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Educar em Revista

Print version ISSN 0104-4060

Educ. rev.  no.12 Curitiba Jan./Dec. 1996

http://dx.doi.org/10.1590/0104-4060.167 

ARTIGOS DE DEMANDA CONTÍNUA

 

Eugenia: a higiene como estratégia de segregação*

 

 

Christiane Gioppo

Professora do Departamento de Métodos e Técnicas da Educação da Universidade Federal do Paraná

 

 

Neste ensaio, faremos uma breve reflexão sobre a segregação racial em seu tratamento mais científico, a eugenia. A partir da cunhagen do termo na Inglaterra do século XIX e fundamentada em teorias científicas, a eugenia passou de popular a científica e foi disseminada por aparatos legais, propiciando métodos eficazes de manipulação, orientação e controle dos considerados menos capazes que, não coincidentemente, faziam parte de um estrato da população pertencente às classes trabalhadoras.

Na seqüência, o texto discorrerá sobre a mudança do terras de eugenia para higiene e mostrará como a higiene foi peça fundamental para a formação e manipulação do pensamento operário no contexto da distração e organização da indústria brasileira, no final do século XIX e início do século XX.

Chegaremos, finalmente, ao fundamento do ideário segregador ligado à higienização do trabalhador e mostraremos de que forma este fundamento ideológico perpassou a formação dos professores que, para perpetuar a segregação, deveriam ser formados com tal orientação. Outros profissionais, como agentes sanitários e médicos, também foram formados para identificar e segregar os menos capazes em vista de seu próprio bem.

E concluiremos em termos da permanência destas idéias nos livros didáticos de hoje, que aparecem, de forma sutil, sub-reptícia e disfarçada.

Este ensaio não pretende aprofundar conhecimentos sobre o tema, mas apenas traçar um panorama do conceito desde sua origem até a permanência nos livros didáticos atuais, visando a gerar discussões junto aos professores.

A segregação humana é uma construção social que existe desde a origem das sociedades e ainda hoje ocorre, mesmo entre as tribos mais primitivas do interior do Amazonas ou da África. No entanto a transformação da segregação em limpeza racial, em eugenia, só ocorreu no século XIX com Francis Galton, sobrinho de Charles Darwin, em seu livro Hereditary Genius, publicado em 1869.

Bizzo (1994) ressalta que, ao utilizar-se de métodos estatísticos, Galton matematizou a visão popular sobre as diferenças entre as classes, conferindo-lhes um caráter "científico". A segregação possuiria, a partir daí, um argumento de validação.

O fundamento teórico para explicação das diferenças raciais foi a Teoria Pangenética de transmissão dos caracteres, elaborada por Charles Darwin, que sustentou serem os caracteres adquiridos numa geração transmissíveis às gerações seguintes. Galton observou que filhos de homens talentosos, advogados e médicos, geralmente seguiam a carreira de seus pais e utilizou de artifícios estatísticos para mostrar que estes transmitiam tais caracteres a seus filhos, igualmente inteligentes e bem-sucedidos, enquanto os pobres geralmente continuavam pobres. Mas Galton ignorou, em toda sua obra, as diferenças de condições materiais concretas para o indivíduo se desenvolver. Foi com este viés radical que ele propôs o termo eugenia para falarem melhoria das raças, enfatizando que quanto mais pura a raça mais forte e melhor ela será.1

Na Inglaterra e, principalmente, em sua ex-colônia americana, a eugenia veio, pois, a ser legitimada como científica pela influência inicial desse autor, a partir da Teoria Pangenética de Darwin e com base no delineamento da curva normal da Estatística.

As teses segregacionistas que surgiram, portanto, na metade do século XIX, fundamentadas numa teoria de reprodução não mais aceita atualmente, parecem, porém, estar tomando novo fôlego. Em outubro de 1994, apareceu nos Estados Unidos o livro The bell curve, que compila várias pesquisas sobre testes de QI e diferença de inteligência entre brancos e negros. Apesar de retomar intata a velha polêmica das diferenças raciais, promete ser um sucesso de vendas.

As idéias eugenistas começaram a chegar ao Brasil no final do século passado e, no início, com uma repercussão muito mais diluída do que a inglesa ou americana: "o Brasil assistiu a manifestações até bem comportadas dos defensores do melhoramento racial"2. Em 1870, os jornais das Faculdades de Medicina já discutiam a importância do médico higienista e seu papel na sociedade, mas a população de forma geral não tinha contato com esses periódicos.

Na década de 20, a Teoria Pangenética de Darwin era considerada ultrapassada e poderíamos esperar, como conseqüência lógica, que a eugenia também se tornasse superada, uma vez que utilizava como fundamento a pangênese. Mas isto não ocorreu, pelo contrário, a eugenia estava em ascendência, não só na Europa e nos Estados Unidos, mas também no Brasil. Em Piracicaba - SP, nessa época, fundava-se a Sociedade Brasileira de Eugenia, que reuniu médicos higienistas e outros simpatizantes e divulgou os preceitos higienistas em boletins e jornais de medicina; e para atingir a maioria da população, em livros de literatura e livros de formação de professores. Esta contradição entre a teoria superada e a ascenção da eugenia foi registrada como paradoxo. (Schwarcz, 1993; Bizzo, 1994)

O ideário eugenista parece ter influenciado muito algumas áreas, nas quais as idéias de organização e formação de mão-de-obra eram essenciais, como a área industrial. Os conhecimentos higienistas eram importantes para a "construção" de um operário padrão, cuja formação precisava ser minuciosamente elaborada para que toda sua vida estivesse orientada em função da fábrica.

A higienização foi o principal argumento para iniciar esta disciplinarização, que pretendia mudar hábitos e moldar o operário para o seu espaço de trabalho - enfim, criar uma nova mentalidade, A higienização, ou higiene, foi o sinônimo, o termo substitutivo encontrado para a eugenia, criada por Galton na Inglaterra.

Portanto, antes mesmo da introdução do taylorismo e do fordismo no Brasil, delineia-se o desejo burguês de construção da fábrica higiênica, espaço racional e apolítico da produção, até transformar-se num projeto enunciado e assumido pelo conjunto de especialistas, do empresariado e do Estado.3

As primeiras indústrias fabris no Brasil começaram com um modelo rude, quase escravagista, de disciplinarização. Pelo insucesso de seus métodos, os burocratas rapidamente perceberam que haveria de se mudar a estratégia para conquistar o funcionário, convencendo-o das vantagens da mudança, que lhe propiciaria mais tempo para dedicar-se ao trabalho, mais proximidade de sua casa com a fábrica e que seus filhos estudariam para ser futuros empregados da empresa. Foi uma técnica muito mais eficaz, opondo-se ao modelo de fábrica satânica criado pelos operários ingleses da revolução industrial; passaram a adotar, então, o modelo de fábrica higiênica, que tem como projeto subliminar um regime de disciplinarização que tornaria o espaço de produção atraente e aprazível para o funcionário, de acordo com preceitos de saúde e moral pré-determinados: "é preciso que se ensine aos trabalhadores rudes e ignorantes uma nova forma de vida, mais higiênica e adequada, antes que eles mesmos o façam (...) Assim se pretende formar o novo proletariado, impondo-lhe uma identidade moralizada, construída de cima e do exterior".4

As terapias disciplinares deveriam necessariamente atender também à família do trabalhador, pois a mudança de postura é uma mudança completa de modos e visão de vida: uma engenhosidade para penetrar na casa e na família do operário. As formas de ação eram fundamentais e deveriam inspirar confiança e oferecer vantagens a toda a família. Mulheres e crianças também deveriam ser adestradas, vislumbrando-se para tais criaturas perspectivas futuras de trabalho e melhoria de vida.

Estratégia disciplinar suave e sutil de adestramento dos corpos e do espírito, a terapia do trabalho visava manter os menores ocupados o tempo todo: (...) nas instituições assistenciais ou nos patronatos e orfanatos, no caso dos pobres. Tratava-se de fixar as crianças e, conseqüentemente, toda a família no interior da habitação e impedir que se organizassem atividades fora da intimidade doméstica.5

Para facilitar o sucesso do adestramento era necessário eliminar aglomerações e fazer com que cada família sentisse a importância de manter-se no interior de seu lar. Isso era, na verdade, um deslocamento tático do público ao privado. Para tanto havia total respaldo dos médicos higienistas:

O poder médico persegue a infecção no espaço privado do trabalhador, invade sua casa, inspeciona seu quarto e prescreve normas de conduta (...) Cada um deve dormir em sua cama individual (...). As casas operárias federão menos e perderão a marca negativa de ameaça pestilencial - promete o saber médico.6

Em vista dessa disciplinarização foram construídas vilas operárias próximas às fábricas, como cuidado de que seus funcionários não se atrasassem e tivessem todas as condições necessárias para absorver a inculcação higienista que a fábrica sutilmente impunha. Para eles, era imprescindível modificar aquela criatura tão desprezível - o trabalhador pobre:

No discurso dos higienistas, dos industriais ou ainda dos literatos, a representação imaginária do pobre estrutura-se em função da imundície. O pobre é o outro da burguesia: ele simboliza tudo o que ela rejeita em seu universo. É feio, animalesco, fedido, rude, selvagem, ignorante, bruto, cheio de superstições. Nele a classe dominante projeta seus dejetos psicológicos: ele representa seu lado negativo, sua sombra. Como Parent-Duchâtelet ou os médicos brasileiros, Aluísio Azevedo sente náuseas com o cheiro repugnante do povo amontoado nos cortiços, gerados espontaneamente como vermes.7

Vê-se, portanto, que todo o processo de higienização tinha como objetivo fundamental disciplinar o trabalhador para que ele produzisse mais, orientando toda a família para uma mudança de atitudes.

Havia também outro objetivo embutido nesta idéia: o de isolar o pobre com o intuito de separá-lo das elites, criando locais próprios, as vilas operárias, para que não fosse necessário conviver com eles.

 

Reflexos na educação

Como a maioria dos projetos educacionais que foram introduzidos no Brasil, a eugenia obviamente também não teve grande impacto. Textos, porém, explicando eugenia positiva e negativa e suas vantagens, passaram a estar presentes nos livros de formação de professores por muitos anos. Este fato, por si só, já representa muito. Somado à escassez da diversidade de livros para formação de professores, podemos supor que grande parte dos professores formados no Brasil tiveram em suas mãos, em algum momento, um destes livros.

O livro A hereditariedade em face da educação, de Octávio Domingues, era freqüentemente citado nos Boletins de Eugenia, da Sociedade Brasileira de Eugenia (que existia em Piracicaba nessa época) e traduz em palavras simples o pensamento eugênico, embora já se desligando de uma das suas premissas básicas: a transmissão pangenética de caracteres - teoria de Darwin - para aproximar-se do pensamento mendeliano. Com isto, a eugenia perde um grande aliado, tornando-se menos radical. Mas nem por isso deixando de orientar-se a uma "eugenia positiva", ou seja, aquela que aconselha e procura convencer, como na citação de Octávio Domingues:

(...) é preciso que nos sujeitemos aos dictames das leis da hereditariedade, e fujamos convictamente das uniões fóra das regras eugênicas, ou quando não, conscientemente, sopitemos por todos os meios a formação de uma prole geneticamente miserável.

Esse é um dos urgentes e preciosos auxílios que a Eugenia está solicitando da educação: explicar, convencer ao homem, ao cidadão, que as más heranças só se acabarão se o indivíduo geneticamente mau não procriar.8(grifo do autor)

No texto, o autor enfatiza que a ciência já não aceita a teoria reprodutiva de Darwin exposta por Galton no livro Hereditary genius - que é a base da eugenia -, mas ainda assim apresenta o que pode ser feito: "O mais prático e acertado, portanto, é agir, é influir, é actuar sobre o indivíduo pelo ensinamento dos princípios eugênicos, despertando-lhe a consciência, antes que promulgar leis, talvez não executáveis, e destinadas e serem burladas."9

Domingues faz uma clara referência ao papel da educação em orientar, dirigir o pensamento e inculcar idéias para que as leis sejam bem aceitas; caso contrário, jamais seriam cumpridas por não terem aprovação da população.

Já no livro Higiene e puericultura, de Valdemar de Oliveira, de 1966, são ignorados os conhecimentos da genética mendeliana. O autor prefere citar as teorias de Darwin sobre reprodução, mesmo que elas já não fossem mais aceitas há décadas:

A verdade científica, portanto, é esta: o casamento de dois tarados produz um terceiro tarado. Quantas famílias, no mundo, poderão orgulhar-se de não possuir taras? Além do que, nem sempre pode a medicina despistar certos caracteres hereditários. Só a prova real da união de dois seres definirá a pureza da semente de que provem. (...) O que a lei prevê, proibindo os casamentos consangüíneos, é a união temível de elementos degenerados cujas taras se somariam nos filhos com evidente prejuízo para a espécie. (...) a lei deveria considerar, entre os impedimentos ao matrimônio, o estado de saúde dos cônjuges, estabelecendo o exame médico pré-nupcial, baseado na conhecida lei de Darwin: "Os ascendentes têm tendência a transmitir aos descendentes seus caracteres gerais e individuais, antigos e adquiridos".

Essa transmissão se traduz pelo aparecimento, na pessoa dos descendentes, de caracteres ora paternos, ora maternos, ora de parentes colaterais, ora de avós (atavismo). Deles, herdamos as boas e más qualidades físicas e morais.10

É importante notar que o autor propõe o exame pré-nupcial baseado na "lei" darwiniana da transmissão dos caracteres adquiridos e que os atributos morais também são herdáveis, ou transmissíveis geneticamente, devido a esta mesma "lei", ignorando simplesmente todo o conhecimento da genética mendeliana, já amplamente difundida em 1966. Isto ocorria há apenas duas décadas atrás, o que nos leva a crer que provavelmente algumas professoras formadas por este livro ainda devem estar em sala de aula transmitindo tais conceitos e inculcando idéias de segregação.

Analisando as citações presentes na formação de professores até duas décadas atrás, percebe-se o quanto devem ter influído na formação de conceitos e atitudes, uma vez que este é o objetivo fundamental da eugenia: a disciplinarização e a orientação da população.

Estes pontos nos levam a refletir sobre os conceitos "científicos" que estão por trás de algumas atitudes "naturais" na escola e que, no entanto, parecem refletir as idéias de segregação, como a separação de turmas fortes e fracas, ou filas de carteiras com alunos acima da média, na média e abaixo da média, ou ainda, chavões utilizados por professores e até por pais quando se referem a um aluno com dificuldades de aprendizagem, como "a cabecinha dele é fraca, não tem jeito mesmo, por isso precisa reprovar". Tais atitudes nos levam a crer na presença das idéias eugenistas no aparelho escolar.

Atitudes segregatórias, infelizmente, não são exclusivas da educação escolar. Mello, em seu artigo "O elitismo no setor de saúde", relata o caso da epidemia de meningite meningocócica na cidade de São Paulo, que surgiu em 1971, atingindo a população de baixa renda e teve censurada sua divulgação até que atingiu, em 1974, o bairro elitizado do Morumbi; a partir daí divulgada, combatida e controlada, ficando conhecida como a Síndrome do Morumbi. Este fato ilustra o quão presente e grave é a segregação, embora muitas vezes escondida, em desfavor das populações de baixa renda.

Outros exemplos de casos semelhantes que acontecem diariamente revelam o papel da segregação intensificada pela sociedade de classes.

Por isso, o professor deve perceber a dimensão de seu papel social como agente de mudanças, identificando e discutindo com seus alunos as práticas de segregação e não se permitindo fazer o papel de agenciador e divulgador das idéias eugenistas pela via da higienização.

 

A eugenia e o livro didático

Este tópico não tem o propósito de aprofundar uma análise da eugenia no livro didático, mas enfatizar o que já vem sendo alertado inúmeras vezes quando se faz análise de livros didáticos. O livro de Nosella, por exemplo, já discutia o tema em 1981. Nele, a autora faz uma extensa pesquisa em livros didáticos e de literatura infantil, separando por tópicos os problemas encontrados. Ao concluir o livro, deixa claro que:

- os negros e as mulheres, quando aparecem nos desenhos de livros, são menores que os meninos brancos, estão em segundo plano ou representam papéis interiores, submissos;

- os textos que tratam de higiene fazem relação com a pobreza e incentivam textualmente a segregação em frases como: "Você não gostaria de sentar perto de alguém cheirando mal, mal vestido e sujo, não é?";

- colocam sempre a mulher como a responsável pela higiene da casa e pela educação das crianças.

Sobre a higiene nos livros didáticos, a autora escreve:

Os textos de leitura são veículos de propaganda, portanto, de modos de vida positivos, mas fora do alcance da classe pobre. Entre estes estão os "hábitos de higiene" descritos com todo o aparato de instalações sanitárias do "quarto de banho". Escovar os dentes, utilizando-se de escova e pasta dental: tomar banho com sabonete e um bom chuveiro, para depois vestir roupas bonitas. As preocupações com a higiene estão relacionadas a tais artigos de toalete, indispensáveis para se começar a desenvolver hábitos de higiene.

Textos de conteúdo elitista como estes humilham as crianças pobres, que na maioria das vezes, sentem-se sujas, não por ignorarem os hábitos de higiene, mas, principalmente, por falta de recursos para desenvolvê-los da maneira como são descritos. Se elas não possuem condições materiais e são pressionadas a serem "limpas", devem ficar sem saber por onde começar (...). A grande maioria da população pobre do país não possui nem ao menos rios limpos, para praticarem "hábitos de higiene", pois os resíduos químicos que as indústrias atiram estão poluindo as águas de todos eles.11 (grifos da autora)

A autora firmemente enfatiza o papel da inculcação ideológica presente nos textos e desmascara a formação de uma massa de manobra pronta para ser ordenada e cumprir alegremente as ordens. Em alguns textos, virtudes são comportamentos desejados, principalmente na mulher, mãe e responsável pela educação dos filhos. Os livros geralmente utilizam-se da simbologia animal das fábulas, perpetuando as diferenças sociais como vontade de Deus ou como determinação biológica e hereditária (como queria Francis Galton). A autora denuncia tais idéias, contidas nesses livros:

A ideologia dominante, subjacente a estes textos, veicula uma mensagem onde a mansidão, a docilidade diante da exploração, são valorizadas, porque tais virtudes, assimiladas pela estrutura da personalidade, transformarão as crianças em seres facilmente manejáveis e, além disso, felizes em sua disposição de servir.12 (grifos da autora)

Todas estas situações aparecem com mais freqüência nos livros de 1.ª a 4.ª séries do 1.º grau, mas também ocorrem de maneira sutil nos livros de 5.ª a 8.ª séries. Parece haver nos livros de Biologia Educacional um incentivo à ingenuidade da professora e de seus alunos que, se for seguido ao pé da letra, apenas auxiliará na formação de criaturas dóceis e meigas, reforçando a alienação como forma de dominação das elites sobre as camadas sociais menos favorecidas.

Exemplos da sutilidade da inculcação ideológica podem ser encontrados em muitos livros de leitura infantil, que incentivam a ingenuidade, a alegria e sub-repticiamente induzem à alienação. A coleção O mundo da criança está repleta de exemplos. Vejamos:

CASINHA RELUZENTE
Nancy M. Hayes
Adaptação de Helena Pinto Vieira
Eu desejo... tanto, tanto
Uma casa pequenina,
Bem pintadinha de branco.
Minha casa então teria
Um tapete para o gato;
Na parede, bem redondo,
Um buraco para o rato.
Um relógio, tique, taque,
Que as horas marcaria.
Enquanto eu fosse fazendo
Tudo, tudo com alegria.
Para a escola mandaria
Os meus queridos filhinhos,
Depois de dar-lhes, contente
Beijos, lápis e docinhos
Então começaria a faina,
O dever nosso de todo dia;
Com um pano, a casa toda,
Com esmero limparia,
Faria brilhar vidros e janelas,
Os armários e o chão.
Depois as grades, as portas,
Fechos, ladrilhos e fogão.
E, à noite, com as crianças
Dormindo sossegadas nas caminhas,
Na cadeira de balanço, bem tranqüila.
Consertaria as roupinhas,
Que linda casa a minha,
Que eu sempre limpa traria.
Em um lar assim brilhando
Muito feliz eu seria.
13

Note-se que a idéia está em ligar a organização familiar à responsabilidade da mulher, bem como a felicidade à higiene e limpeza da casa.

Outro exemplo, do mesmo livro, também relaciona a limpeza à alegria, à felicidade de ver tudo limpo e arrumado; e os desenhos mostram uma linda menina, loira de olhos azuis, "bem eugênica", muito limpinha e contente, dançando ao realizar sua tarefa:

QUANDO LILI VARRE
Nancy Byrd Turner
Tradução de Edvete da Cruz Machado

Vejam como está contente a Lili,
Varrendo, varrendo aqui e ali

Anda na seda toda faceira.
Vai a vassoura como parceira,

Não sei como a Lili não se cansa,
Quando trabalha ela também dança.

É tão engraçado o seu bailado
que deixa tudo bem arrumado:

às vezes parece que está valsando.
Outras parece estar cumprimentando;

Demora um pouco em cada cantinho
E quando sai deixa tudo limpinho.

E afinal, ao parar de dançar,
Pode-se ver, está tudo a brilhar
É divertido para se ver,
Quando a Lili começa a varrer14

Exemplos como esses mostram o quanto os livros didáticos e de literatura infantil podem ser os divulgadores de um ideário de segregação, a partir de textos aparentemente muito ingênuos e sem caráter segregador.

Propomos aos professores, portanto, que atuem criticamente na denúncia destas estratégias de segregação e usem outras táticas que permitam às classes trabalhadoras, ou minorias raciais, poder contra-argumentar e exigir os direitos que têm todos os cidadãos.

 

Considerações finais

Esta reflexão procurou apresentar o pensamento segregador, desde a cientifização da eugenia por Francis Galton, transformando-a em limpeza racial, até o reflexo deste pensamento na formação de professores e na sua ação educativa - de modo suave e sutil, pelo uso do termo higiene e de seus conceitos correlatos, como forma de inculcação ideológica por meio dos livros didáticos.

Ao finalizar a leitura deste ensaio, no entanto, podem surgir novas perguntas ao leitor, tais como: e agora? como identificar nos textos elementos sutis de segregação? como trabalhar com livros que nos são impingidos e que trazem em seu bojo toda uma carga de preconceitos sociais? A resposta a estas questões não é fácil, pois o livro didático é hoje, principalmente no Brasil, um grande veículo de formação e manipu-lação de opiniões e, por conseqüência, de alienação. Mas muitos autores vêm batendo insistentemente na tecla da alienação e, inclusive, alguns órgãos governamentais têm acordado para o fato.

No Paraná, por exemplo, a licitação pública para compra de livros didáticos de 1.º grau, em 1994, inseriu no edital de convocação um anexo contendo itens de qualidade no que se refere a especificações técnico-pedagógicas mínimas de aceitabilidade do material quanto a alguns requisitos educacionais, como conteúdo programático e metodologia utilizada.

Os itens de qualidade eram classificatórios (juntamente com os itens de menor preço). Quanto à qualidade o edital foi categórico:

Refutar-se-ão livros didáticos que forem apresentados de forma simplificada e descontextualizada, com base no cientificismo artificial, pois desta maneira cria-se uma visão esteriotipada, preconceituosa e equivocada do processo de produção do conhecimento científico (...)

(...) O ensino de ciências deverá contribuir na tentativa de libertar os alunos dos preconceitos, do misticismo, da magia e crendices presentes no seu cotidiano.15

Na especificação dos conteúdos sobre Saúde e Higiene, presentes nos livros didáticos, o edital citou:

- os aspectos referentes à saúde nos livros didáticos, devem restringir-se às ações comportamentais do indivíduo, não se priorizando os efeitos socioeconômicos que interferem e direcionam os programas governamentais;

- A saúde não poderá ser trabalhada meramente como regra de higiene.16

Este passo inédito e ousado pretende forçar a produção de livros didáticos de qualidade e voltados para uma percepção de mundo mais abrangente e relacionada com a vida dos estudantes. Este fato apenas, de forma isolada, de nada adiantará se o professor não estiver atento para perceber os erros, as incoerências dos textos didáticos e se não revelar as contradições que continuam a perpassá-los de forma sub-reptícia.

Para perceber tudo isto, o professor deve ser preparado, deve discutir com seus colegas, contar e escrever suas vivências e, principalmente, fazer análises críticas das situações que ocorrem em seu cotidiano.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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PARANÁ, Secretaria de Estado da Educação. Edital da Concorrência UCP/SEED n. 001/94.         [ Links ]

RAGO. Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar - Brasil: 1890 - 1930, 2. ed., São Paulo: Paz e Terra, 1987.         [ Links ]

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.         [ Links ]

THOMAS. Keith. O homem e o mundo natural. 2, reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.         [ Links ]

 

 

* Texto produzido para o Programa de Pós-Graduação em Graduação (Mestrado) da Universidade de São Paulo. Agradeço aos professores Nélio M. Vicenzo Bizzo, da Faculdade de Educação da USP; Antônio Lineu Carneiro, Vera Costa, Reny Guindaste e Vanirley Pedroso Guelfi, da UFPR.
1 BIZZO, Nélio M. V. Meninos do Brasil: idéias sobre reprodução, eugenia e cidadania na escola. São Paulo, 1994. Tese (Livre-Docência) - Faculdade de Educação, USP, p. 68-77.
2 BIZZO, Nélio M.V. op.cit. p. 96
3 RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar - Brasil: 1890-1930. 2.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1987. p. 19.
4 Ibidem. p. 17-18.
5 Ibidem. p. 122-23.
6 RAGO, op. cit., p. 173.
7 Atente-se para a concepção de reprodução sugerida. RAGO, op. cit., p. 175
8 DOMINGUES, Octávio. A hereditariedade em face da educação. 2. ed. São Paulo: Cia Editora Melhoramentos, 1935, p. 144-45.
9 DOMINGUES, op. cit., p. 145.
10 OLIVEIRA, Valdemar de. Higiene e puericultura. São Paulo: Editora do Brasil, 1966, p. 265-66.
11 NOSELLA, Maria de Lourdes Chagas Deiró. As belas mentiras: a ideologia subjacente aos textos didáticos. 7ª. ed. São Paulo: Editora Moraes, 1981, p. 159-60.
12 NOSELLA, op. cit., p. 172.
13 Coleção O MUNDO DA CRIANÇA, v. 2, Rio de Janeiro: Delta S. A. , 1949, p. 16.
14 Coleção O MUNDO DA CRIANÇA, v. 2, p. 15.
15 PARANÁ, Secretaria de Estado da Educação. Concorrência ECP/SEED n. 001/94, Anexo 2, p. 18-24.
16 Ibidem, p. 19-24.

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