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Saúde e Sociedade

Print version ISSN 0104-1290

Saude soc. vol.22 no.3 São Paulo July/Sept. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-12902013000300027 

PARTE III - RELATO DE EXPERIÊNCIA

 

Expressão livre de jovens por meio do Fanzine: recurso para a terapia ocupacional social1

 

Free expression of young people through Fanzine: resource for social occupational therapy

 

 

Roseli Esquerdo LopesI; Patrícia Leme de Oliveira BorbaII; Gustavo Artur MonzeliIII

IDoutora em Educação, com pós-doutorado em Saúde Pública. Professora Titular do Departamento de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Coordenadora do Grupo de Pesquisa Cidadania, Ação Social, Educação e Terapia Ocupacional. Endereço: Laboratório METUIA/UFSCar. Rodovia Washington Luiz, Km 235, Caixa Postal 676, CEP 13565-905, São Carlos, SP, Brasil. E-mail: relopes@ufscar.br
IIDoutora em Educação. Professora Adjunta do Departamento de Saúde, Educação e Sociedade do Campus da Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo. Integrante do Grupo de Pesquisa Cidadania, Ação Social, Educação e Terapia Ocupacional. Endereço: Universidade Federal de São Paulo - Departamento de Saúde, Educação e Sociedade. Avenida Ana Costa, 95, Vila Mathias, CEP 11060-001, Santos, SP, Brasil. E-mail: patricialemeborba@hotmail.com
IIIMestre em Terapia Ocupacional. Professor Assistente do Departamento de Educação Integrada em Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo. Integrante do Grupo de Pesquisa Cidadania, Ação Social, Educação e Terapia Ocupacional. Endereço: Universidade Federal do Espírito Santo - Departamento de Educação Integrada em Saúde. Avenida Marechal Campos, 1.468, Maruípe, CEP 29043-900, Vitória, ES, Brasil. E-mail: gustavo.monzeli@gmail.com

 

 


RESUMO

Integrando as atividades do Núcleo UFSCar do METUIA que, há mais de dez anos, vem desenvolvendo intervenções sociais calcadas na terapia ocupacional social, na educação e na defesa da cidadania, voltadas para o universo juvenil, este estudo realizou Oficinas de Atividades com jovens que frequentavam uma Escola Pública e/ou um Centro da Juventude, ambos equipamentos sociais de um bairro periférico, com o intuito de elaborar, confeccionar e distribuir fanzines. Tinha-se por objetivos a potencialização de formas alternativas de comunicação, da livre expressão, da criação dentre os jovens, assim como a análise do processo da construção do fanzine como recurso para a terapia ocupacional social, em práticas que articulavam espaços formais e não formais de educação. A discussão do processo de intervenção, tanto em termos da educação quanto da ação terapêutico-ocupacional, ocorreu a partir de autores tais como Paulo Freire e aqueles do campo da Terapia Ocupacional Social. Dentre seus resultados, verificou-se que os processos em torno do fanzine constituíram-se um recurso para a promoção de reflexões relacionadas a vivências daqueles jovens, para a ampliação de seus repertórios e possíveis projetos individuais e coletivos, permitindo a expressão de opiniões que questionam instituições, como "família", "escola", "polícia", e o "tráfico de drogas". As possibilidades da circulação do fanzine e de seus conteúdos adensam esse recurso, tornando-o, do ponto de vista dos seus realizadores, paradoxalmente interessante e "perigoso" pela exposição que provoca, requerendo o diálogo e a articulação entre juventude, comunidade e equipamentos sociais, fomentando tecnologias sociais.

Palavras-chave: Juventude; Terapia Ocupacional Social; Fanzine.


ABSTRACT

METUIA's centre at UFSCar (Federal University of São Carlos) has developed, for more than ten years, social interventions in the youth universe based in Social Occupational Therapy regarding education and citizenship defense. This study made use of Activities Workshops with youngsters that attend to a Public School and/or a Youth Center located in the suburb. The objective was to elaborate, produce and distribute fanzines, in order to enhance alternative ways of communication, free expression and creative process, as well as to analyze the production of fanzines as a resource of social-occupational therapy, in practices that articulate both formal and non-formal spaces of education. The discussion of the intervening process, both in terms of education and of therapeutic occupational actions, has been done based in Paulo Freire and other similar authors in the field of Social Occupational Therapy. Among the results, it was found that the processes around the fanzine became a resource for promoting insights related to youngsters' experiences, a widening of repertory and individual and collective projects, allowing (and encouraging) opinions that question institutions like "family", "school", "police", the "drug traffic". The possibilities of circulating fanzines and its content weigh up this resource, that becomes, from de point of view of their producers, interesting and dangerous simultaneously, because of the exposure it determines; this results in a need for dialogue and articulation among the youngsters, community and social equipment, promoting and encouraging social technologies.

Keywords: Youth; Social Occupational Therapy; Fanzine.


 

 

Introdução

O Projeto METUIA2 e o Grupo de Pesquisa "Cidadania, Ação Social, Educação e Terapia Ocupacional" (1999) têm se dedicado à realização de estudos e pesquisas, formação de recursos humanos e à "implementação" de intervenções no campo social que discutam o papel dos técnicos e suas contribuições no enfrentamento de problemáticas contemporâneas (Lopes, 2006).

O Núcleo UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) do METUIA tem priorizado atividades junto a jovens de grupos populares urbanos e, desde 2005, desenvolve ações em uma região periférica e empobrecida de uma cidade do interior do Estado de São Paulo. Nesse sentido, buscam-se fomentar e ampliar ações calcadas na educação e na defesa da cidadania, para adolescentes e jovens vulneráveis socialmente (Lopes, 2006; Lopes e col., 2008).

O presente texto traz os resultados de um dos projetos que foi desenvolvido por esse Núcleo, a saber: Expressão Livre dos Jovens por meio do Fanzine: Recurso para a Terapia Ocupacional Social. Tratou-se de uma pesquisa-intervenção (Passos e col., 2009), na qual se tinha como objetivo a potencialização de formas alternativas de comunicação, da livre expressão, da criação dentre os jovens, por meio da realização de Oficinas de Atividades em uma Escola Pública e em um Centro da Juventude, com a elaboração, confecção e distribuição de fanzines; pari passu, objetivou-se, também, analisar o processo da construção dos fanzines como recurso de intervenção para a terapia ocupacional social, em práticas que articulem espaços formais e não formais de educação, na direção da promoção de reflexões relacionadas a determinadas dimensões da vida de jovens pobres urbanos no Brasil.

Algumas dessas dimensões residem na ampliação do repertório de vivências desses jovens, na construção de possíveis projetos individuais e/ou coletivos e na discussão acerca da realidade de exclusão enfrentada por muitos deles.

Os sujeitos referidos neste estudo compõem a população jovem pobre e urbana, em situação de vulnerabilidade e de desvantagens, principalmente por possuir menos experiência profissional, pouca qualificação e, consequentemente, menor acesso ao mundo do trabalho, o que acarreta a redução das suas oportunidades e/ou a sua absorção apenas na economia informal. Essa situação mantém a irregularidade do trabalho para o jovem pobre, realimentando um ciclo contínuo de inserção precária ou de exclusão, trazido da condição social (Lopes e col., 2008).

Sua vulnerabilidade, expressa também por inúmeros índices relacionados à violência3, tem alcançado patamares alarmantes em nosso país, num contexto em que as políticas públicas são, em grande parte, insuficientes, fragmentadas e/ou inadequadas (Lopes e col., 2006b).

Apesar das inúmeras dificuldades socioeconômicas daquela região presenciadas, cotidianamente, no âmbito da intervenção, que foram historicamente construídas, verificam-se a centralidade e a importância da Escola Pública para a compreensão dos contextos de jovens de grupos populares urbanos, pois, de fato, é nela que os encontramos. Nos últimos anos, especialmente com a expansão das matrículas no Ensino Médio no Brasil, tem sido ela um dos únicos equipamentos sociais que se volta para esse público (Adorno, 2001; Lopes e Silva, 2007). Todavia, inúmeros estudos têm demonstrado que a principal lacuna encontrada dentro de tais instituições refere-se ao fato de não conseguirem responder às necessidades reais de aprendizagem e ensino, principalmente dessa determinada parcela populacional (Lopes e col., 2011; Ferreira, 2008; Sposito, 2005; Zibas, 2005).

Diante do estado de vulnerabilidade social da imensa maioria dos jovens brasileiros, ao contexto das instituições educacionais públicas e à potencialidade das práticas educativas não formais, é necessário buscar recursos que ampliem as redes sociais de suporte a esses jovens, criando espaços de pertencimento e possibilidades de tomada de consciência crítica que, conforme Freire (1979a e 1979b), possam tensionar o estado de desigualdade generalizada.

Dentro do contexto de educação não formal (Park e Fernandes, 2005) e da terapia ocupacional social (Barros e col., 2002a), compartilha-se do pressuposto de que o processo de elaboração de um fanzine configura-se como um recurso com significativo potencial para práticas socioeducativas que se pautem pela autonomia dos sujeitos envolvidos, bem como pela noção de cidadania e de seus direitos e deveres correlatos.

De acordo com Magalhães (2003), o termo fanzine é um neologismo que se origina da união de duas palavras do vocabulário inglês, fanatic (fã) e magazine (revista). Esse neologismo foi cunhado por Russ Chauvenet, em 1941, para dar nome às publicações artesanais que, nessa época, proliferavam nos Estados Unidos. Os fanzines seriam veículos livres de censura, já que "neles seus autores divulgam o que querem, pois não estão preocupados com grandes tiragens nem com lucro; portanto sem as amarras do mercado editorial e de vendagens crescentes" (Magalhães, 1993, p. 10).

Tais publicações podem estar em lugares aos quais a grande imprensa não consegue chegar, principalmente em função do isolamento geográfico (periferias e favelas), do alto custo dos meios de comunicação e/ou da própria impressão, ou até mesmo em função da linguagem elitizada desses meios de comunicação. Nessa perspectiva, o fanzine pode se tornar um veículo de livre expressão para aqueles que não têm liberdade nem espaço nos grandes meios de comunicação. Na maioria das vezes, são produções elaboradas por adolescentes e jovens que querem se manifestar, mas não têm outro espaço para fazê-lo (Carnicel, 2007).

Diante disso, pode-se dizer que a escolha do fanzine como um recurso para o trabalho junto a jovens passa por três importantes aspectos que este pode proporcionar àqueles que se envolvem com sua elaboração e confecção: a) a discussão crítica sobre aspectos gerais da sociedade; b) a expressão livre de ideias, sem cobranças ou censura; c) a satisfação pessoal de produzir e publicar algo de sua autoria.

Sendo assim, como dito anteriormente, no desenvolvimento da experiência que aqui relatamos, ao mesmo tempo em que elaboramos os fanzines com os jovens, buscamos investigar se esse processo podia se efetivar como um recurso para a terapia ocupacional social, a partir de práticas que articulam espaços formais e não formais de educação. A seguir, apresentamos a descrição de como procedemos para alcançar nossos objetivos.

 

Caminhos percorridos

No que se refere ao processo de elaboração dos fanzines, participaram das atividades propostas jovens que viviam em uma região da periferia de uma cidade do interior do Estado de São Paulo. Esses jovens frequentavam pelo menos um dos equipamentos sociais dessa região em que se realizavam intervenções do METUIA/UFSCar, a saber: uma Escola Pública (da rede estadual) e um Centro da Juventude. Tinham entre 12 e 29 anos, eram de ambos os sexos, inseridos ou não no contexto formal de educação. Paralelamente às demais atividades realizadas pela equipe do METUIA/UFSCar, foram propostas Oficinas de Atividades para elaborar, confeccionar e distribuir fanzines, as quais ocorreram semanalmente no período da tarde no Centro da Juventude e no período noturno na Escola Pública, durante todo o primeiro semestre de 2010.

Inicialmente, a proposta desta intervenção foi discutida com a equipe técnica do METUIA/UFSCar4. Destaca-se que, nesse processo de apresentação da proposta, a grande maioria dos integrantes da equipe técnica, apesar de já familiarizada com o uso do recurso referente à produção de jornais comunitários e/ou jornais murais no interior das proposições de ações junto aos jovens (e/ou outros públicos – crianças, adultos, idosos), desconhecia conceitualmente o significado da produção de fanzines.

Assim, foram realizadas a apresentação e a discussão das características e dos propósitos do fanzine, com vistas à sua apropriação pela equipe. Fundamental para a efetivação do processo, os técnicos precisariam transitar com desenvoltura não só pelas etapas necessárias para a produção dos fanzines, mas também pelas questões ideológicas e mesmo pelas posturas requeridas no contexto de sua elaboração. Posturas estas que eram pretendidas com a utilização desse recurso, sua proposição ideológica no âmbito de ampliação das experiências de vida de jovens pobres; além disso, como ferramenta para articular, estabelecer encontros entre espaços educativos "desarticulados" a priori, que se encontram no mesmo território, o espaço formal da Escola Pública e o não formal do Centro da Juventude.

Com isso, pôde-se dar início às intervenções específicas com os jovens. Nesse momento, algumas estratégias foram criadas para fazer com que os jovens primeiramente conhecessem a proposta do fanzine nas Oficinas. Ao longo do período de realização deste estudo foram elaboradas, confeccionadas e distribuídas três edições do fanzine, que recebeu o nome Espaço Fala Aí! Duas foram de temáticas livres, e a terceira, para experimentação, foi definida pelo tema "Gênero".

No total, foram confeccionadas 35 "matérias/produções". Cada produção correspondeu a uma forma diferenciada de estabelecimento de relação entre o jovem, a equipe e o próprio fanzine, desde relações mais superficiais, em que o jovem mais autonomamente escreveu e concedeu sua produção para integrar uma edição, até as mais frequentes, constituídas em processos de construções mais morosos e, de fato, em conjunto com o jovem e algum membro da equipe.

Em um segundo momento, visando à sistematização da análise do processo experimentado pelos diferentes sujeitos, foram elaborados instrumentos de avaliações com base nas discussões geradas no processo de construção do material para as edições e nos espaços de supervisão semanal de toda a equipe. Foram definidos três instrumentos com o objetivo de apreender as três diferentes perspectivas presentes: da equipe técnica, do jovem e dos gestores dos equipamentos sociais.

Tais instrumentos permitiram a coleta de dados acerca da percepção e da avaliação das pessoas envolvidas, com relação a quatro principais eixos de discussão: o conhecimento sobre o recurso; a livre expressão; a visibilidade do jovem; a articulação de espaços educativos. Também foram contemplados eixos específicos para cada grupo de participantes, como, por exemplo, "Satisfação Pessoal", para os jovens que produziram "matérias" para os fanzines, e "Recurso para a Terapia Ocupacional", para a equipe técnica. Além desse procedimento, que buscou apreender uma avaliação objetiva do maior número de pessoas envolvidas, foram realizadas entrevistas em profundidade, na tentativa de ampliar e qualificar as discussões sobre as temáticas em tela.

A análise dos dados obtidos durante todo o processo, que envolveu a produção, divulgação e distribuição dos fanzines, bem como a sistematização da avaliação por meio dos instrumentos criados e pelas entrevistas realizadas, foi feita tendo como referência os pressupostos teórico-metodológicos da Terapia Ocupacional Social (Barros e col., 2002a; Barros e col., 2007a) e da "Educação para a Liberdade" e outras contribuições do educador Freire (1979a e 1979b).

Por fim, categorizamos e analisamos os dados a partir de seis configurações que nos ofereceram parâmetros para a compreensão, a saber: 1) caracterização dos participantes e dos espaços; 2) sobre os processos vividos na construção dos fanzines; 3) tornar visível o invisível; 4) entre o ato da expressão livre e o limite da censura; 5) pontes estreitas entre a escola, o Centro da Juventude e o território; 6) fanzine: potente recurso para a Terapia Ocupacional Social.

 

Resultados e discussões

Caracterização dos Participantes e dos Espaços

A produção dos materiais para as edições do fanzine foi feita por meninos, meninas, adolescentes, jovens, adultos, brancos, negros, heterossexuais e homossexuais.

As discussões e produções na primeira edição foram sobre temas como identidade, violência policial, violência familiar, futuro, transporte público, questões de saúde, música, direitos da mulher e tráfico de drogas. Na segunda edição, os principais temas abordados pelos participantes foram questões acerca do trabalho e da sociedade, de diferentes visões de mundo, relacionamentos, política, educação de jovens e adultos, internet, do bairro onde vivem, música, além de depoimentos sobre a experiência em um presídio. Como explicitado anteriormente, a terceira edição foi temática e versou sobre gênero e comportamentos.

Os formatos escolhidos para a livre expressão das opiniões com relação aos temas foram textos, poemas, músicas e desenhos. A linguagem utilizada variou entre uma redação formal, para alguns textos mais informativos, até uma linguagem mais informal, observada em algumas músicas, por exemplo.

De um total de 25 jovens com os quais trabalhamos nas diferentes edições do fanzine, 52% eram rapazes e 48% eram garotas. Analisando esse dado, que se refere ao total de participantes no processo, somando os jovens inseridos tanto na Escola Pública da rede estadual de ensino quanto no Centro da Juventude, seria possível concluir que a inserção dos participantes foi independente do sexo. Contudo, o que se pôde perceber foi que existiram diferenças entre a participação de jovens do sexo masculino e de jovens do sexo feminino, a depender da instituição. A grande maioria das jovens do sexo feminino participou da construção do fanzine a partir da sua inserção na Escola, enquanto grande parte dos participantes do sexo masculino estava localizada fora desse contexto formal, participando das oficinas apenas no Centro da Juventude. Particularmente, este último equipamento tem baixa adesão de meninas. Essa questão já havia sido levantada e problematizada pela equipe de trabalho do METUIA junto à equipe daquele equipamento social.

É explícito que as famílias têm um controle maior sobre as meninas; muitas vezes, sua circulação permitida restringe-se ao percurso casa-escola e, no período contrário ao da escola, ficam sobrecarregadas com as tarefas domésticas, com o cuidado de seus irmãos e sobrinhos, ou de seus próprios filhos. Além disso, ainda se atrela, ao Centro da Juventude, um espaço também de esporte, lazer e de encontros, a imagem de um espaço proeminentemente masculino.

Verificou-se que 40% dos jovens que participaram da produção do fanzine encontravam-se fora da escola. Os jovens justificavam tal fato pelos mais diversos motivos e silêncios – sucessivas repetências e/ou ausências, por não conseguir acompanhar as aulas, pela jornada de trabalho, fosse este legal ou ilegal.

Independentemente de estar ou não frequentando a escola, o perfil dos jovens com os quais trabalhamos era bastante heterogêneo. Existiam jovens analfabetos, analfabetos funcionais e aqueles que dominavam a escrita, jovens ligados à criminalidade, que tinham cometido atos infracionais, jovens que trabalhavam e jovens que frequentavam diferentes instituições religiosas.

De qualquer forma, pode-se chegar a conclusões equivocadas se estes dados estiverem descontextualizados, já que, apesar de haver mais jovens inseridos no contexto formal de ensino, poder-se-ia supor que a maior parte dos textos foi produzida nos momentos de intervenção na Escola Pública. Entretanto, apesar de os participantes estarem mais inseridos no contexto formal de educação, a maior parte do material foi produzido nas oficinas realizadas no Centro da Juventude.

Outra questão remete à discussão sobre o perfil do jovem inserido na Escola Pública de periferia, no período noturno. Esse jovem precisa realizar uma jornada dupla, conciliando escola e trabalho. Essa jornada limitava a intervenção, pois inviabilizava a possibilidade da existência de encontros em outros espaços e horários diferentes dos da escola. Assim, as "matérias" que foram produzidas por esse jovem foram feitas de forma mais autônoma, com pouca interferência no processo por parte da equipe de trabalho.

Sobre os Processos Vividos na Construção dos Fanzines

O processo de construção dos fanzines teve como etapas: discussão das temáticas pela equipe de trabalho; convite aos jovens para a produção dos materiais; discussão das temáticas junto aos jovens; produção e captação dos materiais; estruturação gráfica; impressão; distribuição; avaliação do processo.

A discussão dos temas com os jovens foi realizada de duas formas. Em alguns momentos, dava-se coletivamente, no interior das oficinas do Centro da Juventude e em parte de nossa intervenção na Escola, principalmente quando se tratava de temas mais gerais, como cidadania e direitos, ou quando se tratou de um tema proposto pela equipe técnica, como na edição sobre as questões de gênero. Por vezes, essa discussão foi feita de forma mais individualizada, em que a ação da equipe técnica foi fundamental, desde o acolhimento do jovem e da temática que ele trazia até o cuidado necessário para efetivar os espaços de criação e livre expressão.

Nesse sentido, lançando mão de encontros semanais, do acompanhamento das atividades de campo e também da análise das entrevistas realizadas, pudemos identificar que existiu um cuidado no acolhimento das temáticas trazidas pelos jovens, um cuidado que está inserido e, neste caso, pôde ser efetivado por meio da relação terapêutico-ocupacional, ou seja, essa relação pôde proporcionar um nível de confiança mútua, estabelecendo vínculos e elaborações que não tinham base em valorações morais (Freire, 1996; Lopes e col., 2006a). Esse cuidado em receber a demanda do jovem sem um valor moralizante proporcionou um espaço de debate e, a partir disso, um espaço de criação e expressão.

Quanto ao processo de estruturação gráfica e impressão, identificamos algumas limitações, principalmente no que diz respeito à efetiva participação dos jovens. Uma importante característica do fanzine é a participação dos envolvidos no processo em todas as etapas de produção; contudo, notamos que a responsabilização nesse momento ficou a cargo de alguns integrantes da equipe técnica. Essa não participação dos jovens teve como possíveis motivos apontados nas entrevistas e avaliações o tempo disponível para a realização das edições e a falta de domínio referente aos programas necessários para a edição gráfica. Ainda no que tange ao "tempo", existia a intenção de que a impressão e a distribuição das edições ocorressem no menor tempo possível, pois se entendia que a distribuição funcionava como elemento capaz de criar e renovar a motivação para que novos materiais e edições do fanzine fossem criados. Isto se identificava no discurso dos jovens e no da equipe técnica.

Em relação à distribuição dos fanzines, observamos que esse processo possibilitou a satisfação pessoal de produzir algo, de ser autor e, assim, o defrontar-se efetivamente com outra importante característica do fanzine: a visibilidade de quem o produz.

Todos os jovens afirmaram ter gostado tanto do processo quanto dos resultados, referindo satisfação pessoal em produzir e distribuir algo de sua própria autoria. Disseram ter mostrado a produção para pessoas próximas, como familiares e amigos, apontando ainda que gostariam de repetir a experiência. Além disso, o processo de construção do fanzine contribuiu para o estreitamento de suas relações com a equipe técnica e com os outros jovens.

Tornar Visível o Invisível

São duas as principais linhas de questionamento geradas em torno do tema da visibilidade que o fanzine proporciona às pessoas envolvidas no processo: visibilidade como um fator que se agrega à participação, portanto, potencializa a adesão de novos jovens à proposta; a visibilidade como a possibilidade de o jovem se ver e se perceber, além de também ser visto e percebido de uma outra forma.

No primeiro ponto, nota-se, tomando-se o discurso de integrantes da equipe técnica, que, quando as edições do fanzine eram publicadas e distribuídas, alguns jovens que recebiam o material identificavam no fanzine a possibilidade de expressão de suas próprias ideias com a constatação de que outros jovens fizeram desse recurso um espaço para essa expressão.

Já no segundo ponto, identifica-se a visibilidade como possibilidade de outras perspectivas para o jovem. Nesse sentido, é preciso compreender o contexto em que eles estão inseridos, uma vez que, vivendo em um bairro de periferia, historicamente estigmatizado na cidade, com inserção e participação efetiva do comércio ilegal de drogas no tecido social, esses jovens, em sua grande maioria, são percebidos por meio dos enquadres da incapacidade e da criminalidade (Goffman, 1975).

De certa forma, o fanzine acaba invertendo tais perspectivas. O que antes era visto como incapacidade pode, com a livre expressão e criação, ser observado e valorizado. O potencial crítico para discussões, que era até então invisível, torna-se visível por meio da materialização desses conteúdos. A entrada do fanzine nesses espaços educacionais formais e não formais pôde transformar o que, em alguns momentos, era considerado como apatia em textos com alta capacidade crítica e reflexiva.

Entre o Ato da Expressão Livre e o Limite da Censura

Para 100% dos participantes, o fanzine carrega a possibilidade de livre discussão e expressão de ideias. Porém, esse foi o eixo de análise que mais gerou questionamentos, principalmente entre os integrantes da equipe técnica.

Nos momentos dos encontros semanais da equipe do METUIA e na análise de algumas entrevistas, surgiram diversos questionamentos em relação a essa livre expressão dos jovens com os quais trabalhamos, entre eles:

• É possível efetivar a livre expressão em um contexto institucional, como é o caso do Centro da Juventude, da Escola Pública e até mesmo da Universidade?

• E quando essa expressão se defronta e/ou se opõe aos ideais de outras "instituições", como o comércio ilegal de drogas ou a polícia?

• E se o conteúdo dessa expressão afetar identidades, como, por exemplo, identidades étnicas e sexuais?

• No caso específico de uma ação técnica, seria papel do profissional "cuidar" dessa expressão, ou não?

• Se sim, como efetivar esse cuidado garantindo a livre expressão a que se propõe, sem fazer censura?

Ocorreram situações que "problematizaram" essa característica fundamental para a construção do fanzine como veículo de comunicação eficaz para a discussão e expressão crítica de aspectos da sociedade em geral. Esse processo foi confrontado com situações que poderiam proporcionar uma exposição demasiada de alguns jovens, e o grupo acreditava que essa exposição poderia trazer prejuízos, com relação aos quais não se tinha domínio das possíveis proporções.

Exemplos dessa exposição surgiam principalmente se os textos produzidos questionavam "instituições" e fatos sociais presentes naquela região, como quando colocavam a própria opinião sobre o real papel da polícia, ou relatavam episódios observados em suas vivências, que vão de encontro àquilo que a "cidadania" e o Estado de Direito prevê como função social das forças de segurança pública. Igualmente, quando os questionamentos trazidos eram sobre a presença e o papel do comércio ilegal de drogas e do crime organizado naquele contexto.

Percebeu-se que a referida exposição era significativa e deveria ser cuidada, uma vez que os jovens eram conhecidos por muitos moradores, circulavam por diferentes espaços e estavam trazendo situações envolvendo polícia, crime organizado e comércio ilegal de drogas. Isto poderia ser motivo de censura ou represália, o que para nós era motivo de preocupação.

Assim, lidou-se com o que poderia ser feito para tentar minimizar os seus efeitos sem que os textos fossem alterados, preservando a liberdade de criação e expressão de ideias.

Essa preocupação emergia, igualmente, quando se verificava que não havia como saber quais eram os possíveis espaços que estavam sendo atingidos pela circulação do fanzine, não se sabia quantas nem quem eram as pessoas que o estavam recebendo para além do espaço da Escola e do Centro da Juventude, uma vez que os jovens, de posse dos exemplares, colocavam-nos em circulação de modo afetivo e aleatório, não previamente determinado. Esse não controle do limite espacial da circulação, que foi configurado pela distribuição do fanzine pelos participantes, mostrava-se paradoxal, ao mesmo tempo interessante e, possivelmente, "perigoso".

Com essa percepção, tentamos discutir possibilidades de preservar a integridade dos jovens que poderiam estar em uma situação delicada. Nesse sentido, buscou-se fazer uma diferenciação importante entre a livre expressão dentro de um espaço reservado da relação entre o jovem e o técnico e a publicação desse processo.

Pontes Estreitas entre a Escola, o Centro da Juventude e o Território: o Fanzine e a Terapia Ocupacional Social

Quando questionados sobre os espaços de circulação do fanzine, todos os participantes que colaboraram com a avaliação observaram a sua circulação nos espaços do Centro da Juventude. Vale destacar que os técnicos do equipamento não observaram a circulação em outros espaços que não o institucional. Em relação à resposta dos técnicos do METUIA, 92% observaram a circulação na escola, 23% na Universidade e 8% no bairro. Esses números se invertem quando tratamos das avaliações dos jovens, mostrando que apenas 20% observaram a circulação do fanzine na Escola, enquanto 100% observaram a circulação no bairro.

Fica evidente que a sua grande circulação esteve vinculada às instituições em que ele foi produzido, tanto na Escola quanto no Centro da Juventude, e ultrapassou os limites institucionais.

Contudo, esses dados demonstram a circulação a partir da visão dos participantes, o que pode ser representativo, mas não necessariamente totaliza os locais em que o fanzine pôde ter chegado. Vale destacar que o não controle do limite espacial por onde circula é uma das características mais importantes do fanzine, por isso seria impreciso afirmar exatamente os locais pelos quais as edições circularam.

Quando questionados sobre a possibilidade de o fanzine ser um veículo de comunicação entre os jovens, e entre eles e a comunidade na qual estão inseridos, todos os participantes responderam que acreditam no fanzine como um recurso capaz de possibilitar a comunicação entre diversos atores sociais.

Sobre a articulação de espaços educativos formais e não formais, todos os técnicos, tanto dos equipamentos quanto do Projeto METUIA, responderam que a experiência possibilitou uma articulação entre esses espaços. Todos os técnicos consideraram os processos em torno do fanzine como um recurso capaz de promover o diálogo entre os equipamentos sociais e o território em que estão inseridos.

O tensionamento é um quesito sempre presente nas intervenções que se propõem a lidar com o acesso de jovens de grupos populares periféricos aos equipamentos sociais a eles "destinados", mas, por tantas vezes, não reconhece suas demandas e propostas, e por outro lado leva o jovem a também não reconhecê-los. Lopes e Silva (2007) discorrem sobre essa questão no que tange à escola pública. Buscar construir pontes de acesso, diálogo e reconhecimento mútuo é um dos desafios que compõem o trabalho com esses sujeitos e não foi diferente com o fanzine.

A articulação entre equipe, equipamentos/serviços e o território/comunidade também é uma constante do campo. A noção da importância da ação territorial foi uma forte influência na proposição de trabalhos de terapeutas ocupacionais que atuavam pela superação das instituições asilares, manicomiais, a partir dos anos 1980 no Brasil. Estes eram fundamentados, principalmente, na experiência da Psiquiatria Democrática Italiana (Basaglia, 1979, 1985; Rotelli e col., 1990), que assumiu a ação territorial como uma das formas privilegiadas de desmonte da lógica manicomial, com a criação de serviços que se corresponsabilizassem pelo cuidado das pessoas com sofrimento psíquico, mas, para além dos serviços, a corresponsabilização na comunidade, de forma coletiva através do envolvimento de familiares, técnicos da saúde, amigos e comunidade em geral para a superação de um cuidado que era antes segregador. Processava-se uma mudança cultural na forma de concepção e acolhimento da "loucura" e se colocava como eixo central o sujeito como cidadão, portador de direitos, de uma história e de vida (Barros e col., 1999; 2002b; Barros e col., 2007a).

Essa concepção influenciou gerações de terapeutas ocupacionais até os dias de hoje e permaneceu como estratégia de ação na área, bem como o próprio desenho, a construção das políticas públicas sociais, com destaque para os setores da saúde e da assistência social, uma vez que tanto o SUS (Sistema Único de Saúde) como o SUAS (Sistema Único da Assistência Social) preconizam o desenvolvimento de ações territoriais, ou seja, os serviços precisam necessariamente estar próximos do seu público, próximos fisicamente – no sentido geográfico – e próximos de seu contexto – no sentido de levar em consideração os aspectos sociais, históricos, econômicos, políticos e culturais de um determinado lugar. Assim, podem decodificar como as relações naquele espaço se processam, como as pessoas vivem, pensam, sonham, trabalham, organizam seu cotidiano, por onde circulam, quais são suas atribuições de valores (Barros e col., 2007a).

O terapeuta ocupacional precisa desenvolver metodologias adequadas para a ação territorial, uma vez que coloca como um de seus nortes a promoção e a ampliação da participação social das pessoas com as quais trabalha, que por algum motivo – físico, emocional, cognitivo, social – têm limitadas suas possibilidades de autonomia e participação (Barros e col., 2002a).

No campo social, a limitação da participação se dá em grande parte das vezes pela violação nos direitos que compõem a cidadania das pessoas – saúde, educação, alimentação, moradia, assistência social – e/ou por déficits em sua inserção social, pela inexistência ou existência precária de um trabalho, ou ainda devido à fragilidade das redes sociais de suporte das quais poderia/deveria lançar mão (Barros e col., 2007a).

Assim, atuar nesse campo implica estar atento a como a rede de proteção social se configura e, tomando a relação com os sujeitos, individuais e coletivos aos quais se direcionam as ações, lidar com a demanda trazida por eles, uma vez que se parte da concepção da pessoa como sujeito de direitos, de saberes e de desejos. É preciso lidar com o princípio da responsabilidade territorial, de modo a desenhar um trabalho no qual a aproximação, o estabelecimento de vínculos de confiança e a apreensão das necessidades sejam feitas de forma mais próxima do real, assim como os caminhos que viabilizam os meios para sua resolução, caminhos estes que serão necessariamente intersetoriais (Lopes e col, 2010).

Quando questionados se o fanzine possibilita a visibilidade positiva dos jovens, todos os técnicos responderam que sim, que o processo de construção do fanzine e sua distribuição no território e nos equipamentos podem contribuir para que sejam vistos para além do lugar da criminalidade e da incapacidade.

Na avaliação específica com a equipe do METUIA, identificou-se que todos os técnicos participaram de processos de construção, individuais e coletivos, do fanzine com os jovens. Lidaram com diversos temas, dentre eles, gênero, cultura, contextos e histórias do próprio bairro, história de vida dos jovens, discussões sobre direitos e cidadania, saúde, trabalho e temáticas envolvendo questões de violência. Foram unânimes no que se refere à sua contribuição para a ação técnica com os jovens, seja pelo formato, seja pelo espectro de possibilidades que abarca diante das demandas levantadas pelos jovens.

Ainda para a equipe técnica, as reflexões proporcionadas pelo processo de construção/elaboração do fanzine instigaram a aproximação dos estudantes de graduação que começam a entrar em contato com o campo social, assim como as discussões sobre recursos na Terapia Ocupacional, em especial na Terapia Ocupacional Social. Por lidar com a expressão escrita de conteúdos, os estudantes de graduação acabavam por se identificar com o fanzine, evidenciando sua potencialidade também para a formação, já que seu custo é baixo e por possuir características muitas vezes trabalhadas e a serem apreendidas durante o processo de formação profissional.

 

Conclusões

Compreender e discutir as questões relacionadas à utilização dos recursos em Terapia Ocupacional é de extrema importância, uma vez que a instrumentalização teórico-prática do profissional pode potencializar sua intervenção. Nessa direção, a análise do processo de construção do fanzine, utilizado nesta proposição como recurso para a Terapia Ocupacional Social, levou-nos a questionamentos e discussão das ações propostas, tanto no âmbito coletivo – das instituições, da equipe e do território – quanto em relação aos jovens que estiveram conosco na realização das Oficinas de Atividades – Fanzines. Além disso, foi possível nos determos na apreensão e análise das características específicas desse recurso, assim como no papel do técnico nesse processo.

Desse modo, avaliamos que os objetivos propostos no estudo foram alcançados, na medida em que se conseguiu analisar e discutir os processos de construção/elaboração do fanzine e da própria ação técnica localizados no contexto da Terapia Ocupacional Social, no que tange à relação entre o terapeuta ocupacional e os sujeitos da intervenção. Foi contemplada também a questão focalizada nos recursos dos quais o terapeuta ocupacional pôde lançar mão na atuação no campo da adolescência e da juventude, dado que se buscou a aproximação com o universo imaginário juvenil, tornando a Oficina de Atividades um recurso-meio para o diálogo sobre as violências em suas diferentes formas, sobre os direitos de cidadania, individuais e coletivos, aspectos que precisam ser enfrentados no trabalho com a juventude pobre no Brasil, estabelecendo-se nexos teóricos e práticos com relação aos processos de intervenção.

Destaca-se neste estudo o potencial do fanzine como recurso para a Terapia Ocupacional Social, uma vez que este possibilita, na intervenção técnica, a discussão sobre diferentes temáticas levantadas e abordadas pelos próprios jovens participantes dos processos. Igualmente, destaca-se a importância das reflexões e elaborações relacionadas à livre expressão daqueles jovens, bem como a visibilidade que esse recurso pode possibilitar, confrontando e transcendendo as concepções baseadas em estereótipos ligados à criminalidade e à incapacidade, por meio da produção de materiais com qualidade tanto estética quanto em relação aos conteúdos.

Diante dessas considerações, ressalta-se que este trabalho foi realizado dentro de um recorte social específico, proporcionando aportes com relação a essa configuração. Os resultados aqui apresentados despertam outros questionamentos sobre os distintos recursos nas proposições que têm os jovens como sujeitos da ação. Aponta-se, portanto, a necessidade de continuidade de estudos que contribuam para o entendimento das relações que se criam nas intervenções técnicas com os jovens no território em que estão inseridos, com vistas à diminuição dos fatores de vulnerabilidade pessoal e social, promovendo, ao mesmo tempo, a visibilidade positiva, multifacetada e rica de possibilidades do jovem pobre nas cidades.

 

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Recebido em: 10/12/2011
Reapresentado em: 27/04/2013
Aprovado em: 07/06/2013

 

 

Financiamento: Ministério da Educação - Brasil. Parte dos resultados dessa pesquisa foi apresentada no XII Congresso Brasileiro de Terapia Ocupacional e IX Congresso Latino-Americano de Terapia Ocupacional, realizados na cidade de São Paulo - SP, Brasil, em outubro de 2011.
1  Este artigo é um dos desdobramentos da pesquisa-intervenção Expressão Livre dos Jovens por meio do Fanzine: Recurso para a Terapia Ocupacional Social desenvolvida com o apoio da Fapesp (Processo Nº 2009/54313-4), que compôs o projeto temático Juventude, Violência e Cidadania em Grupos Populares Urbanos: Intervenção Coletiva e Desenvolvimento Social, coordenado pela Profa. Dra. Roseli Esquerdo Lopes.

2  METUIA, uma palavra da língua nativa indígena brasileira, da comunidade bororo, que significa amigo, companheiro, denomina um grupo interinstitucional de estudos, formação e ações pela cidadania de crianças, adolescentes e adultos em processos de ruptura das redes sociais de suporte. Foi criado em 1998 por docentes de terapia ocupacional da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade de São Paulo (USP). Sua proposta tem sido a de desenvolver projetos no âmbito do ensino, da pesquisa e da extensão em terapia ocupacional social. Dentre suas atividades mais importantes, temos os programas de intervenção de terapia ocupacional em suas interconexões com os setores da assistência social, da cultura, da educação e também com a saúde. Ao longo desses anos, vários projetos têm sido desenvolvidos pelos diferentes núcleos do METUIA. Atualmente, três núcleos estão em atividade: o da USP, o da UFSCar e o da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A intervenção efetivada por eles decorre de projetos de extensão universitária e das parcerias estabelecidas em cada um deles, vindo a acontecer em espaços públicos, espaços comunitários e instituições sociais, como escolas, abrigos, centros comunitários e outras organizações sociais que atendem a populações em processo de ruptura de redes sociais de suporte (Barros e col., 2007b).
3 Em relação aos jovens, sobretudo aqueles de grupos populares, a violência tem se tornado constante e banalizada. Inúmeros dados têm demonstrado que esses jovens se encontram em situação de maior vulnerabilidade à violência, sendo esta considerada um grave problema para a saúde pública no Brasil e constitui a principal causa de morte de adolescentes (Minayo e Ramos, 2003; Waiselfisz, 2011).
4 A equipe naquele momento era formada por docentes do Departamento de Terapia Ocupacional da UFSCar, terapeutas ocupacionais, estudantes de diferentes níveis da graduação das áreas de terapia ocupacional e pedagogia, bem como mestrandos e doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSCar.

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