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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão On-line ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.20 no.4 Ribeirão Preto jul./ago. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692012000400020 

ARTIGO ORIGINAL

 

Exercício da parentalidade positiva pelos pais de crianças até três anos: construção e validação de escalas de medida

 

 

Maria da Saudade de Oliveira Custódio LopesI; Maria dos Anjos Coelho Rodrigues DixeII

IDoutoranda, Universidade Católica Portuguesa, Portugal. Professor, Escola Superior de Saúde, Instituto Politécnico de Leiria, Portugal
IIPhD, Coordenador, Unidade de Investigação em Saúde, Instituto Politécnico de Leiria, Portugal

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os objetivos deste estudo foram descrever a construção e obtenção de algumas evidências de validade de três escalas multidimensionais em que os mesmos 30 itens, distribuídos por cinco dimensões, medem a autoperceção da confiança, das dificuldades e da necessidade de conhecimentos dos pais no exercício da parentalidade positiva, nos primeiros três anos da criança. O conteúdo das escalas resultou da literatura e de estudos exploratórios e foi validado por peritos. A análise da sua fidedignidade e validade, por meio de correlações de Pearson e coeficiente alfa de Cronbach, partiu dos resultados de um questionário aplicado a uma amostra não probabilística de 1.011 pais. Nas dimensões e itens, os valores de α situaram-se entre 0,769 e 0,890 e os de r foram >0,37; p<0,01. Concluiu-se que as escalas medem três variáveis que operacionalizam o exercício da parentalidade positiva, e a sua utilização permite direcionar o apoio de enfermagem.

Descritores: Pais; Pátrio Poder; Educação Infantil; Psicometria; Medidas.


 

 

Introdução

A parentalidade positiva integra o conjunto de funções atribuídas aos pais para cuidarem e educarem os seus filhos e é fundamental para a saúde e para o desenvolvimento da criança. É definido como comportamento parental aquele que assegura a criação e educação da criança com fixação de limites, relacionamento positivo e otimização do seu potencial de desenvolvimento(1).

A promoção de competências de parentalidade positiva é recomendada como estratégia de prevenção de maus-tratos infantis(2) e de desenvolvimento da criança nos seus primeiros três anos de vida(3). Durante esses anos, o cérebro humano tem grande potencial para a aprendizagem e os pais têm oportunidade para otimizar o desenvolvimento dos filhos.

A parentalidade positiva envolve complexo conjunto de responsabilidades para os pais e pressupõe atividades quotidianas que previnam comportamentos de risco, fomentem comportamentos desejados e respondam às necessidades da criança(1-4) e que se integram em cinco domínios da função ou dimensões(2): 1. necessidades físicas da criança (engloba atividades que visam a satisfação das necessidades básicas da criança como a alimentação, repouso e higiene); 2. segurança da criança (engloba atividades que visam a proteção da saúde e dos perigos e os cuidados na doença da criança); 3. desenvolvimento, comportamento e estimulação da criança (englobando as atitudes para a promoção de comportamentos adequados e atividades de promoção do desenvolvimento e estimulação da criança); 4. comunicação positiva com a criança (englobando atitudes positivas e o desenvolvimento de interação entre pais e crianças e a adoção de relacionamento de afeto e amor) e 5. disciplina positiva (incluindo a promoção do autocontrole e o estabelecimento de limites à criança com consistência e amor).

Na alimentação, evidenciam-se as atividades relacionadas à amamentação, pela sua importância para a criança e pelo efeito do apoio de enfermagem(5), e integram-se os cuidados na doença da criança, porque é uma fonte de dificuldades para os pais(6).

Os profissionais de saúde têm papel fundamental na capacitação dos pais para o desempenho dessas atividades(1) e são um recurso de coping ante as dificuldades dos pais(7). O apoio deve partir das potencialidades, interesses, dificuldades e diferenças dos pais(8-9), e permitir valorização da sua sabedoria prática e participação na tomada de decisão, pressupostos para o sucesso prático das intervenções de enfermagem(9).

As potencialidades dos pais podem ser expressas pela autoconfiança e pelo conhecimento para gerir o processo da parentalidade, e a sua avaliação permite e orienta a intervenção antecipada pelo enfermeiro(10). Isso pressupõe a utilização de instrumentos de medida que permitam o diagnóstico desse potencial (confiança e conhecimentos) e das dificuldades dos pais.

A análise de outros estudos(8,11) permitiu verificar que os instrumentos utilizados não englobavam todas as atividades e dimensões específicas da parentalidade positiva, tendo-se, então, optado pela construção de instrumentos originais. Como é recomendado(12), para esse tipo de instrumento, incluíram-se itens resultantes de atividades específicas do domínio da parentalidade positiva e aqueles resultantes do questionamento dos pais sobre as suas dificuldades. Esses instrumentos são descritos neste estudo que tem dois objetivos: construir três escalas de autoavaliação do exercício de parentalidade positiva pelos pais, nos primeiros três anos da criança (1), e analisar psicometricamente essas escalas, por meio da obtenção da evidência da sua fidedignidade e da sua validade (2).

 

Método

Para a prossecução dos objetivos mencionados, foi desenhado um estudo metodológico em duas fases: a construção das escalas (1) e a análise psicométrica das mesmas (2).

Fase 1. Construção da escala

Com base na estrutura que descreve os processos de transição, na perspectiva da intervenção de enfermagem(10), e que indica a confiança dos pais na enfermagem como indicadora desse processo, as dificuldades dos pais como pontos críticos a apoiar e os conhecimentos como condição, considerou-se a avaliação do exercício da parentalidade positiva por três variáveis: autoperceção da confiança, autoperceção das dificuldades e autoperceção da necessidade de conhecimentos. Essas três variáveis foram operacionalizadas pelos mesmos itens e dimensões que formaram uma parte comum a três escalas. Todas as escalas são compostas por duas partes, as dos itens que constituem os estímulos que desencadeiam as respostas e a das respostas(13). Neste estudo, os estímulos são comuns às três escalas, diferenciadas pelas respostas. No seu processo de construção, realizaram-se os procedimentos recomendados(14) e que são mostrados a seguir.

Seleção dos itens a serem incluídos nos instrumentos

A partir de uma revisão da literatura(8) e de orientações de entidades que promovem a saúde da criança(1-4,15), definiram-se, para cada dimensão mencionada anteriormente, os itens que traduziam atividades específicas do exercício da parentalidade positiva e consideradas, pelas mesmas entidades, fundamentais para a saúde e desenvolvimento da criança. Complementarmente, foram selecionados e acrescentados os itens referentes a atividades que impunham maiores dificuldades aos pais (exemplo: procedimentos na amamentação e cuidar da criança quando está doente). Essas foram identificadas por meio de estudos exploratórios(6-7), realizados com pais e mães de crianças até três anos, com informação recolhida por questionário com perguntas de resposta aberta.

Validade do conteúdo

Para a interpretação e pertinência dos itens, foi aplicada a técnica Delphi em três fases, obtendo-se 100% do consenso de opinião de peritos, em relação à estrutura e conteúdo dos itens, e à sua inclusão em cada dimensão do instrumento. Após serem identificados os recursos disponíveis, definidos os meios de comunicação, os critérios de definição de peritos e o nível de aceitação do consenso de opinião(16), partiu-se de um instrumento elaborado com os itens selecionados para cada dimensão e, num processo contínuo de reelaboração de instrumentos, obteve-se a concordância ou a discordância comentada dos peritos.

Ter mais de 10 anos de experiência na prestação de cuidados e/ou no ensino e investigação na área da saúde infantil e desempenharem cargos atribuídos por reconhecimento de competências nessa área foram critérios que permitiram selecionar um grupo de oito peritos, incluindo uma professora doutorada da unidade curricular de investigação, na área de enfermagem, uma professora doutorada da unidade curricular de enfermagem pediátrica, duas professoras da unidade curricular de enfermagem de saúde materna, uma professora de enfermagem da unidade curricular de saúde comunitária, um professor doutorado da área de educação para a saúde, um psicólogo doutorado na área da psicologia positiva e um pediatra diretor de um serviço de pediatria hospitalar.

Procedeu-se, posteriormente, à análise relativa ao conteúdo e à forma dos itens junto de pais de crianças com a idade requerida neste estudo. Utilizou-se o método da reflexão falada (Thinking aloud)(14) com quatro pais de crianças, seguido de um estudo pré-teste com 16 pais.

Cotação e interpretação dos resultados

O procedimento de valorização dos itens e da apuração dos resultados foi igual para as três escalas da parentalidade positiva. Todos os itens tinham cinco categorias de resposta para cada escala. Para respostas de nada confiante, nenhuma dificuldade ou nenhuma necessidade de mais conhecimento atribuiu-se a pontuação 1. Para respostas de muito confiante, muita dificuldade e muita necessidade de mais conhecimento atribuiu-se a pontuação 5. Assim, todas as respostas tinham um intervalo de 1 a 5 e as pontuações mais elevadas traduziam mais confiança, mais dificuldades e mais necessidade de conhecimentos dos pais, no exercício da parentalidade positiva.

Fase 2. Análise psicométrica das escalas do exercício da parentalidade positiva

A análise psicométrica do instrumento construído teve por base os resultados da sua aplicação a uma amostra de pais.

População e amostra

A partir da população de pais de crianças dos três meses aos três anos e meio de idade (idade das crianças que frequentam as creches), do Distrito de Leiria, situado no centro de Portugal, foi constituída amostra não probabilística de conveniência.

Foram distribuídos 2.750 questionários pelas creches e centros de saúde dos diversos municípios, com a indicação de serem preenchidos pela mãe e pelo pai, e com os 1.011 pais (664 mães e 347 pais) que completaram e devolveram os questionários foi formada a amostra. Esses pais participantes eram, predominantemente, portugueses (94,4%), sendo que os restantes eram de outras 12 nacionalidades, mas sabendo ler e escrever português. Tinham idade compreendida entre 17 e 54 anos (m=33,02; dp=4,91), 92,1% eram casados, 87,7% tinham habitação própria, 87,1% estavam empregados, 64,7% deles tinham escolaridade de nível básico ou secundário e 55,5% dos participantes tinham rendimentos familiares mensais entre 1.000 e 2.000 euros, havendo 22,7% com rendimentos inferiores a 1.000 euros.

Instrumento de recolha de informação

Atendendo ao desenho e aos objetivos do estudo, foi construído um questionário, composto por questões que caracterizavam a amostra e por 40 questões que correspondiam aos itens selecionados, para medição das três variáveis do exercício da parentalidade positiva. O mesmo item teve respostas tipo Likert em três colunas diferentes, sendo uma para a autoperceção da confiança dos pais, outra para a autoperceção das dificuldades dos pais e outra para a autoperceção da necessidade de conhecimentos dos pais para o exercício da parentalidade positiva [exemplo: no item "na introdução de novos alimentos", os pais, numa coluna, respondiam de 1 (nada confiante) a 5 (muito confiante), noutra coluna de 1 (nenhuma dificuldade) a 5 (muita dificuldade) e na terceira coluna de 1 (nenhuma necessidade de conhecimentos) a 5 (muita necessidade de conhecimentos)].

Procedimentos formais e éticos na coleta de dados

Na avaliação da aceitabilidade dos itens e do estudo e nos procedimentos na coleta de dados, foram considerados os pressupostos das investigações que envolvem comportamentos humanos e entidades organizativas.

O tipo de estudo não lesava os direitos nem a integridade dos participantes e a sua aceitabilidade ética foi comprovada pelas instituições que serviram de intermediárias ao mesmo. Foi solicitada autorização formal aos diretores dos Agrupamentos dos Centros de Saúde do Distrito de Leiria e aos diretores ou gerentes de creches do mesmo distrito, para aplicação do instrumento de coleta de dados.

Os questionários foram entregues nas creches em envelopes individualizados para serem preenchidos em casa e devolvidos em envelope fechado. Os questionários tinham um texto introdutório, onde eram explicitados os objetivos do estudo e evidenciado que as respostas eram voluntárias, anônimas e confidenciais, mas os resultados seriam utilizados em estudos científicos. O seu livre preenchimento e entrega traduziram o consentimento para participar do estudo.

Nos Centros de Saúde foram agendadas reuniões com o enfermeiro responsável e enfermeiros que exerciam funções na área da saúde infantil, para distribuição dos questionários a serem preenchidos durante o tempo de espera da consulta. Os pais introduziam o questionário (preenchido ou por preencher) numa caixa fechada, disponibilizada para esse efeito.

Tratamento e análise dos dados

Para o estudo das propriedades psicométricas das escalas, foram utilizados os coeficientes de correlação de Pearson entre os itens e o total das dimensões, para a análise de homogeneidade, de convergência e de discriminação dos itens e os coeficientes alfa de Cronbach para a globalidade das dimensões e para os itens para análise da consistência interna, calculando a eliminação de um item de cada vez(14).

Foram eliminados os itens com valores de correlação com o total da escala inferiores a 0,20, e consideraram-se valores apropriados de alfa os superiores a 0,70, porque as dimensões tinham número reduzido de itens(14).

 

Resultados

Itens incluídos nas escalas multidimensionais

Os procedimentos de obtenção de evidências de validade de conteúdo pelos juízes e os demais estudos das propriedades psicométricas motivaram a eliminação de 10 itens, e as três escalas multidimensionais ficaram constituídas pelos seguintes 30 itens e cinco dimensões definidas a partir da teoria e validadas pelos juízes.

Dimensão 1: Necessidades Físicas da Criança, dimensão constituída pelos itens de 1 a 9: 1- nos procedimentos na amamentação, 2- nos procedimentos para aleitamento, 3- lidar com o comportamento da criança na amamentação/aleitamento, 4- avaliar se a amamentação/aleitamento é suficiente para a criança, 5- na introdução de novos alimentos, 6- na preparação das primeiras sopas, 7- judar a criança a estabelecer o seu padrão de sono, 8- dar os primeiros banhos, e 9- cuidar da criança quando tem ou tinha cólicas.

Dimensão 2: Segurança da Criança, constituída pelos itens de 10 a 15: 10- na identificação dos alimentos saudáveis, 11- na preparação de um ambiente seguro (sem perigos) para a criança, 12- na identificação de ambientes nocivos para a criança (exposição ao tabaco, chumbo, mercúrio, toxinas), 13- perceber os sinais de doença na criança, 14- cuidar da criança quando está doente, 15- na compreensão da importância da vigilância de saúde da criança (levar a consultas e vacinas).

Dimensão 3: Desenvolvimento, Comportamento e Estimulação da Criança, constituída pelos itens de 16 a 21: 16 - conhecer as fases do desenvolvimento da criança, 17- saber quais as ações que estimulam a criança, 18 - na escolha de materiais de aprendizagem de acordo com a idade da criança (brinquedos, música, livros), 19- nas atitudes que promovem comportamentos adequados na criança, 20- aproveitar o momento do banho para estimular a criança, 21- aproveitar o momento da alimentação para estimular a criança.

Dimensão 4: Comunicação Positiva com a Criança, constituída pelos itens de 22 a 26: 22 - responder com afeto ao choro da criança, 23- na interpretação dos sinais que a criança utiliza para se comunicar, 24- nos benefícios para a criança de um relacionamento caloroso e de amor, 25- no estabelecimento de atividades que fazem a criança sentir-se especial e importante, 26- nas atitudes que proporcionam comunicação positiva com a criança (simples, clara e estimulante).

Dimensão 5: Disciplina Positiva, constituída pelos itens de 27 a 30: 27 - na compreensão da importância da disciplina para a criança, 28- estabelecer regras apropriadas à idade e ao desenvolvimento da criança, 29- utilizar disciplina positiva (de ensino ou proposta alternativa) em vez de castigos, ameaças e restrições e 30- ser um bom modelo para a criança.

Análise psicométrica das escalas

Fidedignidade

A Tabela 1 apresenta dados estatísticos dos itens incluídos nas escalas, evidenciando a consistência interna, avaliada por meio do coeficiente alfa de Cronbach (α) para as cinco dimensões nas três escalas (autoperceção da confiança dos pais no exercício da parentalidade positiva - ECPPP, autoperceção das dificuldades dos pais no exercício da parentalidade positiva - EDPPP e autoperceção da necessidade de conhecimentos dos pais para o exercício da parentalidade positiva - ENCPPP). Todos os itens, nas cinco dimensões e nas três escalas, apresentaram valores alfa de Cronbach (α) acima de 0,71.

A análise da homogeneidade foi realizada pelos valores das correlações de Pearson dos itens com a dimensão à qual pertencem, excluindo o item. Esses são superiores a 0,46 na ECPPP, superiores a 0,37 na EDPPP e superiores a 0,50 na ENCPPP.

Validade

A Tabela 2 descreve as correlações de Pearson entre as dimensões de cada escala do exercício da parentalidade positiva. Em todas as escalas, esses valores são superiores a 0,45 e significativos (p<0,01), indicando validade convergente entre as dimensões de cada escala e que essas dimensões medem o mesmo constructo.

Na Tabela 3 descrevem-se os resultados que permitem avaliar a validade discriminante dos itens, em que esses têm uma correlação com a dimensão, à qual pertencem, superior em 0,1 à correlação com as dimensões às quais não pertencem. Apenas o item 8 e 9 da escala de ENCPPP têm respetivamente uma diferença de 0,07 e 0,06.

 

Discussão

A importância atribuída à parentalidade positiva e ao reconhecimento da importância do papel dos profissionais no apoio aos pais justificam o objetivo deste estudo que descreveu a construção e obtenção de evidências de algumas propriedades psicométricas de instrumentos para autoavaliação do exercício da parentalidade positiva, nos primeiros três anos da criança. Esse instrumento mede variáveis que são referenciadas como indicativas da necessidade de apoio aos pais e permitem intervenção antecipada e adequada pelos enfermeiros(9-10).

A revisão da literatura e os estudos exploratórios permitiram desenvolver um conjunto de itens, cuja interpretação e pertinência foi avaliada por uma equipe multidisciplinar de peritos e por duas amostras de pais, como recomendado pelos autores(13-14). Após as correções sugeridas, resultaram 40 itens agregados em cinco dimensões comuns em três escalas diferenciadas na parte das respostas, em que os pais autopercebiam a confiança, as dificuldades ou a necessidade de conhecimentos no exercício da parentalidade positiva.

Essas respostas foram colhidas, por meio de um questionário, numa amostra de 1.011 pais de crianças, até três anos e meio de idade, e a análise dos resultados permitiu definir algumas características psicométricas das três escalas multidimensionais.

A eliminação dos itens com coeficientes de correlação com o total de cada dimensão inferiores a 0,20 e com valores de alfa de Cronbach inferiores a 0,70 permitiram obter, em todas as dimensões das escalas, valores de alfa entre 0,769 e 0,896, o que, de acordo com os autores(14), são valores apropriados, pois são referentes a subescalas com poucos itens, e indicam boa consistência interna dos itens e a fidedignidade dos resultados.

Os valores obtidos com as correlações dos itens com a dimensão à qual pertencem, excluindo o item, foram superiores a 0,46 na ECPPP, superiores a 0,39 na EDPPP e superiores a 0,50 na ENCPPP. Isso permitiu referir a homogeneidade dos itens em 100% e a validade convergente dos itens com a dimensão à qual pertencem, pois os valores são superiores a 0,20(14).

Na validade discriminante, a correlação do item com a dimensão à qual pertence deve ser superior em 0,1 às correlações do item com as dimensões às quais não pertence(14), o que se verificou nas diversas dimensões das três escalas, com exceção de dois itens na dimensão necessidades físicas da criança da ENCPPP, em que um item apresentou diferença apenas de 7 pontos e outro de 6 pontos, em relação aos valores dos mesmos na dimensão segurança. Contudo, dada a importância do seu conteúdo conceptual(1-4) e ao fato de corresponderem a atividades em que os pais têm dificuldades(6,8), optou-se por não os eliminar. Foram enquadrados na dimensão onde obtiveram valor mais elevado e, simultaneamente, onde se enquadravam pelo seu conteúdo. Em consequência, garantiu-se que os 30 itens das escalas finais medem as dimensões às quais pertencem.

As três escalas com itens comuns permitiram a medição das três variáveis por meio do preenchimento, apenas, de uma folha de um questionário, e não obrigam os pais a ler itens diferentes para cada escala. O fato de as escalas serem multidimensionais também possibilitou a utilização individual de cada dimensão como uma subescala. Contudo, os valores das correlações entre as dimensões de cada escala superiores a 0,48 (p<0,01) indicam que há validade convergente entre as dimensões e que todas contribuem para medir o mesmo construto(13-14) - o exercício da parentalidade positiva.

Os instrumentos a serem testados numa amostra não probabilística é uma limitação do estudo, pois afeta a generalização dos seus resultados. Também, a ausência de medidas de referência não permitiu efetuar a validade externa do construto. No entanto, o tamanho considerável da amostra e, ainda, por ser constituída por mães e pais atribuem-lhe potencial que deverá ser confirmado através de outros estudos.

 

Conclusão

Foram descritos os procedimentos referentes à construção e validação de três escalas multidimensionais do exercício da parentalidade positiva, de acordo com os passos preconizados pelos autores. As escalas obtidas têm dimensões e itens comuns, boas características psicométricas e designam-se por: Escala de Autoperceção da Confiança dos Pais no Exercício da Parentalidade Positiva (ECPPP), Escala de Autoperceção das Dificuldades dos Pais no Exercício da Parentalidade Positiva (EDPPP) e Escala de Autoperceção da Necessidade de Conhecimentos dos Pais para o Exercício da Parentalidade Positiva (ENCPPP). A utilização dessas escalas contribuirá para a melhoria da prática clínica, baseada nas necessidades dos pais e direcionada para a promoção da saúde da criança. Elas permitem diagnosticar as necessidades de apoio aos pais e direcionar e antecipar as intervenções de enfermagem. São, ainda, instrumentos de medida para avaliar o efeito dessas intervenções e de outros estudos de investigação nessa área sensível aos cuidados de enfermagem.

 

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Endereço para correspondência:
Maria da Saudade de Oliveira Custódio Lopes
Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria
Campus 2 - Morro do Lena - Alto do Vieiro
2411-901, Leiria, Portugal
E-mail: saudade.lopes@ipleiria.pt

Recebido: 10.1.2012
Aprovado: 3.8.2012

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