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Saúde e Sociedade

versão impressa ISSN 0104-1290versão On-line ISSN 1984-0470

Saude soc. vol.24 no.3 São Paulo jul./set. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-12902015127672 

Articles

Territórios psicotrópicos na região central da cidade de Porto Alegre, RS, Brasil

Luciane Raupp 1  

Rubens de Camargo Ferreira Adorno 2  

1Centro Universitário Unilasalle. Departamento de Psicologia. Canoas, RS, Brasil. E-mail: lucianemraupp@gmail.com

2Universidade de São Paulo. Faculdade de Saúde Pública. Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa Social em Saúde Pública. São Paulo, SP, Brasil. Email:radorno@usp.br

RESUMO

Este artigo é resultado de uma investigação que, com base no campo das ciências humanas e sociais aplicadas à saúde, visou compreender o cotidiano de usuários de crack na região central da cidade de Porto Alegre. Foram realizadas observações participantes e entrevistas informais para caracterizar os usuários, as formas e efeitos do uso de drogas, o processo saúde-doença em seu cotidiano e suas estratégias de sobrevivência. O cotidiano do local pesquisado liga-se à história de degradação da região central da cidade, marcada atualmente por tentativas de controle e ordenação do espaço urbano. A maioria dos usuários era do sexo masculino, estava em situação de rua, apresentava doenças transmissíveis e um padrão de uso compulsivo de crack, que se articulavam à precariedade econômica e social de suas vidas, embora tenham sido observados usuários capazes de controlar sua relação com o uso de substâncias psicoativas, empregando estratégias de autocontrole e de sobrevivência.

Palavras-Chave: Crack; Etnografia; Saúde Pública

Introdução

Desde o aparecimento do crack no Brasil, foi dado grande ênfase na mídia ao surgimento da Cracolândia, localizada na região central da cidade de São Paulo, próxima a prédios históricos e ruas de intenso movimento comercial. Reconhecida nacionalmente pela concentração de usuários e vendedores de crack, a região foi tema de diversos estudos (Adorno et al., 2013; Raupp; Adorno, 2011, 2010; Oliveira, 2007; Domânico, 2006).

Passadas mais de duas décadas da introdução do crack no Brasil e, consequentemente, na cidade de São Paulo - primeira cidade onde foi registrada sua circulação - a Cracolândia segue como palco de enfrentamentos e foco de processos nos quais as políticas sanitárias, visando à expulsão e internação compulsória dos usuários, se alinham a outras forças, como a especulação imobiliária e questões políticas, como linha de ação para controlar aqueles que não deveriam mais ocupar esses lugares (Silva; Adorno, 2013).

A partir da difusão nacional do uso e venda do crack, o termo Cracolândia passou a ser generalizado para áreas de outras cidades brasileiras, designando locais nos quais existem grupos fazendo uso público do crack. Segundo (Adorno 2013), o processo de popularização da denominação Cracolândia reflete a desconsideração de questões históricas, especificidades econômicas, urbanas e sociais de cada local e, ao invés de denunciar a degradação urbana e social das cidades brasileiras, foca o problema nos usuários e na droga em si. Além disso, opera no sentido de reforçar representações estigmatizantes e piorar as condições de socialização de grupos historicamente presentes nesses espaços, como moradores de rua, pedintes e profissionais do sexo, que acabam com suas imagens ligadas às de usuários de crack (Frúgoli Jr.; Cavalcanti, 2013).

Tendo em vista esses pontos, este trabalho tomou como objeto de estudo a questão dos usos e circulação do crack na região central da cidade de Porto Alegre, visando articulá-la à descrição da história e dinâmicas da região. Desse maneira, pretende-se evitar compreensões estanques e generalizações tão comuns na área de estudo sobre drogas, as quais percebem o fenômeno do uso de drogas como uma prática homogênea, enfatizando a substância e excluindo variáveis sociais, contextuais e individuais.

Esta pesquisa faz parte de uma investigação de doutorado que descreveu os circuitos de uso do crack na região central de duas capitais brasileiras: São Paulo, SP e Porto Alegre, RS. Neste texto foram enfocados os dados relativos à pesquisa na última cidade, dadas suas características e dinâmicas, no entanto, referência às análises realizadas em São Paulo se farão presentes para produzir paralelos e tensionamentos com as observações realizadas em Porto Alegre. Aspectos como a caracterização dos usuários, a relação saúde/doença e as práticas de autocuidado e autocontrole no uso do crack serão destacadas, assim como as formas de uso do crack, seus efeitos e as estratégias de sobrevivência utilizadas pelos usuários.

Na busca por delinear as características e dinâmicas do contexto estudado, a noção de territórios psicotrópicos (Fernandes, 1998; Fernandes e Pinto, 2004) forneceu pistas importantes para a compreensão do espaço de exclusão em questão. Essa noção leva em consideração que, à análise das dimensões psicológica, social e biológica do fenômeno droga, deve somar-se a análise do espaço onde se dão essas práticas (Fernandes, 1998; Fernandes; Pinto, 2004). Um território psicotrópico é um local em que se desenvolvem práticas ligadas à venda e uso de drogas, estando espacial e socialmente à margem da cidade normatizada e comumente ligado a lugares de exclusão social, sendo alvo frequente de repressão policial e de estigmatização social (Fernandes; Ramos, 2010).

O método etnográfico foi utilizado para proceder à "observação participante" do território estudado, que ocorreu durante seis meses por meio do acompanhamento do trabalho de rua de uma equipe que, na época, se inseria dentro do Estratégia de Saúde da Família (ESF), responsável pelos processos de promoção, prevenção e atendimento em saúde das pessoas em situação de rua da região pesquisada e adjacências. A equipe contava com médica, enfermeira e auxiliares de enfermagem e três agentes comunitários de saúde (ACS), os quais abordavam pessoas em situação de rua em campo. As idas a campo na companhia dos ACS e outros profissionais do ESF ocorriam apenas durante o dia de uma a duas vezes por semana, de acordo com a disponibilidade da equipe em permitir a presença dos pesquisadores. Essas idas alternaram-se com algumas idas independentes ao local da pesquisa com o objetivo de observar as atividades locais e/ou interagir com seus frequentadores. A análise dos dados baseou-se na compreensão, elaboração e sistematização dos registros do diário de campo. Ao longo deste artigo serão transcritos trechos do diário de campo para uma melhor descrição dos dados. Todos os nomes de pessoas citadas são fictícios, buscando preservar suas identidades.

O emprego da etnografia em pesquisas no campo da Saúde Pública, ao privilegiar a imersão do pesquisador no campo, torna possível a leitura dos estilos e condições de vida a partir do cruzamento de "olhares" dos pesquisadores e dos sujeitos em questão. De acordo com (Adorno e colaboradores 2013), a etnografia é um método propício para facilitar a compreensão de territórios urbanos nos quais se mesclam agenciamentos entre o legal e o ilegal, como no casos dos territórios de venda e consumo do crack, facilitando a captação de tramas de significados que só podem ser apreendidas contextualmente.

Região central de Porto Alegre: história e atualidade

A área central de Porto Alegre está fortemente ligada à história da cidade, destacando alguns vetores de sua evolução e contrastes atuais. Para compreender o porquê da concentração de usuários de crack nessa região, fez-se necessária uma breve retrospectiva da história local.

De acordo com (Pesavento 1999), as ruas do Centro foram projetadas para exaltar a modernidade e acolher as classes altas. A mais importante via em torno da qual a cidade se expandiu, a Rua dos Andradas, era a única rua comercial no início do século XIX, exibindo um ritmo acelerado para os padrões da época, servindo como ponto de encontro de intelectuais, artistas e políticos (Flores, 2005). Contrariando as intenções governamentais, ocorreu um movimento de popularização da área no final do século XIX, com o surgimento dos chamados lugares de enclave, áreas assim denominadas pela existência de habitações de pessoas de baixa renda, em sua maioria descendentes de escravos (Pesavento, 1999).

No início do século XX intervenções urbanas inspiradas no ideário higienista foram realizadas para modificar a paisagem urbana e expulsar os habitantes indesejados para a periferia (Ruschel, 2004). Nessa época ocorria um considerável aumento populacional e industrial, o que contribuiu para a elaboração de planos urbanos com o objetivo de modernizar a cidade (Ruschel, 2004) e expandir seus acessos - tal processo resultou na construção de uma avenida central para essa pesquisa, a Avenida Farrapos, inaugurada em 1940 como símbolo de modernização, representado por seus edifícios no estilo Art Déco (Ruschel, 2004).

Trinta anos após a inauguração dessa avenida ela já estava bastante descaracterizada, tornou-se uma área barulhenta, degradada e desvalorizada. Muitos prédios passaram a abrigar casas de prostituição e hotéis baratos, intensificando a atividade de prostituição já existente na antiga zona industrial. Atualmente, é uma área pouco valorizada em virtude da presença de profissionais do sexo, boates, tráfico de drogas e crimes.

Paralela à Avenida Farrapos encontra-se outra avenida também importante para o estudo, a Avenida Voluntários da Pátria - local igualmente estigmatizado socialmente. Localizada historicamente à beira do Rio Guaíba, sofreu no início do século XX uma grande alteração que a transformou em uma rua de atacados e indústrias. É também um local de concentração de profissionais do sexo e de pessoas em situação de rua devido à presença de equipamentos da assistência social voltados ao abrigo e atendimento a esse público. Também destaca-se na paisagem urbana a presença de diversos estabelecimentos ligados à atividade de reciclagem, formando um circuito que integra galpões, cooperativas e fábricas. A relevância dessa atividade é tão grande que ao longo da década de 1980 foi erguido um conjunto de casebres irregulares que ficou conhecido como Vila dos Papeleiros - atual Loteamento Santa Terezinha -, dada a centralidade da atividade de reciclagem para seus moradores. O loteamento constituía um local presente no mapa do medo da cidade por causa da associação à pobreza, ao lixo e às atividades ilícitas, principalmente ao tráfico de drogas, como destaca o seguinte trecho jornalístico:

Tráfico e consumo de crack, brigas e assaltos. Esta é a rotina vivida diariamente por moradores e donos de estabelecimentos comerciais da Rua Comendador Azevedo, no Centro de Porto Alegre [...] Tudo que acontece na quadra entre as Avenidas Farrapos e Voluntários da Pátria é controlado pelos chefes do tráfico dentro da Vila Santa Teresinha (ex-Papeleiros). O trânsito de "aviõezinhos", em sua maioria adolescentes que passam a droga, é intenso. Quem trabalha na Comendador Azevedo tem medo de circular pela rua. (Poyastro, 2009)

O loteamento exercia uma posição estratégica na relação entre venda e uso de drogas na região, aludindo ao referido por (Fernandes e Pinto 2004) quanto aos territórios psicotrópicos serem locais marcados por uma grande fragilidade econômica. No início de 2009, o Loteamento Santa Terezinha foi alvo de uma operação policial com o objetivo de conter o tráfico de drogas, em resposta à pressão midiática. Mudanças foram imediatamente sentidas com o esvaziamento de locais frequentados por usuários e seus entornos. No entanto, poucas semanas após a operação policial, surgiram novas rotas de circulação de drogas, todas nas imediações. Conforme (Fernandes e Ramos 2010) há uma constante mobilidade e mutabilidade nos territórios psicotrópicos: "[...] a geografia, os actores, e o palco transmutam-se, mas a acção segue" (p. 25).

Entrando em campo: formas de aproximação e caracterização dos usuários

Durante as idas a campo na companhia da equipe do ESF foram percorridos pontos de grande concentração de usuários de crack, como as regiões na proximidade da estação rodoviária, do Loteamento Santa Terezinha e, principalmente, as imediações do Albergue Municipal, que costumavam reunir pessoas em situação de rua. Por meio das observações e conversas empreendidas em campo foi possível conhecer características da população em questão, que se somaram às informações obtidas por meio dos ACS, dos quais dois haviam estado anteriormente em situação de rua e conheciam "de perto e de dentro" a realidade local.

Dessa forma, pôde-se constatar que a grande maioria dos usuários presentes no território estava em situação de rua e fazia uso do albergue municipal ou de outros equipamentos voltados a essa população instalados nas proximidadesavia também várias pessoas que circulavam na região em função das atividades do circuito de reciclagem, sendo oriundas do loteamento próximo ou de outros instalados na região central ou nas proximidades, alternando tempos de estadia em suas comunidades com outros nos quais permaneciam nas ruas da região em busca de momentos de socialização e para o uso de drogas. De fato, conforme constatado no trabalho de campo efetuado em São Paulo (Raupp; Adorno, 2011), a situação de instabilidade socioeconômica dessa população faz com que predomine em ambas as cidades uma situação de alternância de estadia/moradia em diferentes locais - como albergues, abrigos, casa de familiares ou em locais adquiridos/alugados.

Todos os usuários com os quais entramos em contato possuíam ensino fundamental incompleto e eram oriundos de famílias de baixa renda. Alguns relataram serem egressos do sistema prisional. Fumavam crack em agrupamentos ou duplas. Embora tenham sido observadas mulheres consumindo a substância, os homens predominavam, em conformidade com o apontado em outro estudo referente à população em situação de rua na região ser eminentemente masculina (Gehlen et al., 2008). Além disso, considera-se que a pouca visibilidade de usuárias na região deve-se ao fato de que muitas passam o dia em pontos de prostituição próximos, conforme o relato dos ACS. No entanto, conforme aludido por (Adorno e Silva 2013), nem todas as usuárias de crack fazem programas sexuais, pois existem outras formas de atuação nos circuitos de uso nas quais elas desempenham funções em atividades vinculadas ao tráfico ou outras que se situam na fronteira entre o ilegal, informal e o ilícito.

Quanto às faixas etárias, avistavam-se jovens, adultos e idosos, no entanto, diferentemente da parte do estudo realizada em São Paulo (Raupp; Adorno, 20011), não foram vistas crianças usando crack. Esse fato causou surpresa, pois o território da rodoviária foi objeto de estudos anteriores que o mapearam e descreveram-no como um dos principais pontos de concentração de crianças e adolescentes em situação de rua nas décadas de 1990 e início dos anos 2000 em Porto Alegre (Gregis, 2002; Kuschembecker, 2000).

Conforme o relato de Diogo, um jovem que circula desde criança na região, a maioria dos "meninos" daquela época estava morta, fato que, conjugado a possíveis resultados de programas específicos para afastar esses jovens das ruas, reforçando seus vínculos familiares e comunitários, pode ter confluído para a redução de sua circulação pelas ruas do Centro:

Diogo conta que, quando morava em um abrigo, cheirava loló1 e fumava maconha. Pergunto se era porque não tinha crack na cidade e ele diz que já tinha desde o ano 2000. Comenta que, antes do crack, as drogas mais utilizadas nas ruas eram loló e cola de sapateiro, além da cocaína por via injetável. Diz que o pessoal que circula na rodoviária agora é usuário de crack e está ali há uns dois anos. Segundo ele, do pessoal anterior não existe mais ninguém, pois morreram de AIDS devido ao uso de drogas injetáveis, de overdose ou violência.

Relação saúde/doença e as práticas de autocuidado e autocontrole

O fato do trabalho de campo ocorrer junto a uma equipe de saúde foi oportuno à aproximação de questões de saúde-doença entre o público pesquisado. As patologias mais comuns relatadas refletem a complexidade da realidade sanitária brasileira, em que se mesclam doenças infecciosas transmissíveis a doenças crônicas não transmissíveis, estando esse público, assim como as demais pessoas em situação de pobreza, entre os que mais apresentam o primeiro tipo, destacando-se as doenças sexualmente transmissíveis, como AIDS, hepatites, e tuberculose, conforme o trecho a seguir:

O agente de saúde conversa com um usuário portador de tuberculose. Um jovem ao lado refere ter descoberto que contraiu HIV e pergunta sobre o coquetel de medicamentos. Um homem ao lado, alcoolizado, ouve a conversa. Outro se aproxima dizendo ter saído há pouco tempo da prisão, local no qual contraiu tuberculose e que nunca se tratou; refere usar crack.

Além de patologias, destacavam-se os escassos cuidados com o corpo e com a alimentação. Predominava o padrão de uso compulsivo de cigarros, crack e álcool, embora fossem perceptíveis diferenças entre usuários que alternavam períodos de uso intenso de crack com dias ou semanas em que não utilizavam a substância e outros usuários que a utilizavam continuamente, parando apenas para dormir ou comer depois de dias de uso contínuo:

Diogo refere que os guris dali não comem nada, como um amigo seu que passava dias fumando crack sem se alimentar. Conta que um dia lhe disse para parar um pouco e guardar dinheiro para comer e que agora o vê fazendo isso. Pergunto se Diogo também costumava ficar sem comer e ele responde que quando as pedras acabavam sentia fome. Procurava não gastar todo o dinheiro que possuía em crack, reservando uma parte para comer. Conta que, em um episódio de uso, sua namorada lhe olhou: "com uma cara, sabe, queria mais, queria fumar todo o dinheiro, mas eu não deixava".

Assim como Diogo, Cristovam, 50 anos de idade, habitante de longa data de um banco de uma praça da região, conta que depois de fumar crack sente fome e se alimenta. Comparando o crack ao álcool, Cristovam comenta que após fumar crack consegue comer, o que não ocorre quando bebe, neste caso fica muitos dias sem se alimentar, o que já o deixou muito magro e doente. Relata que o problema com o crack é a secura: parece que vai secando por dentro.

Conforme mencionado em conversas informais com usuários e profissionais do ESF, a maior ou menor importância conferida aos cuidados básicos está ligada ao padrão de uso do crack. Por exemplo, no caso de Diogo o uso se dava apenas durante a noite:

Diogo conta que nunca fumava de dia, só após as 18h, para se divertir um pouco, e que tinha hora também para parar, pois sempre queria ter dinheiro para comer antes de dormir. Só utilizava a droga depois que acabava seu turno na atividade de cuidar dos carros. Refere nunca ter deixado o crack lhe dominar, pois sempre soube que podia parar quando quisesse.

Diferentemente de Diogo - que retornou à casa da mãe e parou de usar crack antes mesmo de sair da rua -, outro jovem relatou usar diariamente:

Eu sou viciado. Por exemplo, agora, assim que eu conseguir cinco reais, vou ali pegar uma pedra.

A precariedade das condições de vida na rua tende a se agravar ainda mais nos usuários compulsivos, pois, por causa da prioridade conferida ao acesso à droga, qualquer dinheiro ou pertence vira pedra. Por exemplo, durante uma conversa com um jovem muito abatido, caminhando com dificuldades por estar sem sapatos, soubemos que no dia anterior havia recebido de presente de aniversário um par de sapatos, chinelos e algumas peças de roupa, mas, na mesma noite trocara tudo por crack - o que relatou com ar de tristeza, dizendo querer iniciar tratamento.

(Epele 2010), referindo-se às dinâmicas instaladas a partir da chegada da pasta base à Buenos Aires, descreve a ação de trocar os sapatos pela droga como uma prática comum. Tal qual com o crack no Brasil, a autora destaca a falácia de ser uma droga barata, pois, com o uso compulsivo, todo o dinheiro arrecadado se mostra insuficiente. Sabe-se que a troca de objetos por drogas sempre existiu, no entanto, com a disseminação de substâncias como o crack essa prática se generalizou.

Segundo (Adorno e Varanda 2010), a violência inscrita no corpo apresenta-se como outra forma de manifestação do viver na rua. Segundo os autores, o registro nos corpos das brigas, de atropelamentos e de violência de várias ordens são signos de um dos principais agravos à saúde dessa população, as causas externas. O trecho a seguir narra um desses episódios de violência:

Chegando à praça vamos falar com Cristovam, o qual está instalado em seu banco habitual com a mão nas costas, expressando dor. A mulher que está com ele comenta que lhe quebraram algumas costelas. A agente de saúde pergunta sobre por que ele ainda não buscou atendimento e Cristovam desconversa, não parecendo interessado em ir a um hospital ou ao posto de saúde, apesar da dor e da insistência da agente. Saindo dali a agente me conta que ele é alcoolista de longa data e nos últimos cinco anos começou a fumar crack.

O desinteresse em procurar atendimento em serviços públicos de saúde, mesmo com uma lesão grave, está relacionado ao receio de entrar nesses estabelecimentos por estar em situação de rua e usar drogas. (Bourgois e Schonberg 2009) chamam de "violência simbólica" o tratamento diferenciado e piorado destinado a esse segmento populacional.

Crack: significados, efeitos e forma em contexto

(Vargas 2006), ao abordar as alterações provocadas pelas drogas, problematiza questões comumente feitas por especialistas visando compreender o porquê ou os significados envolvidos nessas práticas. Segundo o autor, mais importante do que compreender o motivo seria indagar o que ocorre, quais sensações e experiências são visadas, apesar dos elaborados controles sociais que buscam evitar tal comportamento (Vargas, 2006; Becker, 2008).

A alternância entre valorações negativas e positivas relacionadas às experiências obtidas com o crack eram comuns. Em geral, os relatos faziam eco às noções convencionais ao atribuírem ao crack seus maiores problemas, tais como, expulsão de casa, perda do emprego e da confiança de familiares, mas, por outro lado, comumente faziam considerações entusiásticas sobre seus efeitos:

Não vou te mentir, mas as drogas me dão um prazer muito grande. Eu gosto da coisa. E o crack dá uma euforia muito grande, daí tu queres ir atrás de mais assim que acaba o efeito [...] Como eu já te disse, o crack dá uma sensação muito boa, a melhor que eu já senti! Dá uma euforia. Eu gosto da coisa!

No trecho a seguir, são descritos dados a partir do relato de uma usuária acerca de seu itinerário com as drogas, demarcando diferenças entre o crack e outras substâncias:

Bela conta fumar cigarro e beber desde os nove anos de idade. Seu primeiro porre foi aos treze. Depois passou a beber sempre que podia e logo experimentou cocaína, usando-a durante cinco anos. No início era um uso esporádico para não dormir, mas depois de um tempo utilizava-a diariamente. Contudo, ressalta que se fosse pelas outras drogas não estaria naquela situação, pois mesmo com o uso de cocaína sua vida seguia seu curso normal, trabalhando e organizada financeiramente, conta que comprou até uma casa. Diz que com o crack se perdeu. Na primeira experimentação achou sem graça, no entanto, alguns meses depois usou novamente e não parou mais. Em quatro meses não tinha mais nada em casa e pesava cerca de quarenta quilos. Então decidiu morar nas ruas para não acabar vendendo sua casa.

Seguindo o relato de Bela, surge a questão: qual a diferença, a ruptura instaurada pela experiência com o crack? Segundo autores como (Zimberg 1984) e Becker (2008), as experiências adquiridas com o tempo de uso e a troca de informações entre usuários compõem rituais e controles sociais informais que atuam como fatores protetivos, impedindo ou dificultando que o uso se torne dependência. Neste sentido, caberia indagar porque uma usuária de longa data, acostumada com diferentes substâncias, não aprendeu a lidar com o uso de crack?

Segundo (Vargas 2006), o "barato" provocado pelas drogas é um evento que não pode ser explicado com base apenas nas propriedades químicas da substância, pois, se considerarmos as drogas como dispositivos, o que interessa é o que acontece, o que elas disparam, como formam subjetividades. Alguns usuários necessitavam do recurso à gestualidade corpórea para exprimir o que sentiam com o uso de crack, como no relato de Zé:

Crack é diferente de maconha. Maconha o cara fuma e fica atirado. Crack não, te dá uma energia, tu ficas disposto. Fazendo gestos com o corpo de um lado para o outro, (Zé expressa o que quer significar) Te dá tipo uma ligadeira, sabe?

O recurso ao corpo como meio para expressar os efeitos do crack pode ser mais bem compreendido no relato abaixo - que remete a uma passagem do diário de campo sobre os usuários parecerem estar ligados na tomada, como se houvesse uma corrente elétrica lhes atravessando o corpo. A expressão por meio de palavras parece não ser tão importante na estimulação provocada pelo crack, sentida predominantemente na esfera corporal, o que talvez explique as dificuldades encontradas em manter um diálogo nas cenas de uso:

O prazer do pó [cocaína] é a ligação na mente. Tu ficas agitado. Dá vontade de falar muito, mais agilidade mental. Já com o crack é uma coisa no corpo, uma sensação física de prazer. É diferente.

Quando o uso compulsivo reverte o ato de fumar crack em uma ação desprovida das intensidades iniciais, o uso reverte-se em um uso compulsivo, enunciado por alguns como desprovido de sentido:

(Diogo explica que no início é bom, mas que com o passar do tempo não sentia mais prazer) Eu fumava e ficava aqui parado, sentado, não queria levantar pra nada. Tu ficas abobado. Fica parado e tua cabeça fica longe. Fica inventando coisa na tua cabeça; catando pedrinha no chão [...] Acaba fumando por nada, por que o cara vai se viciando naquela rotina(Diogo).

De forma semelhante, Vanessa, uma mulher em situação de rua que rotineiramente circulava nas imediações do albergue municipal, referia não sentir mais nada com o uso de crack:

Vanessa, contando sua trajetória, refere que era usuária de cocaína, usando-a frequentemente, até que um dia lhe ofereceram crack: - No início os caras me chamavam pra fumar junto só pra acompanhar eles, por que não queriam fumar sozinhos. Daí fui entrando nessa. Refere que atualmente fuma o tempo todo, o dia inteiro, apesar de referir não sentir nada, mas segue fumando como que por rotina, hábito: - Sabe, como é a pessoa fuma pra ficar legal, ficar chapada; mas eu nem sinto mais nada, fumo só por fumar.

Além de itinerários em que o uso de cocaína sob diferentes vias de administração predominava antes do uso de crack, em outros havia o predomínio do uso de outras drogas como a maconha, solventes (especialmente entre os mais jovens) e álcool (em geral entre pessoas de maior idade):

Diogo conta que quando morou em um abrigo (dos nove aos 18 anos), vendia drogas, mas não usava crack, apesar de sentir curiosidade, pois o fornecedor não queria. Maconha fumava muito - em média vários baseados até a hora de ir para o abrigo. Nessa época também usava solventes. Conta que começou a usar crack só depois que saiu do abrigo.

José conta ser usuário de crack há nove anos - começou aos 14 anos de idade. Antes, utilizava maconha. Diz que, após experimentar crack, não conseguiu parar mais - tentou por três vezes, mas recaía rapidamente.

Em relação as formas de uso do crack, diversos usuários relataram ter iniciado o uso pela forma localmente conhecida como Pitico ou Macaquinho (mistura de crack com maconha). No entanto, durante as observações em campo avistavou-se apenas o uso em cachimbos; também não se observou o uso em latas.

Estratégias de sobrevivência e relação com o dinheiro

As estratégias de sobrevivência observadas não diferiam em muito das descritas no estudo realizado em São Paulo. Nesta cidade registrou-se a presença de formas alternativas de sobrevivência sem relação direta com o uso da força ou da violência, como, por exemplo, engraxar sapatos, trabalhar como guardador de carros2, se prostituir ou mendigar. Em São Paulo era também comum o oferecimento de uma espécie de serviço prestado a pessoas que iam ao local comprar drogas auxiliando-as na aquisição e conseguindo um local seguro para consumirem-na, além da confecção de cachimbos para uso de crack, feitos artesanalmente pelos próprios usuários (Raupp; Adorno, 2011). Estas duas últimas atividades foram as únicas não relatadas pelos pesquisados em Porto Alegre.

Segundo (Ghirardi e colaboradores 2005), estar na rua significa vivenciar de outra forma a sociedade capitalista, pois o reconhecimento dos sujeitos não está necessariamente relacionado com sua capacidade produtiva, mas no desenvolvimento de estratégias de sobrevivência adequadas a cada contexto. Isto não significa prescindir de dinheiro, mas visá-lo como forma de aquisição do essencial para cada dia (Ghirardi et al., 2005). Essa preocupação com o essencial não significa a eliminação de trabalho, mas o abandono do compromisso constante e cotidiano do emprego, substituído por outras formas de geração de renda.

As principais estratégias para a obtenção de dinheiro ou para a aquisição de objetos desejados entre os pesquisados em Porto Alegre eram formas autônomas e acessíveis no contexto em que viviam. Por vezes conversamos com pessoas que possuíam alguma habilidade específica que utilizavam para sua sobrevivência:

Enquanto converso com um grupo de homens, um deles mostra o artesanato que está fazendo. Explica que é um cinzeiro feito a partir de uma lata de refrigerante e diz que fica fazendo isso e sempre consegue algum dinheiro: prá comer nunca falta; sempre tem um realzinho.

Eu sou travesti e usuária de drogas, mas sou conhecida por todo mundo aqui. Não roubo ninguém, sou cabeleireira. Corto os cabelos de todos os traficantes daqui!

O fato de o território estudado estar espacialmente ligado a um circuito de atividades de reciclagem faz com que a atividade de coleta de materiais seja uma estratégia acessada por quase todos, sobretudo por ser sempre possível fazer um mínimo de dinheiro diário com ela. No entanto, observamos uma distinção entre os que exerciam a coleta de materiais como forma principal de sobrevivência, encarando-a como um trabalho rotineiro - em geral usavam "carrinhos" ou carregavam em suas costas grande quantidade de material, passando a maior parte do dia em busca destes -, e outras pessoas que executavam essa atividade de forma menos organizada, coletando apenas quando encontravam algo rentável.

Inclusive a presença da coleta de materiais era tão marcante no contexto de pesquisa que havia uma organização temporal entre as pessoas que ali circulavam, relacionada tanto aos horários de funcionamento dos abrigos, casas de convivência e locais de alimentação gratuita ou popular, quanto aos horários de coleta e venda do circuito de materiais recicláveis. As horas iniciais da manhã e finais de tarde eram momentos de grande circulação de pessoas indo ou voltando dos depósitos de materiais recicláveis da região.

Em relação ao uso de estratégias ilícitas para a obtenção de dinheiro ou drogas, como o recurso a furtos e roubos, apenas um dos usuários admitiu fazê-lo, dizendo ter se cansado de ficar com os restos de crack que sobravam dos cachimbos de conhecidos, tendo então buscado meios para comprar sua própria droga. Cabe destacar que o fato de apenas um usuário ter falado sobre o emprego de estratégias ilícitas para conseguir dinheiro está possivelmente ligado à prudência necessária frente a pessoas que não fazem parte de seu território. No entanto, com pessoas com as quais foi possível desenvolver um vínculo maior - como no caso de Diogo e Bela - obtivemos mais informações sobre o assunto. Por exemplo, no trecho a seguir, Diogo relata seu envolvimento emocional com a namorada como um fator de proteção ao envolvimento de ambos em atividades ilícitas:

Pergunto a Diogo como sua namorada conseguia dinheiro para usar pedras, depois que ele parou de usá-las. Ele conta que ela costumava lhe pedir cinco reais e ele dava, ou que ela conseguia pedindo. Quanto à prostituição, refere que nunca a deixaria fazer e inclusive lhe dizia que se algum dia a visse "na quadra", ia também começar a roubar; o que sua namorada não queria. Pergunto se ele nunca teve que roubar algo e ele disse que sim, que o fazia quando ainda morava no abrigo, mas parou depois que seu irmão morreu devido ao envolvimento em um assalto.

Em vários momentos de conversas com Bela falamos sobre seus momentos de uso e das estratégias que empregava para sobreviver. Ela contou não ter se prostituído e nem roubado, pois sempre fumava com conhecidos ou pedia dinheiro emprestado. Também por algum tempo emprestou sua casa para dois amigos que também eram usuários, os quais lhe pagavam a acolhida compartilhando o uso da substância com ela.

A análise das estratégias de sobrevivência utilizadas pelos usuários de crack sugere que o recurso a atos violentos não é hegemônico. Outro fator que se destacou foi a existência de uma relação distinta com o dinheiro, possivelmente um reflexo da presentificação da vida na rua, onde carregar bens ou valores para além do necessário constitui uma dificuldade e mesmo um risco. Vê-se que, mesmo quando em situação de abrigagem, esse padrão permanece, dado o ritmo instável das vidas neste contexto:

Encontro Bela no ESF. Ela está feliz e com uma camisa de seu time de futebol. Diz que a camisa é nova e que no final de semana comprou também um abrigo para si, outra camisa oficial do mesmo time para um jovem que considera como filho e outros presentes para a mãe dele com o dinheiro que recebe da assistência social. Com o dinheiro restante comprou carnes e demais ingredientes para um churrasco que foi compartilhado com seus amigos.

A partir desse relato, observa-se que o emprego de diversas estratégias de sobrevivência visando a obtenção do necessário para cada dia articula-se com um modo de relacionar-se com o dinheiro no qual a fluidez guia o ritmo - que pode ser frenético, em relações ou momentos de compulsão de uso, ou mais lentos, quando se consegue, por exemplo, um tempo de estada em um local seguro (como um abrigo ou a casa de conhecidos), em geral, diminuindo ai a compulsão de uso e abrindo vias de investimento em outros "bens", como as relações sociais e amorosas, ou mesmo a própria alimentação. Segundo (Bourgois e Schonberg 2009), apesar da brutalidade das diversas formas de violência presentes no cotidiano de dependentes químicos em situação de rua, tanto a agonia quanto o êxtase estão sempre presentes, muitas vezes várias vezes por dia, a depender do sucesso, ou não, de suas estratégias de sobrevivência.

Considerações finais

A análise do cotidiano dos usuários de crack compreendendo o mesmo como um território específico - um território psicotrópico - buscou destacar as dinâmicas presentes nesses contextos, ressaltando a importância da dimensão espacial na composição de suas práticas e estilos de vida.

Compreender a cidade como palco da experiência cotidiana é buscar uma visão na qual suas ruas, atores e os movimentos que nelas empreendem são, ao mesmo tempo, produto e produtores de práticas sociais (Frúgoli Jr., 1995). Assim, as mudanças relatadas na dinâmica da cidade de Porto Alegre ao longo de sua história, que se refletiram na mudança de padrões de ocupação e circulação pelas ruas da região central, refletem processos variados que vão desde a degradação da paisagem e de prédios históricos da região à questões de especulação comercial, imobiliária, política e de necessidades sociais que produzem novos espaços, enquanto reconfiguram outros, afastando cada vez mais a população melhor favorecida economicamente e atraindo pessoas em busca de formas de sobrevivência disponíveis pela dinâmica comercial e econômica do centro da cidade.

Em Porto Alegre não havia em curso um grande plano de revitalização da região de concentração de usuários de crack citada anteriormente, como ocorrido na Cracolândia paulistana, onde, em trabalho anterior (Raupp; Adorno, 2011), destacamos o campo de forças atuante nesse espaço no qual a ênfase em ações de expulsão dos usuários e pessoas em situação de rua, em geral, ocorria há vários anos sem que medidas realmente eficazes, visando auxiliá-los em uma reorganização maior, fossem de fato empreendidas. No entanto, durante o início do trabalho de campo em Porto Alegre, uma ação conjunta entre a polícia militar e outros setores da administração municipal foi desencadeada, instalando um policiamento intensivo e truculento na região. Os efeitos dessa ação foram claramente sentidos sobre o circuito local de uso e venda do crack, que pulverizou-se para áreas contíguas de menor visibilidade.

Conforme aludido por (Fernandes e Ramos 2010), essa dispersão dos usuários tem como efeito direto uma maior dificuldade de acesso dos mesmos pelas equipes de saúde, colaborando para a piora de suas condições sociais e de saúde e aumentando a barreira de acesso dos usuários aos serviços de saúde (Epele, 2010). Isso ficou explicitado nas dificuldades encontradas pela equipe do ESF em desenvolver uma nova proposta de trabalho por não conseguir concentrar um número suficiente de usuários para as ações que pretendia desenvolver. Além disso, a descrição das estratégias de sobrevivência empregadas pelos sujeitos observados alude à inexistência de uma relação direta entre usar crack e ser protagonista de atos violentos - articulação de posições que já se tornou senso comum. Os dados também revelam que os meios empregados para sobreviver entre os usuários de crack não diferem substancialmente das estratégias comuns à maioria das pessoas em situação de rua, usuárias ou não da substância.

Embora seja inquestionável que no uso contínuo de crack exista um grande potencial para a instalação do padrão de uso compulsivo por causa, principalmente, da rapidez e potência dos efeitos da substância, constatou-se tanto usuários que não apresentavam esse padrão de uso quanto outros que, mesmo usando a substância com frequência, alegavam não praticar atividades delituosas por acessarem meios alternativos para a geração de uma renda mínima sem o risco inerente das atividades criminais.

Compreende-se que o predomínio do uso compulsivo de crack entre as pessoas observadas em Porto Alegre está ligado a um complexo de relações que, além das propriedades aditivas da substância, une questões estruturais e trajetórias de vida. Segundo (Varanda e Adorno 2004), as condições de vida na pobreza tornam os contextos mais problemáticos para a criação e manutenção de vínculos relacionais, os quais tendem a se fortalecer ou romper de acordo com as dificuldades vividas e, assim, as pessoas sofrem mais as consequências de situações desestruturantes, tais como, habitações precárias, desemprego ou efeitos do trabalho precário, ou seja, ao invés de fortalecer os recursos pessoais, tais experiências minam o potencial de organização interna dos sujeitos e sua capacidade de articulação, eventos estes intimamente relacionados à violência estrutural social.

Considerando que as condições de pesquisa não possibilitaram a frequência a campo em horários noturnos, não foram observados usuários de melhor poder aquisitivo - que, segundo informações recebidas de usuários e de redutores de danos, também passam pelo território estudado para comprar crack. No entanto, o utilizam em hotéis ou outros lugares mais seguros. Esses usuários poderiam fornecer informações significativas sobre diferentes dinâmicas e consequências do uso do crack em diferentes camadas sociais - perguntas passíveis de serem respondidas em estudos futuros que consigam captar esses usuários de mais difícil acesso à pesquisa, porque são menos visíveis socialmente.

Como reflexão final, destacamos que este estudo é resultado de um recorte de espaço e tempo no qual se busca compreender um pouco a intrincada gama de relações e estilos de vida locais. Mudanças e reconfigurações se dão de forma rápida e dinâmica nos territórios psicotrópicos, o que se revelou durante o trabalho de campo, implicando, muitas vezes, em dispêndio de um tempo considerável em busca de informantes-chave que não eram mais avistados ou mesmo tentando captar as alterações no campo de pesquisa. De qualquer forma, acreditamos que a continuidade de estudos de caráter etnográfico nesses territórios complementam informações de estudos com outras características metodológicas, articulando questões estruturais a processos econômico/político/institucionais, possibilitando desconstruir o conhecimento produzido em torno das práticas de uso de substâncias ilegais, visando não perder de vista a amplitude e complexidade da questão quando vista na perspectiva das dinâmicas sociais e da trajetória de vida dessas populações (Adorno, 2013).

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Recebido: 05 de Dezembro de 2013; Revisado: 24 de Março de 2014; Aceito: 05 de Maio de 2014

Luciane Raupp Rua Faria Santos, 276/34, Petrópolis. Porto Alegre, RS, Brasil. CEP 90671-150.

Luciane Raupp Rua Faria Santos, 276/34, bairro Petrópolis. Porto Alegre, RS, Brazil. CEP 90671-150.

Contribuição dos autores Luciane Raupp foi responsável pela pesquisa de campo, análise dos dados, revisão de literatura, elaboração do artigo, escrita e finalização. Rubens Adorno foi o orientador do trabalho de pesquisa, responsável pela revisão final do artigo.

Authors' contribution Raupp was responsible for the field work, analyzing the data, reviewing the literature and for planning, writing and concluding the article. Adorno supervised the study and was responsible for the final review of the article.

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