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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.24  Ribeirão Preto  2016  Epub Nov 21, 2016

https://doi.org/10.1590/1518-8345.1439.2820 

Artigos Originais

Diagnóstico de conformidade do processamento de produtos para saúde na Atenção Primária à Saúde1

Camila Eugenia Roseira2 

Darlyani Mariano da Silva3 

Isis Pienta Batista Dias Passos4 

Fabiana Souza Orlandi5 

Maria Clara Padoveze6 

Rosely Moralez de Figueiredo7 

2MSc, Professora da Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza. São Carlos, SP, Brasil.

3Aluna do curso de graduação em Enfermagem, Departamento de Enfermagem, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil.

4Doutoranda, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil.

5PhD, Professor Adjunto, Departamento de Gerontologia, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil.

6PhD, Professor Doutor, Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

7PhD, Professor Associado, Departamento de Enfermagem, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil.


RESUMO

Objetivo:

identificar a conformidade do processamento de produtos para saúde na Atenção Primária à Saúde e avaliar possível diferença na conformidade entre as unidades caracterizadas como Unidade Básica de Saúde e Unidade Saúde da Família.

Método:

estudo quantitativo, observacional, descritivo e inferencial, com a aplicação de indicadores de estrutura, processo e resultado referentes ao processamento de produtos para a saúde em dez unidades, de um município do interior de São Paulo - Brasil.

Resultados:

todos os indicadores obtiveram índice de conformidade inferior ao ideal. Não houve diferença estatisticamente significante nos indicadores entre os dois tipos de unidades investigadas, sendo o indicador de limpeza de produtos para saúde o de menor índice de conformidade, enquanto indicador de recursos técnico-operacionais para preparo, acondicionamento, desinfecção/esterilização, guarda e distribuição de produtos para saúde, o de melhor índice.

Conclusão:

o diagnóstico de conformidade do processamento de produtos para saúde nas unidades avaliadas indica comprometimento da qualidade do processo, uma vez que não foram obtidos resultados próximos ao valor ideal em nenhuma unidade. Além disso, não houve diferença estatisticamente significante desses indicadores entre os dois tipos de unidades estudadas.

Descritores: Atenção Primária à Saúde; Esterilização; Indicadores de Serviços; Enfermagem; Avaliação de Processos (Cuidados de Saúde)

ABSTRACT

Objective:

identify the compliance of health care product processing in Primary Health Care and assess possible differences in the compliance among the services characterized as Primary Health Care Service and Family Health Service.

Method:

quantitative, observational, descriptive and inferential study with the application of structure, process and outcome indicators of the health care product processing at ten services in an interior city of the State of São Paulo - Brazil.

Results:

for all indicators, the compliance indices were inferior to the ideal levels. No statistically significant difference was found in the indicators between the two types of services investigated. The health care product cleaning indicators obtained the lowest compliance index, while the indicator technical-operational resources for the preparation, conditioning, disinfection/sterilization, storage and distribution of health care products obtained the best index.

Conclusion:

the diagnosis of compliance of health care product processing at the services assessed indicates that the quality of the process is jeopardized, as no results close to ideal levels were obtained at any service. In addition, no statistically significant difference in these indicators was found between the two types of services studied.

Descriptors: Primary Health Care; Sterilization; Indicators of Health Services; Nursing; Process Assessment (Health Care)

RESUMEN

Objetivo:

identificar la conformidad del procesamiento de productos para la salud en la Atención Primaria a la Salud y evaluar una posible diferencia en la conformidad entre las unidades caracterizadas: Unidad Básica de Salud y Unidad Salud de la Familia.

Método:

estudio cuantitativo, observacional, descriptivo e inferencial; se aplicaron indicadores de estructura, proceso y resultado, referentes al procesamiento de productos para la salud en diez unidades de un municipio del interior de Sao Paulo, Brasil.

Resultados:

todos los indicadores obtuvieron índice de conformidad inferior a lo ideal. No hubo diferencia estadísticamente significativa de los indicadores entre los dos tipos de unidades investigadas, siendo el indicador de limpieza de productos para la salud el de menor índice de conformidad; por otro lado, como indicador de recursos técnico-operacionales para preparación, acondicionamiento, desinfección/esterilización, almacenamiento y distribución de productos para la salud, fue el de mejor índice.

Conclusión:

el diagnóstico de conformidad del procesamiento de productos para la salud en las unidades evaluadas indica que está comprometida la calidad del proceso, ya que no fueron obtenidos resultados próximos al valor ideal en ninguna unidad. Además de eso, no hubo diferencia estadísticamente significativa de esos indicadores entre los dos tipos de unidades estudiadas.

Descriptores: Atención Primaria de Salud; Esterilización; Indicadores de Servicios; Evaluación de Proceso (Atención de Salud)

Introdução

Produtos para saúde fabricados a partir de matérias-primas que permitam ciclos repetidos de limpeza, preparo, desinfecção ou esterilização podem ser processados até a perda de sua funcionalidade. Este processo deve ser executado por profissionais qualificados e incluir testes de funcionalidade e de qualidade, garantindo a prevenção da transmissão de microrganismos por este meio1.

A prática do processamento de produtos para saúde é regida por políticas reguladoras que baseiam-se no gerenciamento de risco e na segurança da saúde pública2-3. Entretanto, tais recomendações diferem entre os países sendo estas mais ou menos restritivas, considerando questões de natureza técnico-operacional, econômica, ambiental, jurídica e política2. No Brasil este tema é regulamentado pela RDC Nº 15, resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA1.

Estudos que abordam o processamento de produtos para saúde identificaram que a qualidade deste procedimento pode interferir na segurança do paciente, visto que esta pode ser realizada de forma ineficaz, seja em ambiente intra ou extra-hospitalar4-5, demonstrando surtos de infecção associados ao uso de produtos para saúde, envolvendo distintos microrganismos em diferentes cenários de atenção à saúde2,6.

Considerando-se a ampliação e diversificação da assistência extra-hospitalar, incluindo a Atenção Primária à Saúde (APS), torna-se necessário aprofundar o conhecimento sobre processamento de produtos para a saúde neste cenário de atenção.

Estudo realizado em unidades de saúde rural no Nepal descreve que 72% dos profissionais de saúde entrevistados relataram utilizar equipamentos não processados e 50% não possuíam autoclaves adequadas nas suas unidades, ilustrando a necessidade de aprimoramento das práticas de controle de infecção na APS7.

Ações realizadas na APS e disponibilização de produtos para a saúde, de uso único ou processáveis, variam conforme o nível de desenvolvimento econômico do país, dificultando a elaboração de recomendações gerais sobre processamento destes.

No que refere-se às normativas brasileiras, as recomendações são pouco específicas para a APS, com exceção da classificação dos Centros de Material Esterilizado (CME), os quais neste caso podem ser classificados como CME classe I3. Analisar dados sobre a situação do processamento de produtos para saúde na APS brasileira, de forma padronizada, é sem dúvida de grande relevância para a ampliação do conhecimento sobre o tema, direcionar políticas educacionais e fiscalizatórias, além de servir como referência para países em nível de desenvolvimento semelhante.

Outro aspecto a ser considerado nesse estudo é uma possível diferença na qualidade do processamento de produtos a depender do tipo de unidade analisada. No Brasil, Unidades Básica de Saúde com o modelo tradicional (UBS) e Unidades com o modelo da Estratégia de Saúde da Família (USF) compõem a APS8.

Ambas possuem peculiaridades tanto relacionadas a recursos humanos quanto estruturais. Estudos que analisam tais unidades9-10 sugerem que, no quesito funcionalidade, as USF são melhor avaliadas, entretanto, possuem prejuízos no quesito infraestrutura.

O presente estudo objetivou identificar a conformidade do processamento de produtos para saúde em uma amostra de unidades da APS, utilizando instrumento específico validado3, e avaliar possíveis diferenças nos índices de conformidade observados entre as unidades caracterizadas como UBS e USF.

Método

Estudo quantitativo, de caráter observacional, descritivo e inferencial, objetivando identificar o índice de conformidade (IC) do processamento de produtos para saúde em dez unidades da APS de cidade do interior de São Paulo.

O município em questão possui 221.950 habitantes11 contando, ao total, com 29 unidades de saúde na APS, sendo 15 USF e 14 UBS, distribuídas em cinco Administrações Regionais de Saúde (ARES), que coordenam as unidades de sua abrangência.

Utilizou-se amostragem por conveniência (através do software Microsoft Excel(r) 2010, aleatoriamente) para a definição do número de unidades, de forma a ter dois representantes (uma USF e uma UBS) de cada uma das cinco regionais de saúde do município, tendo ao final uma amostra de dez unidades de saúde (34,5% do total de unidades da APS do município).

Os dados foram coletados no período de 22 de janeiro a 23 de julho de 2013, por uma das autoras utilizando instrumento previamente validado3 para a avaliação da prática de processamento de produtos na APS. O instrumento3 avalia estrutura, processo e resultado e está organizado por indicadores nestas três dimensões.

A avaliação, partindo destas três dimensões, foi pautada no modelo de Donabedian, amplamente utilizado na área da saúde, no tocante à avaliação da qualidade de serviços a partir de indicadores de saúde, em diversos contextos12-14.

Como indicadores avaliando a estrutura, foram utilizados o indicador de avaliação dos recursos técnico-operacionais para limpeza de produtos para saúde (L.1), com 22 itens, e o indicador de avaliação dos recursos técnico-operacionais para preparo, acondicionamento, desinfecção/esterilização, guarda e distribuição de produtos para saúde (PE.5), com 21 itens. Para avaliação do processo, foram utilizados o indicador de avaliação do processo de limpeza de produtos para saúde (L.2), com 13 itens, e o indicador de avaliação do processo de preparo, acondicionamento, desinfecção/esterilização, guarda e distribuição de produtos para saúde (PE.6), com 36 itens. Já para a dimensão resultados foi utilizado o indicador de avaliação da conservação de embalagens de produtos para saúde esterilizados (PE.9).

Cada indicador possui vários componentes cujas informações podem ser obtidas por inspeção, registro ou entrevista com o responsável, conforme a sua pertinência segundo instruções do indicador.

O índice de conformidade de cada indicador é obtido pelo cálculo do número de componentes em conformidade/componentes avaliados, dividido pelo total de componentes, expressa em porcentagem, cujo valor ideal é 100%.

Para PE. 9, o índice de conformidade é obtido pelo número de embalagens de produtos para saúde esterilizados com problemas de conservação dividido pelo total de embalagens, expressa em porcentagem, sendo o índice de conformidade ideal igual a 0%.

Alguns componentes demandaram a inspeção de uma amostra de artigos processados. Para o cálculo dessa amostragem, utilizou-se o software OpenEpi(r), totalizando 384 itens. Para tanto, 38 itens deveriam ser observados em cada uma das 10 unidades de saúde estudadas. Contudo, devido à variação na frequência da utilização de produtos nas unidades de saúde, não foi possível contemplar este número em todas as situações, conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1 Amostragem de produtos para saúde analisada para avaliação do índice de conformidade da qualidade do processamento de produtos para saúde, segundo as etapas de processamento e tipo de serviço. São Carlos, SP, Brasil, 2013 

Etapa do processamento de produtos para saúde UBS* USF Total
Pré-Limpeza 202 200 402
Produtos pré-desinfecção 199 209 408
Imersão de produtos para saúde em solução desinfetante 305 252 557
Enxágue de produtos para saúde após desinfecção 264 210 474
Secagem e armazenamento de produtos para saúde desinfetados 293 275 559
Produtos para saúde pré-esterilização por calor úmido 249 185 418
Integridade da embalagem de produtos para saúde armazenados 237 215 452

*Unidade Básica de Saúde

Unidade Saúde da Família

Os dados foram analisados por meio do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS(r)) versão 22.0. A análise descritiva foi desenvolvida segundo o tipo de unidade (UBS/UFS). O teste de Mann-Whitney foi aplicado para comparar os indicadores de qualidade nas dimensões de estrutura, processo e resultado entre as UBSs e USFs, considerando-se significância de 5% (p-valor ≤ 0,05).

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos, Parecer n° 112.528. Para a aplicação dos indicadores que requeriam entrevista, a pessoa responsável pela prática no CME em cada unidade foi convidada a participar do estudo, mediante explanação do objetivo do mesmo e assinatura do termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Todos os profissionais convidados concordaram em participar do estudo.

Resultados

No período observado o processamento nas unidades estudadas foi realizado por 46 profissionais nas UBS (21,7% auxiliares de saúde bucal e 78,3% auxiliares ou técnicos de enfermagem) e 18 profissionais nas USF (33,3% auxiliares de saúde bucal e 66,7% auxiliares ou técnicos de enfermagem).

Os resultados referentes ao IC dos indicadores avaliados estão apresentados na Tabela 2. Nesta, podem ser observadas, comparativamente, como os indicadores de estrutura L.1 e PE.5, de processo (L.2 e PE.6) e de resultado, PE.9 configuraram-se nos contextos da APS, a partir do índice de conformidade de cada um deles.

Tabela 2 Análise descritiva e p-valor dos índices de conformidade segundo as categorias de estrutura, processo e resultados de processamento de produtos para a saúde e o tipo de unidade (UBS e USF). São Carlos, SP, Brasil, 2013 

* Indicador de recursos técnico e operacionais para limpeza de produtos para saúde

Unidade Básica de Saúde

Unidade Saúde da Família

§ Indicador de processo de limpeza de produtos para saúde

|| Indicador de recursos técnico e operacionais para preparo, acondicionamento, desinfecção, esterilização, guarda e distribuição de produtos para saúde

Indicador de processo para preparo, acondicionamento, desinfecção, esterilização, guarda e distribuição de produtos para saúde

**Indicador de resultado para conservação de embalagens de produtos para saúde esterilizados

No que concerne aos indicadores de estrutura, L.1 e PE.5, acrescenta-se que a maioria das unidades de saúde (60% das UBS e 80% das USF) não possuía uma sala para uso exclusivo como expurgo ou preparo, acondicionamento, desinfecção, esterilização, guarda e distribuição de produtos para saúde (40% para UBS e 80% para USF). O conceito de barreira técnica foi observado como sendo aplicado em três UBS e duas USF.

Com relação à L.1, quanto aos recursos materiais disponíveis na sala de expurgo, observou-se que 40% das UBS e 80% das USF dispunham de recipiente adequado para descarte de perfurocortantes; 40% das UBS e 20% das USF contavam com cubas fundas para a limpeza dos produtos e 20% das UBS possuíam escova com cerdas macias para tal, dispositivo não encontrado nas USF. Destaca-se que nos demais locais foram encontradas esponjas de aço ou escovas dentais para esta etapa do processamento. Não foram encontrados equipamentos de proteção individual (EPI), como máscaras, aventais impermeáveis e óculos, em 100% das unidades estudadas.

Durante a avaliação em 100% das unidades não estavam disponíveis normas e rotinas de limpeza de produtos, não atendendo plenamente a L.1. Quanto ao indicador PE.5, as normas de preparo, acondicionamento, desinfecção/esterilização, guarda e distribuição de produtos para saúde estavam presentes em 40% das UBS, entretanto, desatualizadas.

Estavam indisponíveis nos serviços de saúde estudados: dispositivos de secagem forçada, documentos de validação das autoclaves a vapor, laudos sobre a qualidade da água para as autoclaves (PE.5) ou documentação da manutenção preventiva dos equipamentos de esterilização e registros da eficácia do processo de esterilização por meio de testes químicos, físicos ou biológicos, sendo que, em todas as unidades, produtos para saúde esterilizados são monitorizados com fita indicadora de processo, contudo, não há controle da esterilização por autoclaves através de indicadores biológicos (PE.6).

Pias para a higiene de mãos na sala de preparo, acondicionamento, desinfecção/esterilização, guarda e distribuição de produtos para saúde preconizado pelo indicador PE.5, foram encontradas em 40% das unidades.

Quanto ao avaliado pelo indicador L.2, em todas as unidades, a limpeza era realizada manualmente e com detergentes enzimáticos, não havendo padronização na diluição, tempo de imersão ou troca do produto em uso. Os profissionais relataram que no último ano não foi realizado nenhum tipo de treinamento ou ação educativa sobre essa etapa do processamento e que os mesmos não participaram da definição das substâncias a serem compradas.

Assim como constatado pelo indicador PE.6, nas salas de preparo, acondicionamento, desinfecção/esterilização, guarda e distribuição de produtos para saúde não foram encontradas lentes de aumento para a inspeção da limpeza dos produtos, registros referentes à esterilização/desinfecção e embalagem adequada para o empacotamento dos produtos para saúde.

O mesmo indicador supracitado permitiu a averiguação de que o hipoclorito de sódio era o produto utilizado para a desinfecção de material de nebulização. Entretanto, sua concentração não era padronizada, sendo encontrados valores que variavam de 0,001% a 1% nas diferentes unidades estudadas. Quanto à secagem prévia dos itens a serem imersos para desinfecção, em duas USF esse procedimento era realizado; uma UBS e duas USF realizavam a imersão total dos produtos na solução desinfetante.

Verificou-se, a partir de PE.6, a utilização do calor úmido como método de esterilização em 100% das unidades, sendo as autoclaves gravitacionais e com menos de 100 litros de capacidade. Observou-se que 60% das UBS e nenhuma USF acomodavam os itens a serem esterilizados na autoclave, verticalmente e com folga entre os pacotes. Excetuando-se uma UBS, nos demais serviços de saúde esperava-se a secagem e o resfriamento dos produtos esterilizados antes de retirá-los das autoclaves.

De acordo com os dados obtidos a partir da aplicação de PE.6, verificou-se que não foram encontrados locais adequados para o armazenamento dos produtos, segundo recomendações vigentes, o que pode prejudicar a manutenção da esterilidade dos mesmos.

Quanto à conservação de embalagens de produtos para saúde esterilizados (indicador PE.9), foram inspecionados 462 pacotes embalados com papel kraft. Apesar de se tratar de invólucro não recomendado1 optou-se por observar o estado de conservação da embalagem. Constatou-se que 28 pacotes estavam manchados, 17 rompidos, 11 sujos, seis abertos, quatro com as fitas que os mantinham fechados descoladas, dois manchados e rompidos.

Com base na análise do p-valor, não foi observada diferença estatisticamente significante entre os tipos de unidade de saúde em nenhum dos indicadores utilizados. De forma geral a análise de estrutura, (IC< 50%), demonstrou estar mais próximo do IC adequado, quando comparada ao indicador de processo L.2 que obtiveram IC < 20%.

Discussão

A estrutura dos serviços para o processamento de produtos para saúde

Os profissionais que realizam o processamento de produtos para saúde nas unidades estudadas, possuíam perfis semelhantes ao encontrado na literatura, que aponta a equipe de enfermagem (auxiliares e técnicos de enfermagem) como principal responsável por esta prática, seguidos pelo auxiliar de odontologia, na APS4.

Quanto à estrutura física, não foi encontrada diferença estatisticamente significante no IC entre UBS e USF (p-valor igual à 0,3 e 0,9 para L.1 e PE.5, respectivamente), e, as médias de IC foram abaixo de 50% para ambos indicadores de estrutura aplicados. Contrariando a diferença esperada, considerando estudos que avaliaram a estrutura de unidades de saúde pertencentes à APS e identificaram que as USF possuíam maiores problemas relacionados à estrutura física, uma vez que estas unidades são frequentemente adaptações domiciliares9,15.

Estruturalmente, segundo legislação vigente3, CME da APS podem ser classificadas como CME classe I, com isso, não há necessidade de separação física entre as áreas limpa e suja do CME, devendo ser estabelecido o uso da barreira técnica para impedir o contato entre os produtos para saúde das diferentes áreas. Entendendo-se como barreira técnica medidas comportamentais dos profissionais de saúde para prevenir contaminação cruzada entre ambas as áreas1. A aplicação desse conceito não foi identificada na maioria das unidades estudadas, cujo fluxo de produtos para saúde não respeitava fluxo unidirecional.

Assim como observado neste trabalho, estudo realizado em quatro CMEs em hospitais de Salvador - BA não encontrou, no local, recursos para a higienização das mãos2, o que influencia na prevenção de recontaminação dos produtos já processados16, ao coletá-los da autoclave antes do armazenamento.

Conformidade do processamento de produtos para saúde enquanto processo

Partindo de que a limpeza de produtos em todas as unidades participantes da pesquisa era realizada manualmente, observou-se o uso de esponjas de aço para esta prática, o que não condiz com normativas vigentes no país1. O indicador relacionado à limpeza obteve o menor IC (tabela 2), o que pode comprometer profundamente a qualidade final do processo17.

Quanto aos insumos utilizados para a limpeza observou-se o uso inadequado de detergentes enzimáticos. A diversidade de produtos dessa natureza existentes no mercado e às diferentes orientações de uso, podem justificar dificuldades no treinamento de profissionais na área17.

Quanto às soluções utilizadas para a desinfecção química, observou-se o uso de hipoclorito de sódio, substância sumariamente utilizada para desinfecção de produtos de nebulização na APS no Brasil5,18.

Questões de concentração e tempo de imersão estão ligadas tanto à qualidade da desinfecção e integridade dos produtos, como à presença de resíduos tóxicos no produto que sofreu a desinfecção, particularmente material inalatório3. A Associação Brasileira de Enfermeiros de Centro Cirúrgico, Recuperação Anestésica e Centro de Material e Esterilização recomenda que esta deve ser 10.000ppm (1%), com tempo de imersão dos produtos por 30 minutos de exposição ou 200 ppm (0,02%) para 60 minutos de exposição18.

Além da concentração, outro aspecto relacionado à desinfecção de produtos para saúde que deve ser observado é a imersão completa do mesmo, de forma que toda a superfície e todos os canais destes devem entrar em contato com a solução, e, posteriormente a isso, eles devem ser cuidadosamente enxaguados, removendo todas as toxinas e resíduos irritantes16.

Destaca-se que resultados semelhantes foram encontrados em estudo realizado em UBS de São Luís (MA), em que não eram realizadas limpezas prévias dos nebulizadores antes da desinfecção (89,90% das unidades) e uso predominante de hipoclorito de sódio como solução desinfetante (78,50%)18.

Segundo legislação vigente as autoclaves gravitacionais são permitidas quando sua capacidade é inferior a 100 l, situação encontrada no cenário deste estudo. Entretanto essa mesma legislação é descumprida pela ausência de laudos comprobatórios da qualidade da água e registro de manutenção preventiva das autoclaves1.

Quanto à disposição inadequada dos produtos no interior das autoclaves e a não espera do tempo de resfriamento, a prática compromete a circulação do vapor e pacotes mornos ou quentes não devem ser colocados em superfícies com temperatura inferior a sua, uma vez que isso pode gerar umidade tanto dentro quanto fora dos pacotes, comprometendo as propriedades de barreira de proteção da embalagem16.

Contudo, um trabalho experimental que objetivava identificar a manutenção de esterilidade de produtos para saúde quando havia presença de umidade por vapor, mostrou que, mediante condições adequadas de acondicionamento e armazenamento, não houve contaminação no interior das caixas esterilizadas após a retirada das mesmas ainda não resfriadas e armazenadas por 30 dias19. Entretanto, isso não pode ser extrapolado para outros tipos de embalagens e nem quando manipuladas de forma inadequada, por exemplo, sem higienizar as mãos.

Não houve utilização de indicadores biológicos na frequência preconizada pelos instrumentos de avaliação utilizados e o uso de indicadores químicos foram os mais utilizado, semelhante a um estudo realizado em cidades de Goiás, que em 83,8% destes, o indicador químico era o teste mais utilizado20, este cenário compromete a confiança com que a esterilização está ocorrendo a partir das autoclaves disponíveis para o processamento de produtos para saúde, nestes locais.

Conservação de embalagem de produtos esterilizados

Para o armazenamento dos produtos processados é consenso que este deve garantir minimamente a integridade da embalagem, evitando que esta se rasgue, suje ou molhe, o que não foi encontrado no presente estudo. Situações mais controladas como umidade do ar, temperatura e locais específicos para armazenamento (como armários ou caixas plásticas) parecem não interferir na manutenção da esterilidade dos mesmos21-22.

O uso de papel Kraft, apesar de inadequada, ainda é uma realidade na APS4, assim como, também, constatado no presente estudo.

Embora o estudo tenha limitações como não permitir relacionar causa e efeito entre os achados ou generalizar os resultados, este é de extrema relevância, pois apresenta dados mensuráveis e padronizados.

Conclusão

O diagnóstico de conformidade do processamento de produtos para saúde nas unidades avaliadas indica comprometimento da qualidade do processo, uma vez que não foi obtido IC próximo ao valor ideal em nenhuma unidade. Além disso, não houve diferença estatisticamente significante nos indicadores de qualidade de estrutura, processo e resultado entre as UBSs e USFs investigadas, contrariando a hipótese inicial de pesquisa.

Indicadores de limpeza obtiveram piores IC, tanto para estrutura quanto para processo (L.1 < 40% L.2 IC 20%, respectivamente), o que sem dúvida é preocupante por comprometer seriamente as etapas subsequentes.

Este estudo agrega informações sistematizadas importantes sobre o panorama do processamento de produtos na APS, contribuindo para a ampliação do conhecimento sobre um dos pilares do controle de infecção relacionada à assistência à saúde neste ambiente.

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1Artigo extraído da dissertação de mestrado "Diagnóstico de conformidade do processamento de produtos para saúde: análise de indicadores de qualidade na atenção básica", apresentada à Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil. Apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Brasil.

Recebido: 13 de Janeiro de 2016; Aceito: 21 de Julho de 2016

Correspondência: Rosely Moralez de Figueiredo Universidade Federal de São Carlos. Centro de Ciências Biológicas e da Saúde Rod. Washington Luiz, km 235 Bairro: Monjolinho CEP: 13565-905, São Carlos, SP, Brasil E-mail: rosely@ufscar.br

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