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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-1169versão On-line ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.25  Ribeirão Preto  2017  Epub 20-Abr-2017

http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.1551.2862 

Artigo Original

Avaliação do risco e incidência de quedas em pacientes adultos hospitalizados

Thiana Sebben Pasa2 

Tânia Solange Bosi De Souza Magnago3 

Janete De Souza Urbanetto4 

Mari Angela Meneghetti Baratto2 

Bruna Xavier Morais5 

Jéssica Baldissera Carollo6 

2MSc, Enfermeira, Hospital Universitário de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil

3PhD, Professor Adjunto, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil

4PhD, Professor Adjunto, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil

5Mestranda, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil

6 Mestranda, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil. Enfermeira, Hospital Universitário de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil

Resumo

Objetivos:

avaliar o risco para quedas de pacientes adultos hospitalizados e verificar a incidência do evento nesse ambiente.

Método:

estudo de coorte, aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa, que acompanhou 831 pacientes internados em um hospital universitário. Utilizou-se a Morse Fall Scale (MFS) para avaliar o risco e considerou-se exposto às quedas o paciente com risco elevado (≥45 pontos).

Resultados:

a média da pontuação da MFS foi de 39,4 (±19,4) pontos. Entre a primeira e a última avaliação, existiu um aumento de 4,6% na pontuação. O escore da primeira avaliação apresentou uma correlação positiva forte com o da última avaliação (r=0,810; p=0,000).

Conclusão:

quanto maior a pontuação de risco para quedas na admissão do paciente, maior ao final do período de internação e vice-versa. A taxa de incidência foi de 1,68% com maior percentual de pacientes classificados com risco elevado para quedas.

Descritores: Enfermagem; Acidentes por Quedas; Segurança do Paciente; Escalas; Hospitalização; Incidência

Introdução

Queda é o evento em que o indivíduo cai no chão ou se desloca a níveis inferiores a posição inicial, excluindo mudanças intencionais1. Esse incidente em pacientes hospitalizados está entre os principais eventos adversos a serem prevenidos nas instituições1.

Estudos apontam as quedas como um evento de alta incidência no ambiente hospitalar, com percentuais que variam de 1,1% a 22%, conforme a especificidade do paciente2-3. Este incidente está diretamente relacionado à segurança do paciente e pode aumentar os dias de internação e interferir na recuperação do indivíduo4. Quedas podem ser influenciadas por múltiplos fatores e acarretar consequências ao paciente como: danos, prolongamento do período de internação e aumento dos custos assistenciais5.

A avaliação do paciente e a identificação das características que podem aumentar a probabilidade de quedas torna-se fundamental para o planejamento de estratégias de prevenção efetivas6. Assim, utilizar-se de ferramentas específicas na identificação de indivíduos com maior suscetibilidade de cair pode ser uma aliada na prevenção do incidente.

Existem pesquisas relacionadas a quedas em diferentes cenários7-9. Entretanto, no Brasil, existe uma lacuna relacionada a estudos que investiguem a incidência desse evento no ambiente hospitalar, bem como da avaliação do risco por meio de instrumentos validados. Neste estudo, optou-se pela utilização da Morse Fall Scale por ser uma escala mundialmente utilizada, que permite efetivamente identificar o risco de quedas em adultos hospitalizados. Também, por ser traduzida e adaptada transculturalmente para a língua portuguesa10. Neste contexto, objetivou-se avaliar o risco para quedas de pacientes adultos hospitalizados e verificar a incidência do evento nesse ambiente.

Método

Estudo de coorte, realizado nas unidades de Clínica Cirúrgica e Clínicas Médica I e II de um hospital universitário, situado no interior do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. O estudo foi desenvolvido entre os meses de março a julho de 2013 e incluiu todos os pacientes internados nas unidades propostas; maiores de 18 anos e que aceitaram participar da pesquisa. O tempo de início de coleta foi idealizado para até 24 horas de internação. No entanto, para minimizar as perdas, foi ampliado para até 48 horas. Não foram estabelecidos critérios de exclusão.

A coleta de dados teve início após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria - CEP/UFSM, sob o parecer número: 206.995, de 25 de fevereiro de 2013. Os pacientes foram incluídos após assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, por ele ou por seu acompanhante.

Para a coleta foram avaliados dados do prontuário: idade, sexo, data de internação e alta, diagnósticos médicos e registro de ocorrência de quedas. Também, foi realizada avaliação do paciente quanto a: força muscular em membros superiores e inferiores11, escore da Morse Fall Scale (MFS)10 e ocorrência de quedas. Ressalta-se que o paciente foi acompanhado durante todos os dias de internação e que os dados foram coletados diariamente, por coletadores capacitados previamente pela pesquisadora.

Os dados foram organizados no Excel (r) , versão 2010, com dupla digitação independente. Após a verificação de erros e inconsistências, a análise ocorreu no software Predictive Analytics SoftWare (PASW, SPSS, USA, 2011) versão 18.0 for Windows.

A análise estatística descritiva dos resultados foi realizada por meio das frequências absolutas e relativas, para as variáveis categóricas; e da média, desvio padrão e mediana para as variáveis contínuas, de acordo com a simetria dos dados. A distribuição de normalidade das variáveis contínuas foi investigada pelo Teste Kolmogorov-Smirnov. Para a comparação entre dois grupos independentes das variáveis contínuas foram utilizados os testes t-Student (distribuição simétrica) e teste de Mann Whitney (distribuição assimétrica); e nas comparações das variáveis categóricas os testes Qui-Quadrado de Pearson ou Exato de Fisher. Para investigar a relação de linearidade entre as pontuações da MFS na primeira e na última avaliação foi realizada a Correlação de Pearson. Para critérios de decisão estatística, em todas as comparações, foi adotado o nível de significância (α) de 5%.

A taxa de incidência (TI) foi calculada como a razão entre o número de casos novos de quedas, e o total de pessoa-tempo gerado a partir do total de pacientes acompanhados, de acordo com a equação12: TI (t0 - t) = I / PT, onde (t0 - t) refere-se ao intervalo entre a origem t0 de tempo e o instante t; I representa o número de casos novos que surgiram entre t0 e t; e PT representa a quantidade de pessoa-tempo acumulada pela população, durante o estudo.

A diminuição da força muscular pode ser um fator predisponente à queda e não está incluída na MFS. Dessa forma, a avaliação da força muscular de cada membro superior e inferior foi realizada por meio do teste de Rossi e Mistrorigo11, que pontua de zero a cinco. Quanto maior a pontuação, maior é a força muscular que o paciente possui. Para as análises, a avaliação dos membros foi agrupada em membros superiores e inferiores e a pontuação foi dicotomizada em reduzida (0 a 4 pontos) e preservada (5 pontos).

A MFS possui seis itens com pontuações diferentes entre eles, que é conferida a cada paciente, podendo variar entre 0 e 125 pontos. O paciente classificado entre 0 e 24 pontos possui baixo risco de cair durante a hospitalização; o que está classificado entre 25 e 44 pontos possui moderado risco de queda; e os pacientes com 45 pontos ou mais possuem elevado risco de queda10. Considerou-se exposto ao evento queda o paciente classificado com alto risco (MFS com pontuação de 45 ou mais). Os pacientes de baixo e moderado risco (MFS entre zero e 44) foram considerados não expostos ao evento.

Resultados

Dos 864 pacientes internados nas unidades pesquisadas, no período de 11 de março a 11 de julho de 2013, e que preencheram os critérios de inclusão, 831 foram acompanhados diariamente para avaliação do risco e ocorrência de quedas. As perdas (N=33; 3,8%) ocorreram por recusa à participação.

Neste estudo, predominaram pacientes do sexo masculino (N=500; 60,2%), na faixa etária de 67 a 92 anos (N=284; 34,2%), com média de idade de 58,1 (±16,1) anos. A média de tempo de internação foi de 7,7 dias (±9,2), mediana 4 dias. A média de dias de acompanhamento foi de 5,4(±5,2), com mediana de 4 (mínimo 1 e máximo 27 dias).

Na Tabela 1 está exposta a estatística descritiva para a pontuação da Morse Fall Scale (MFS), conforme o tempo de internação.

Tabela 1 Estatísticas descritivas para pontuação da Morse Fall Scale, conforme tempo de internação. Santa Maria, RS, Brasil, 2013 (N=831)  

Morse Fall Scale (MFS) N Pontuação Mínima Pontuação Máxima Média Desvio Padrão
Média Geral* 831 0 110,0 39,4 19,4
Desvio Padrão 661 0 33,44 5,3 6,4
Coeficiente de Variabilidade 649 0 0,185 0,177 0,296

*Referente a 122 dias de acompanhamento.

A pontuação média dos pacientes foi de 39,4 pontos, com pontuação mínima de 0 e máxima de 110. O desvio padrão da MFS, ou seja, a variabilidade interna para um mesmo paciente durante o período, ficou em torno de 5,3 pontos, bem abaixo do mínimo de 15 pontos registrado no escore MFS. Isso indica homogeneidade no escore durante a internação.

O Coeficiente de Variabilidade da MFS é similar ao seu desvio padrão, mas é relativo à média do próprio paciente. Assim, pode-se dizer que um mesmo paciente apresentou, em média, variação de 18,5% na pontuação durante o período avaliado. Destaca-se que um total de 337 pacientes apresentou variação nula no escore MFS durante o período (um dia de avaliação ou pontuação da MFS igual a zero).

Na Tabela 2 está descrita a distribuição dos pacientes de acordo com os itens da MFS.

Tabela 2 Distribuição dos pacientes de acordo com os itens da Morse Fall Scale (MFS), no período de acompanhamento (11/03 a 11/07). Santa Maria, RS, Brasil, 2013 

Item Morse Fall Scale (MFS) N %
Histórico de quedas
Sim 203 24,4
Não 628 75,6
Diagnóstico Secundário
Não possui mais de um diagnóstico médico 325 39,1
Possui mais de um diagnóstico médico 506 60,9
Uso de dispositivo intravenoso
Sim 771 92,8
Não 60 7,2
Auxílio na Deambulação
Não utiliza; Totalmente Acamado; Auxiliado por Profissional da Saúde 710 85,4
Usa Muletas/Bengala/Andador 53 6,4
Segura-se no Mobiliário/Parede 68 8,2
Marcha
Normal; Não deambula/ Totalmente Acamado/ Usa Cadeira de Rodas 411 49,5
Fraca 258 31,0
Comprometida/Cambaleante 162 19,5
Estado Mental
Orientado quanto à sua capacidade/limitação 760 91,5
Superestima capacidade/ Esquece limitações 71 8,5

No histórico de quedas, 24,4% (N=203) dos pacientes apresentaram pontuação diferente de zero (25 pontos) para pelo menos um dos dias de investigação, enquanto que 75,6% (N=628) apresentaram pontuação zero para todos os dias de investigação. Para o diagnóstico secundário, 39,1% (N=325) dos pacientes não apresentaram mais de um diagnóstico médico nos 30 dias de investigação. Os demais investigados (N=506; 60,9%) apresentaram pontuação igual a 15 pontos, ou seja, mais de um diagnóstico médico.

Em relação ao uso de dispositivo intravenoso, os resultados apontaram que 92,8% (n=771) apresentaram esta característica em pelo menos um dos 30 dias de investigação. Para o auxílio na deambulação, 85,5% (N=710) não necessitaram de nenhum tipo de auxílio; 6,4% (N=53) apresentaram necessidade de auxílio de muletas, bengala ou andador; e 8,2% (N=68) não faziam uso de nenhum tipo de dispositivo de auxílio na deambulação, mas fizeram uso de apoio no mobiliário ou na parede em pelo menos um dos 30 dias de avaliação.

Em relação à marcha, 49,5% (N=411) dos pacientes apresentaram apenas a pontuação zero (marcha normal; não deambula/ Totalmente Acamado/ Usa Cadeira de Rodas) nos 30 dias de investigação; 31% (N=258), em pelo menos um dos 30 dias de investigação, apresentaram a pontuação igual a 10 (marcha fraca); e 19,5% (N=162) dos investigados apresentaram pontuação 20 (marcha comprometida ou cambaleante) em pelo menos um dos 30 dias de avaliação. No que diz respeito ao estado mental, 91,5% (N=760) dos investigados mostraram-se orientados quanto à sua capacidade/limitação para deambular sozinho, ou seja, apresentaram apenas a pontuação zero nos 30 dias de investigação.

Na Tabela 3 estão descritas as classificações de risco para quedas do paciente no primeiro dia de avaliação, na última avaliação e na média das avaliações, de acordo com a pontuação obtida por meio da MFS.

Tabela 3 Distribuição dos pacientes de acordo com a classificação de risco da Morse Fall Scale (MFS) na primeira, na última e na média das avaliações. Santa Maria, RS, Brasil, 2013 (N=831) 

Classificação de risco para quedas - Morse Fall Scale (MFS) N %
Morse Fall Scale (MFS) - Primeira Avaliação
Baixo 255 30,7
Moderado 272 32,7
Elevado 304 36,6
Morse Fall Scale (MFS) - Última Avaliação
Baixo 212 25,5
Moderado 277 33,3
Elevado 342 41,2
Morse Fall Scale (MFS)- Média das avaliações
Baixo 210 25,6
Moderado 308 37,1
Elevado 313 37,7

Ao ser avaliado o risco para quedas dos pacientes, conforme a classificação da MFS, observa-se que tanto na primeira, quanto na última e na média das avaliações, o maior percentual de pacientes foi classificado na categoria de risco elevado para quedas (36,6%, 41,2% e 37,7%, respectivamente). Destaca-se que, entre a primeira e a última avaliação, existiu um aumento de 4,6% na pontuação da MFS. A pontuação da primeira avaliação apresentou uma correlação positiva forte com a pontuação da última avaliação (r=0,810; p=0,000), ou seja, quanto maior a pontuação de risco para quedas na admissão do paciente, maior ao final do período de internação e vice-versa.

Nos 122 dias de acompanhamento, dos 831 pacientes avaliados, 19 caíram ao solo/chão. Isso implica em uma média de 4,7 quedas ao mês. Calculando-se o índice de queda por pessoa/dia, no total de 6400 pacientes/dia a taxa de incidência de queda foi de 1,68% (IC95%; 1,51 - 1,72%). No que se refere à frequência acumulada, que estima diretamente a probabilidade/risco de que um indivíduo desenvolva o desfecho durante um período específico de tempo, esta foi de 2,28 (IC95%: 1,66 - 2,91).

Na Tabela 4, apresentam-se as frequências absolutas e relativas dos pacientes com e sem queda, segundo variáveis demográficas, condições de saúde e classificações da MFS.

Tabela 4 Distribuição dos pacientes, segundo variáveis demográficas, condições de saúde e classificações da Morse Fall Scale (MFS). Santa Maria, RS, Brasil, 2013 (N=831) 

Variáveis Queda p
Não Sim
N % N %
Sexo 0,838*
Feminino 323 97,6 8 2,4
Masculino 489 97,8 11 2,2
Idade 0,609*
18 a 59 anos 390 98,0 8 2,0
60 a 92 anos 422 97,5 11 2,5
Atividade física 0,183
Não 603 97,3 17 2,7
Sim 209 99,1 2 0,9
Problema Musculoesquelético 0,840*
Não 531 97,8 12 2,2
Sim 281 97,6 7 2,4
Dificuldade Visual 0,701*
Não 224 97,4 6 2,6
Sim 588 97,8 13 2,2
Dificuldade Auditiva 0,009
Não 676 98,4 11 1,6
Sim 136 94,4 8 5,6
Força Muscular
Membros Superiores 0,891*
Reduzida 589 97,8 13 2,2
Preservada 223 97,4 6 2,6
Membros Inferiores 0,262*
Reduzida 587 98,2 11 1,8
Preservada 225 96,6 8 3,4
Morse Fall Scale - Média das avaliações <0,001
Risco Baixo 210 100,0 -- ---
Risco Moderado 307 99,7 1 0,3
Risco Elevado 295 94,2 18 5,8
Morse Fall Scale - Primeira Avaliação <0,001
Risco Baixo 254 94,6 1 0,4
Risco Moderado 270 99,3 2 0,7
Risco Elevado 288 94,7 16 5,3
Morse Fall Scale - Última Avaliação <0,001
Risco Baixo 212 100,0 -- --
Risco Moderado 276 99,6 1 0,4
Risco Elevado 324 94,7 18 5,3

* Teste Qui-Quadrado de Pearson com correção de continuidade; † Teste Exato de Fisher;

‡Teste Qui-Quadrado com correção de Monte Carlo.

Os pacientes com dificuldade auditiva apresentaram significativamente maior percentual de quedas (N=5; 5,6%) quando comparados aos que não apresentavam essa dificuldade. Quanto à classificação de risco pela MFS, os pacientes com queda foram classificados significativamente em maior percentual na categoria de risco elevado (p<0,001).

Na comparação das pontuações obtidas por meio da MFS em relação à presença e ausência de queda, verificou-se que entre os grupos (com e sem queda) foi detectada maior pontuação da MFS em todo o período de avaliação no grupo com quedas (Figura 1).

Figura 1 Pontuação média para a MFS em cada dia de avaliação para a presença e ausência de quedas 

Quando as pontuações foram comparadas intragrupo, observou-se que, entre aqueles que não apresentaram quedas as médias oscilaram entre 33,8 e 60,0 pontos na MFS. No entanto, no grupo com quedas, as pontuações médias variaram de 55,0 a 80,0 pontos, ou seja, uma variação mais elevada quando comparada ao grupo sem quedas.

Discussão

O estudo evidenciou que, respectivo aos dias de avaliação e inerente ao tempo de internação do paciente, maior percentual de pacientes tiveram de duas a 10 avaliações, com a média de tempo de internação de 7,7 dias (±9,2). Relativo a esse dado, outro estudo constatou a média de dias de internação dos pacientes avaliados de 3,1 dias (±2,57) e relacionaram maior tempo de internação hospitalar a quedas13. Assim, quanto maior o tempo de permanência do paciente no hospital, maior o risco de quedas (OR=3,2; p<0,01)13.

No que tange à média dos escores das avaliações da MFS, estudos realizados encontraram médias que diferiram das encontradas neste estudo (39,4 ±19,4 pontos). Pesquisa que acompanhou pacientes semelhantes aos avaliados neste estudo obteve escores da MFS de 31,7 (±16,9) o que confere classificação de risco moderado para quedas13. Outro estudo alcançou pontuação média da MFS superior (57,2) o que corresponde ao risco elevado para quedas7. Deve ser observado que este último foi realizado em unidade de reabilitação, onde maior percentual de pacientes possuem limitações e dificuldades, principalmente relacionadas à deambulação7. Assim, ressalva-se que a média dos escores da MFS e consequentemente o perfil dos pacientes internados irão depender serviço oferecido neste local.

No presente estudo, maior percentual de pacientes pontuou risco para quedas nos itens da MFS: diagnóstico secundário e uso de dispositivo intravenoso. Estudo14 encontrou resultado semelhante a este, no qual os pacientes avaliados apresentaram maior prevalência associada ao risco apenas no item uso de dispositivo intravenoso (83,3%). Outro estudo refere que 40,7% dos pacientes avaliados tiveram pontuação relacionada ao Diagnóstico de Enfermagem (DE) e risco para quedas no item diagnóstico secundário, ou seja, tinham mais de um diagnóstico15. Atenta-se para a importância desses dois itens e a relação deles com utilização de medicações, o que direciona para a necessidade de estratégias de prevenção de quedas relacionadas ao uso de medicações.

É importante destacar o item marcha em que, quando somados os percentuais de pacientes com marcha fraca e marcha comprometida/cambaleante, obtém-se percentual de 50,5% dos pacientes acompanhados com alguma alteração na deambulação em pelo menos um dia de avaliação. Referente a este dado, os profissionais da saúde devem avaliar o paciente quanto à sua autonomia e a necessidade de utilização de materiais acessórios para deambulação16. Outra estratégia importante é a orientação aos pacientes e acompanhantes no sentido de torná-los parceiros no cuidado, pois a medida que conseguem perceber as suas limitações relacionadas a mobilidade prejudicada, torna-se mais fácil solicitarem auxílio.

A classificação dos pacientes conforme a MFS, tanto no primeiro dia de avaliação, como no último e na média das avaliações, apontou que em maior percentual eles estavam classificados com risco elevado para quedas, portanto, eram classificados como expostos ao evento. Corrobora estudo nacional, que utilizou a MFS para avaliar pacientes hospitalizados e constatou que estes possuem elevado risco de quedas14.

Relativo à classificação da MFS, estudo anterior observou significativamente um leve declínio nos escores da escala quando comparados a primeira e a última avaliação (57,2 vs 51,6)7. Essa evidência diverge deste estudo, o qual constatou significativamente que, quanto maior o escore da MFS na primeira avaliação, maior também o da última. Este dado reforça a necessidade de avaliar o paciente na admissão na unidade e reavaliá-lo periodicamente. Concernente a isso, orienta-se que a avaliação seja feita diariamente, reforçando a reavaliação em caso de transferência de setor, identificação de outro fator de risco, alteração de quadro clínico e ocorrência de queda16. Por meio deste acompanhamento poderão ser identificadas alterações nos escores e nos fatores de riscos e remodeladas as estratégias, quando necessário.

Respectivo à taxa de incidência de quedas, os percentuais mostram certa variabilidade entre as pesquisas. Estudos em unidades de internação com pacientes semelhantes aos acompanhados neste estudo apontaram taxa de incidência de quedas de 1,8% e 2,1%2,8. Esses autores destacam a redução das taxas após implementação de estratégias preventivas (1,1% e 1,5%). As comparações demonstram que a taxa de incidência e o percentual de quedas deste estudo estão dentro dos percentuais encontrados na literatura nacional e internacional (1,3% a 12,6%)17-19.

Em relação às variáveis avaliadas, ao serem comparados dados demográficos, atividade física, condições de saúde e classificação da MFS entre pacientes com e sem quedas, apenas a variável dificuldade auditiva apresentou-se significativamente mais elevada entre os pacientes que caíram. Não foram encontrados outros estudos que corroborassem com os achados deste, o que atenta para a necessidade de investigar melhor a associação entre problemas auditivos e a ocorrência de quedas. Autores20 investigaram o déficit auditivo como fator predisponente a quedas, entretanto não foi encontrado resultado significativo.

No que tange aos demais achados, outros estudos também não evidenciaram diferença significativa para quedas relacionadas ao sexo7,13 e a idade7. Relacionado a variável problema musculoesquelético, os resultados deste estudo divergiram dos encontrados em outras pesquisas14,18 que constataram associação significativa entre risco elevado para quedas e a presença de distúrbios musculoesqueléticos.

A associação entre grau de risco obtido por meio dos escores da MFS e a presença ou não de quedas se mostrou significativa. Verificou-se, na média das avaliações, que em maior percentual os pacientes que sofreram queda foram classificados com risco elevado para quedas (≥45 pontos). Concernente a isso, o escore da MFS dos pacientes que caíram foram relativamente mais elevados quando comparados aos que não caíram (65,1 vs 55,2)21.

Dessa forma, utilizar-se dessa ferramenta para classificar os pacientes e, a partir da identificação de risco elencar estratégias de prevenção, torna-se um aliado no processo de trabalho do enfermeiro e na promoção da segurança do paciente no ambiente hospitalar.

A partir dos resultados, podem ser citadas algumas estratégias que possam vir a compor o plano de cuidado: utilizar instrumentos específicos para predizer o risco de quedas, sendo um deles a MFS; capacitar a equipe quanto a maneira adequada de avaliar o paciente e à implementação das estratégias; orientar pacientes/acompanhantes quanto aos fatores de risco que podem acarretar em quedas; identificar o paciente de alto risco, sinalizando na cabeceira da cama ou com pulseira específica, entre outras estratégias 7-8,22.

Como limitação, aponta-se o período de avaliação tendo em vista que o desfecho investigado é de baixa prevalência, o que exige maior número de participantes na pesquisa. Sugere-se maior investimento em estudos longitudinais nas instituições brasileiras devido ao caráter multifatorial relacionado às quedas. Este estudo contribui para o conhecimento, apontando a incidência de quedas em pacientes adultos, bem como a importância da utilização de uma ferramenta validada em âmbito mundial para avaliação de risco.

Conclusão

Constatou-se que maior percentual dos pacientes hospitalizados estavam classificados com risco elevado para quedas pela MFS. Identificou-se a taxa de incidência de quedas de 1,68% e, verificou-se que maior percentual dos pacientes que caíram estavam classificados na categoria risco elevado para quedas. Esses dados assinalam a possibilidade da MFS ser utilizada na avaliação de risco para quedas, afim de identificar fatores que contribuem para a ocorrência deste incidente no ambiente hospitalar, uma vez que avalia diferentes itens.

A taxa de incidência de quedas detectada neste estudo, apesar de parecer baixa, aponta para a necessidade de sensibilizar os profissionais de saúde sobre a ocorrência desse incidente nos hospitais. A equipe de enfermagem, por estar mais próxima do paciente, é uma importante aliada na prevenção das quedas. Esta proximidade oportuniza a identificação precoce de situações de risco e favorece o planejamento de ações pelo enfermeiro, em conjunto com a equipe multidisciplinar, com vistas à redução desse incidente que interfere na continuidade do cuidado e na segurança do paciente.

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1Artigo extraído da dissertação de mestrado "Avalação do Risco de Quedas em Paciente Adultos Hospitalizados", apresentada à Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil. Apoio financeiro da Fundação de Incentivo a Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria (FIPE Jr/UFSM), Brasil, da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS), Brasil e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Brasil.

Recebido: 07 de Maio de 2016; Aceito: 16 de Janeiro de 2017

Correspondência: Tânia Solange Bosi de Souza Magnago Universidade Federal de Santa Maria. Centro de Ciências da Saúde Av. Roraima, 1000 Bairro: Camobi CEP: 97105-900, Santa Maria, RS, Brasil E-mail: tmagnago@terra.com.br

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