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Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.26  Ribeirão Preto  2018  Epub Aug 09, 2018

https://doi.org/10.1590/1518-8345.2731.3018 

Artigos Originais

Atitudes para a colaboração interprofissional de equipes da Atenção Primária participantes do Programa Mais Médicos

José Rodrigues Freire Filho1 

Marcelo Viana da Costa2 

Carinne Magnago3 

Aldaísa Cassanho Forster4 

1Doutorando, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil. Consultor técnico, Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde, Washington, DC, Estados Unidos da América.

2PhD, Professor Adjunto, Faculdade de Enfermagem, Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Pau dos Ferros, RN, Brasil.

3PhD, Professor Doutor, Escola de Saúde, Faculdade Meridional, Passo Fundo, RS, Brasil.

4PhD, Professor Associado, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.


RESUMO

Objetivos:

comparar atitudes em relação à colaboração interprofissional de profissionais de saúde componentes de equipes da Estratégia Saúde da Família, participantes do Programa Mais Médicos, bem como identificar fatores associados a atitudes de colaboração interprofissional.

Método:

estudo descritivo, transversal e comparativo, desenvolvido com 63 profissionais de saúde que responderam à Escala Jefferson de Atitudes Relacionadas à Colaboração Interprofissional. Os dados foram analisados estatisticamente.

Resultados:

o somatório dos itens da escala variou de 88 a 139 pontos. A análise do conjunto das equipes de Saúde da Família indicou diferenças estatísticas significantes entre os escores da escala e a categoria profissional e entre os escores e a escolaridade, sugerindo que os enfermeiros e os profissionais com nível superior são mais inclinados para a prática colaborativa. A análise segundo o perfil do médico - brasileiro, intercambista ou cubano - não determinou diferenças estatísticas nos escores dos médicos, tampouco nos escores dos componentes das equipes de diferentes perfis.

Conclusão:

o perfil não sugeriu maior ou menor inclinação, com significância estatística, dos médicos ou das equipes para o trabalho interprofissional. Este estudo pode constituir subsídio para novas investigações que contribuam para análise sobre a colaboração interprofissional e o impacto do Programa Mais Médicos.

Descritores: Atenção Primária à Saúde; Relações Interprofissionais; Equipe de Assistência ao Paciente; Estratégia Saúde da Família; Médicos; Comportamento Cooperativo

ABSTRACT

Objectives:

to compare the attitudes regarding interprofessional collaboration of health professionals that make up the Family Health Strategy teams participating in the ‘More Doctors’ (Mais Médicos) program; and to identify factors associated with attitudes of interprofessional collaboration.

Method:

a descriptive, transversal and comparative study developed with 63 health professionals who responded to the Jefferson Scale of Attitudes Toward Interprofessional Collaboration. The data were statistically analyzed.

Results:

the sum of the scale items ranged from 88 to 139 points. The analysis of all the Family Health teams indicated statistically significant differences between the scores of the scale and the professional category and between the scores and the education level, suggesting that nurses and professionals with higher education are more inclined towards collaborative practice. The analysis according to the profile of the doctor - Brazilian, Cuban or foreign exchange doctor - found no statistical differences regarding the physicians’ scores, nor in the scores of the components of teams with different profiles.

Conclusion:

the profile did not suggest a statistically significant greater or lesser inclination of the doctors or teams toward interprofessional work. This study can support new studies which will contribute to the analysis of inter-professional collaboration and the impact of the Mais Médicos program.

Descriptors: Primary Health Care; Interprofessional Relations; Patient Care Team; Family Health Strategy; Physicians; Cooperative Behavior

RESUMEN

Objetivos:

comparar las actitudes en relación a la colaboración interprofesional de profesionales de la salud componentes de equipos de la Estrategia Salud de la Familia, participantes del Programa Más Médicos; e identificar los factores asociados a actitudes de colaboración interprofesional.

Método:

estudio descriptivo, transversal y comparativo, desarrollado con 63 profesionales de la salud que respondieron a la Escala Jefferson de Actitudes Relacionadas a la Colaboración Interprofesional. Los datos fueron analizados estadísticamente.

Resultados:

la suma de los ítems de la escala varió de 88 a 139 puntos. El análisis del conjunto de los equipos de la ESF indicó diferencias estadísticas significativas entre los puntajes de la escala y la categoría profesional y entre los puntajes y la escolaridad, sugiriendo que los enfermeros y los profesionales con nivel superior son más inclinados para la práctica colaborativa. El análisis según el perfil del médico - brasileño, participante de intercambio o cubano - no determinó diferencias estadísticas en los puntajes de los médicos ni en los puntajes de los componentes de los equipos de diferentes perfiles.

Conclusión:

el perfil no sugirió mayor o menor inclinación, con significación estadística, de los médicos o de los equipos para el trabajo interprofesional. Este estudio, inédito en Brasil, puede auxiliar nuevas investigaciones que contribuyan para realizar análisis más robustos sobre la colaboración interprofesional y el impacto del Más Médicos.

Descriptores: Atención Primaria de Salud; Relaciones Interprofesionales; Grupo de Atención al Paciente; Estrategia de Salud Familiar; Médicos; Conducta Cooperativa

Introdução

A colaboração interprofissional, entendida como aquela em que profissionais atuam de forma integrada, compartilhando objetivos e colocando os usuários na centralidade do processo, vem sendo amplamente discutida. Ela tem sido apontada como premissa para reorientar o modelo de formação e de atenção à saúde e, também, elevar a capacidade de resposta às demandas de saúde da população, fortalecendo, assim, os sistemas de saúde1-3.

Diante das necessidades de saúde cada vez mais dinâmicas e complexas, marcadas pelo incremento de novos riscos infecciosos, ambientais e comportamentais, fica mais evidente a importância da interprofissionalidade, a qual pressupõe a conciliação de saberes e práticas e o gerenciamento de visões distintas - até mesmo opostas - num processo permanente de compartilhamento entre diferentes profissionais4.

No Brasil, essa abordagem assume singular importância a partir da premissa de que “o Sistema Único de Saúde (SUS) é interprofissional”5, uma vez que o SUS é orientado pelos princípios da integralidade, equidade e universalidade, contempla fortes bases estruturantes para a educação e a colaboração interprofissional. Esses princípios ganharam mais força com o advento da Atenção Primária à Saúde (APS) que, por meio da Estratégia Saúde da Família (ESF), enquanto modelo de reorientação do SUS, incorpora diversas profissões em equipes para atuação compartilhada.

No entanto, a Estratégia Saúde da Família (ESF), desde a sua criação, enfrenta dificuldades de expansão relacionadas à escassez e à distribuição desigual do médico, especialmente em territórios de grande vulnerabilidade social, já que esse profissional é essencial para composição das equipes. Tal cenário compromete, de forma importante, a resolubilidade desse nível de atenção, porta de entrada preferencial do SUS6.

Para o enfrentamento dessa situação, historicamente, o governo brasileiro implementou diversas políticas de extensão de cobertura e interiorização da medicina. Mais recentemente, em 2013, foi implantado o Programa Mais Médicos (PMM), que compreende um conjunto de ações, visando abrandar a insuficiência de médicos na APS, entre elas o provimento emergencial desse profissional na ESF7. Com esse objetivo, foram incluídos mais de 18 mil médicos brasileiros e intercambistas em equipes multiprofissionais, garantindo assistência a 63 milhões de brasileiros.

Para além da conformação numérica das equipes e expansão da ESF, espera-se que o contexto promovido pelo PMM desencadeie repercussões positivas na dinâmica do processo de trabalho e no atendimento às necessidades da população. Nesse sentido, as práticas de saúde encontram nos princípios de colaboração e interprofissionalidade importantes recursos para a otimização dos resultados assistenciais1.

Apesar da conformação multiprofissional das equipes da ESF, no cotidiano do trabalho, ainda são percebidos entraves que obstam a prática colaborativa, entre eles a postura individualista dos profissionais em face do processo de trabalho em equipe8, que decorre, sobremaneira, de um processo de formação acadêmico uniprofissional9.

Dado o pouco tempo de implantação do PMM, ainda são escassos os estudos sobre o impacto desse programa, e inexistem estudos em que se visa demonstrar diferenças relacionadas aos aspectos do trabalho interprofissional.

Posto isso, neste artigo assume-se como tema central a prática colaborativa no âmbito do PMM, com a pretensão de responder a seguinte questão de pesquisa:

- há diferenças de atitudes em relação à colaboração interprofissional de profissionais componentes de equipes de Estratégia Saúde da Família participantes do Programa Mais Médicos?

Assim, os objetivos delineados para este estudo foram: comparar as atitudes em relação à colaboração interprofissional de profissionais de saúde componentes de equipes da Estratégia Saúde da Família, participantes do Programa Mais Médicos, tendo em vista três diferentes perfis: equipe com médicos brasileiros, equipe com médicos intercambistas individuais e equipe com médicos advindos da cooperação entre a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Brasil e Cuba; e identificar fatores associados a atitudes de colaboração interprofissional.

Método

Estudo descritivo, transversal, comparativo e quantitativo, desenvolvido em Minas Gerais, Brasil, no território sob atuação de quatro instituições supervisoras do PMM no Estado: Região Central - Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte (SMSA-BH); Norte - Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes); Vale do Jequitinhonha - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM); e Triângulo Mineiro - Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Essas instituições, em conjunto, são responsáveis pela supervisão de 448 médicos do eixo do provimento emergencial integrantes de equipes de saúde da família, cujo conjunto de profissionais constituiu a população do estudo.

Para fins de seleção dos médicos, adotou-se, como critério de inclusão, a realização por parte dos mesmos do 1º ciclo formativo do projeto, o Curso de Especialização em Saúde da Família. Os profissionais de saúde, por sua vez, deveriam atuar diretamente com o médico e ser preferencialmente, mas não exclusivamente, componentes da equipe mínima da ESF, com tempo mínimo de atuação na ESF de um ano.

Os critérios de exclusão delimitados foram: encontrar-se em férias, licença ou afastamento de suas funções durante o período da coleta de dados.

Para determinação da amostra, incluíram-se aleatoriamente, por sorteio, três equipes da ESF por território de atuação (instituição supervisora), sendo uma de cada perfil: equipe com médico de perfil brasileiro, equipe com médico intercambista e equipe com médico cooperado (cubano). A exceção foi aplicada ao território da UFVJM, em que foram incluídas apenas duas equipes, em razão de o médico de perfil intercambista da equipe sorteada ter finalizado o seu contrato e retornado a seu país de origem dias antes da coleta de dados. Dois novos sorteios de equipes foram realizados, mas não houve aceite do convite por parte dos médicos.

A amostra final totalizou 63 sujeitos, dentre os quais 11 médicos e 1 assistente social, o qual compunha uma das equipes da ESF.

Os dados foram coletados entre novembro e dezembro de 2016, por meio da Escala Jefferson de Atitudes Relacionadas à Colaboração Interprofissional (EJARCI), que tem por finalidade mensurar a atitude em relação à colaboração interprofissional de profissionais da saúde. Esse instrumento foi recentemente adaptado transculturalmente e validado no Brasil. A adaptação seguiu as etapas de tradução, retrotradução, avaliação por comitê de especialistas e aplicação de pré-teste. Na sequência, o instrumento foi submetido à validação de constructo e de confiabilidade com 128 profissionais da APS10.

O instrumento original, Jefferson Scale of Attitudes Toward Interprofessional Collaboration (EJARCI), foi desenvolvido em 201411, tendo sido testado e validado com 1.976 estudantes americanos e australianos de diferentes profissões da saúde.

A EJARCI é estruturada em 20 itens, os quais devem ser respondidos utilizando variáveis de concordância/discordância mediante escala do tipo Likert com 7 níveis, sendo o menor nível discordo completamente (1), e o maior nível concordo completamente (7). A atitude em relação à colaboração é refletida no escore total na escala, que pode variar de 20 a 140, com pontuações mais altas indicando atitudes mais positivas.

Aplicou-se, também, um questionário para determinação do perfil do respondente, com variáveis relacionadas ao histórico de formação e trabalho.

Os dados foram analisados estatisticamente por meio do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 21. Assumiu-se, para os testes de hipóteses, significância de 5%.

Dos 20 itens da escala, 8 são cotados de forma inversa e, por isso, para a análise, tais itens foram recodificados, isto é, realizou-se a inversão dos pontos de forma equivalente, conforme recomendação dos autores10-11.

A consistência interna do instrumento foi testada a partir do teste Alfa de Cronbach, considerando como bom nível de consistência um valor superior a 0.7.

As comparações das pontuações totais da EJARCI foram feitas com base nas pontuações brutas: média, mediana e Desvio-Padrão (dp). Para identificar o grau de associação entre as respostas da EJARCI e o tempo de formação, de atuação profissional, de atuação no SUS e na ESF realizou-se o teste de correlação de Spearman.

Para compreender as diferenças na distribuição de resposta da escala entre profissionais com diferentes graus de instrução foi adotado o teste U de Mann-Whitney, e, para testar a diferença entre as respostas, de acordo com a categoria profissional e tipo de equipe, foi adotado o teste de Kruskal-Wallis. Nessa análise, quando da ocorrência de rejeição da hipótese nula, aplicouse o teste de múltiplas comparações de Dunn com correção de Bonferroni, a fim de identificar quais pares apresentaram distribuição estatisticamente significativa.

Em obediência às diretrizes da Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde do Brasil, o projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de São Paulo, sob CAAE 47794815.6.0000.5414, tendo sido aprovado sob Parecer nº 1.265.019, de 6 de outubro de 2015.

Resultados

Participaram do estudo 63 profissionais, dos quais 88,9% eram mulheres. A média de idade foi de 38,6 anos (±9,04) (Tabela 1).

Considerando as respostas da escala pelos 63 respondentes, a pontuação final do somatório dos itens variou de 88 a 139 pontos, com mediana de 121 (±11,97; IC95%: 119,56-122,09). Observou-se alto nível de consistência interna da escala determinado pelo Alfa de Cronbrach igual a 0,71.

Tabela 1 Perfil sociodemográfico dos profissionais da Estratégia Saúde da Família (n=63). Minas Gerais, Brasil, 2016 

Variáveis Média (±dp*) IC95% da média
Idade (anos) 38,6 (±9) [36,3 - 40,8]
Tempo de formação (anos) 9,78 (±7,9) [6,65 - 12,90]
Anos de profissão 8,23 (±6,6) [6,56 - 9,89]
Anos no Sistema Único de Saúde 6,3 (±5,3) [4,96 - 7,63]
Anos na Estratégia Saúde da Família 5,36 (±4,2) [4,28 - 6,43]
Sexo n %
Feminino 56 88,9
Masculino 7 11,1
Território de atuação
Uberlândia 21 33,3
Belo Horizonte 13 20,6
Montes Carlos 21 33,3
Diamantina/Couto Magalhães 8 12,7
Ensino superior
Não 35 55,6
Sim 28 44,4
Especialização
Sim 19 30,2
Não 9 14,3
Não se aplica 36 55,6
Perfil da equipe
Brasileiro 18 28,6
Cubano 27 42,9
Intercambista 18 28,6
Profissão
Agente comunitário de saúde 31 49,2
Assistente social 1 1,6
Enfermeiro 11 17,5
Médico 11 17,5
Técnico/auxiliar de enfermagem 9 14,3

*dp - Desvio-Padrão; †IC - Intervalo de Confiança

O teste de Kruskal-Wallis, conduzido para determinar se houve diferenças nos escores da EJARCI dos médicos de diferentes perfis, não indicou diferenças estatisticamente significantes (p=0,315). O perfil de equipe do PMM também não produziu diferenças nos escores dos profissionais (p=0.924). É interessante ressaltar que o perfil do médico, quer seja brasileiro, quer seja intercambista ou cubano, não refletiu, nesta amostra, em maior ou menor inclinação dos componentes da equipe para o trabalho interprofissional (Tabela 2).

Tabela 2 Análise entre as respostas à Escala Jefferson de Atitudes Relacionadas à Colaboração Interprofissional dos profissionais da Estratégia Saúde da Família e o perfil da equipe, segundo o Programa Mais Médicos. Minas Gerais, Brasil, 2016 

Perfil da equipe N Média Mediana Desvio-padrão p-valor
Médicos (n=11)
Brasileiro 4 120,7 121 3,3 0,315
Cooperado (Cubano) 4 127,2 127,5 4,1
Intercambista 3 126,6 132 15,6
Equipes (n=63)
Brasileiro 18 119 121 12,2 0,924
Cooperado (Cubano) 27 119,4 122 12,5
Intercambista 18 118,5 117,5 11,5

Conforme está exposto na Tabela 3, a comparação dos escores entre os diferentes grupos profissionais resultou em diferenças com significância estatística (p=0,001), com escores mais elevados para os enfermeiros. A análise post hoc para identificação dos pares que diferiram revelou diferenças estatisticamente significantes nos escores entre enfermeiros e agentes comunitários (p=0,001).

Foi identificada diferença estatisticamente maior em profissionais com nível superior (p<0,001), enquanto o escore dos profissionais com especialização não diferiu (p=0,383).

A nacionalidade e a natureza jurídica das instituições de ensino superior onde se graduaram os médicos não atribuíram diferenças significativas em relação aos escores obtidos com as respostas desses profissionais (p=0,662; p=1, respectivamente), como indicado na Tabela 4.

A análise entre a média das respostas da escala e o tempo de profissão resultou em correlação positiva e significante (R(s)=0368; p=0,003), insinuando que quanto maior o tempo de profissão, maior é a disposição para atitudes colaborativas. A apreciação comparativa entre o escore da escala e o tempo de formação dos respondentes (R(s)=-003; p=0,987), de atuação no SUS (R(s)=-008; p=0,973) e de atuação na ESF (R(s)=-030; p=0,897), por sua vez, não indicou correlação.

Tabela 3 Análise entre as respostas à Escala Jefferson de Atitudes Relacionadas à Colaboração Interprofissional e os diferentes profissionais da Estratégia Saúde da Família (n=63). Minas Gerais, Brasil, 2016 

Profissão N Média Mediana Desvio-padrão Intervalo de confiança de 95% para média p-valor
Limite inferior Limite superior
Agente comunitário 31 112,7 110 11,91 108,3 117 0,001
Assistente social 1 - - - - -
Enfermagem 11 128 130 7,97 122,6 133,3
Medicina 11 124,7 124 8,22 119,2 130,2
Técnico/auxiliar de enfermagem 9 122,4 126 9,26 115,3 129,5

Tabela 4 Análise entre as respostas à Escala Jefferson de Atitudes Relacionadas à Colaboração Interprofissional dos profissionais da Estratégia Saúde da Família e variáveis de formação acadêmica. Minas Gerais, Brasil, 2016 

Variável N Média Mediana Desvio-padrão p-valor
Equipe (n=63)
Ensino superior
Não 35 113,7 115 11,9 0,000
Sim 28 125,7 127 8,2
Especialização
Não 9 122,1 129 11,1 0,383
Sim 19 127,4 127 6,1
Médicos (n=11)
Nacionalidade
Brasileira 6 123,8 123,5 5,5 0,662
Estrangeira 5 125,8 127 11,3
Natureza da IES*
Pública 7 124,5 124 9,5 1,00
Privada 4 125 125,5 6,4

*IES - Instituição de Ensino Superior

Discussão

Nesta pesquisa, agregou-se conhecimento atualizado sobre a colaboração interprofissional entre diferentes componentes de equipes da ESF no Brasil, a qual pressupõe esforço mútuo, diálogo e compartilhamento de informações e ações, com vistas à resolubilidade dos problemas de saúde da população. Isso implica conhecer e compreender as atribuições de cada profissional, bem como sua importância enquanto componente da equipe, em perspectiva horizontal12. Nesse entendimento, as relações profissionais construídas sob o viés histórico da hierarquia podem afetar as atitudes dos trabalhadores da saúde em relação à prática colaborativa.

Neste estudo, é possível constatar que as atitudes dos enfermeiros foram mais positivas que as dos demais profissionais. Esse resultado é consistente com achados prévios de estudos em que foram aplicadas escalas semelhantes à utilizada nesta pesquisa, no intuito de estabelecer comparações entre médicos e enfermeiros13-17.

O envolvimento do profissional de enfermagem é vital para o avanço da APS e, consequentemente, do SUS e da ampliação do acesso aos cuidados primários baseados em evidências científicas e seguras18. Para tanto, enfermeiros e médicos precisam fortalecer as relações colaborativas e trabalhar lado a lado com o objetivo de fornecer cuidados eficazes à população19.

Apesar do destaque do grupo de enfermeiros, o escore médio dos diferentes grupos profissionais foi elevado (>112), o que demonstra que todas as categorias têm atitudes a favor da colaboração interprofissional, conforme encontrado em outro estudo20.

O ensino superior, nesta amostra, atuou como variável interveniente no resultado da escala, indicando maior disponibilidade dos graduados à colaboração. Também foi encontrada relação positiva entre os anos de prática profissional e a colaboração interprofissional, tal como em estudo empreendido com médicos e enfermeiros americanos21.

Sobre a formação em saúde, a literatura aponta que ainda há resistência para a superação de processos formativos que legitimam um modelo de atenção à saúde pautado na fragmentação do trabalho. Assim, os profissionais permanecem sendo formados numa perspectiva uniprofissional para, no futuro, trabalharem em equipe, contrassenso que acarreta implicações para o desenvolvimento e qualidade das ações de saúde oferecidas22.

Nesse sentido, o desenvolvimento de competências colaborativas ainda é desafiador para o modelo hegemônico de formação em saúde, já que esse centra esforços no desenvolvimento de competências específicas, fortalecendo o que a literatura vem chamando de tribalismo das profissões23-24.

Uma das características mais fortes, e que justifica a colaboração como diferencial para a reorientação das práticas de saúde, é a centralidade do usuário na produção dos serviços de saúde. É essa centralidade que demanda os demais princípios da colaboração: compartilhamento dos objetivos comuns; parceria que estimula o processo permanente de interação; interdependência enquanto reconhecimento do caráter complementar das diferentes profissões; e equilíbrio de poderes entre elas25.

Nessa perspectiva, há muito a ser feito para assegurar que a formação profissional em saúde tenha como foco a população e as necessidades dos sistemas de saúde e, também, para que os profissionais de saúde atuem de modo integrado em prol da oferta de cuidados integrais, como previsto nas diretrizes do SUS26.

A operacionalização da Reforma Sanitária no Brasil delongou-se por mais tempo que em países com sistemas de saúde orientados pela APS, como Canadá, Espanha e Cuba. Nesses países, a formação, já nos anos 1980, foi regulamentada com base na APS, assumindo a residência médica na área como padrão-ouro de formação e como obrigatoriedade para incorporação ao sistema de saúde27-29.

Nessa linha, em estudo produzido em relação ao PMM, aponta-se que os intercambistas e cooperados possuem habilidades e experiências práticas diferenciais em relação aos médicos brasileiros, como a centralidade na abordagem comunitária; o partilhamento de conhecimentos e práticas com o conjunto da equipe; e o estabelecimento de vínculo estreito com o usuário e a comunidade. Tais competências contrastam com a prática de grande parte dos médicos brasileiros, que ainda mantém centralidade excessiva na abordagem individual e uniprofissional30.

Poder-se-ia esperar, então, que os diferentes perfis médicos produzissem diferenças estatísticas em relação às atitudes interprofissionais, o que não foi observado neste trabalho, embora os escores dos intercambistas e cooperados tenham superado as pontuações dos médicos brasileiros.

Considerando que todos os médicos incluídos neste estudo se submeteram ao 1º ciclo formativo do projeto, o Curso de Especialização em Saúde da Família, esse pode ser um dos motivos para a não produção de resultados diferenciados entre os distintos perfis dos médicos.

O fato é que o PMM é recente e ainda são necessárias evidências sobre as implicações da presença do médico do provimento emergencial na dinâmica do trabalho em saúde, que é, em sua essência, coletivo. Acredita-se, no entanto, que o PMM constitui forte dispositivo de intercâmbio de experiências e práticas entre profissionais estrangeiros e brasileiros e de produção de mudanças no processo de trabalho.

As limitações do estudo incluem a determinação da amostra sem cálculo, de modo que o tamanho amostral pode não ser representativo. Assim, a generalização dos resultados deve ser vista com cautela. A ausência de estudos documentados de aplicação da EJARCI pode ser também reconhecida como um limitante, já que restringiu a comparação dos dados.

Não obstante, este estudo, de caráter inédito no Brasil, configura-se como ponto de partida para novas investigações que contribuam para análises mais aprofundadas sobre a colaboração interprofissional nas equipes da ESF, bem como para avaliação do impacto do PMM sob diferentes perspectivas.

Conclusão

Os resultados indicaram que, no conjunto das equipes do PMM estudadas, o perfil brasileiro, cubano ou intercambista não implicou diferenças estatísticas relacionadas às atitudes colaborativas; por outra via, a formação superior e o maior tempo de atuação profissional mostraram ter efeito positivo sobre elas. Evidenciou-se, ainda, que as perspectivas divergentes, previamente demonstradas em outros estudos, sobre a colaboração interprofissional entre diferentes profissionais também podem existir na APS, ratificando os enfermeiros como a categoria profissional mais inclinada para as práticas colaborativas.

Estudos futuros são necessários para testar a influência de diferentes variáveis na atitude profissional para práticas colaborativas, nos quais se comparem as atitudes interprofissionais entre equipes participantes e não participantes do PMM.

References

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Recebido: 16 de Março de 2018; Aceito: 23 de Abril de 2018

Correspondência: José Rodrigues Freire Filho Universidade de São Paulo. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto Av. Bandeirantes, 3900 Bairro: Monte Alegre CEP: 14049-900, Ribeirão Preto, SP, Brasil E-mail: joserodrigues.saude@gmail.com

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