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Saúde e Sociedade

versão impressa ISSN 0104-1290versão On-line ISSN 1984-0470

Saude soc. vol.28 no.3 São Paulo jul./set. 2019  Epub 07-Out-2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-12902019180070 

Artigos

O diário como dispositivo em pesquisa multicêntrica

aUniversidade Federal de São Paulo. Instituto Saúde e Sociedade. Departamento de Saúde, Clínica e Instituições. Santos, SP, Brasil. E-mail: luciane.pezzato@unifesp.br

bUniversidade de São Paulo. Faculdade de Saúde Pública. Departamento de Política, Gestão e Saúde. São Paulo, SP, Brasil. E-mail: botazzo@usp.br

cUniversidade Estadual de Campinas. Faculdade de Ciências Médicas. Departamento de Saúde Coletiva. Campinas, SP, Brasil. E-mail: slabbate@lexxa.com.br


Resumo

Este artigo vincula-se a uma pesquisa multicêntrica realizada entre 2013 e 2015 em quatro diferentes cenários: São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto e Recife. Tem como objetivo apresentar o diário de pesquisa como um dispositivo da Análise Institucional, que possibilitou explorar diferentes dimensões do vivido pelos diaristas-pesquisadores, bem como restituir a análise de implicações que se cruzaram nos movimentos provocados nas e pelas experienciações deste projeto multicêntrico, registradas nos diários. O uso de diário no trabalho de campo foi prática corrente entre os membros da equipe do projeto. A produção do registro em forma de diários, na perspectiva da Análise Institucional, possibilita a análise das implicações dos pesquisadores, opondo-se à ideia de neutralidade do sujeito na pesquisa. Como dispositivo da intervenção, os diários de pesquisa permitiram a articulação entre os diaristas-pesquisadores dos quatro cenários com seus diferentes saberes e experiências, no cotidiano da saúde bucal, acionando heterogeneidades e os provocando a escreverem, refletindo sobre suas atividades na clínica e, sobretudo, a compartilharem a escrita dessas experienciações vividas com os demais, o que produziu efeitos nos processos de inovação da clínica.

Palavras-chave: Diários; Saúde Coletiva; Saúde Bucal; Análise Institucional

Abstract

This article is linked with a multicenter study conducted from 2013 to 2015 in four different scenarios or cities: São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto, and Recife. It aims to present the use of Research Diary (RD) as a device of the Institutional Analysis, which made it possible to explore different dimensions of experiences of diary researchers and restore the analysis of the implications that have occurred in the movements provoked in and through the experiences of this multicenter project. The use of research diary in fieldworks was common practice among project team members. The production of records as diaries, from the perspective of Institutional Analysis, made it possible to analyze the implications of the researchers, opposing the idea of subject neutrality in the research. As an interventional device, research diaries allowed an articulation between diary researchers of the four scenarios with their different knowledge and experiences, in daily buccal health, triggering heterogeneities and encouraging them to write, reflecting on their activities in the clinic, and above all, to share the writing of these experiences with others, which has had an effect on the clinical innovation processes.

Keywords: Diaries; Public Health; Buccal Health; Institutional Analysis

Introdução

A pesquisa multicêntrica, a partir da qual se produziu este artigo, teve por escopo pensar a inovação tecnológica da produção do cuidado em saúde bucal (SB). Inicialmente, a equipe formulou algumas perguntas: seria possível organizar o trabalho do atendimento em saúde bucal tendo por base o método clínico? Caberia no atendimento a realização da consulta bucal, tal como é realizada por outras práticas clínicas? Seria possível cuidar do paciente sem, obrigatoriamente, realizar procedimentos do tipo cirúrgico-restaurador?

Tais questões se constituíram no verdadeiro desafio do projeto e no principal determinante dos seus êxitos e também de alguns fracassos. Tinha-se, de início, um “diagnóstico da situação” ou o “estado da arte” da prática odontológica, tendo por base a constatação de que o modelo assistencial vigente no sistema de saúde público brasileiro reproduz acriticamente, mesmo sob o Sistema Único de Saúde (SUS), o referencial da odontologia de consultório privado, o que significa tornar privada não apenas a relação entre paciente e profissional, mas, igualmente, tornar privados o doente e sua doença. Seria esta construção que ainda hoje garantiria sustentação ao ideal de odontologia presente na profissão. Desde o começo da Reforma Sanitária, nos anos 1980, o modelo de assistência odontológica, e, de certa forma, o cuidado com o paciente bucal, é considerado inadequado, de baixa cobertura, com escassa oferta de cuidados, foco em grupos etários selecionados, alta densidade tecnológica, de tipo cirúrgico-restaurador, além de obsoleto, o que é consistentemente debatido e evidenciado na literatura especializada (Amorim; Souza, 2010; Faccin; Sebold; Carcereri, 2010; Garrafa, 1993; Pezzato; L’Abbate; Botazzo, 2013; Pires; Botazzo, 2015).

Para a equipe, o objetivo principal foi experienciar as possibilidades da clínica ampliada de saúde bucal na Atenção Primária em Saúde (APS), na perspectiva da integralidade, tendo como objetivos específicos propor novas tecnologias para o cuidado em saúde bucal; compreender o espaço da clínica como lócus pedagógico; investigar os modos como socialmente é construída a demanda por serviços de saúde bucal ou as necessidades em saúde bucal na ótica do sujeito-paciente; e analisar o modelo de atenção em saúde bucal no SUS, tendo como referência as Diretrizes para a Política Nacional de Saúde Bucal. Como projeto multicêntrico, a pesquisa se desenvolveu em quatro campos distintos, a saber: serviços públicos de saúde em São Paulo-capital, em São Paulo-interior: Campinas e Ribeirão Preto, e em uma unidade do Programa Saúde da Família (PSF) no Recife, Pernambuco.

O conceito de bucalidade garantiu aporte teórico aos propósitos do projeto, com potência para o trabalho clínico. Emergiu como mobilizador para reorganizar o trabalho em saúde bucal ao propor nova forma de produzir encontros, subjetividade e reorientar a produção do cuidado. Bucalidade vem sendo entendida como a capacidade da boca em ser boca, isto é, em exercer sem limitação ou deficiência as funções para as quais anatomicamente acha-se apta (Botazzo, 2008). Significa, portanto, pensar a boca humana na sua dimensão social e psíquica, um território dotado de inesgotável capacidade para “abrigar formas de simbolização, as mais díspares ou as mais extensas que podemos conhecer, um objeto que surge como ícone de si mesmo” (Botazzo, 2000, p. 57). A articulação com o trabalho clínico tornou-se possível pelo arranjo teórico que assegura as categorias do normal e do patológico para este âmbito, ultrapassando as concepções reducionistas de lesão dentária, com a competente definição de norma e normalidade bucais e, desta maneira, procedendo à reinserção da cavidade bucal na unidade corpórea (Botazzo, 2006; Fonsêca et al., 2016). Finalmente, superadas tais barreiras, que são de natureza linguística e organizacional, pode-se exercitar o método clínico para constituir o paciente bucal (Barros; Botazzo, 2011).

Na fase de monitoramento e avaliação da pesquisa multicêntrica, foram propostas diferentes abordagens da metodologia qualitativa − como pesquisa-ação, pesquisa-intervenção e etnometodologia − com uso de múltiplas técnicas: observação (total, participante); entrevistas; grupos focais; e, qualquer que fosse a tecnologia de produção de conhecimento, havia clara recomendação e disposição da equipe para a produção do diário de pesquisa ou diário de campo como dispositivo particularmente investido para a produção de arranjos institucionais e demarcar o lugar do pesquisador no cenário de pesquisa, contrapondo-se à neutralidade deste.

Desde a formulação inicial do projeto, o diário foi pensado como um dispositivo, “uma espécie de novelo ou meada” que poderia ser produzido de diversas maneiras e direções próprias dadas pelos pesquisadores (Deleuze, 1999, p. 155).

Assim, assumimos que o uso de diário no trabalho de campo - procedimento utilizado largamente na etnografia e também na Análise Institucional (AI) (Pezzato; L’Abbate, 2011) - deveria ser prática corrente entre os membros da equipe de pesquisa. Do mesmo modo, todas as informações registradas iriam servir para a elaboração de relatórios e auxiliar na análise e interpretação dos resultados.

É objeto deste artigo analisar o uso do Diário de Pesquisa (DP) como “um certo” dispositivo da AI, que possibilitou explorar diferentes dimensões do vivido pelos diaristas-pesquisadores, bem como restituir a análise das implicações que se cruzaram nos movimentos provocados nas e pelas experienciações deste projeto multicêntrico, escritas nos diários.

A proposta dos diários, também como um exercício da escrita, se associa ao que Foucault (2004, p. 151) afirma sobre ela,

exercício pessoal feito por si e para si é uma arte da verdade díspar; ou, mais precisamente, uma maneira racional de combinar a autoridade tradicional da coisa já dita com a singularidade da verdade que nela se afirma e a particularidade das circunstâncias que determinam seu uso.

Neste sentido, como afirma Dias (2016, p. 113), “a escrita de si como uma prática se agencia, aqui, com uma ferramenta, a do uso do diário de pesquisa”, o que apoia nossa proposta da escrita dos diaristas-pesquisadores realizar-se junto ao DP, tornando-o um dispositivo de pesquisa, verdadeiras “máquinas que fazem ver e falar” (Foucault apud Deleuze, 1999, p. 155).

O texto se inicia com a discussão do conceito de dispositivo no âmbito da filosofia e das ciências humanas e, a seguir, apresenta a perspectiva do DP no caso específico desta investigação, prosseguindo com a discussão do conceito de implicação e análise das inferências dos diaristas-pesquisadores a partir da leitura dos DP, levando à compreensão dos processos de inovação na produção do cuidado em saúde bucal.

O que é dispositivo?

Em primeiro lugar, é conveniente lembrar a polissemia do termo e sua dispersão na literatura científica. De fato, pesquisa rápida aos buscadores indica multiplicidade de significações e usos distintos para dispositivo. Ainda nos anos 1960, Foucault falava de dispositivo para se referir à sexualidade, caracterizando, assim, um dos primeiros usos da expressão na extensa produção do autor. De fato, o capítulo quarto do primeiro volume da História da sexualidade é assim denominado: “[IV] - O dispositivo de sexualidade”. Ao longo da narrativa, no entanto, Foucault (1999) não usa o termo de modo extenso, fazendo nesta obra apenas uma nota a mais (o dispositivo do casamento).

Como a noção de dispositivo aparece na literatura científica contemporânea? Consulta aleatória aos indexadores nas publicações permite encontrar artigos que tomam dispositivo na mesma e polissêmica dispersão. Assim, foram encontrados os seguintes descritores: dispositivo para oclusão septal; corpo da mulher; dispositivo analisador; dispositivo de autoalimentação; da maternidade; da sustentabilidade; de carga acoplada; de compressão pneumática intermitente; de fixação ortopédica; de gestão; de infantilidade etc. Isso significa, de modo eloquente, a carga semântica do termo e os modos como “dispositivo” se imbrica em múltiplos fenômenos da existência cotidiana.

Em vista dos usos e significados comuns então correntes, dos quais Foucault teria se apropriado, cabe a pergunta: o que exatamente entendia ele por dispositivo? E o que podemos nós contemporaneamente entender? É extensa a relação de apropriações ou subsunções às quais o termo esteve submetido e tais subsunções tiveram, por efeito, aumentar a dispersão semântica já conhecida na literatura.

Assim, um dispositivo poderia ser algo “não abstrato” ou “rede de relações de saber/poder situado historicamente” (Fanlo, 2011, p. 2); dispositivo que “intervém de forma racional sobre o campo de forças em que se insere” (Veinmann, 2006, p. 17); focagem da significação de dispositivo na estrutura da sociedade e no componente disciplinar (Pogrebinschi, 2004, p. 191); ou, ainda, na consideração de tecnologias de cuidado, como o acompanhamento terapêutico em serviços de saúde mental, que aparece como dispositivo clínico, com potência, “para a construção de redes capazes de superar o manicômio” (Palombini, 2006, 117). Mesmo Deleuze considera dispositivo “uma espécie de novelo ou meada, um conjunto multilinear” de certo modo “composto de linhas de diferente natureza”, ou, ainda, contendo “os objetos visíveis, as enunciações formuláveis, as forças em exercício, os sujeitos em posição são como vetores ou tensores” (Foucault apud Deleuze, 1999, p. 155).

Esses produtos discursivos, em conjunto, sinalizam para significações que vão em escala crescente; porém, como é comum nesses casos, perde-se o foco da narrativa e, finalmente, a estrutura a que em princípio se pensava referir, vê-se em recuo e já não apresenta parentesco com o enunciado original.

Das contribuições consultadas, a de Giorgio Agamben nos pareceu a mais apropriada para a discussão atual. De fato, Agamben, em conferência pronunciada no Brasil em 2005, introduziu elementos inteiramente novos e surpreendentes para a compreensão do enunciado e do próprio percurso teórico vivido por Michel Foucault. Assim, esse autor apresenta uma leitura inovadora com foco no conceito de dispositivo, propriamente a sua condição de possibilidade.

Agamben (2005) inicia seu argumento lembrando a questão da definição dos termos técnicos utilizados nas enunciações filosóficas, e suas observações tomam três direções distintas e complementares: dizem respeito à relação homóloga entre dispositivo e aparatus (aparato ou aparelho), depois à similitude ou proximidade entre dispositivo e a palavra latina dispositio e, finalmente, remete à categoria positividade.

Quando Agamben localiza a proximidade semântica entre dispositivo e a dispositio latina, de certo modo, as disposições da alma ou do caráter que confirmam a possibilidade de certos arranjos ou vontades funcionarem segundo uma disposição interna ou, ainda, como algo disposto ou inclinado a específicas realizações e, também aqui, há homologia entre as categorias por ele analisadas. Da mesma forma, máquinas, aparelhos ou dispositivos devem funcionar segundo o modo como foram dispostas, ou seja, construídas com vistas à determinada finalidade.

Para finalizar, abordaremos o conceito de positividade. Na Arqueologia do saber, Foucault (1985, p. 317) lembra que esta é a primeira das categorias alinhadas com o que ele denominou de umbrais ou limiares, sendo a positividade um deles, a qual não teria outro sentido senão o do momento do objeto ao ser capturado em sua existência determinada, ou seja, dando-se como algo positivo e certo no seu processo de constructo, passível, então, de apreensão empírica e gozando de autonomia e existência próprias, exteriores em relação à consciência do pesquisador. Agamben estende-se exatamente neste ponto, quando comenta a relação homóloga entre a categoria positividade em Foucault e em Jean Hyppolite, visando dar precisão e relevância ao seu conteúdo significante. É eloquente essa explanação que busca dar conta do que é positividade.

E o que seria realmente o positivo,

se não o dado, aquilo que parece impor-se do exterior à razão; […] implica sentimentos que estão mais ou menos impressos nas almas por coação; […] para a razão teórica o positivo representa aquilo que do exterior se impõe ao pensamento e que ele deve receber passivamente, também para a razão prática o positivo representa uma ordem […] uma autoridade que impõe-lhe do exterior aquilo que não está incluído em sua razão. (Hyppolite, 1971, p. 35-36)

Assim considerada, positividade aparece em coalescência com o conceito de positivo em Augusto Comte - o dado, o certo, o mensurável, o apreensível, o previsível, posto que “o verdadeiro espírito positivo consiste, sobretudo, em ver para prever” (Comte, 1978, p. 49) - e também com o conceito de fato social em Durkheim, duas possibilidades de diálogo inicialmente impensadas. Lembramos que fato social é “toda maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior […] na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter” (Durkheim, 1978, p. 11).

Retomamos Agamben para traçar a finalização desta narrativa, quando ele diz na conferência de 2005:

Se “positividade” é o nome que, segundo Hyppolite, o jovem Hegel dá ao elemento histórico, com toda a sua carga de regras, ritos e instituições impostas aos indivíduos por um poder externo, mas que se torna, por assim dizer, interiorizada nos sistemas das crenças e dos sentimentos, então Foucault, tomando emprestado este termo (que se tornará mais tarde “dispositivo”) toma posição em relação a um problema decisivo, que é também o seu problema mais próprio: a relação entre os indivíduos como seres viventes e o elemento histórico, entendendo com este termo o conjunto das instituições, dos processos de subjetivação e das regras em que se concretizam as relações de poder. (Agamben, 2005, p. 10-11)

Podemos, agora, situar claramente o que Foucault expressou na entrevista de 1977:

por dispositivo eu entendo uma espécie - digamos - de formação que, num momento histórico dado, teve por função maior responder a uma urgência. O dispositivo teve então uma função estratégica dominante […] e se inscreve num jogo de poder […] O que eu tento localizar sob este nome é, primeiramente, um conjunto resolutamente heterogêneo comportando discursos, instituições, instalações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas, em suma: do dito tanto quanto do não-dito, eis os elementos do dispositivo. O dispositivo, ele mesmo, é a rede que podemos estabelecer entre esses elementos. (Foucault, 1994, p. 299-300)

É assim que, em Foucault, são dispositivos aparelhos e coisas dispostas a cumprir sua finalidade, todos com existência exterior ao sujeito, como também − e na mesma direção − o capitalismo é um dispositivo e, igualmente, são dispositivos a sexualidade, a bucalidade, a loucura, o hospício, a medicina, a tortura, a prisão e… o diário de pesquisa.

O dispositivo é também, pertinentemente, um conceito-ferramenta de análise do socioanalista. De acordo Lourau (1993, p. 30), o método de intervenção da socioanálise1 “consiste em criar um dispositivo de análise social coletiva. […]. Quando falo do trabalho socioanalítico, refiro-me à necessidade, à tentativa de se colocar em cena o dispositivo.” Ou seja, na AI, é a partir do dispositivo que se põe algo em funcionamento e que se criam situações que articulam elementos heterogêneos, acionando modos de funcionamento que produzirão certos efeitos.

O diário de pesquisa na pesquisa: “como se faz a pesquisa”

O uso de diários é uma técnica utilizada largamente em estudos qualitativos, em suas diferentes abordagens teórico-metodológicas. Conforme Pezzato e L’Abbate (2011), o diário é uma ferramenta de intervenção utilizada pelos analistas institucionais que possibilita “fazer ver” situações conflituosas e complexas existentes no cotidiano da instituição na qual se está intervindo.

O uso de diários transcende à pesquisa e, antes, foi e continua sendo largamente utilizado no cotidiano da vida de muitas pessoas, tornando-se, muitas vezes, um estilo de ser. O registro dos eventos ou dos estados de espírito, sentimentos, percepções e reflexões é prática antiga, e tornou-se objeto de interpretação desde a Antiguidade clássica. Foucault (2004) aponta a clara posição pedagógica que incide sobre o sujeito que deve escrever para ter as ideias claras, atividade que seria, antes, uma forma do controle de si, do controle das pulsões pela exposição do material registrado. A escrita, ao contrário, permite que o sujeito, pelo registro da atividade, organize suas ideias e percepções e as faça comunicar aos outros:

A escrita de si aparece aqui claramente na relação de complementaridade com a anacorese: ela afasta os perigos da solidão; ela dá o que nos fez fazer ou pensar a um olhar possível; o fato de se obrigar a escrever tem o papel de alguém que nos acompanha, ao suscitar o respeito humano e a vergonha… (Foucault, 1994, tomo IV, p. 415)

Como afirma Dias (2016, p. 115), inspirada no ensaio proposto por Foucault (2004), fazemos as escrituras em diário

como uma experiência modificadora de si […]. Isso significa dizer que um diário talvez se componha entre escrita e práticas para fazer ver e falar o que acontece nas pesquisas e nos territórios de formação aberta à invenção de si e do mundo.

E, todavia, escrever, registrar no diário, fazer anotações desde sempre “constituíam uma memória material das coisas lidas, ouvidas ou pensadas, […] matéria prima para a redação de tratados mais sistemáticos, […] material para exercícios a serem frequentemente executados: ler, reler, meditar, conversar consigo mesmo e com outros” (Foucault, 2004, p. 147-148).

Neste sentido é que o DP traz, exatamente, uma escrita implicada, trabalha ou se materializa como um certo dispositivo que é, a um só tempo, de pesquisa e pedagógico, na medida em que o diarista deposita nele suas reflexões, análises, emoções, descrições do e com o vivido nas atividades do trabalho com a pesquisa, como também de sua própria vida, o que possibilita que outros possam interagir com esses registros e, consequentemente, refletir, construir outras relações e redes entre o que está escrito e o que não está escrito, entre o vivido e o não vivido. Com o uso do diário, o momento privilegiado na pesquisa é aquele em que o pesquisador, qual o “sujeito adulto” de Remi Hess, por meio da escrita de si, revê seus projetos e suas perspectivas de formação, pois toda pesquisa tem um componente pedagógico.

Aprende-se no ato mesmo de produzir conhecimento, que é o mesmo que uma autopoiese pedagógica ou uma pedagogia em autopoiese! Trata-se da intensidade na vida do sujeito, um momento, uma etapa essencial da pesquisa (Hess, 2009, p. 86).

Para Lourau (2004b, p. 276), a escrita diarística coloca em cena a dimensão escondida da pesquisa, levando o pesquisador-diarista a caminhar pelos “labirintos do ‘como se faz a pesquisa’”. O autor propõe o DP como uma “estratégia de coletivização das experiências e análises” dos pesquisadores implicados com a investigação (Lourau, 1993, p. 85). Para ele, o DP questiona uma possível “neutralidade” do pesquisador, expondo suas experiências vividas no cotidiano e deparando-se com as fragilidades institucionais concretas. É deste modo que ele pode ser uma “estratégia de coletivização das experiências e análises” dos diaristas-pesquisadores implicados com a pesquisa.

Com o intuito de provocar discussão sobre o uso do diário de campo nas pesquisas, Lourau (2004b, p. 273) analisa dois diários de Bronislaw Malinowski2 para apresentar uma técnica de análise de implicação. Aproximando-se da narratologia,3 infere três instâncias desses diários: “1. O narrador: o etnógrafo, escrevendo um diário de campo; 2. O autor implicado, expondo em seu diário de pesquisa preocupações de etnólogo, de filósofo, de escritor; e 3. O autor real, o do diário íntimo”. Possivelmente, tais instâncias sofrem interferências umas das outras, pois ambos diários foram escritos paralelamente, não havendo “um dentro e um fora do relato etnográfico”, como infere Lourau (2004b, p. 273, grifo nosso).

Neste sentido, estamos considerando que não há um dentro e um fora dos DP produzidos pelos diaristas-pesquisadores, nesta pesquisa. Cada um, respeitando suas singularidades, os diferentes lugares que ocupam e suas experiências, trouxe para os DP as relações que teceram e conservaram com as instituições. Em nossos espaços de pesquisa, como em nossos fazeres profissionais e pessoais, somos, permanentemente, atravessados pelas instituições,4 e analisar as implicações “é dizer, sobretudo, das instituições que nos atravessam” (Monceau, 2010, p. 14).

Como um dispositivo, os DP colocaram em funcionamento um conjunto de realidades alternativas que transformaram “o horizonte considerado do real, do possível e do impossível” (Baremblitt, 2002, p. 135) que, depois de escritas, lidas, relidas e discutidas constituíram-se no material de análises e elaboração de relatórios, mas, sobretudo, na análise das implicações dos diaristas-pesquisadores.

Para a AI, o conceito de implicação diz respeito às relações que estabelecemos com as instituições, quando “explorar a implicação é falar das instituições que nos atravessam. […] denuncia que aquilo que a instituição deflagra em nós é sempre efeito de uma produção coletiva, de valores, interesses, expectativas, desejos, crenças que estão imbricados nessa relação” (Romagnoli, 2014, p. 47).

Ao propor a implicação como um novo paradigma, Lourau (2004a) divide as implicações em primárias e secundárias. Primárias são as implicações do pesquisador referentes a seu objeto de pesquisa, à instituição de pesquisa de pertencimento e às encomendas e demandas sociais. Secundárias são as implicações epistemológicas, a escrita e outras formas de divulgação da pesquisa. Ao todo, portanto, a implicação apresenta-se de cinco diferentes formas.

Na AI, de acordo com Lourau (2004a), falamos em análise de implicações e não apenas implicação, pois implicado sempre se está, visto que implicação não é uma questão de vontade, mas de análise dos lugares que se ocupa ou que se busca ocupar.

Ainda segundo esse autor (Lourau, 1993), a análise de implicações se constitui no “escândalo da Análise Institucional”, pois questiona o lugar sagrado e inquestionável dos chamados especialistas.

Em alguns de seus livros, Lourau publicou trechos dos diários que ele elaborou enquanto produzia as reflexões teóricas, objeto dessas obras. Nesses diários, é possível perceber as dimensões de ordem afetiva, ideológica e profissional (Barbier, 1985) da própria implicação do autor (Lourau, 1988, 1994, 1997). No caso da pesquisa que é objeto deste artigo, tais dimensões foram analisadas a partir dos registros nos DP, como também socializados e discutidos em momentos de seminários presenciais.5

O DP foi proposto para o grupo de pesquisadores desde o início da construção do projeto, com o propósito de atender às particularidades de cada um, de cada campo e possibilitando análises futuras. Num primeiro momento, os diários ficaram restritos apenas a cada diarista. Num segundo momento, foram socializados em pequenos grupos e, somente num terceiro momento da pesquisa, fase do monitoramento e avaliação, foram disponibilizados coletivamente durante os seminários presenciais. Não foi estabelecida uma periodicidade para os registros; cada pesquisador seguiu seu ritmo, imprimindo também suas singularidades, o que possibilitou a cada um traçar seu trajeto, sua escrita, suas marcas.

Neste sentido, os trechos, fragmentos escritos do vivido nos DP, foram identificados de acordo com o lugar que cada um ocupou na pesquisa. Assim, nos quatro campos onde a pesquisa se desenvolveu, ao todo contamos com 14 diaristas-pesquisadores que se lançaram à experiência da escrita e à produção de um DP, dentre eles um dentista concursado numa universidade, dois professores universitários, duas pós-graduandas, três estagiários estudantes do curso de odontologia, duas dentistas do Centro de Saúde Escola e quatro dentistas de serviços do SUS.

O texto por vir: análise das implicações

A análise de implicação que faremos a seguir será um exercício sem a pretensão de finitude, mas sim de continuidade possível para trabalhar o material constitutivo dos DP. Para isso, fizemos algumas escolhas de fragmentos que traziam diferentes dimensões do vivido pelos diaristas-pesquisadores. Poderíamos trazer outras? Com certeza sim, mas buscamos depreender, do que está nos registros, o que nos tocou de diferentes formas, dialogando com as três instâncias do diário propostas por Lourau (2004b) como uma técnica de análise de implicações: o narrador, o autor implicado e o autor real.

Como afirmam Passos e Barros (2009, p. 175), “o texto diarista enuncia sua própria produção, liberando-se da pretensão do conhecimento definitivo sobre o objeto”.

Cada fragmento dos diários era recheado de sentidos que as experiências provocavam nos diaristas-pesquisadores com diferentes intensidades, pois “o pesquisador, além de seu corpo e de seus instrumentos, não se pode furtar a utilizar também tudo o que lhe passa na cabeça” (Lourau, 2004b, p. 267). Aconteceu com alguns diaristas-pesquisadores, quando trouxeram livremente sentimentos pessoais - pouco considerados nas pesquisas -, uma escrita íntima provocada pela experienciação na pesquisa. Como anuncia Lourau (2004b), o autor “real”:

É um bom momento para escrevermos o diário. Aquele que a gente começa a escrever pelo o que está pensando e sentindo, sem ter a preocupação de voltar a ler, corrigir ou acertar o texto. (DP dentista da universidade-1, 27 de julho de 2013)

Fui até lá conversar com elas pra saber por que S., mesmo depois de ter alta, retornou. Elas me surpreenderam com dois presentinhos e dois abraços calorosos! Naquele momento, eu fui tomada por uma grande emoção porque elas disseram que queriam retribuir, de alguma forma, tudo que fiz por elas. (DP doutoranda, 10 de outubro de 2013)

Acompanhando as reflexões feitas por Rodrigues (1997, p. 195), se estamos entendendo os DP como um dispositivo, aquele que provoca “ruptura das continuidades históricas”, o colocamos na pesquisa como instituinte com potencial para desterritorializar, criar conexões impensadas que “assumirão forma provisória resultante do confronto entre estratégias num campo de batalha”. Podemos dizer, então, que o dispositivo DP foi agenciado e agenciando os acontecimentos no processo em relação com o que se vivia nas experienciações da pesquisa e fora dela, no confronto com o desejo de controle do que se registra e do que não se registra, do que está no texto e fora texto, do que está por vir no texto.

Ao longo do processo, nos deparamos com questionamentos referentes ao percurso teórico-metodológico adotado na pesquisa, conforme escrito por um dos docentes em seu DP, demarcando o lugar de autor implicado, aquele que reflete, se expõe após ser cobrado quanto aos resultados da pesquisa, mostrando que há diferentes concepções teórico-metodológicas entre pesquisadores e alguns dos profissionais convidados a participar da pesquisa.

Mostro que, por se tratar de pesquisa social do tipo “quali”, quanto mais eventos não previstos ou “indesejáveis” ocorrerem, maior será nossa riqueza; que num projeto deste tipo, se não ocorrem esses eventos ele não frutifica; que, ao contrário da pesquisa controlada, na qual eventos não controlados devem ser evitados, no nosso caso, quanto mais eventos melhor; que estávamos abertos a qualquer resultado e que tudo o que fosse produzido deveria ser interpretado; que nisto é que estava a diferença. Mesmo com todas essas limitações, penso que a presença delas no projeto é fundamental, se não consigo remover resistências imediatas não podemos pensar num projeto que pretende gerar metodologias e técnicas de cuidado “universais”. (DP docente da universidade-1, 20 de fevereiro de 2013)

O mesmo aparece nesse trecho trazido por uma das pesquisadoras, que finalizou o seu registro no diário quando estávamos bem no início das atividades da pesquisa, também expondo suas dúvidas metodológicas com relação ao modo de escrita no DP e sobre que tipo de relação deveria estabelecer com o que vivenciava nas experienciações da pesquisa, ou seja, o autor implicado, “desculpa aí se isso ficou mais um depoimento do que um diário, mas foi de coração!” (DP doutoranda, 27 de fevereiro de 2013).

A pesquisa-intervenção se coloca aberta ao ineditismo e não opera com a ideia de dados controlados e delimitados, o que gerou resistência por parte de alguns participantes acostumados com uso de metodologias mais conservadoras. Porém, tal fato provocou análises, marcando os diferentes lugares de fala, saberes, poderes e desejos, como ficou explicitado no DP de duas diaristas-pesquisadoras na instância o narrador, num lugar de distanciamento e resistência ao que estava sendo proposto pela pesquisa, evidenciando o confronto clássico com a clínica odontológica instituída hegemonicamente: “Não sei para que inventar, dá tudo no mesmo” (DP dentista-1 do Serviço Escola, 2013); “Aprendi odontologia social, é a mesma coisa;” (DP dentista-2 do Serviço Escola, 2013).

Podemos destacar a instância o narrador como aquele que se põe a descrever o que se passa e não o que lhe passa, e que aparece no DP de uma das diaristas-pesquisadoras, que afirma compreender a proposta da pesquisa, coloca-se disposta a mexer em seu fazer clínico, porém não consegue ver como sair do seu lugar estabelecido: “entendi as definições do referencial teórico do projeto, apenas acho difícil empregá-las na prática corriqueira do cirurgião-dentista do PSF” (DP dentista da Estratégia de Saúde da Família (ESF) 1, 22 de fevereiro de 2013).

Em sua escrita, podemos perceber uma certa resistência para sair do seu lugar de poder historicamente construído para o cirurgião dentista, propor ações fora da cadeira odontológica e ir ao encontro das pessoas e sua bucalidade e ver que tudo isso deveria também fazer parte da sua prática corriqueira de dentista do PSF.

Tais falas explicitam o jogo de forças entre o instituído e o instituinte, presentes no campo de intervenção para provocar rupturas e desterritorializar o que se cristalizou no cotidiano dos serviços de saúde.

Outras diaristas-pesquisadoras, ainda na mesma instância - o narrador -, escreveram em seus DP suas dificuldades para implementar uma ampliação na sua clínica cotidiana, expondo suas preocupações, criando frestas no instituído.

Eu não consigo ver apenas um dente cariado, fazer o curativo e pronto. Daí a ASB comentou que tem dentista mais rápido, e eu respondi “dá para não orientar a mãe dessa criança sobre sua real situação?” ela concordou, porém disse “mas, que perde mais tempo, perde!” ela terminou dizendo “Cada profissional (dentista) é de um jeito, tem seu perfil. (DP dentista da ESF-2, 8 de março de 2014)

As alunas da […] apresentaram o PTS, o caso é de uma menina de 14 anos, diabética, com grave problema urinário renal. Foi uma boa apresentação. No final, elas colocaram as ações a curto, médio e longo prazo, onde tiveram várias ações envolvendo diferentes profissionais: psicólogo, endócrino, proposta de relatar vínculo com o C.S. [Centro de Saúde] com a pediatria. Terminada a apresentação, eu me coloquei questionando por que não tinha encaminhamento para o dentista. As alunas ficaram surpresas e disseram que não haviam pensado nisso. (DP dentista da ESF-2, 14 de março de 2014)

Achei a exigência chata e até boba, mas fiz como ele pediu e, no final, o saldo foi positivo porque estabeleci um vínculo com os pacientes fora do consultório e eles acabaram interagindo comigo durante as consultas (mesmo eu estando calada, sentada isoladamente o fundo da sala, onde o médico colocou minha cadeira…) [risos]. (DP doutoranda, 10 de outubro de 2013)

Esses fragmentos dos diários nos permitiram perceber e sentir os embates necessários a serem enfrentados para criar conexões possíveis, seja na pesquisa, seja no fazer profissional e institucional. Em conjunto, tais registros incidem nas dificuldades de lidarem com o referencial teórico-metodológico do projeto, que tomou o conceito de bucalidade como estruturante. Dizendo de outro modo, parece que compreender a bucalidade (como novidade conceitual que explicita a integralidade da sua dimensão anátomo-funcional e, a um só tempo, seu lugar privilegiado na formação do psiquismo humano) e enxergar seu conteúdo prático é operação não apenas de tipo linguístico, mas também de reorganização em nível subjetivo e institucional.

No dispositivo DP, em sua potência de fazer ver e falar, os entraves para criar modos diferenciados de inserção no cotidiano da formação odontológica ganham visibilidade, conforme escrito por uma diarista-pesquisadora, estagiária e aluna de graduação que expôs suas preocupações - o autor implicado -, mostrando alguns efeitos provocados nas experienciações vividas durante a pesquisa. “É irritante”, disse ela, referindo-se à organização das clínicas durante seu processo de formação,

é estressante você ver o paciente durante anos, ver a demora, o tempo que se perde, eu estou desde o começo do ano para fazer uma removível [prótese parcial removível] e aí eu fico, sabe: “meu, porque é que não dá certo?” É muita burocracia. É muita… o paciente roda muito dentro dessa clínica. (DP estagiária, 5 de junho de 2013)

Assim como veio à tona nos escritos de outra diarista-pesquisadora - o autor implicado -, um problema emblemático existente desde as origens do SUS é: como instaurar outros modos de operação na relação ensino-serviço-comunidade?

Concordo com a… [dentista do serviço de prótese dentária], o SUS é campo de pesquisa e formação sim, mas o diálogo com a realidade dos serviços é importantíssimo para a implantação do nosso projeto. Percebi que eles [gestores] não tinham lido o projeto e se estavam, vejam bem, se estavam preocupados era para saber o que iria depender deles para acontecer. (DP docente da universidade-2, 12 de junho de 2013)

Outra dificuldade é o ato de escrever, que provoca efeitos nos diaristas-pesquisadores - o autor implicado - durante os encontros com outros participantes da pesquisa:

Quantos sentidos e significados. Não me vi na apresentação que preparei, não reconheci o produto do meu trabalho, alienação. Engasguei! Carrego também as questões tecnológicas do trabalho em saúde bucal, quando a F… foi provocativa e questionadora e como a gente entra na onda sem nos perguntar dos sentidos e significados. (DP dentista da universidade, 27 de julho de 2013)

Quando ouvi falar em anamnese coletiva, tive muito receio em não conseguir dar conta em conduzir o grupo. Depois, participando de um grupo com o professor, percebi que temos condições […]. No início tudo será mais difícil e com o tempo vai melhorando. (DP dentista estagiária, 3 de dezembro de 2013)

Assim como afirma Abrahão (2004, p. 98):

O ato de escrever pode ser o passaporte que nos leva em direção à compreensão do mundo, à reflexão sobre a vida. O traço que é escrito em uma folha de papel atravessa o tempo, circula no imaginário, é lido e permite releituras. Muitas das vezes, é na releitura que encontramos algo que nos escapou da primeira vez, mas que é profundamente interessante e inovador.

O ato de escrever foi um desafio que nos foi colocado e assumido pelos 14 diaristas-pesquisadores.

Considerações finais

O dispositivo DP funcionou como uma máquina que operou no sentido de produzir efeitos heterogêneos nos pesquisadores e na pesquisa. Os diários foram constituindo um dispositivo de intervenção com potencial de articular diferentes pessoas, em diferentes lugares, com diferentes saberes e experiências, inclusive no cotidiano da saúde bucal. Acionaram, também, modos de funcionamento que provocaram os diaristas-pesquisadores a refletir sobre o que faziam na clínica, a escrever sobre o que refletiam a partir da clínica e, sobretudo, a compartilhar o que escreviam a respeito das experiências vividas, trazendo, muitas vezes, estranhamentos que ficavam reverberando ao longo destas e em nossos seminários. Com isso, produziram-se efeitos nos processos de inovação da clínica no fazer odontológico cotidiano desses diaristas, criando conexões internas de cada um consigo mesmo, com suas descobertas, desilusões, impressões e entre eles.

Os DP eram um lugar protegido para o “livre dizer”, trazendo seus incômodos com: o cotidiano dos serviços e suas relações estabelecidas com as instituições; dificuldades, novidades pessoais e profissionais, no sentido de refletir e compartilhar o vivido; dificuldades com a implantação do projeto e negociações com as instâncias de gestão; questionamentos; dúvidas; medo do novo; assunção da ansiedade; vontade de desistir; como autores reais narram suas experiências na e com a pesquisa; autores implicados. Traziam também conquistas, situações potentes que davam força para continuar mesmo com as dificuldades existentes.

Os diários cumpriram, assim, sua dupla função: a de ser uma escrita de si e a de propiciar a reflexão acerca do trabalho realizado e do seu conteúdo pedagógico. Como escrita de si, revelaram angústias, desencontros, ambiguidades, mas também a investigação do desconhecido; e, como reflexão, expressaram a capacidade de os sujeitos se desdobrarem na direção dos seus objetos e, neles, verem-se reconfigurados.

Assim, como verdadeira máquina de fazer ver e falar, o dispositivo DP funcionou de modos variados, provocando tensões, dúvidas, ansiedade ou medo, de acordo com a experiência de cada diarista-pesquisador com o uso deste dispositivo, o qual possibilitou realizar a análise das implicações, ampliar a circulação dos saberes e poderes, romper territórios fechados, expandindo-os, dando visibilidade à sobreimplicação dos pesquisadores, trazendo para análise situações, até então, naturalizadas.

Ademais, numa forma bem objetiva, trouxe elementos fundamentais para a elaboração de relatórios e análise dos achados empíricos da pesquisa e, acima de tudo, os DP contribuíram para melhor compreensão das arquiteturas mentais relativas às teorias odontológicas acerca do adoecimento bucal, conforme disse uma das diaristas-pesquisadoras: “aprendi tudo na odontologia social”, muitas vezes em permanência aos limites práticos das tentativas de inovação, como marcado em outro DP: “não sei para que inventar”, referindo-se à produção dos cuidados em saúde que se acham contidos no conceito de bucalidade.

Assumir o lugar de quem escreve como um caminho político e metodológico é sempre uma escolha. Na escrita dos DP, pudemos inventar, juntos, práticas de pesquisar, de aprender, de escrever e de criar novos sentidos de fazeres e de dizeres para a clínica de saúde bucal.

Referências

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1Os Argonautas do pacífico ocidental e Um diário no sentido estrito do termo.

2Sobre o método de intervenção da socioanálise, consultar: Lourau (1993, 2014) e L’Abbate (2012).

3A Narratologia é o estudo das narrativas de ficção e não ficção por meio de suas estruturas e elementos.

4Para a Análise Institucional, o conceito de instituição difere do de organização ou estabelecimento. Para um aprofundamento sobre o conceito de Instituição na Análise Institucional, abordagem que estamos utilizando neste texto, consultar Lourau (2014).

5Tais seminários foram considerados, metodologicamente, seminários de formação. Foi admitido que todo projeto de pesquisa implica numa produção de conhecimento ao longo de todo o processo de sua realização e que os sujeitos que aderem não partilham, de início, dos mesmos pressupostos teóricos; portanto, não partilham de um mesmo referencial linguístico e representacional. Tal repertório é um constructo que teve, como um dos loci, esses seminários presenciais.

Recebido: 25 de Maio de 2018; Aceito: 16 de Julho de 2018

Correspondência Luciane Maria Pezzato Rua Silva Jardim, 136. Santos, SP, Brasil. CEP 11015-020.

Contribuição dos autores Pezzato e Botazzo conceberam o artigo. L’Abbate revisou e acrescentou conteúdos. Os três autores contribuíram para a redação e revisão final do manuscrito.

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