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Educar em Revista

versão impressa ISSN 0104-4060

Educ. rev.  no.43 Curitiba jan./mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-40602012000100002 

DOSSIÊ: EDUCAÇÃO DE BEBÊS E DESENVOLVIMENTO INFANTIL: INTERVENÇÃO E ATENÇÃO PRECOCE

 

Apresentação

 

 

Maria Augusta Bolsanello

Organizadora. Professora do Departamento de Teoria e Fundamentos da Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação, do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Brasil. Coordenadora do Labebê - Laboratório de Estimulação e Atenção Precoce de Bebês - da Universidade Federal do Paraná, Brasil

 

 

A motivação para a organização deste dossiê, se deu pelo desejo de apresentar ao leitor um conjunto de pesquisas e estudos inéditos de profissionais renomados no campo da intervenção e da atenção precoce, tanto no âmbito nacional quanto internacional, que pudesse contribuir para o desafio constante da melhoria do atendimento biopsicossocial e educacional de bebês (aqui definidos como as crianças na faixa etária entre zero e três anos) e da criança pequena, permeado sempre no respeito aos princípios da dignidade humana, dos direitos da infância, aos princípios da educação para todos e aos preceitos constitucionais.

Nas décadas de sessenta e setenta, os programas de estimulação precoce eram destinados às crianças com deficiências na faixa etária entre zero e três anos e tinham como quadro de referência o modelo médico, centrado na relação profissional-criança, com a intervenção focada na deficiência infantil. Nas últimas décadas, sobretudo nos Estados Unidos e países europeus, os programas de estimulação precoce sofreram uma transformação notável, especialmente no que se refere à participação das famílias, que passou de um papel secundário a um papel de destaque nestes programas, e ao âmbito de atuação, que se estendeu para os serviços de saúde, sociais e educativos. Dentro deste novo enfoque, a estimulação precoce toma uma nova denominação - atenção precoce -, consistindo em um conjunto de intervenções dirigido à população infantil de zero a seis anos, à família e ao seu contexto, tendo por objetivo responder às necessidades transitórias ou permanentes que apresentam crianças de risco ou com transtornos em seu desenvolvimento. Nesta nova abordagem, profissionais, educadores e pais devem caminhar juntos na responsabilidade de promover o desenvolvimento e a aprendizagem da criança.

Por meio do presente dossiê, pretende-se trazer um pouco mais de luz sobre o tema da atenção precoce e evidenciar algumas questões relacionadas com o desenvolvimento infantil, sobretudo no espaço educativo, no sentido de contribuir para o avanço desta disciplina na realidade brasileira.

No primeiro artigo, intitulado "Prevención, promoción del desarrollo y atención temprana en la Escuela Infantil", Julio Pérez-López, María Teresa Martínez-Fuentes, Ángela Díaz-Herrero e Alfredo G. Brito de la Nuez, integrantes do Grupo de Pesquisa em Atenção Precoce, da Universidade de Murcia, Espanha, apresentam em detalhes o Serviço de prevenção, promoção do desenvolvimento infantil e atenção precoce desenvolvido por esta universidade, cuja finalidade é oferecer um atendimento destinado a prevenir e promover o desenvolvimento de crianças desde os seus primeiros anos de vida, visando ao ajuste familiar e ao êxito escolar. Na continuidade, os autores apresentam e analisam resultados empíricos relacionados ao desenvolvimento de bebês na educação infantil, que participaram de um programa de prevenção e promoção do desenvolvimento, e os comparam com os resultados de crianças que não participaram. Os autores enfatizam a eficácia da prevenção primária nas escolas infantis, na perspectiva da atenção precoce.

No artigo "Aplicación de programas de atención temprana siguiendo un modelo educativo", Juan Sánchez-Caravaca e Isidoro Candel Gil ressaltam a importância dos contextos educativos para o desenvolvimento infantil e analisam os antecedentes e a contextualização dos programas de atenção precoce que seguem um modelo educativo. Fazem uma atualização dos programas de atenção precoce e efetuam considerações metodológicas e organizativas que devem orientar programas públicos disponíveis, de modo que estes programas sejam acessíveis a todas as crianças pequenas com e sem necessidades especiais.

Os autores portugueses Vítor Franco, Madalena Melo e Ana Apolónio, no artigo intitulado "Problemas do desenvolvimento infantil e intervenção precoce", muito apropriadamente ressaltam a necessidade de se ultrapassar o modelo médico na compreensão das crianças com dificuldades, perturbações do desenvolvimento ou necessidades especiais. Enfatizam a necessidade de se adicionar outras dimensões contextuais a um modelo de diagnóstico e caracterização essencialmente etiológico, sobretudo na intervenção precoce, que envolve equipes interdisciplinares de diferentes saberes. Empenhados em desenvolver práticas e instrumentos mais adequados para os programas de intervenção precoce, os autores apresentam resultados obtidos com a utilização do instrumento "Organização Diagnóstica em Intervenção Precoce" para caracterizar crianças com deficiências, problemas de desenvolvimento ou em situação de risco da região de Alentejo, Portugal. Demonstram a eficácia do instrumento, que permite uma descrição detalhada das características desta população, apoiada pela rede de intervenção precoce, com destaque para o diagnóstico principal e o diagnóstico detalhado.

No artigo "Programa de intervenção e atenção precoce com bebês na educação infantil", Carolina Soejima e Maria Augusta Bolsanello apresentam uma pesquisa realizada com bebês em creche pública, onde foram avaliadas 63 crianças por meio das Escalas Bayley II. Dentre as crianças que apresentaram defasagem no desenvolvimento, 20 foram submetidas a um programa de intervenção precoce. Os resultados apontaram visível progressão no desenvolvimento destas crianças, levando as autoras a inferir que um programa de intervenção precoce pode ter efeitos positivos sobre o desenvolvimento (motor e mental) de crianças entre zero e três anos que permanecem em tempo integral em creche pública.

Olga Maria Piazentin Rolim, por sua vez, no seu artigo "Escalas de desenvolvimento infantil e o uso com bebês", descreve minuciosamente as escalas mais utilizadas para avaliar o desenvolvimento de bebês e aponta a falta de instrumentos padronizados para a população infantil brasileira. Faz um levantamento e análise de pesquisas nacionais que têm utilizado estas escalas com crianças pequenas e ressalta a importância da utilização destes instrumentos para a avaliação de bebês, que permitem dar subsídios aos educadores e demais profissionais na elaboração de programas de intervenção precoce.

"Ensinando o pai a brincar com seu bebê com síndrome de Down" é o artigo em que Nancy Capretz Batista da Silva e Ana Lúcia Rossito Aiello buscaram avaliar se uma intervenção direcionada ao pai altera seus padrões de interações com seu filho com síndrome de Down em situações de brincadeira. Participaram do estudo cinco casais (pai e mãe) com filhos com síndrome de Down, onde brincaram com suas crianças em suas próprias residências. As autoras destacam a importância do brincar entre pai e filho com síndrome de Down e a necessidade de se promover o envolvimento do pai em programas de intervenção precoce.

No artigo "Práticas educativas e estresse parental de pais de crianças pequenas com desenvolvimento típico e atípico", os autores Maria de Fátima Minetto, Maria Aparecida Crepaldi, Marc Bigras e Laura Ceretta Moreira realçam a importância da família na promoção do desenvolvimento infantil e assinalam as vicissitudes pelas quais passam as famílias por ocasião do nascimento de um filho com deficiência intelectual. Analisam práticas educativas evidenciadas por pais de crianças típicas, pais de crianças com deficiência intelectual sem características físicas sindrômicas aparentes e pais de crianças com síndrome de Down. Os autores verificaram que os três grupos de pais apresentaram diferenças no que se refere às práticas educativas e que pais de crianças com deficiência intelectual apresentam índices maiores de estresse que pais de crianças com desenvolvimento típico.

Os sete artigos que compõem o presente dossiê são complementados pela resenha do livro A educação infantil como um projeto da comunidade: crianças, educadores e pais nos novos serviços para a infância e a família. A experiência de San Miniato, de autoria do professor italiano Aldo Fortunati. A resenha foi elaborada por Marisa Zanoni Fernandes, da Universidade do Vale do Itajaí, Santa Catarina, que descreve muito claramente as concepções de Fortunati sobre o desenvolvimento da criança entre zero e três anos no espaço da educação infantil e como a comunidade de San Miniato, Itália, com sua cultura, organiza e faz gestão dos serviços educativos. Aldo Fortunati, especialista no planejamento de serviços educativos para a infância, é presidente do Centro de Pesquisa e Documentação sobre a Infância La Bottega di Geppetto, vice-presidente do Gruppo Nazionale Nidi Infanzia e diretor da área de documentação, pesquisa e formação do Istituto Degli Innocenti de Florença, Itália. Entre suas ideias, destaca-se o reconhecimento da identidade das crianças como pessoas cidadãs e protagonistas de seu próprio desenvolvimento e a ênfase na política pública que deve garantir oportunidades e recursos para o desenvolvimento dos serviços de educação e cuidado das crianças.

Esta apresentação de modo algum contempla toda a riqueza e profundidade do dossiê, mas anuncia certamente percursos e cenários que só o leitor, ao explorá-los, poderá elucidar.

Desejo expressar a todos os autores e autoras, de reconhecida trajetória profissional e científica, o meu mais profundo agradecimento: preparar um dossiê supõe dedicação, mas também provoca intensa satisfação - e foi o que me proporcionou esta organização.

 

Curitiba, 01 de novembro de 2011