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Educar em Revista

Print version ISSN 0104-4060

Educ. rev.  no.42 Curitiba Oct./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-40602011000500002 

DOSSIÊ: HISTÓRIA, EPISTEMOLOGIA E ENSINO: DESAFIOS DE UM DIÁLOGO EM TEMPOS DE INCERTEZAS

 

Apresentação

 

 

Maria Auxiliadora Schmidt; Tânia Maria Figueiredo Braga Garcia

Organizadoras

 

 

O campo de investigação do ensino de História, no Brasil e em outros países, tem procurado incorporar questões, debates, problemáticas e objetos de análise, abrangendo interfaces de duas áreas do conhecimento: o campo teórico da história e o campo teórico da educação. A especificidade deste campo de investigação expande as possibilidades de diálogo entre as ciências, abrindo leques de expectativas infinitas em relação à produção do conhecimento. Assim, a produção e a organização desse Dossiê sobre temáticas relacionadas à "História, Epistemologia e Ensino", impôs grandes desafios.

Enfrentar alguns desses desafios foi um começo difícil, porém intrigante. Como ponto de partida, buscou-se a âncora em alguns consensos já construídos em torno da interface entre as áreas de conhecimento da História e da Educação, particularmente o fato de que a diversidade humana é comum à própria condição humana. Portanto, não se pode ignorar a pluralidade pela qual se manifesta a experiência humana com o conhecimento, bem como a diversidade de formas de apreender, ler e explicar o mundo, seja do ponto de vista social, racial ou de gênero. Assim reconhecer não significa adesão ao pressuposto do relativismo céptico traduzido pela postura de "vale tudo" face a qualquer produção teórica (BARCA, 2006, p. 17), perigo que talvez seja uma das grandes insatisfações do nosso presente ou, à moda de Tony Judt, o mal que ronda a terra (JUDT, 2011). Na esteira das reflexões realizadas por Moraes (2003), um dos grandes desafios que também moveu a proposição desse Dossiê foi a necessidade do enfrentamento do que essa autora lucidamente chamou do recuo da teoria, presente em políticas de produção do conhecimento e de formação docente. A partir do caso específico do ensino de História e certa dose de coragem intelectual, os autores que compõem o Dossiê aceitaram o convite e, desde 2009, endossaram o desafio de enredar momentos como aqueles relacionados à busca e análise de dados empíricos, conceitos e marcos referenciais, colocando em primeiro plano a discussão e o debate teórico que envolvem as questões epistemológicas da História e do seu ensino, mesmo no clima de desconsolo (MORAES, 2003) do pragmatismo, que tem rondado a terra onde germina, nasce e cresce a produção do conhecimento no mundo contemporâneo.

Se esse desafio é o ponto comum entre os autores incluídos nessa coletânea, eles são, cada um a seu modo, intérpretes da teoria e da metodologia circunscrita ao seu objeto de reflexão. Esse autocentramento reporta-se à determinação da experiência biográfica e do ofício próprio de todos os autores, assim como à relação vida e obra, pois todos trabalham na interface do campo teórico da história e da educação. Uma dupla face em que tanto a vida influencia a obra como a obra influencia a vida, é forma pela qual cada um dos autores indica os caminhos que percorreu em seus trabalhos.

O filósofo e historiador inglês Peter Lee abre as discussões e reflexões apresentadas nesse Dossiê com uma questão fundamental, apresentada em seu artigo - "Por que aprender História?". De forma instigante e com profunda inserção na filosofia da história, esse pesquisador parte de uma premissa inquestionável - ninguém escapa do passado e, por isso, a aprendizagem histórica precisa levar em conta as maneiras pelas quais nós validamos o passado. Assim, temas como a evidência, as leis e generalizações e a experiência vicária são tratados pelo autor, no sentido de mostrar a relevância da aprendizagem histórica.

Na mesma direção, em seu artigo "História: consciência, pensamento, cultura, ensino", Estevão C. de Rezende Martins aponta perspectivas do ensino e aprendizagem da história, tendo como referência o pressuposto de que a história se faz pelo agir humano no tempo e no espaço social. O autor, na esteira das discussões encetadas por Peter Lee, defende que o ensino de história encontra sua missão mais destacada no estabelecimento da correlação substantiva entre a vida quotidiana do presente e o passado historicizado, requerendo a preservação da qualidade dos conteúdos e a responsabilidade pedagógica e ética dos alunos e professores.

Algumas discussões de caráter epistemológico sobre a mudança e sua relação com a aprendizagem histórica são apresentadas pela investigadora portuguesa Isabel Barca, no artigo "Educação Histórica: Vontades de mudança". Referenciando-se nas discussões historiográficas contemporâneas, a autora apresenta e discute fundamentos teóricos, métodos e resultados de estudos sobre ideias de mudanças apresentadas por alunos de vários países, no sentido de colaborar para que seja construído um tipo de orientação temporal eventualmente mais adequada aos tempos de incerteza que hoje se vive.

O historiador espanhol Rafael Valls, em seu artigo "A multiculturalidade no ensino de história e o desajuste entre as intenções educativas e as práticas escolares: os desafios do presente e do futuro imediato", discute conceitos relacionados a questões como dimensão intercultural e multiculturalidade. Analisa resultados de pesquisas sobre atitudes e representações de jovens, particularmente no que se refere aos "estrangeiros", apontando desafios que essas representações apresentam para um ensino de história orientado à formação de cidadãos mais abertos, plurais e solidários.

Arthur Chapman, em seu artigo "Taking the perspective of the other seriously? understanding historical argument" discute a natureza e a importância da construção de argumentos para a aprendizagem histórica. A partir de investigação realizada por meio de diferentes estratégias pedagógicas, o autor mostra a importância dos alunos entenderem a construção da argumentação histórica e como isso influi em suas aprendizagens.

Questões também inter-relacionadas a valores e atitudes éticas de jovens são analisadas no artigo de Maria Auxiliadora Schmidt, "Hipóteses ontogenéticas relativas à consciência moral: possibilidades da consciência histórica de jovens brasileiros". Em outra dimensão, mas também de grande relevância para a compreensão de como jovens alunos constroem sua relação com o conhecimento histórico, estão as análises e considerações apresentadas por Marlene Cainelli em seu artigo "Entre continuidades e rupturas: uma investigação sobre o ensino e aprendizagem da história na transição do quinto para o sexto ano do ensino fundamental".

No sentido de abrir debates e sugerir considerações acerca de indícios fundamentais para se entender as determinações históricas sobre o processo de construção da relação entre perspectivas epistemológicas da história e do seu ensino, estão dois artigos incluídos nesse dossiê. O primeiro, escrito de forma colaborativa pelos pesquisadores Jorge Luiz da Cunha e Lisliane dos Santos Cardôzo, "Ensino de História e formação de professores: narrativas de educadores", e o outro, "A guardiã das tradições: a História e o seu código curricular", apresentado pela pesquisadora Kátia Maria Abud.

Finalmente, o artigo da pesquisadora Tânia Maria Figueiredo Braga Garcia "Pesquisa em educação: confluências entre Didática, História e Antropologia" aponta avanços necessários à pesquisa sobre o ensino e a aprendizagem. A partir do reconhecimento da diversidade do que se denomina "pesquisa qualitativa", a autora analisa contribuições da Sociologia e da Antropologia ao estudo em escolas e salas de aula - especialmente as abordagens etnográficas; e aponta a necessidade de aprofundar o diálogo entre Antropologia e História no estudo das situações didáticas, em particular no âmbito da Educação Histórica.

Em todos os artigos estão presentes o desassossego e a vitalidade, frutos das insatisfações da cultura do presente, onde cabe a utopia de cada um dos autores. E isso tem um duplo significado, pois

[...] de um lado, desassossego evoca um distúrbio, uma inquietação, uma irritação, por outro lado evoca um movimento, um direcionamento, uma vitalidade. Se nos sucedemos em conceber os elementos utópicos da orientação cultural do agente, de maneira tal que evite o perigo de eles serem pervertidos em instrumentos de poder e violência, então, como fontes vivas de força, eles poderiam inspirar nossa ação, afinar nossa visão crítica das condições e desenvolvimentos do mundo, bem como reforçar as esperanças que são nosso elixir da vida. (RÜSEN, 2007, p. 280).

Em tanto por isso e também além disso, esses artigos ajudam a acompanhar a complexa tessitura do fazer histórico e do fazer educacional, de forma oportuna e excelente, pois contribuem para reforçar elementos utópicos de nossa orientação cultural, mas não somente por isso, vale a sua leitura.

 

REFERÊNCIAS

BARCA, Isabel. Em torno da epistemologia da História. In: ______; GAGO, Marília (Orgs.). Questões de epistemologia e investigação em Ensino de História. Braga: Uminho, 2006. p. 17-26         [ Links ]

JUDT, Tony. O mal ronda a terra. Um tratado sobre as insatisfações do presente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.         [ Links ]

MORAES, Maria Célia Marcondes de. Recuo da teoria. In: ______ (Org.). Iluminismo às avessas. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p. 151-168         [ Links ]

RÜSEN, Jörn. Rethinking Utopia: A Plea for a Culture of Inspiration. In: ______; FEHR, Michael; RIEGER, Thomas W. (Orgs.). Thinking Utopia. New York: Berghahn Books, 2007. p. 276-282.         [ Links ]