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Saúde e Sociedade

versão impressa ISSN 0104-1290versão On-line ISSN 1984-0470

Saude soc. vol.24 no.3 São Paulo jul./set. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-12902015132060 

Articles

A vivência da sexualidade por idosas viúvas e suas percepções quanto à opinião dos familiares a respeito

Elderly widows' experience of sexuality and their perceptions regarding the family's opinion

Mariana de Souza 1  

Sonia Silva Marcon 2  

Sonia Maria Villela Bueno 3  

Lígia Carreira 4  

Vanessa Denardi Antoniassi Baldissera 5  

1Universidade de São Paulo. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas. Ribeirão Preto, SP, Brasil. E-mail: marianasouza18@hotmail.com

2Universidade Estadual de Maringá. Departamento de Enfermagem. Maringá, PR, Brasil. E-mail: soniasilva.marcon@gmail.com

3Universidade de São Paulo. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas. Ribeirão Preto, SP, Brasil. E-mail: smvbueno@eerp.usp.br

4Universidade de Maringá. Departamento de Enfermagem. Maringá, PR, Brasil. E-mail: ligiacarreira@hotmail.com

5Universidade de Maringá. Departamento de Enfermagem. Maringá, PR, Brasil. E-mail: vanessadenardi@hotmail.com

RESUMO

O objetivo deste trabalho foi descrever a vivência da sexualidade por mulheres idosas viúvas, frequentadoras de um Centro de Convivência do Idoso, e verificar a percepção quanto à opinião dos seus familiares. Tratou-se de uma pesquisa qualitativa e exploratório-descritiva. Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas e submetidos à análise de conteúdo temática. Emergiram desta as categorias: 1) a vivência da sexualidade sofreu algumas modificações após o estado de viuvez garantindo submissão às normas e regras sociais para o comportamento feminino; 2) as idosas assumem ter optado pela vida sem um novo companheiro; 3) a família apoia o convívio social, mas não existe declaração de apoio para novos relacionamentos amorosos; e 4) houve ressignificação das questões de gênero no tocante às mudanças relativas ao papel social da mulher, depois da viuvez. Concluímos, portanto, que essas mulheres não vivem, de forma plena e livre, sua sexualidade, pois se submetem às normas sociais.

Palavras-Chave: Sexualidade; Percepção; Idoso

ABSTRACT

The aim of this study was to describe the experience of sexuality of elderly widows attending an Elderly Community Centre and to verify their perceptions regarding their relatives' opinion. This was a qualitative and descriptive-exploratory research. Data were collected through semi-structured interviews and submitted to a thematic content analysis. The following categories emerged: 1) the experience of sexuality was modified after the women became widows, so that the female behavior complies with social norms and rules; 2) the elderly widows assume they have opted for life without a new partner; 3) the family supports social interaction, but there is no statement of support for new loving relationships; and 4) gender issues were redefined in relation to changes in the social role of women after widowhood. We conclude, therefore, that these women do not experience, neither fully nor freely, their sexuality, because they submit to the social norms.

Key words: Sexuality; Perception; Aged

Introdução

A sexualidade é uma dimensão humana intimamente ligada às necessidades de prazer, intimidade, reprodução, afetividade, amor, autorrealização, autoestima, autoimagem, entre outras. Se expressa e pode ser vivida em pensamentos, relacionamentos, atitudes e crenças, consolidando-se através da interação de diversos fatores, sobretudo os biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, culturais, religiosos e históricos (Morais; Penna; Progianti, 2010).

Observa-se, entretanto, um reducionismo da sexualidade ao seu componente biológico. Como consequência, presta-se atenção aos desajustes anatômicos e fisiológicos que a envolvem, desconsiderando seus demais aspectos. Assim, devem-se ampliar as percepções do corpo, do prazer, do desprazer, dos valores afetivos e da responsabilização por si e por outros em todas as fases do ciclo da vida (Trindade, 2008).

A respeito da sexualidade na velhice, mesmo nos tempos atuais com a revolução da temática e da sua prática, o que ainda vemos são preconceito e resistência. O culto ao corpo jovem, idealizado pela mídia, perpetua a convicção de que a sexualidade esteja ligada à beleza jovial (Goldenberg, 2012). Nessa perspectiva, surgem estereótipos voltados, principalmente, para a imagem corporal: o corpo que envelhece, portanto, não produz mais interesse, é retratado sem desejo, sem atração física e em um estado de declínio. Assim, as pessoas que envelhecem são, na maioria das vezes, rotuladas de assexuadas ou incapazes de sentirem desejo, tornando evidente que o assunto da sexualidade do idoso está impregnado de rótulos, tabus e preconceitos (Coelho et al., 2010), expressando os fatores socioculturais e históricos envolvidos.

No caso da mulher idosa, o contexto da sexualidade marca-se de singularidades. As transformações em seu corpo e as forças opressoras culturais sustentam o argumento da impossibilidade de serem vistas como atraentes e, como consequência disto, questionam sua capacidade de sedução e de vivência plena da sexualidade. Os aspectos socioculturais reforçam as questões de gênero no envelhecimento, sobretudo das idosas, pois o que se espera da mulher é a fraqueza, a submissão, a dependência e a emoção. Sendo assim, a mulher incorpora essa condição, mantendo a dominação masculina (Bourdieu, 2005), particularmente no que se refere à vivência da sua sexualidade.

Em uma sociedade que valoriza o jovem e o belo, a mulher que envelhece sente medo de tornar-se ridícula e ser rotulada como a "velha assanhada", optando por uma postura mais discreta. Apesar de algumas reivindicarem direitos, como a vocação universitária tardia ou atividades exercidas após o cumprimento da tarefa de ser mãe e esposa, ainda assim dedicam-se à família, apoio doméstico e financeiro aos filhos, ajudam no cuidado com os netos, envolvem-se em atividades religiosas ou amizades amistosas (Negreiros, 2004). É preciso compreender, ainda, que as idosas de hoje foram educadas em um código de moral e ética sexual muito rígido. Como consequência, na fase adulta e especialmente na velhice, convivem com a dúvida a respeito da sua própria sexualidade (Frugoli; Magalhães-Junior, 2011).

Quando desfrutam de uma vida sem companheiro, seja por viuvez ou por outras causas, as mulheres idosas sentem ainda mais que não há espaço para a vida amorosa, vivenciam apenas um silêncio que nega qualquer apelo. E com esse silêncio, agregam-se problemas como solidão e doenças somáticas (Silveira, 2008). Como resultado, a mulher se anula em prol de outras pessoas, na maior parte da vida, e em seu ápice do amadurecimento, quando poderia estar desfrutando de sua liberdade e autonomia, vê-se presa a julgamentos, estereótipos e preconceitos impostos pela própria família e pela sociedade.

A produção de conhecimento acerca da sexualidade no envelhecimento tem aumentado na última década, fruto da necessidade urgente de conhecer mais sobre essa temática para a melhoria da qualidade de vida do idoso. No entanto, ainda existem lacunas no que se refere ao desvelamento da vivência da sexualidade pelas mulheres idosas que vivem sem companheiros, sobretudo quanto ao papel da família.

Diante desse contexto, sentimos a necessidade de realizar um estudo ancorado no seguinte problema de pesquisa: quais as percepções das mulheres idosas viúvas quanto ao apoio da família para viver sua sexualidade plena? Assim, objetivamos, aqui, descrever a vivência da sexualidade por mulheres idosas viúvas frequentadoras de um Centro de Convivência do Idoso e a percepção quanto à opinião dos seus familiares.

Metodologia

Tratou-se de uma pesquisa qualitativa, do tipo exploratório-descritivo. A pesquisa se realizou no Centro de Convivência do Idoso de uma cidade do norte do estado do Paraná. Esse local tem por objetivo desenvolver ações que estimulem o convívio familiar e social da pessoa idosa, visando um processo de envelhecimento ativo e saudável. A escolha do local para seleção das participantes foi intencional por acreditarmos que possuir vínculo com essa instituição já simboliza uma natural iniciativa, pessoal e/ou familiar, de socialização e consequente estímulo para a vivência da sexualidade em seu mais amplo aspecto.

Constituíram-se população-alvo todas as mulheres dessa instituição, e participaram da pesquisa as mulheres que atendiam aos seguintes critérios de inclusão: ter 60 anos ou mais; ter vivenciado a viuvez independente da atual situação conjugal; estar cadastrada no Centro de Convivência do Idoso e participar frequentemente das atividades que são oferecidas; consentir em participar do estudo. Seguimos o critério de saturação de dados e, quando o problema da pesquisa já estava adequadamente esclarecido, finalizamos a coleta de dados com um total de 10 participantes.

Para a coleta de dados utilizamos a entrevista semiestruturada, individual, por meio de um formulário contendo questões norteadoras centradas nos dados socioeconômicos e na percepção sobre o apoio familiar para o exercício da sexualidade depois da viuvez. Destacamos que a sexualidade não possui uma única dimensão. Porém, nesta pesquisa, procuramos explorar a dimensão que espontaneamente foi apontada pelas mulheres durante a entrevista: a biológica e normativa. Assim sendo, exploramos o envolvimento sexual e/ou afetivo das mulheres idosas com outro homem após a viuvez.

As entrevistas foram realizadas no Centro de Convivência do Idoso, no horário de suas atividades, em local reservado, durante o mês de julho de 2012. Foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas integralmente, na ordem de sua realização, identificando as participantes com a palavra "entrevistada" seguida do número da entrevista (Entrevistada 1, Entrevistada 2, e assim por diante). Após as transcrições, o arquivo em áudio foi deletado, procurando manter a confidencialidade das respondentes.

Os dados foram submetidos à análise de conteúdo, na modalidade temática (Minayo, 2010a), que consiste na consecução das seguintes fases: 1) pré-análise: as entrevistas foram organizadas e transcritas, já buscando identificar as partes que atendiam aos objetivos do estudo; 2) exploração do material: diversas leituras das transcrições foram feitas, em que se recortaram as partes principais, a partir das quais emergiram as palavras-chave representativas, ou também denominadas núcleos de sentido, que atendiam ao objetivo do estudo e que foram agrupadas por semelhança ou divergência, originando os temas ou categorias representativas; 3) tratamento dos resultados/inferência/interpretação: as falas dos sujeitos, agora representadas e agrupadas por temas ou categorias representativas, passaram a ser analisadas à luz do referencial da sexualidade.

Assumimos, para tanto, que a análise do conteúdo é um instrumento de pesquisa científica e, para assegurar seu valor científico, é preciso seguir com rigor algumas regras, de modo que se diferencie das análises meramente intuitivas, diminuindo assim, os possíveis vieses. Tudo que é dito ou escrito é passível de interpretação. Por meio de uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo expresso das comunicações, se fazem possíveis as interpretações das mesmas. À vista disso, a análise de conteúdo parte para algo mais aprofundado, relacionando as estruturas semânticas com as estruturas sociológicas dos enunciados, procurando ir além dos significados manifestos (Oliveira, 2008; Minayo, 2010b).

O estudo foi conduzido mediante a autorização do local, aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos (Parecer n. 41538/2012-COPEP) e aceite das participantes, respeitando os preceitos éticos para experimentos humanos definidos pela Resolução n. 196/96-CNS, que vigorava no Brasil na época do estudo.

Resultados e discussão

Caracterização das participantes

Das dez participantes, quatro relataram ter o ensino fundamental completo, três o ensino fundamental incompleto e três declararam nunca ter estudado. A renda per capita mensal variou entre um e três salários mínimos. Quanto à religião, oito disseram ser católicas e duas, evangélicas. Quanto às vivências de relacionamentos amorosos após a viuvez, nove não possuíram e apenas uma casou-se novamente. Oito participantes viviam sozinhas. O tempo de viuvez variou entre um e trinta e seis anos, sendo que cinco participantes eram viúvas há menos de dez anos.

O perfil educacional e econômico nos faz entender certa exclusão, pois o escasso acesso à educação foi vivência comum entre as mulheres quando jovens, determinando forte dominação social masculina e influenciando a própria visão que a mulher tem de si mesma. A educação é forma de galgarmos poder, através da consciência crítica e da reflexão, assumindo um lugar na sociedade como sujeito histórico e social (Freire, 2005).

Outrossim, pertencer a uma classe econômica menos favorecida as predispõe à mesma influência e dominação, ou ainda, é mera repercussão da pertença a uma época marcada por relações de dependência, iniciadas em casa na relação com o pai e transferida, após o casamento, para o marido; seu papel social era resumido aos afazeres domésticos (Martins, 2006; Sousa; Silver, 2008). Após a morte de seu cônjuge, a mulher passou a receber a aposentadoria do seu parceiro como única fonte de renda (Sousa; Silver, 2008).

A religião é forte condicionante da sexualidade. A religião católica articula a sexualidade com normatização e culpa (Nicolino, 2012). A consequência desta postura pode ser a repugnância ao prazer sexual, especialmente pelas mulheres.

A fase da viuvez e manutenção da vida solitária pelas mulheres idosas merece atenção especial. A maior proporção de mulheres viúvas e o maior tempo que estas passam nessa condição, se comparadas aos homens, é resultado da discrepância da longevidade entre os sexos (Camarano, 2003; 2002). Também as mulheres idosas apresentam, em geral, uma tendência maior do que os homens a viverem sozinhas, porque os homens na mesma condição geralmente optam por situação conjugal com mulheres mais jovens (Santos et al, 2002). Fora isso, as mulheres idosas rendem-se ao apelo social pela vida mais discreta, que não demonstre sua natural necessidade por uma vida sexual ativa (Fernandes, 2009).

Como consequência, vivencia-se o risco que a viuvez representa para as mulheres na velhice, não pelo fato de que ficarão sem a companhia de um homem, mas pelo que representa essa condição a si mesma (Baldin; Fortes, 2008). A viuvez traz à mulher idosa inúmeras transformações nos aspectos físico, psicológico e social, reapresentando um novo desafio em sua vida. O fato de terem que seguir a vida sem o parceiro de longos anos representa uma tragédia para a maior parte delas, que podem viver em estado de luto prolongado, acarretando sentimentos de solidão, amargura e adoecimento (Baldin; Fortes, 2008). O mesmo se aplica ao fato de viverem sozinhas, como encontramos a maioria das participantes desse estudo.

Categorias temáticas

A partir das análises das entrevistas, elencamos as categorias temáticas, a saber: 1) a vivência da sexualidade sofreu algumas modificações após o estado de viuvez garantindo submissão às normas e regras sociais para o comportamento feminino; 2) as idosas assumem ter optado pela vida sem um novo companheiro; 3) a família apoia o convívio social, mas não existe declaração de apoio para novos relacionamentos amorosos; e 4) houve ressignificação das questões de gênero no tocante às mudanças relativas ao papel social da mulher depois da viuvez. Tais categorias passam a ser descritas e discutidas.

A vivência da sexualidade sofreu algumas modificações após o estado de viuvez garantindo submissão às normas e regras sociais para o comportamento feminino

Notamos a preocupação com o julgamento da sociedade, o que levou as mulheres a modificarem sua imagem corporal para a manutenção de uma postura discreta, tão desejada e normatizada pela vida social. Também a escolha por uma vida solitária, sem novo contato marital, foi alegada como conduta adequada.

a gente tá velho, viúvo, vai vestir uma roupa dessa né? [risos] Então eu falo assim, nossa, mas não fica chato a gente sair sozinha, eu penso assim né, uma roupa mais curta, uma calça mais justa, né? Então...(Entrevistada 1)

depois de uns anos com o passar do tempo, eu fui acostumando né, mais uma calça dessa eu não punhava de jeito nenhum, agora, por eu tá no alongamento é frio, eu falo tá meio garrado, mas as pessoa fala: "Não fica bom, ponha, não tem nada não." Então aí eu comecei a usar, short comecei a usar só em casa, porque até agora eu não saio, só no calor, né, de short, então, você fica achando assim que tá todo mundo olhando, já começa a falar uma coisa e outra né, a gente imagina isso né, porque tem gente que fala mesmo né, então é isso que a gente pensa. (Entrevistada 2)

Não, na forma de se vestir é a mesma coisa né? Meu marido não gostava que eu andava com roupa decotada, né, roupa curta. (Entrevistada 3)

Que elas não procurasse outra pessoa, que andasse direito como sempre andou né, eu acho isso, porque eu acho que marido é um só, por que vai dormir com outro, vai deixar o outro. (Entrevistada 6)

Eu acho que muita gente pensa o que não presta, essa mulher tá namorando outro, ela tá dando bola pra alguém, e eu não quero não, nunca mais [choro]. (Entrevistada 4)

A mulher idosa sente-se esmagada pelos preconceitos e alimenta o pensamento de que por ser "velha" já não oferece atrativos. Nessa perspectiva, opta por uma postura mais discreta para não ser rotulada como a "velha assanhada". Isso se aplica, obrigatoriamente, às vestimentas e ao modo de se comunicar (Fernandes, 2009).

O que passa a acontecer é a negação da sua sexualidade, na qual a sociedade é forte contribuinte ao atribuí-la apenas como direito dos jovens e adultos (Goldenberg, 2012). A sexualidade dos idosos apenas será vivida de forma plena e livre quando novas percepções sociais forem incutidas, garantindo a vivência erótica da sexualidade em qualquer fase da vida (Coelho et al., 2010) A educação, como forma de libertação, pode modificar essa concepção. Quando ausente, o ser humano é convertido em espectador e passa a governar-se pelo poder dos mitos que as forças sociais criam para ele. Esses mitos voltando-se contra ele, o destroem e aniquilam. Assim, passa a viver temeroso da convivência autêntica e até duvida dessa possibilidade (Freire, 2005).

Pudemos verificar que as idosas mais controladas pelo parceiro, enquanto ainda vivo, passaram a mudar seu comportamento após sua viuvez, como maneira de experimentar uma vida, ainda que tímida, longe da repressão e submissão extrema.

Eu gosto de vim aqui, encontro as amiga né, a gente dá risada, se diverte, meu marido não gostava muito que ficava saindo né, e nem tinha tempo também, agora que eu tenho mais tempo, então eu venho.(Entrevistada 9)

Saio, jogo baralho com minhas amigas, me divirto com elas. Comecei a fazer isso depois que meu marido faleceu, ele não gostava muito.(Entrevistada 10)

Agora, assim, a gente tem mais liberdade assim, porque a gente é sozinha, então eu gosto de viajar, quando eu tenho oportunidade eu estou saindo, não fico em casa, eu gosto de passear e a gente vai levando a vida né? (Entrevistada 7)

Sim, sim, porque a gente nem podia ir à missa, porque o bençoado não deixava [pausa] agora não, agora... Graças a Deus. (Entrevistada 3)

Mulheres de classe baixa e média tendem a afirmar-se pela atividade e pela participação em espaços de lazer e convivência e passam a usar esses espaços como símbolos de liberdade (Motta, 1999).

As idosas assumem ter optado pela vida sem um novo companheiro

Embora as participantes tivessem relatado que a vida sem novo companheiro tenha sido uma opção, entendemos que essa foi uma condição que se colocou como única possibilidade viável, frente às imposições sociais.

Não, nunca tive. (Entrevistada 4)

Não, meu marido sempre me falou, eu sei que vou morrer primeiro, mas não quero que você case com ninguém. (Entrevista 6)

Não, marido é um só pra mim, o meu véio. (Entrevistada 9)

Vê [choro], nunca mais quis saber de homem depois que meu marido faleceu, acho que marido é um só né? O primeiro né? (Entrevistada 4)

A fase da terceira idade ainda continua sendo vista e percebida como um período de "não sentir", "do não querer", "do não desejo" (Morais; Penna; Progianti, 2010; Risman, 2005). Teoricamente, essa fase deveria ser de considerável autonomia e liberdade, visto que essas pessoas já passaram por várias etapas da vida. Porém, a influência da sociedade no que diz respeito aos estereótipos de repressão foi impeditiva para qualquer manifestação do desejo ou de uma vida sexual ativa. Esse tipo de pensamento provém das normas de comportamento vigentes nos séculos anteriores, que ainda são sentidas pela sociedade atual (Morais; Penna; Progianti, 2010; Trindade, 2008).

O mais importante fator para a percepção da sexualidade é, sem dúvidas, o apelo social pela beleza da juventude: as mulheres mais velhas perdem o título de objeto de desejo por cederem à imagem social que enaltece a exuberância da juventude (Altman, 2011); assim, suas oportunidades de intimidade sexual passam a ser restritas. São poucas as que têm chance de refazer uma vida afetiva e sexual com um novo parceiro, pela própria influência da sociedade (Santos; Souza, 2011; Moraes; Moraes; Lima, 2010). Essa opressão é tão evidente que os próprios idosos acabam por sustentá-la. Dessa forma, passam a acreditar que não podem amar, que não podem expressar-se livremente como homens e mulheres, e comportam-se segundo as expectativas sociais, para não serem considerados degenerados, libidinosos ou indecentes (Ribeiro, 2007).

Não se pode descartar, entretanto, que a experiência pregressa no relacionamento íntimo, que julgaram mal sucedida ou não satisfatória, determina certa repulsa ao estabelecimento de novos laços afetivos. Essa superação só é possível quando a pessoa se mostra aberta a uma nova possibilidade (Laurentino et al., 2006).

A família apoia o convívio social, mas não existe declaração de apoio para novos relacionamentos amorosos

As famílias apoiam a sexualidade que se expressa pela vida social dessas mulheres, no entorno das atividades de lazer e de diversão, mas não há um incentivo e encorajamento para um novo relacionamento amoroso.

Nossa, eles dá toda força pra mim, pra eu fazer um passeio às vezes né? Eles dá uma força pra mim mesmo, pra eu passear, se divertir.(Entrevistada 1)

Elas sempre fala que eu tenho que me animar, que eu tenho que sair né? (Entrevistada 6)

Vixe, eles fala, vai sair um pouco né, vai se divertir, fazer alguma coisa pra se ocupar. (Entrevistada 9)

A família também sente a imposição social, já que é um grupo social que influencia e sofre influências da ordem social. As justificativas, ainda que questionáveis, são várias para não apoiarem novos relacionamentos, sejam estáveis ou não. Por insegurança, encorajam apenas as atividades de lazer como forma de compensação da solidão que impõem aos pais. Também são comuns posicionamentos contrários aos novos relacionamentos por fantasiarem a união. Quando os pais possuem bens, os filhos, como herdeiros principais, julgam o companheiro como uma ameaça aos bens de direito. O poder familiar também se ergue como causa do controle, e a vigilância dos filhos manifesta-se nas novas amizades, tanto quanto frente à possibilidade de novo relacionamento afetivo, que precisam passar pelo crivo familiar (Laurentino et al., 2006).

É evidente que a família reflete o pensamento da sociedade e se enquadra aos preceitos e normas impostas, sobretudo de negação ao direito de novas relações amorosas. Especialmente quanto à mulher idosa, as famílias se revestem de idealização, desejando manter a imagem da senhora de cabelos brancos, assexuada, que faz seu tricô e mantém amizades amistosas (Risman, 2005), não havendo mais espaço para novos relacionamentos (Negreiros, 2004).

Houve ressignificação das questões de gênero no tocante às mudanças relativas ao papel social da mulher depois da viuvez

A viuvez impôs, a essas mulheres, a necessidade de repensar e remodelar seu papel social, contrapondo-se ao que, até então, era assumido. Essa nova realidade as impulsionou para novas funções, autonomia e novos aprendizados nas tarefas cotidianas.

Eu nunca ia num banco né assim, fazer as coisa em banco, eu nunca saía pra pagar uma água, uma luz, e agora a gente obriga a fazer né, porque nem tudo os outro pode fazer pra gente, né? Então, é isso. Mudou muito a minha vida, mudou muito. (Entrevistada 1)

Ficou a responsabilidade e tudo pra gente né, e ele fazia tudo [choro]. Aí eu fui acostumando, no começo era duro, não gostava de ir no banco, não gostava de fazer nada. (Entrevistada 2)

A responsabilidade ficou comigo né, eu como era uma mulher que meu marido fazia tudo, nem mercado eu sabia fazer ele que fazia tudo, então a gente fico meia perdida, né? (Entrevistada 7)

O contexto histórico-cultural da humanidade exerceu influências e auxiliou na consolidação de um contrato social altamente desigual e excludente, que percebe o ser feminino sob uma perspectiva inferior e desprestigiada; uma verticalidade nas relações entre homem e mulher (Martins, 2006; Schaurich; Padoin, 2004) que se mantém atual e que, na maioria das vezes, só se altera quando não há outras possibilidades - como é o caso da viuvez feminina.

Trata-se de uma ressignificação de gênero que, nas últimas décadas, tem se reconstruído. Durante séculos as meninas foram incentivadas à passividade, sensibilidade, fragilidade e dependência. Os brinquedos e jogos infantis reforçam o seu papel de mãe, dona de casa e, consequentemente, responsável por todas as tarefas relacionadas ao cuidado dos filhos e do lar. Na fase adulta, entendem que a sociedade espera sua dedicação com os afazeres domésticos e cuidados com os filhos (Cabral; Diaz, 1999).

A mulher, especialmente as idosas de hoje, foram excluídas da participação na vida social e política. O casamento foi a única forma de conquistar segurança econômica e de se consolidarem como seres obedientes às exigências sociais (Fernandes, 2009; Marin; Angerami, 2002). Após a morte do seu companheiro, essas mulheres transferem a submissão ao marido para a família.

Assim, concebem a importância das opiniões da família como apoio para suas condutas, apontando até mesmo submissão:

É importante, porque cê já pensou se a gente fosse sozinha e se tivesse que fazer uma coisa e eles iam contra né, então eu sinto que é importante. (Entrevistada 1)

Vixe, é importante né? Porque a gente precisa deles, né? Eles ajuda a gente, orienta a gente sobre o que faze, né? (Entrevistada 9)

Nossa, com certeza. Porque a gente vai pedir assim um negócio pra eles...(Entrevistada 3)

Ah, é importante, né, porque é eles que me ajuda, né? Eles fala: "Não faça isso, não faça aquilo." E a gente tem que obedecer, né?(Entrevistada 4)

Meus filho é que me dá conselho, né, orienta, ajuda no que eu preciso. (Entrevistada 10)

Após a viuvez, a tendência é que as mulheres sejam submissas aos filhos e netos, que acabam por manter as regras sociais e reforçar a dependência feminina.

Considerações finais e conclusão

As mulheres participantes desse estudo demonstraram não viver de forma plena e livre sua sexualidade, ficando evidente a ordem social construída ao longo da vida, assim como a cultura opressiva da sociedade e da família, não permissiva a vivenciar a sexualidade em sua plenitude. Por sua vez, os familiares as apoiam para momentos de lazer e diversão, mas não incentivam novos relacionamentos amorosos. Essa opinião familiar parece ser importante para a tomada de decisões pela idosa. Em um momento em que poderiam desfrutar a vida com mais liberdade, essas mulheres veem-se presas aos julgamentos familiares e estabelecem uma relação de submissão a sua família.

Na perspectiva educativa, despontam reflexões sobre ações voltadas à sexualidade nessa fase da vida, especialmente para a reconfiguração de novas relações familiares. Como profissionais da saúde e pesquisadoras, temos o papel fundamental de desmistificação de mitos e tabus e de construção de saberes que se traduzam numa vida com mais dignidade e respeito para as mulheres idosas em condição de viuvez.

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Recebido: 16 de Março de 2014; Revisado: 31 de Julho de 2014; Aceito: 10 de Outubro de 2014

Mariana Paula de Souza Avenida Antonio e Helena Zerrenner, 1575, 37, bloco B. Ribeirão Preto, SP, Brasil. CEP 14050-010.

Contribuição dos autores Souza realizou a coleta de dados, elaboração do manuscrito, análise e interpretação de resultados e revisão final. Marcon, Bueno e Carreira realizaram a elaboração do manuscrito, interpretação dos resultados e revisão final. Baldissera realizou a análise e interpretação de resultados, revisão final e orientou o trabalho.

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