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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão On-line ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.26  Ribeirão Preto  2018  Epub 21-Jun-2018

http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.2251.2994 

Artigo Original

Ações de apoio realizadas à mulher por acompanhantes em maternidades públicas1

Carolina Frescura Junges2 

Odaléa Maria Brüggemann3 

Roxana Knobel4 

Roberta Costa5 

2PhD, Enfermeira, Hospital Universitário Polydoro Ernani de São Thiago, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.

3PhD, Professor Associado, Departamento de Enfermagem, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.

4PhD, Professor Adjunto, Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.

5PhD, Professor Adjunto, Departamento de Enfermagem, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

identificar as ações de apoio realizadas à mulher no trabalho de parto, parto, cesariana e pós-parto.

Método:

estudo transversal, realizado em três maternidades públicas, com amostra de 1147 acompanhantes. Os dados foram coletados por meio de entrevista e analisados por estatística descritiva. As ações de apoio foram classificadas nas quatro dimensões: emocional, física, informacional e de intermediação.

Resultados:

a maioria dos entrevistados era o companheiro/pai do bebê (76,7%). No trabalho de parto, nascimento e pós-parto, as ações de apoio emocional, como tranquilizar, encorajar e elogiar, foram realizadas por mais de 80,0% dos acompanhantes; o apoio informacional por cerca de 70,0%; e o de intermediação por menos de 65,0% deles. No trabalho de parto, o destaque no apoio físico foi observado no auxílio à deambulação (84,4%) e na mudança de posição (90,4%).

Conclusão:

os acompanhantes participam ativamente do processo do nascimento realizando ações de apoio nas quatro dimensões. O apoio emocional é o mais frequente, seguido do físico e informacional, principalmente durante o trabalho de parto e parto. Os resultados contribuem para a valorização do acompanhante da rede social da mulher no cenário do parto e o reconhecimento do seu papel como provedor de apoio.

Descritores: Parto Humanizado; Apoio Social; Enfermagem Obstétrica; Trabalho de Parto; Parto; Saúde da Mulher

Introdução

No Brasil, a transição do cenário de parto, do domicílio para o hospital, aconteceu no início do século XX. Este processo foi determinante para consolidar a visão tecnocrática do parto, com o médico como figura central, além da ampla utilização de procedimentos e intervenções, de eficácia não comprovada, nem sempre benéficos1-2. Nesse cenário, a presença da família e de pessoas da rede social da parturiente tornou-se indesejada, pois interferia negativamente nas normas e rotinas hospitalares. Assim, foi inevitável o afastamento da família e a eliminação do apoio emocional à mulher durante o trabalho de parto e parto2.

O descontentamento das mulheres com relação à medicalização do parto, além de outras reinvindicações, configurou, na década de 1980, um dos eixos de debates pelo protagonismo feminino. O movimento de mulheres no Brasil, conduzido também pela corrente feminista, alcançou visibilidade e obteve muitas conquistas na área da saúde, e, após a criação do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher, observou-se um fortalecimento ideológico pela humanização do parto e nascimento3-4. Concordando com esse movimento, a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) assinala a presença do acompanhante como uma das boas práticas em obstetrícia, ou seja, uma prática que minimiza a realização de intervenções que não sejam comprovadamente benéficas5.

No Brasil, em 2005, com a aprovação da Lei Federal no 11.108, as mulheres passaram a ter o direito legal de ter um acompanhante de sua escolha durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato6. Este amparo legal visa proteger os direitos da mulher, facilitando a permanência do acompanhante durante a internação obstétrica. No entanto, estudos identificaram que ainda é notável o desconhecimento e descumprimento da Lei6-7.

A Pesquisa Nascer no Brasil, que entrevistou 23.940 puérperas, analisou aspectos relevantes sobre a implementação do acompanhante nas maternidades. A ausência total de acompanhante durante a internação obstétrica foi citada por 24,5% das mulheres, 18,8% tiveram acompanhante continuamente e 56,7% tiveram acompanhante somente em algum momento da internação. Ambiência adequada e regras institucionais claras sobre os direitos das mulheres foram os fatores associados à implementação do acompanhante nas maternidades estudadas8.

O apoio contínuo prestado pelo acompanhante é considerado benéfico para a mulher e o recém-nascido, uma vez que contribui para a redução de cesarianas, do tempo de trabalho de parto, das intervenções durante o trabalho de parto e parto e aumenta o nível de satisfação das mulheres com a experiência9. Tais evidências, em conjunto com outros estudos, apontam também a importância do acolhimento do homem no cenário do nascimento, contribuindo para o apoio à mulher, a transição para a paternidade e a formação do vínculo precoce com o recém-nascido10-11.

As ações de apoio realizadas pelo acompanhante de parto podem ser classificadas em quatro dimensões: emocional, quando o provedor de apoio se faz presente continuamente, encoraja, tranquiliza e elogia a mulher; de conforto físico, quando ele auxilia no banho, na mudança de posição, na redução da dor, na realização de massagens; informacional, quando explica e informa à gestante sobre o que está acontecendo; e, por último, a intermediação, quando interpreta e negocia as vontades da mulher com os profissionais de saúde9. As ações de apoio emocional e físico são as mais desenvolvidas e, consequentemente, lembradas pelas mulheres e pelos acompanhantes de parto6,10,12-13.

A maioria das pesquisas enfoca o olhar da mulher sobre os benefícios do acompanhante12,14-16, principalmente a partir de pesquisas com abordagem qualitativa. Em outra esfera, poucos trabalhos oportunizam ao acompanhante relatar quais ações de apoio se sentiram à vontade para realizar ou aquelas em que obtiveram orientação para fornecer à mulher6,13). No cenário internacional, os estudos, em sua maioria, também não descrevem as dimensões das ações de apoio realizadas pelo acompanhante, sejam eles familiares, doula, midwife ou enfermeira9. Portanto, o presente estudo contribui para a construção do conhecimento acerca dessa temática em nível nacional e internacional.

No cenário brasileiro, as maternidades que cumprem a Lei permitem a presença do acompanhante, sendo este, em geral, membro da família ou da rede social da mulher8. No entanto, muitas vezes, ainda há o entendimento de que o acompanhante é um mero espectador. As ações de apoio realizadas pelo acompanhante devem ser conhecidas para identificar e valorizar a sua real participação durante a permanência na maternidade. Além disso, ao potencializar o acompanhante como provedor de apoio à mulher, poderá ser direcionado um novo olhar para essa prática a fim de que os profissionais de saúde possibilitem que ele exerça seu papel.

Dessa forma, o objetivo deste trabalho foi identificar as ações de apoio realizadas pelo acompanhante no trabalho de parto, parto, cesariana e pós-parto nas maternidades públicas da Grande Florianópolis, Santa Catarina.

Método

Estudo transversal que faz parte do macroprojeto “A participação do acompanhante de escolha da mulher no pré-natal, trabalho de parto e parto no sistema de saúde público e suplementar”.

Os dados foram coletados nas três maternidades públicas da Grande Florianópolis/SC, que atendem mulheres somente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os locais do estudo foram nominados de Maternidade A, B e C. As três instituições são maternidade-escola e campos de estágio para alunos de Graduação em Enfermagem e Medicina, também possuem Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia e são pactuadas à Rede Cegonha. Além disso, disponibilizam orientações escritas para os acompanhantes e possuem banheiro com chuveiro, bola suíça e cavalinho para as parturientes. A Maternidade A permite a presença do acompanhante de escolha da mulher desde 2000. A Maternidade B permite a presença do acompanhante de escolha da mulher desde 2002, é Hospital Amigo da Criança, Centro de Referência Estadual em Saúde da Mulher e recebeu o Prêmio Nacional Dr. Pinotti de Hospital Amigo da Mulher em 2013. A Maternidade C permite a presença do acompanhante de escolha da mulher desde 1995, é Hospital Amigo da Criança, recebeu o Prêmio Galba de Araújo no ano 2000, é referência nacional na Atenção Humanizada ao Recém-nascido de Baixo Peso: Método Canguru e possui Residência Multiprofissional com ênfase na Atenção à Saúde da Mulher e da Criança.

Os sujeitos de pesquisa foram as pessoas que permaneceram com as mulheres durante o trabalho de parto e parto ou cesariana. O critério de inclusão: ter permanecido junto à mulher na maternidade durante o trabalho de parto e parto ou cesariana, independente da duração de cada período. O critério de exclusão: ter sido acompanhante de mulher submetida à cesariana de urgência ou eletiva, uma vez que não ocorreu trabalho de parto e o acompanhante não teve a oportunidade de realizar ações de apoio nesse período. Também foram excluídos os acompanhantes de mulheres cuja gestação tenha sido múltipla, mulheres que foram a óbito e mulheres cujo feto ou recém-nascido foi a óbito.

Considerando que as maternidades selecionadas para o estudo permitem a presença de um acompanhante durante o trabalho de parto e parto ou cesariana, a amostra foi calculada com base no número de nascimentos no ano de 2013 de cada uma delas (Maternidade A - 3508, Maternidade B - 3759, Maternidade C - 1525). Para o cálculo amostral de cada maternidade, estimou-se a prevalência presumida em 50%, intervalo de confiança de 95% e erro máximo de 5%, resultando em 346 entrevistados na Maternidade A; 349 acompanhantes na Maternidade B; e 307 na Maternidade C. Assim, a amostra estimada para o estudo foi de 1002 acompanhantes, no entanto foram entrevistados 1147 acompanhantes devido à disponibilidade financeira para execução do projeto.

A coleta de dados foi desenvolvida no período de março de 2015 a maio de 2016, sendo utilizado um questionário, composto por variáveis de identificação; de características sociodemográficas; informações sobre a experiência; ações de apoio junto à mulher no trabalho de parto, parto ou na cesariana e no pós-parto. O questionário foi revisado e, após a finalização da etapa de testagem, foi desenvolvido um software para facilitar o registro dos dados. O sistema informatizado consistiu em uma plataforma em que os dados foram armazenados digitalmente. As entrevistas foram salvas no formato de planilhas csv, usado pelo ProgramaMicrosoft Office Excel®.

Após um treinamento teórico e prático, cada entrevistador recebeu um netbook com o software instalado. Os entrevistadores foram inseridos e supervisionados nas maternidades pela pesquisadora principal. As entrevistas aconteceram em locais do Alojamento Conjunto de cada maternidade, de acordo com a conveniência do acompanhante. A maioria das entrevistas aconteceu em ambiente externo ao quarto de internação, sem a influência da puérpera nas respostas.

Cada entrevistador armazenava os arquivos em um pen drive e atualizava o sistema de migração via online para que as informações fossem enviadas para a base de dados central. Para assegurar a qualidade das informações obtidas e minimizar erros aleatórios ou sistemáticos durante a coleta de dados foram adotados alguns procedimentos: uso de checklist com critérios de inclusão e exclusão para a seleção dos sujeitos de pesquisa; monitoramento da coleta durante todo o trabalho de campo até completar a amostra de cada instituição; avaliação diária online da qualidade do registro dos dados. Além disso, após o encerramento da coleta de dados, foi realizada a replicação, por meio de contato telefônico, de algumas perguntas do questionário, em uma amostra de 5% dos acompanhantes entrevistados em cada maternidade.

As variáveis analisadas no presente estudo são: sexo (masculino, feminino), idade (≤ 19, 20 - 59, ≥ 60), cor da pele (branca, preta, parda, outras), escolaridade (sem escolaridade, ensino fundamental incompleto, fundamental completo, médio completo, superior completo), ocupação (trabalho remunerado, trabalho sem remuneração, desempregado, aposentado/pensionista), vínculo com a mulher (companheiro/pai do bebê, mãe, mulher da rede social/familiar, outros). Participação anterior e atual no pré-natal, na triagem, no trabalho de parto, no parto, na cesariana, no pós-parto (sim, não). Participação em curso e/ou palestra (sim, não); conhecimento sobre a lei do acompanhante (sim, não). Ações de apoio emocional no trabalho de parto, parto, cesariana e pós-parto: permaneceu ao lado, encorajou, tranquilizou, elogiou, fez carinho, segurou a mão (sim, não). Ações de apoio físico no trabalho de parto: deambulação, mudança de posição, uso do cavalinho, uso da bola, banho, massagem (sim, não). Ações de apoio físico no parto: auxiliou a se posicionar (sim, não). Ações de apoio físico no pós-parto: movimentação, ingesta hídrica/alimentar, orientou descanso, na amamentação, nos cuidados com o bebê, perguntou sobre dor ou desconforto (sim, não). Ações de apoio informacional no trabalho de parto, cesariana e pós-parto: orientação sobre o que estava acontecendo (sim, não). Ações de apoio informacional no parto: orientação sobre o que estava acontecendo, orientou a fazer força, respiração (sim, não). Ações de apoio de intermediação no trabalho de parto, parto, cesariana e pós-parto: negociou as vontades da mulher com os profissionais de saúde (sim, não).

Para a análise, as três bases de dados das maternidades foram agrupadas em apenas uma e, após, foi exportada para o Programa SPSS® 20.0, sendo então realizada análise descritiva dos dados (frequência absoluta e relativa), com os respectivos intervalos de confiança (IC 95%).

O projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos via Plataforma Brasil - base nacional e unificada de registros de pesquisas envolvendo seres humanos. A aprovação do projeto ocorreu no dia 24 de fevereiro de 2014, sob CAEE: 25589614.3.0000.0121. Todos os participantes do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

Dos 1147 entrevistados, a maioria era do sexo masculino (77,0%), estava na idade adulta (93,9%), referia cor da pele branca (53,8%) e possuía trabalho remunerado (86,2%). Quanto ao grau de escolaridade, o mais frequente foi o ensino médio completo (36,8%). Com relação ao vínculo com a mulher que estavam acompanhando, a maioria era o companheiro/pai do bebê (76,7%). Na Maternidade A, encontra-se a maior frequência de adolescentes (6,4%), bem como da cor da pele parda (45,9%). Na Maternidade C, a prevalência de companheiro/pai do bebê como acompanhante foi mais elevada (82,7%) e os acompanhantes possuíam os maiores graus de escolaridade (Tabela 1).

Tabela 1 Características sociodemográficas dos acompanhantes nas maternidades públicas. Florianópolis, SC, Brasil (2015 - 2016) 

Maternidade A (n = 357) Maternidade B (n = 421) Maternidade C (n = 369) Total (N=1147)
n % IC*(95%) n % IC*(95%) n % IC*(95%) N (%)
Sexo
Masculino 263 73,7 (69,1-78,2) 315 74,8 (70,7-79,0) 305 82,7 (78,8-86,5) 883 (77,0)
Feminino 94 26,3 (21,7-30,9) 106 25,2 (21,0-29,3) 64 17,3 (13,5-21,2) 264 (23,0)
Idade
≤ 19 23 6,4 (3,9-9,0) 23 5,5 (3,3-7,6) 4 1,1 (0,2-2,1) 50 (4,4)
20 - 59 327 91,6 (88,7-94,5) 391 92,9 (90,4-95,3) 359 97,3 (95,6-98,9) 1077 (93,9)
≥ 60 7 2,0 (0,5-3,4) 7 1,7 (0,4-2,9) 6 1,6 (0,3-2,9) 20 (1,7)
Cor da pele
Branca 172 48,2 (43,0-53,4) 230 54,6 (49,9-59,4) 215 58,3 (53,2-63,3) 617 (53,8)
Preta 16 4,5 (2,3-6,6) 50 11,9 (8,8-15,0) 33 8,9 (6,0-11,9) 99 (8,6)
Parda 164 45,9 (40,8-51,1) 136 32,3 (27,8-36,8) 118 32,0 (27,2-36,7) 418 (36,4)
Oriental ou indígena 5 1,4 (0,2-2,6) 5 1,2 (0,1-2,2) 3 0,8 (0,0-1,7) 13 (1,1)
Escolaridade
Sem escolaridade 4 1,1 (0,0-2,2) 7 1,7 (0,4-2,8) 6 1,6 (0,3-2,9) 17 (1,5)
Ensino fundamental incompleto 117 32,8 (27,9-37,6) 119 28,3 (23,9-32,6) 65 17,6 (13,7-21,5) 301 (26,2)
Ensino fundamental completo 95 26,6 (22,0-31,2) 116 27,6 (23,3-31,8) 89 24,1 (19,7-28,5) 300 (26,2)
Ensino médio completo 117 32,8 (27,9-37,6) 150 35,6 (31,0-40,2) 155 42,0 (37,0-47,0) 422 (36,8)
Ensino superior completo 24 6,7 (4,1-9,3) 29 6,9 (4,5-9,3) 54 14,6 (11,0-18,2) 107 (9,3)
Ocupação
Trabalho remunerado 299 83,7 (79,9-87,6) 363 86,2 (82,9-89,5) 327 88,6 (85,4-91,9) 989 (86,2)
Trabalho sem remuneração 29 8,1 (5,3-11,0) 40 9,5 (6,7-12,3) 21 5,7 (3,3-8,1) 90 (7,8)
Desempregado 19 5,3 (3,0-7,6) 10 2,4 (0,9-3,8) 16 4,3 (2,2-6,4) 45 (3,9)
Aposentado/Pensionista 10 2,8 (1,1-4,5) 8 1,9 (0,5-3,2) 5 1,4 (0,2-2,5) 23 (2,0)
Vínculo com a mulher
Companheiro/pai do bebê 262 73,4 (68,8-78,0) 313 74,3 (70,2-78,5) 305 82,7 (78,8-86,5) 880 (76,7)
Mãe 51 14,3 (10,6-17,9) 53 12,6 (9,4-15,8) 42 11,4 (8,1-14,6) 146 (12,7)
Mulher da rede familiar/social 43 12,0 (8,7-15,4) 53 12,6 (9,4-15,8) 22 6,0 (3,5-8,4) 118 (10,3)
Outros (pai, amigo, filho) 1 0,3 (0,0-0,8) 2 0,5 (0,0-1,0) 0 0 3 (0,3)

* IC: Intervalo de Confiança.

O percentual de acompanhantes com participação pregressa no pré-natal, na triagem obstétrica, no trabalho de parto no pós-parto foi inferior a 30,0% e no parto apenas 19,3%. No entanto, a participação atual no pré-natal (61,3%) e na triagem (89,9%) se elevou consideravelmente. Somente 8,6% relataram ter participado de curso ou palestra durante a gestação e 23,6% conheciam a Lei do Acompanhante. Na Maternidade C, a parcela de entrevistados que possuíam experiência anterior como acompanhante foi maior (Tabela 2).

Tabela 2 Participação no pré-natal, triagem, trabalho de parto, parto, cesariana e pós-parto. Florianópolis, SC, Brasil (2015-2016) 

Participação Maternidade A (n = 357) Maternidade B (n = 421) Maternidade C (n = 369) Total N=1147
n % (IC*95%) n % (IC*95%) N % (IC*95%) N (%)
Anterior
No pré-natal 69 19,3 (15,2-23,4) 100 23,8 (19,7-27,8) 116 31,4 (26,7-36,2) 285 (24,8)
Na triagem 80 22,4 (18,1-26,7) 89 21,1 (17,2-25,0) 109 29,5 (24,9-34,2) 278 (24,2)
No trabalho de parto 83 23,2 (18,9-27,6) 82 19,5 (15,7-23,3) 106 28,7 (24,1-33,3) 271 (23,6)
No parto 67 18,8 (14,7-22,8) 74 17,6 (13,9-21,2) 80 21,7 (17,5-25,9) 221 (19,3)
Na cesariana 49 13,7 (10,1-17,3) 35 8,3 (5,7-11,0) 40 10,8 (7,7-14,0) 124 (10,8)
No pós-parto 88 24,6 (20,2-29,1) 102 24,2 (20,1-28,3) 122 33,1 (28,2-37,9) 312 (27,2)
Atual
No pré-natal 221 61,9 (56,8-67,0) 248 58,9 (54,2-63,6) 268 72,6 (68,1-77,2) 737 (61,3)
Na triagem 319 89,4 (86,1-92,6) 360 85,5 (82,1-88,9) 341 92,4 (89,7-95,1) 1020 (89,9)
No trabalho de parto 357 100,0 421 100,0 369 100,0 1147 (100,0)
No parto 272 76,2 (71,8-80,6) 321 76,2 (72,2-80,3) 268 72,6 (68,1-77,2) 861 (75,1)
Na cesariana 85 23,8 (19,4-28,2) 100 23,8 (19,7-27,8) 101 27,4 (22,8-31,9) 286 (24,9)
No pós-parto 315 88,2 (84,9-91,6) 289 68,6 (64,2-73,1) 342 92,7 (90,0-95,3) 946 (82,5)
Participação em curso ou palestra 25 7,0 (4,3-9,7) 22 5,2 (3,1-7,4) 52 14,1 (10,5-17,6) 99 (8,6)
Conhecimento sobre a Lei 64 17,9 (13,9-21,9) 128 30,4 (26,0-34,8) 79 21,4 (17,2-25,6) 271 (23,6)

* IC: Intervalo de Confiança.

No trabalho de parto, foram mais frequentes as ações de apoio emocional, como permanecer ao lado da mulher e tranquilizar, seguidas das ações de apoio físico: auxiliar na mudança de posição e deambulação. Na Maternidade C, algumas ações de apoio físico apresentaram maior frequência (Tabela 3).

Tabela 3 Ações de apoio no trabalho de parto em maternidades públicas. Florianópolis, SC, Brasil (2015-2016) 

Ações de apoio Maternidade A (n = 357) Maternidade B (n = 421) Maternidade C (n = 369) Total N = 1147
n %(IC*95%) n %(IC*95% n %(IC*95%) N (%)
Emocional
Permaneceu ao lado 356 99,7 (99,2-100,3) 414 98,3 (97,1-99,6) 367 99,5 (98,7-100,2) 1137 (99,1)
Encorajou 346 96,9 (95,1-98,7) 413 98,1 (96,8-99,4) 364 98,6 (97,5-99,8) 1123 (97,9)
Tranquilizou 348 97,5 (95,8-99,1) 413 98,1 (96,8-99,4) 365 98,9 (97,8-100,0) 1126 (98,2)
Elogiou 306 85,7 (82,1-89,3) 379 90,0 (87,1-92,9) 339 91,9 (89,1-94,7) 1024 (89,3)
Fez carinho 333 93,3 (90,7-95,9) 393 93,3 (91,0-95,7) 358 97,0 (95,3-98,7) 1084 (94,5)
Segurou a mão 341 95,5 (93,4-97,7) 412 97,9 (96,5-99,2) 354 95,9 (93,9-97,9) 1107 (96,5)
Físico
Deambulação 285 79,8 (75,7-84,0) 360 85,5 (82,1-88,9) 323 87,5 (84,1-90,9) 968 (84,4)
Mudança de posição 315 88,2 (84,9-91,6) 378 89,8 (86,9-92,7) 344 93,2 (90,6-95,8) 1037 (90,4)
Uso do cavalinho 103 28,8 (24,1-33,6) 39 9,3 (6,5-12,0) 120 32,5 (27,7-37,3) 262 (22,8)
Uso da bola 78 21,8 (17,6-26,1) 190 45,1 (40,4-49,9) 243 65,8 (61,0-70,7) 511 (44,6)
Banho 184 51,5 (46,3-56,7) 333 79,1 (75,2-83,0) 291 78,9 (74,7-83,0) 808 (70,4)
Massagem 199 55,7 (50,6-60,9) 274 65,1 (60,5-69,6) 272 73,7 (69,2-78,2) 745 (65,0)
Informacional
Orientou sobre o que estava acontecendo 264 74,0 (69,4-78,5) 342 81,2 (77,5-85,0) 301 81,6 (77,6-85,5) 907 (79,1)
Intermediação
Negociou as vontades da mulher 177 49,6 (44,4-54,8) 233 55,3 (50,6-60,1) 288 78,0 (73,8-82,3) 698 (60,9)

* IC: Intervalo de Confiança.

A seguir estão descritas as ações de apoio realizadas no parto e na cesariana. No parto, o apoio físico foi caracterizado pelo auxílio à mulher para se posicionar, sendo realizado por 65,0% dos acompanhantes; o apoio informacional, orientar sobre o que estava acontecendo no parto (74,7%), orientar para fazer força (85,4%) e orientar sobre a respiração (77,4%). O apoio de intermediação foi realizado por apenas 56,7% dos acompanhantes. Dentre os participantes que acompanharam a cesariana, a maior parte realizou ações de apoio emocional. Nesta pesquisa, os acompanhantes não foram questionados sobre apoio físico na cesariana, visto que não há liberdade para a mulher realizar qualquer atividade durante o procedimento cirúrgico. Dentre as maternidades estudadas, a classificada como C apresenta resultados com altas percentagens no que se refere ao apoio de intermediação, pois mais da metade dos acompanhantes relatou negociar os desejos da mulher com os profissionais de saúde, tanto no parto quanto na cesariana (Tabela 4).

Tabela 4 Ações de apoio no parto e cesariana em Maternidades Públicas. Florianópolis, SC, Brasil (2015-2016) 

Ações de apoio Maternidade A (n = 357) Maternidade B (n = 421) Maternidade C (n = 369) Total (1147)
n % (IC*95%) n % (IC*95%) n % (IC*95%) N (%)
Parto (n=861)
Emocional
Permaneceu ao lado 256 94,1 (91,3-96,9) 312 97,2 (95,4-99,0) 266 99,2 (98,2-100,3) 834 (98,9)
Encorajou 258 94,9 (92,2-97,5) 306 95,3 (93,0-97,6) 262 97,8 (96,0-99,5) 826 (95,9)
Tranquilizou 260 95,6 (93,1-98,0) 307 95,6 (93,4-97,9) 259 96,6 (94,5-98,8) 826 (95,9)
Elogiou 219 80,5 (75,8-85,2) 278 86,6 (82,9-90,3) 249 92,9 (89,8-96,0) 746 (86,6)
Fez carinho 231 84,9 (80,7-89,2) 286 89,1 (85,7-92,5) 254 94,8 (92,1-97,4) 771 (89,6)
Segurou a mão 239 87,9 (84,0-91,8) 290 90,3 (87,1-93,6) 247 92,2 (88,9-95,4) 776 (90,1)
Físico
Auxiliou a se posicionar 180 66,2 (60,5-71,8) 191 59,5 (54,1-64,9) 189 70,5 (65,0-76,0) 560 (65,0)
Informacional
Orientou sobre o que estava acontecendo 189 69,5(64,0-75,0) 242 75,4 (70,4-80,1) 212 79,1 (74,2-84,0) 643 (74,7)
Orientou a fazer força 226 83,1 (78,6-87,6) 276 86,0 (82,2-89,8) 233 86,9 (82,9-91,0) 735 (85,4)
Orientou a respiração 203 74,6 (69,4-79,8) 247 77,0 (72,3-81,6) 216 80,6 (75,8-85,3) 666 (77,4)
Intermediação
Negociou as vontades da mulher 131 48,2 (42,2-54,1) 158 49,2 (43,7-54,7) 199 74,2 (69,0-79,5) 488 (56,7)
Cesariana (n = 286)
Emocional
Permaneceu ao lado 81 95,3 (90,7-99,8) 98 98,0 (95,2-100,8) 100 99,0 (97,1-100,9) 279 (97,6)
Encorajou 72 84,7 (77,0-92,4) 93 93,0 (88,0-98,0) 96 95,0 (90,8-99,3) 261 (91,3)
Tranquilizou 78 91,8 (85,9-97,7) 95 95,0 (90,7-99,3) 98 97,0 (93,7-100,4) 271 (94,8)
Elogiou 64 75,3 (66,0-84,6) 80 80,0 (72,1-87,9) 87 86,1 (79,3-92,9) 231 (80,8)
Fez carinho 69 81,2 (72,8-89,6) 88 88,0 (81,6-94,4) 90 89,1 (83,0-95,2) 247 (86,4)
Físico
Segurou a mão 58 68,2 (58,2-78,2) 90 90,0 (84,1-95,9) 79 78,2 (70,1-86,3) 227 (79,4)
Informacional
Orientou sobre o que estava acontecendo 57 67,1 (57,0-77,1) 71 71,0 (62,0-80,0) 75 74,3 (65,6-82,9) 203 (71,0)
Intermediação
Negociou as vontades da mulher 29 34,1 (23,9-44,3) 35 35,0 (25,6-44,4) 57 56,4 (46,7-66,2) 121 (42,3)

* IC: Intervalo de Confiança.

No pós-parto, a dimensão emocional também foi a que obteve maior destaque, com frequências acima de 90% em todas as ações. Auxiliar nos cuidados com o bebê (94,8%) e orientar que a mulher descansasse (93,2%) foram as ações de apoio físico mais realizadas pelos acompanhantes. Mais da metade deles negociou as vontades da mulher com os profissionais (64,4%). Na maternidade C, a prevalência do apoio informacional e o de intermediação foram maiores do que nas maternidades A e B (Tabela 5).

Tabela 5 Ações de apoio no pós-parto em maternidades públicas. Florianópolis, SC, Brasil (2015-2016) 

Ações de Apoio Maternidade A (n = 315) Maternidade B (n = 289) Maternidade C (n = 342) Total N= 946
n %(IC*95%) n %(IC*95%) n %(IC*95%) N (%)
Emocional
Permaneceu ao lado 313 99,4 (98,5-100,2) 282 97,6 (95,8-99,4) 340 99,4 (98,6-100,2) 935 (98,8)
Encorajou 285 90,5 (87,2-93,7) 277 95,8 (93,5-98,1) 330 96,5 (94,5-98,4) 892 (94,3)
Tranquilizou 298 94,6 (92,1-97,1) 279 96,5 (94,4-98,6) 336 98,2 (96,8-99,6) 913 (96,5)
Elogiou 268 85,1 (81,1-89,0) 275 95,2 (92,7-97,6) 317 92,7 (89,9-95,5) 860 (90,9)
Fez carinho 281 89,2 (85,8-92,6) 264 91,4 (88,1-94,6) 330 96,5 (94,5-98,4) 875 (92,5)
Físico
Movimentação 260 82,5 (78,3-86,7) 237 82,0 (77,6-86,4) 303 88,6 (85,2-92,0) 800 (84,6)
Ingesta hídrica/ alimentar 244 77,5 (72,8-82,1) 242 83,7 (79,5-88,0) 267 78,1 (73,7-82,5) 753 (79,6)
Orientou descanso 290 92,1 (89,1-95,1) 265 91,7 (88,5-94,9) 327 95,6 (93,4-97,8) 882 (93,2)
Auxiliou na amamentação 250 79,4 (74,9-83,8) 245 84,8 (80,6-88,9) 292 85,4 (81,6-89,1) 787 (83,2)
Auxiliou nos cuidados com o bebê 287 91,1 (88,0-94,3) 282 97,6 (95,8-99,4) 328 95,9 (93,8-98,0) 897 (94,8)
Perguntou sobre dor ou desconforto 262 83,2 (79,0-87,3) 264 91,3 (88,1-94,6) 320 93,6 (91,0-96,2) 846 (89,4)
Informacional
Orientou sobre o que estava acontecendo 195 61,9 (56,5-67,3) 214 74,0 (69,0-79,1) 277 81,0 (76,8-85,2) 686 (72,5)
Intermediação
Negociou as vontades da mulher 164 52,1 (46,5-57,6) 168 58,1 (52,4-63,8) 277 81,0 (76,8-85,2) 609 (64,4)

* IC: Intervalo de Confiança

Discussão

Os resultados demostram que, embora os acompanhantes em sua maioria não tivessem experiência anterior em apoiar a mulher durante o trabalho de parto, parto, cesariana e pós-parto e, praticamente, nenhum preparo durante o pré-natal, eles assumiram o papel de provedor de apoio nas quatro dimensões analisadas (emocional, física, informacional e intermediação).

A participação do companheiro/pai do bebê no papel de acompanhante é semelhante a outros estudos com abordagem quantitativa8,14-15 e qualitativa6,10,16. A presença paterna neste cenário simboliza, mesmo que parcialmente, a reaproximação da família ao nascimento. Estudos internacionais revelam que em outros países a presença paterna durante o nascimento é aceita17, independente de estar relacionada ou não ao provimento de apoio, sendo que, frequentemente, a doula e midwife assumem essa tarefa18-19.

Outro aspecto relevante é o conhecimento da Lei do Acompanhante, pois esta informação pode contribuir para a mulher e o acompanhante exigirem seus direitos desde o primeiro momento da internação obstétrica. Apesar deste documento6 ter sido publicado em 2005, a divulgação limitada impede que seja utilizado como um instrumento para garantir a presença do acompanhante6-7.

O fato de poucos acompanhantes terem participado de curso e/ou palestra durante a gestação, bem como não terem experiência prévia, pode ter influência sobre o desconhecimento de seus direitos. No entanto, esses aspectos não foram impeditivos ou restritivos para que o acompanhante desempenhasse o seu papel de provedor de apoio à mulher, especialmente no que se refere à dimensão emocional. Prover apoio emocional também foi mencionado em outros estudos como atividades que tranquilizam, encorajam, transmitem segurança e amenizam a dor da mulher 6,10,17,20-22.

Com relação às ações de apoio físico no trabalho de parto, as atividades de auxílio à mudança de posição, à deambulação e ao banho foram mencionadas pela maioria dos acompanhantes, ou seja, boa parte dos entrevistados ajudou na livre movimentação da mulher. Essa prática deve ser incentivada durante o trabalho de parto, pois permite que a mulher assuma a posição que considera mais confortável, caso não haja contraindicação clínica23.

As ações de apoio realizadas pelo acompanhante são consideradas métodos não farmacológicos de alívio da dor e da ansiedade, podendo, ainda, reduzir o tempo do trabalho de parto23-25. Dessa forma, pode-se inferir que o acompanhante está contribuindo para a implementação de boas práticas na atenção ao parto, uma vez que ele incentiva e ajuda a parturiente a realizar as atividades recomendadas.

Durante a cesariana foi notável a redução da frequência de ações de apoio realizadas, principalmente de ordem informacional e de intermediação. Esse achado pode ser decorrente do medo e apreensão diante da necessidade do procedimento cirúrgico22 ou pela restrição de atuação que o próprio ambiente impõe à pessoa leiga. Assim, o acompanhante assume um papel mais passivo, pela falta de preparo e orientação, além da insegurança para fornecer apoio. Em algumas maternidades, o acompanhante é impedido de participar do nascimento durante o procedimento cirúrgico devido à proibição por parte dos profissionais22. Os membros da equipe de saúde reforçam que ali não é lugar para o acompanhante, justificando que ele não está familiarizado com as rotinas médicas e não sabe como se comportar26.

A frequente participação dos acompanhantes no pós-parto é semelhante a outra pesquisa realizada em Santa Catarina, Brasil27, entretanto esta não é a realidade em outras maternidades brasileiras8. Dessa forma, essas mulheres são privadas do apoio de uma pessoa de sua rede social, que pode auxiliar nos cuidados com o bebê e na movimentação. Poucos trabalhos enfocam este período, sendo mencionadas, principalmente, ações de apoio emocional, como fazer carinho, ficar ao lado e acalmar6,13. Na dimensão de apoio físico, as puérperas e os acompanhantes relatam, principalmente, a importância do auxílio nos cuidados com o bebê e na amamentação6,13,15.

Destaca-se que, ao participar ativamente da amamentação, o acompanhante estará apoiando e incentivando a mulher, fazendo-a sentir-se mais segura para estabelecer esse processo. Participar dos cuidados com o bebê na maternidade está condizente com o paradigma atual, o qual situa o homem como um elemento fundamental para o nascimento humanizado, favorecendo o maior envolvimento como cuidador.

As ações de apoio informacional foram identificadas em todos os períodos avaliados, principalmente durante o trabalho de parto e o parto. O acompanhante pode informar à mulher durante esses períodos sobre a respiração, sobre o momento de fazer a força para a expulsão, acerca do andamento do trabalho de parto e o que está acontecendo no parto6,13,28. Além disso, ele pode reforçar as informações dos profissionais sobre os procedimentos que serão realizados13. Essa atuação do acompanhante contribui para que a mulher se sinta encorajada e, consequentemente, tenha uma experiência mais tranquila e prazerosa.

O apoio de intermediação foi o menos mencionado pelos acompanhantes, demonstrando a dificuldade em negociar com os profissionais de saúde as vontades da mulher. Isso pode estar associado ao próprio temor das mulheres e acompanhantes em sofrerem algum tipo de repressão pelos profissionais de saúde, ao expressarem desejos e necessidades que podem interferir nas rotinas hospitalares. Embora a presença do acompanhante seja apontada como uma prática que contribui para a redução da violência institucional, uma vez que ele pode atuar como um defensor da mulher e protegê-la contra os maus-tratos9,29.

A Pesquisa Nacional Nascer no Brasil indicou que as mulheres que entraram em trabalho de parto em serviços públicos tinham mais chance de sofrer violência física, verbal e psicológica no momento do parto, em comparação com aquelas que não entraram em trabalho de parto e nas maternidades do serviço suplementar. No entanto, um fator de proteção para amenizar este risco, independente de ter vivenciado o trabalho de parto ou não e da modalidade do serviço, é a presença do acompanhante29. Assim sendo, fica claro que acolher a mulher e o acompanhante torna permissível o diálogo aberto com a equipe de saúde, concordando com o princípio de autonomia da mulher e da humanização para o parto.

Um dos destaques deste trabalho é a diferença entre as prevalências das ações de apoio físico e de intermediação nas três maternidades, embora todas façam parte do SUS. Essa análise confirma a necessidade de avaliar o contexto histórico, político e estrutural de cada maternidade para compreender quais enfoques são valorizados na atenção obstétrica - tal avaliação não foi objeto do presente estudo. Contudo, é importante ressaltar que as ações de apoio emocional e informacional apresentaram frequências muito próximas nas três maternidades, tal aspecto representa positiva expressividade.

O apoio de intermediação obteve maior prevalência na Maternidade C, que apresenta características relevantes para a prática da humanização no parto, como o Prêmio Galba de Araújo e o direito ao acompanhante desde a sua implantação13. É aconselhável que o diálogo entre profissionais de saúde e o acompanhante aconteça desde a gestação, informando sobre as características da maternidade em que acompanhará o parto. É possível, desse modo, conhecer quais as expectativas da mulher e do acompanhante sobre o parto e quais as negociações poderão ser realizadas para atender às demandas da parturiente30.

O panorama apresentado situa o acompanhante como importante provedor de apoio à mulher durante todos os períodos da internação obstétrica, principalmente na dimensão emocional, promovendo momentos de bem-estar quando permanece ao lado, tranquiliza e encoraja. No que se refere ao conforto físico, foi evidenciado o estímulo para o uso de tecnologias não invasivas durante o trabalho de parto, conforme preconizado nos princípios da humanização e nas estratégias não farmacológicas de alívio da dor. As ações de apoio informacional se mostraram mais acentuadas no momento do parto, o que pode estar relacionado às orientações dos profissionais direcionadas à mulher para auxiliar no nascimento e, assim, reforçadas pelos acompanhantes. Negociar as vontades da mulher com os profissionais de saúde, em todos os períodos avaliados, apresentou baixa frequência de realização, quando comparada às demais dimensões de apoio - tal constatação pode estar atrelada à relação nem sempre acolhedora que se estabelece entre os profissionais de saúde e o acompanhante.

Considera-se como limitações do estudo o fato de não ter sido avaliado o conteúdo dos cursos e palestras frequentados pelos acompanhantes, nem mesmo as vontades da mulher que o acompanhante negociou com os profissionais de saúde. Apesar disso, o estudo é inovador e apresenta dados acerca das ações de apoio realizadas pelo acompanhante nas dimensões emocional, física, informacional e de intermediação, que ainda não haviam sido amplamente avaliadas.

Conclusão

A análise quantitativa das ações de apoio no trabalho de parto, parto, cesariana e pós-parto permitiu identificar o acompanhante como um parceiro ativo em todo o processo, e não apenas um espectador.

As ações de apoio na dimensão emocional apresentaram percentuais mais elevados, demonstrando que o acompanhante se sente mais à vontade e capaz de realizá-las. Na dimensão física, durante o trabalho de parto e parto, destacam-se a mudança de posição e o auxílio para a posição de parto. No pós-parto, todas as ações de apoio físico foram realizadas pela maior parte dos entrevistados, em especial nos cuidados com o bebê. As ações de apoio informacional foram realizadas mais frequentemente durante o trabalho de parto e parto. O apoio de intermediação apresentou menor percentagem durante a cesariana.

Considerando a realidade brasileira, os achados deste estudo contribuem para fortalecer a importância da participação do acompanhante da rede social da mulher, uma vez que esse provedor de apoio não acarreta custos para a parturiente. Assim, é necessário orientar o acompanhante no pré-natal acerca da evolução do trabalho de parto e parto para incrementar as ações de apoio na dimensão informacional.

O apoio de intermediação está estreitamente associado à comunicação entre a mulher e o acompanhante e, posteriormente, à negociação deste com os profissionais de saúde. Essa interação pode ser harmoniosa, à medida que os profissionais de saúde percebam a importância de promover a autonomia da mulher durante o trabalho de parto e parto, integrando o acompanhante na identificação e solicitação de suas demandas.

As ações de apoio realizadas no pós-parto demonstram que a presença do acompanhante é de grande importância, pois contribui diretamente para o conforto da mulher. Ao assumir a função de provedor de apoio neste período, o acompanhante se aproxima da mulher e do recém-nascido, facilitando a transição parental, especialmente, quando for o companheiro e pai do bebê.

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1Artigo extraído da tese de doutorado “Apoio prestado pelo acompanhante à mulher nas maternidades públicas da grande Florianópolis, SC”, apresentada à Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil. Apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Brasil, processo nº 473810/2013-1.

Recebido: 22 de Junho de 2017; Aceito: 26 de Novembro de 2017

Correspondência: Carolina Frescura Junges Universidade Federal de Santa Catarina Hospital Universitário Polydoro Ernani de São Thiago Rua Maria Flora Pausewang, nº 1000, Campus Universitário Trindade CEP: 88036-800, Florianópolis, SC, Brasil E-mail: c.f.junges@ufsc.br

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