentes do aparelho locomotor, como ossos, tendões, ligamentos e músculos, muitas vezes associadas às condições inadequadas de trabalho e a fatores psicossociais.

A ocorrência desse grupo de doenças, em geral, pode estar associada às mudanças operacionais e organizacionais decorrentes da inserção de novas tecnologias produtivas, as quais originam alterações na estrutura do trabalho e inserem no processo novos instrumentos, responsáveis por alterações na qualidade de vida e na capacidade produtiva do trabalhador, ocasionando, entre suas consequências, o absenteísmo(3).

Dentre os diversos ramos produtivos de alta representatividade econômica no país e no mundo, insere-se o trabalho desenvolvido nos portos marítimos que, através das atividades de navegação, de movimentação de passageiros ou de movimentação e armazenagem de mercadorias, constitui-se em estratégia de crescimento econômico para os municípios nos quais estão situados e para o país em geral(4).

Em sua maioria, a movimentação portuária é realizada pelos trabalhadores portuários avulsos (TPA) que assim se denominam devido à sua atuação por meio da intermediação obrigatória de órgãos gestores de mão de obra (OGMO), para prestação de serviços de natureza eventual, permanente e sem vínculo empregatício, às diversas empresas que operam nos portos marítimos(5). Esses trabalhadores desenvolvem seis tipos de atividades: capatazia, estiva, conferência de carga, consertos de carga, vigilância de embarcações e a dos trabalhadores em bloco, cujas rotinas de trabalho conformam exposição ocupacional heterogênea, intensificada pelo princípio da multifuncionalidade(5), segundo o qual trabalhadores de diferentes categorias profissionais podem exercer distintas atividades e tarefas que exijam a mesma qualificação, independentemente da atividade profissional à qual pertençam.

Considera-se que a rotina de desenvolvimento das atividades do trabalho portuário expõe os trabalhadores a situações potencialmente geradoras de doenças e agravos à saúde, tais como inadequação dos locais em que se efetiva o manuseio, armazenamento e transporte de cargas e materiais perigosos, a exemplo dos tóxicos e radioativos; exposição a ruídos; vibrações das máquinas de trabalho; intempéries; temperaturas extremas; contato com substâncias químicas; inadequação das ferramentas de trabalho, entre outras, que são determinantes do processo saúde/doença desses trabalhadores(2,6).

No contexto de trabalho portuário, destacam-se também as exposições ergonômicas e psicossociais, como postura inadequada, trabalho intenso, realizado em turnos, envolvendo atividades e movimentos repetitivos, desempenhado sob pressão psicológica e com exigência de formação, aprendizagem e adaptação, de maneira acelerada, que podem determinar o surgimento das patologias musculoesqueléticas.

Essas doenças entre os TPAs foram apresentadas em outros estudos(7-8) que destacaram o peso da carga a ser locomovida e manipulada, no interior de porões e conveses das embarcações, como possíveis causas para esses grupos de agravos. Além disso, o grupo de doenças musculoesqueléticas foi o mais autorreferido pelos TPAs(8).

A partir do exposto, observa-se a necessidade do estudo da temática em questão, especialmente na realidade do trabalho portuário, porque a delimitação do perfil de morbidade dos TPAs pode subsidiar intervenções de enfermagem em importante área de atuação em saúde, objetivando a prevenção desses agravos. Destaca-se, ainda, que a produção científica da Enfermagem sobre essa temática, em outras realidades de trabalho, é reduzida, abordando, na maioria das vezes, os próprios trabalhadores da Enfermagem, no adoecimento por essas patologias(1,3,9-11), o que enfatiza a importância da abordagem de outras realidades de trabalho para o aprofundamento da Enfermagem em Saúde Pública.

Assim, este estudo tem como objetivo identificar a prevalência de doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho entre trabalhadores portuários avulsos.

 

Método

Trata-se de estudo quantitativo, descritivo, retrospectivo, desenvolvido em um porto marítimo, no Sul do Brasil, que teve como fonte de dados as fichas de atendimento médico do ambulatório de medicina do trabalho portuário, pertencente ao órgão gestor de mão de obra do trabalho portuário avulso do referido porto.

Para a coleta de dados, utilizou-se um formulário pré-determinado, construído com base em documentos preconizados pelo Ministério da Saúde, bem como nas informações existentes nos próprios prontuários do serviço - obtidas por meio de conhecimento prévio da fonte de dados - e a partir de questões de outros instrumentos de coleta de dados, utilizados em saúde do trabalhador(2,6).

O instrumento para a coleta dos dados foi constituído por quatro sessões: caracterização dos sujeitos, dados clínicos e diagnósticos médicos, ações em saúde desenvolvidas pelos profissionais e ações dispensadas à avaliação das condições de saúde do trabalhador, quando do retorno ao trabalho. Para este estudo, foram utilizadas as variáveis idade, tempo de atuação, estilo de vida, categoria profissional, cor, lombalgias, lombociatalgias, dorsalgias, cervicalgias, artroses, artralgias, artrites, tendinite, epicondilite, bursite, sinovites e tenossinovites e dedo em gatilho. Os registros compreenderam todos os casos de doenças musculoesqueléticas diagnosticadas, destacando-se que um trabalhador pode apresentar mais de uma doença relacionada, dentro do período delimitado de coleta de dados, que foi de 2000 a 2009.

Os dados foram digitados com dupla entrada no programa EPINFO 6.04, o que permitiu a limpeza do banco de dados. Posteriormente, os dados foram transportados para o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 13.0, por meio do qual se realizou a análise estatística descritiva dos dados que compreenderam o cálculo de proporções e, utilizou-se, também, o teste qui-quadrado de Pearson. O nível de significância estatística utilizado foi a=0,05.

Com relação aos aspectos éticos, foi solicitada a aprovação de realização do estudo junto ao OGMO - Rio Grande. Quanto ao Projeto Integrado de Pesquisa Saúde, Riscos e Doenças Ocupacionais - estudo integrado em diferentes ambientes de trabalho, do qual o presente trabalho é integrante, esse foi aprovado pelo Comitê de Ética na Pesquisa em Saúde da FURG (CEPAS/FURG), sob Parecer de nº109/2010. Além disso, os pesquisadores envolvidos se comprometeram com o sigilo dos dados coletados, pela não divulgação da identidade dos trabalhadores envolvidos.

 

Resultados

Foram consultadas 953 fichas de atendimento do Ambulatório de Medicina do Trabalho Portuário. Duas (0,2%) fichas não apresentavam a atividade exercida pelo trabalhador.

Dentre o total de 951 fichas consultadas, foram selecionadas as 152 correspondentes aos trabalhadores portadores de doenças musculoesqueléticas: 73 (48%) trabalhadores em capatazia, 57 (37,5%) trabalhadores de estiva, 10 (6,6%) vigilantes de embarcações, 9 (5,9%) conferentes de carga, 2 (1,3%) trabalhadores em bloco e 1 (0,7%) consertador de carga.

Das fichas selecionadas, todos os TPAs eram do sexo masculino. Com relação à faixa etária, 77 (50,7%) trabalhadores apresentavam mais de 52 anos de idade e, com referência à atuação no trabalho portuário, 88 (57,9%) TPAs atuam há mais de 21 anos. Os registros apontaram 116 (76,3%) indivíduos brancos e, quanto aos hábitos de vida, 32 (34,2%) eram tabagistas e 14 (9,2%), etilistas.

Em relação às doenças osteomusculares, foram detectados 170 diagnósticos, evidenciando que quinze trabalhadores apresentaram mais de um diagnóstico patológico. As doenças que mais se destacaram foram as lombalgias com 59 (38,8%) casos, as tendinites perfizeram 30 (19,7%) casos e as cervicalgias totalizaram 19 (12,5%) casos; as três patologias juntas perfizeram mais da metade dos casos identificados (71%).

A atividade profissional que apresentou maior número de casos foi a capatazia (n=84), seguida pelos trabalhadores de estiva (n=61) e conferentes de carga (n=11), enquanto as que apresentaram menor número de diagnósticos e de quantidade de registros nas fichas médicas foram a dos trabalhadores em bloco e a dos consertadores de carga (Tabela 1).

Na aplicação do teste estatístico, houve relação de dependência entre as variáveis atividade profissional e a ocorrência de tendinite (p=0,001), a qual se mostrou mais significativa com relação à categoria de vigilantes de embarcação, e com a ocorrência de lombociatalgia (p=0,033), em que se evidenciou associação mais significativa com a categoria de conferentes de carga. Além disso, o diagnóstico de tendinite mostrou associação significativa com a variável faixa etária (p=0,006), e a faixa etária mais significativa foi a de idade inferior a 52 anos. O diagnóstico de lombociatalgia associou-se de maneira significativa à variável tempo de atuação (p=0,033), sendo a categoria maior de 21 anos de trabalho portuário a de maior significância.

No que se refere à localização das doenças osteomusculares, os registros apontam com frequência os membros superiores (n=25), especialmente na ocorrência de tendinites; membros inferiores (n=21) na ocorrência de artroses e artralgias; o tronco (n=22) na ocorrência de dorsalgias e bursites e a não descrição específica do local afetado pela patologia (n=31), conforme mostra a Tabela 2.

Além das já citadas, ainda se observou a ocorrência, em menor frequência, de artroses, entesiopatias (como as epicondilites), bursites, sinovites, tenossinovites e um caso isolado de dedo em gatilho que, somados, perfizeram o total de 39 casos (25,8%). Destaca-se, ainda, a ocorrência de patologias não reconhecidas como relacionadas ao trabalho, as quais perfizeram a porcentagem de 11,8% (n=18).

 

Discussão

Os resultados indicam que as doenças osteomusculares acometem os trabalhadores portuários, destacando-as enquanto agravo de interesse para a intervenção que vise à melhoria na qualidade de vida dos TPAs. Os resultados apresentados revelam que os trabalhadores estão sendo afetados pelas doenças musculoesqueléticas, corroborando o que foi autorreferido pelos trabalhadores em estudo anterior(8).

As atividades laborais desenvolvidas no ambiente portuário exigem o manejo manual de cargas pesadas, para o qual se emprega o esforço físico de vários grupos musculares, além do uso, muitas vezes, de equipamentos de trabalho, como é o caso de veículos, tratores e pás mecânicas, que expõem os trabalhadores às vibrações de corpo inteiro por praticamente todo o turno de trabalho. Tais condições, somadas à realização do trabalho sentado, à falta de exercícios regulares e à manutenção de membros superiores acima da região do ombro contribuem para o desenvolvimento das LER/DORTs(1-2).

Na realidade do trabalho portuário, estudo apresenta que os trabalhadores das categorias capatazia, estivadores e vigias de embarcações são os mais afetados por patologias do referido grupo orgânico(8), o que reforça as informações em saúde obtidas. Entre as doenças identificadas, a lombalgia foi a de maior frequência e acometeu trabalhadores de capatazia e estiva, categorias essas mais representativas na amostra dos sujeitos.

A literatura aponta que a faixa etária dos trabalhadores pode constituir fator importante para a produção de lombalgias crônicas(2);, no entanto, a análise de associação entre essas variáveis não se mostrou significativa neste estudo, o que pode indicar outros motivos para o desenvolvimento da afecção, como aqueles relativos às condições e características do trabalho.

Essas características, no trabalho em capatazia, compreendem a movimentação de mercadorias no cais do porto, feita por maquinários como empilhadeiras, tratores e veículos automotivos, do próprio serviço portuário ou proveniente do descarregamento de navios(5). Nesse sentido, cabe ressaltar a influência das vibrações de corpo inteiro na produção de lombalgias, que se acentua com a diferença na magnitude das vibrações entre os maquinários de trabalho, caracterizando, conforme o tipo e o tempo de exposição, o desconforto humano e o possível desencadeamento de doenças osteomusculares(12).

Situação semelhante ocorre com os estivadores que constituem a segunda atividade mais afetada, cujas características de trabalho são análogas às da capatazia, com o diferencial de serem desempenhadas no interior das embarcações, como no convés e nos porões dos navios. Ainda se destaca, nesse contexto, que, em ambas as atividades, nem todos os TPAs possuem habilitação técnica para atuar em todos os maquinários, o que pode prejudicar o rodízio entre eles no trabalho com as máquinas, desrespeitando a necessidade de redução do tempo de exposição do trabalhador à vibração, como uma das medidas mais eficientes para a atenuação das lombalgias e doenças ocupacionais, oriundas dessa exposição(2).

Vêm sendo desenvolvidos estudos, na atualidade, que apresentam técnicas para amenizar os sintomas dolorosos da lombalgia, sem a instituição de medidas medicamentosas; entre elas, a realização de exercícios físicos, por meio da ginástica laboral, com vistas à ampliação dos movimentos articulares e melhora dos resultados musculares, além da utilização de técnicas fisioterápicas como a energia muscular e a reeducação dinâmica muscular(13-14). A partir das ações propostas, pode-se agir antes que a doença se instale, bem como identificar pontos dolorosos antecipadamente, procedendo, assim, a ações de prevenção de doenças.

Além das técnicas citadas, defende-se a avaliação da enfermagem referente à amplitude dos movimentos de segmentos corporais(15), como medida eficiente para a detecção de alterações musculoesqueléticas que podem acarretar incapacidade para o trabalho. A partir das ações propostas, pode-se agir antes que a patologia se instale, bem como identificar pontos dolorosos antecipadamente, procedendo, assim, a ações promotoras de saúde.

Apresenta-se, ainda, a produção de instabilidade postural na presença de lombalgia(13), o que pode causar danos irreversíveis aos trabalhadores que exercem as suas atividades em altura e com risco de queda no mar, como na realização da peação e da despeação*, ambas, muitas vezes, executadas sobre cargas e equipamentos (exemplo,contêineres, celulose). Dessa forma, o trabalho dos indivíduos portadores de lombalgia tende a aumentar o risco de acidentes de trabalho e o surgimento de outras patologias ocupacionais relacionadas.

Outra doença em destaque foi a tendinite, tipo de afecção classificada entre as lesões do ombro, que causam efeitos dolorosos intensos e geram limitação de movimentos em diferentes segmentos dos membros afetados, podendo se alterar de acordo com a posição em que é realizado o esforço físico(2).

Muitas afecções relacionadas às tendinites tendem a afetar a região do ombro, formada pelos músculos supraespinhoso, infraespinhoso, subescapular e deltoide, e seus respectivos tendões, cuja função é a estabilização da movimentação do ombro(2). Na realidade portuária, os fatores elencados são visualizados mais uma vez entre os trabalhadores de capatazia e estiva, por meio dos diagnósticos médicos de tendinite em ombro, cotovelo, antebraço, pulso e tendão de Aquiles, possivelmente originados pelo esforço físico realizado na movimentação de cargas, de forma manual, por tempo prolongado e em locais que inviabilizam o posicionamento adequado do trabalhador. Destaca-se que, entre os trabalhadores portuários, as tendinites ocorrem em outros locais além dos descritos na literatura(2), como é o caso daquelas que afetam os vigias de embarcações, localizadas em tornozelos e joelhos. Demonstra-se, assim, o acometimento de trabalhadores que atuam praticamente na íntegra de sua jornada de trabalho na posição vertical, em atividades de fiscalização de entrada e saída de pessoas a bordo, bem como na movimentação de mercadorias em portalós**, rampas, porões, conveses, plataformas e outros locais da embarcação(5).

Os resultados obtidos no presente estudo corroboram os achados de pesquisa(17) que avaliou trabalhadores de diferentes categorias profissionais como costureiros e cabeleireiros, construção civil, trabalhadores domésticos, lavradores e seguranças, e que identificou a tendinite como a doença do tendão supraespinhoso que mais gerou afastamento do trabalho, salientando, assim, as consequências econômicas e sociais produzidas, principalmente por se tratarem de doenças de manifestação dolorosa, que convergem para a incapacidade de exercício do trabalho e para a consequente desmotivação no desempenho das atividades produtivas(17).

A cervicalgia foi outro destaque entre os trabalhadores portuários. Também reconhecida como síndrome tensional do pescoço ou síndrome dolorosa miofacial, acomete músculos da região escapular e cervical, com a ocorrência de dor intensa na coluna vertebral, podendo afetar a porção cervical, dorsal e lombar(2).

Na realidade do trabalhador portuário, observa-se a existência de fatores que predizem o prognóstico dessa doença, como os identificados em estudo(18) que analisou a associação entre a cervicalgia, a faixa etária superior a 40 anos e a presença concomitante de lombalgia e cefaleia, na piora do prognóstico da cervicalgia, em curto prazo de tratamento(18).

Sob tais condições, o trabalho portuário tem sua produtividade diminuída, e o trabalhador tem sua renda prejudicada, visto que, afastado, não pode concorrer a uma oportunidade de trabalho.

A partir das características observadas, considera-se que as atividades executadas pelos trabalhadores portuários estão propensas ao desenvolvimento da cervicalgia. Assim, ações clínicas multiprofissionais são necessárias, visando a prevenção do surgimento e do agravamento de cervicalgias entre esses trabalhadores.

Observa-se, como limitação deste estudo, o uso de dados secundários, os quais possibilitam a visualização parcial da situação estudada. No entanto, os resultados obtidos podem subsidiar a realização de novos estudos e ações de intervenção da Enfermagem do Trabalho.

 

Conclusões

As doenças osteomusculares afetam os trabalhadores nas diferentes atividades do trabalho portuário, destacando-se que as características inerentes ao desenvolvimento das atividades produtivas influenciam no desencadeamento ou no agravamento das condições mórbidas desses trabalhadores.

No presente estudo, as patologias mais frequentes foram as lombalgias, as tendinites e as cervicalgias, cuja sintomatologia envolvida deve ser prevenida ou amenizada por meio de ações multiprofissionais, interventoras e avaliativas, que colaborem para a melhoria das condições de trabalho e, consequentemente, influenciem de forma positiva na qualidade de vida do trabalhador portuário.

O uso de dados secundários, que não foram coletados previamente com a finalidade acadêmica, não possibilitou uma avaliação completa, pois o uso dos registros dos ambulatórios em saúde do trabalhador podem não refletir a extensão do problema em sua totalidade, porque requer que o trabalhador procure a assistência de saúde em situações que podem ser interpretadas como inerentes ao trabalho, bem como a habilidade do profissional médico em reconhecê-las. Nesse aspecto, sugere-se a realização de estudos de validade e confiabilidade, que testem outros instrumentos de coleta de dados, como, por exemplo, aqueles em que o trabalhador se reconhece ou não como sendo portador de doenças musculoesqueléticas.

 

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Endereço para correspondência:
Marlise Capa Verde de Almeida
Universidade Federal do Rio Grande
Rua Almirante Barroso, 197, Apto. 208
Bairro: Centro
CEP: 96201-001, Rio Grande, RS, Brasil
E-mail: marlisealmeida@msn.com

 

 

Recebido: 17.6.2011
Aceito: 6.3.2012

 

 

* Peação: fixação da carga nos porões ou conveses da embarcação, visando evitar sua avaria pelo balanço do mar. Despeação: desfazimento da peação(16).
** Portaló: local de entrada do navio, onde desemboca a escada que o liga ao cais, de passagem obrigatória para quem entra ou sai da embarcação(16).