SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 issue42The teaching of the main features of Brazilian venomous snakes: didactic literature evaluation of the Elementary School of the Municipality of Rio de Janeiro author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Educar em Revista

Print version ISSN 0104-4060

Educ. rev.  no.42 Curitiba Oct./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-40602011000500020 

RESENHA

 

Aprender História: perspectivas da Educação Histórica

 

 

Júlio Ricardo Quevedo dos Santos

Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo; Professor Associado do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM); Professor do PPG Mestrado em Patrimônio Cultural e em História na UFSM; Líder do Grupo de Pesquisa "Educação, Saúde, Trabalho e Desenvolvimento Social"

 

SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel. Aprender história: perspectivas da educação histórica. Ijuí: Unijuí, 2009

Ler a obra Aprender História, organizada por Maria Auxiliadora Schmidt e Isabel Barca, é fundamental e prazeroso. Fundamental porque se trata de um debate extremamente necessário para o ofício do historiador licenciado, devido a sua pertinência teórico-metodológica, cuja abordagem recai no inovador método da Educação Histórica, com a sua magnitude e abrangência sobre o cotidiano escolar. Prazeroso porque as análises estão muito bem elaboradas e são empolgantes, envolventes, e nos desafiam a refletir sobre a nossa prática de historiador licenciado e as maneiras que aprendemos e ensinamos a pensar historicamente, quer seja no ensino ou na pesquisa. As propostas apresentadas em cada capítulo espelham as largas experiências e trajetórias trilhadas por suas autoras e autores, as quais, em forma de excelentes sínteses, vão desdobrando as várias possibilidades de trabalhar com a Educação Histórica e seduzindo para a temática sobre o "Aprender história".

O fio condutor da obra Aprender História é a Educação Histórica, a qual se preocupa com a busca de respostas concernentes ao desenvolvimento do pensamento histórico e à formação da consciência histórica de crianças e jovens. Deste princípio norteador, como se fosse uma semente, germinam as presentes análises focadas na compreensão de que está se trabalhando meticulosamente com uma ciência que congrega e contempla as múltiplas temporalidades pautadas nos diferentes sujeitos históricos, os quais constroem e construíram o passado histórico, lembrado, conhecido à luz do tempo presente.

Nesse sentido, as presentes análises são construções acadêmicas atuais, inovadoras, que refletem os métodos de como e quando se pode falar de consciência histórica. Boa parte dos capítulos são resultados de pesquisas que levam a cabo a publicização da produção dos pesquisadores do Laboratório de Pesquisa em Educação Histórica da Universidade Federal do Paraná (LAPEDUH).

Cada capítulo desta obra teve por foco os parâmetros do LAPEDUH, coordenado magnificamente pela Prof.ª Dr.ª Maria Auxiliadora Schmidt e vinculado ao PPG em Educação da UFPR. No LAPEDUH, desde 1997 são desenvolvidos trabalhos que qualificam as discussões sobre Educação Histórica, o que tem consolidado a linha de pesquisa "Cultura, Escola e Ensino", sendo a obra Aprender História um dos excelentes resultados das discussões empreendidas no âmbito deste laboratório. Dessa maneira, o que se lê ao longo da obra tem por foco uma visão inovadora do ensino de História, com suas novas teorias que apontam as implicações sociais, políticas e culturais, integrando a preocupação em conhecer os diversos sentidos que crianças, jovens e adultos constroem sobre a História, como refere Isabel Barca. A leitura atenta dos capítulos sinaliza para a aplicação do método da Educação Histórica, o que permite uma séria reflexão sobre a natureza do conhecimento histórico e seu papel como ferramenta para análise da sociedade e como recurso para mudança da consciência histórica.

Para executar tal proposta, nos primeiros capítulos são abordadas as questões teórico-metodológicas da Educação Histórica, que nos permitem "colocar as ideias no lugar" no que concerne a aprender e ensinar História e aos seus desafios no tempo presente. Quando nos referirmos às ideias no lugar estamos propondo uma alusão ao significado sobre o aprender e ensinar História a partir da compreensão da formação da consciência histórica de alunos e professores, posto que os capítulos desta obra averiguam a relação dos sujeitos com o saber histórico produzido no âmbito da Educação Básica. Gradativamente, cada capítulo vai pormenorizando a função social da Educação Histórica nas perspectivas da formação cidadã, da compreensão e respeito à diversidade cultural, tendo por base a leitura dos diferentes universos culturais construídos historicamente. As autoras e os autores desta obra nos remetem aos paradigmas da Educação Histórica propostos por Jörn Rüsen, Peter Lee, Isabel Barca e Maria Auxiliadora Schmidt, o que nos facilita colocar as ideias no lugar da consciência histórica das crianças, jovens e docentes.

A produção intelectual sobre a Educação Histórica empreendida pelo LAPEDUH ultrapassa as fronteiras acadêmicas do local e do nacional e estabelece o diálogo acadêmico internacional, como está evidenciado nos capítulos elaborados por Isabel Barca, Marilia Gago, Julia Castro, Fátima Chaves e Helena Pinto, que nos apresentam os resultados das auto-oficinas, as quais nos possibilitam a reflexão sobre a consciência histórica de crianças e jovens, se tratando de uma atitude de orientação temporal sustentada refletidamente pelo conhecimento da História distinta do que está expresso no senso comum quando se refere ao sentimento de identidade, como expõe Isabel Barca.

Contudo, a leitura de Aprender História adquire outro sentido quando estabelecemos o diálogo com os docentes em formação. O que foi possível numa experiência muito prazerosa e significativa com docentes do PPG Especialização em História da Universidade Federal de Santa Maria, quando adotamos Aprender História. Inicialmente, a maioria do grupo estava com as "ideias fora do lugar" a respeito das novas perspectivas do ensino de História no que se refere à Educação Histórica e à consciência histórica. Aprofundamos a discussão do capítulo de Maria Auxiliadora Schmidt e passamos a debater as maneiras possíveis de superar as formas tradicionais e exemplares de consciência histórica, as quais engessam as narrativas baseadas em organizações lineares do tempo. Foi aí que propusemos um exercício intelectual a partir das leituras do livro, problematizando como e em que momento as formas tradicionais podiam ser superadas e como podia se avançar para as propostas da Educação Histórica. O desafio residia na reflexão sobre a prática docente e a construção do saber histórico na Educação Básica, em níveis e realidades escolares diferentes da rede de ensino do município de Santa Maria-RS. O debate de cada capítulo deste livro era um desafio seguido de provocação e de desacomodação das formas tradicionais de consciência histórica.

Porém, à medida que o debate foi se efetivando e os docentes seduzidos pela leitura foram percebendo o quanto os pressupostos expostos ao longo da obra indicam que o campo da investigação em Educação Histórica leva em conta uma profunda reflexão sobre a natureza do conhecimento histórico e o seu papel preponderante como ferramenta da construção da cidadania, do respeito por si e pelos outros, da solidariedade, da autoestima da criança e do adolescente, muitas práticas docentes passaram a ser revisadas. Algumas docentes relataram que a partir da proposta do livro passaram a conhecer melhor seus alunos, suas expectativas, projeções de vida e imaginários. A cada capítulo um desafio, uma proposta, um diálogo e assim, à medida que vamos nos apropriando da obra, ela vai adquirindo um sentido pessoal e coletivo, transformando-se em experiência extremamente gratificante. As e os docentes foram interlocutores ativos na compreensão e na autoavaliação de suas práticas docentes a partir da leitura, do debate e da apropriação de Aprender História, trazendo à discussão os relatos de suas experiências, mas acima de tudo dos excelentes resultados obtidos no cotidiano das suas diversas realidades de culturas escolares.

Por fim, se desse exercício supramencionado os interlocutores apresentaram resultados inesperados e surpreendentes, transpondo de uma situação de acomodação pautada nas formas tradicionais de consciência histórica para uma situação em que desejaram e efetivaram a Educação Histórica, é porque Aprender História é uma obra rica em conteúdo, profunda, de exímio valor à formação do historiador licenciado. Dessa maneira, esta obra adquire um papel preponderante para o ensino de História, por suas análises, métodos, autores e instituições vinculadas. O público leitor tem um excelente material que discute a formação de consciências históricas renovadas, atualizadas, oxigenadas e democráticas.