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Educar em Revista

Print version ISSN 0104-4060

Educ. rev.  no.47 Curitiba Jan./Mar. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-40602013000100017 

ARTIGOS DE DEMANDA CONTÍNUA

 

Pierre Bourdieu, dez anos depois

 

Pierre Bourdieu, ten years after

 

 

Cristina Carta Cardoso de Medeiros

Doutora em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professora Adjunta do Departamento de Educação Física da UFPR. Professora colaboradora no Programa de Pós- Graduação de Educação Física da UFPR; Brasil. E-mail: cricaccm@gmail.com

 

 


RESUMO

O presente texto procura discutir o legado deixado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. Dez anos após sua morte, tem-se discutido, em nível internacional, a relevância deste autor, um dos mais influentes e citados teóricos do mundo. Para a identificação desta influência no Brasil, mais especificamente no campo educacional brasileiro, pesquisou-se nas teses e dissertações encontradas no banco de dados da CAPES, que referenciavam Bourdieu, de que forma estaria se dando a apropriação de seu quadro teórico de análise para construção de conhecimento no referido campo. Concluiu-se que o número de produções defendidas nos Programas de Pós-Graduação em Educação no Brasil, de 1965 a 2010, cresce de forma exponencial, demonstrando o quão profícua a utilização da teoria sociológica de Bourdieu tem se mostrado para explicar a realidade da Educação no Brasil na contemporaneidade. Encerra-se o artigo com uma reflexão sobre a consideração do status de Bourdieu como um clássico da Sociologia que, paradoxalmente, se mostra mais atual e vivo do que qualquer outro autor quando se trata de aplicar seu princípio maior, a saber, analisar o mundo social e suas lógicas, desvelando as formas de dominação e as misérias sociais.

Palavras-chave: Pierre Bourdieu; legado; produção de conhecimento em Educação.


ABSTRACT

This paper's intent is to discuss the legacy left by the French sociologist Pierre Bourdieu. Ten years after his death, it has been discussed at an international level the relevance of this author, one of the most cited and influential theorists in the world. To identify such influence in Brazil, more specifically in the Brazilian educational field, we investigated theses and dissertations found in CAPES database, which referenced Bourdieu, to identify how those works use his theoretical framework of analysis for construction of knowledge in that field. It was concluded that the number of productions held in post-graduate programs in education in Brazil, from 1965 to 2010, grows exponentially, demonstrating how useful the use of Bourdieu's sociological theory has been to explain the reality of education in Brazil nowadays. We conclude the article with a comment on the consideration of Bourdieu's status as a classic of sociology which, paradoxically, is more current and alive than any other author when it comes to applying your larger principle, namely, the analysis of the social world and its logical, unveiling the forms of domination and social misery.

Keywords: Pierre Bourdieu; legacy, the production of knowledge in Education.


 

 

Bourdieu: um pensador globalizado

O dia 23 de janeiro de 2012 marcou exatos dez anos do falecimento de Pierre Bourdieu. Vitimado por um câncer de pulmão, o sociólogo de 71 anos desapareceu deixando um importante legado que, diante deste marco temporal, passou a ser destacado.

Colóquios, seminários, publicações de livros inéditos e reedições, artigos em jornal, os mesmos jornais que, segundo Traimond (2012), recusavam seus artigos quando o teórico era vivo, todos querem relembrar Bourdieu, apesar de este autor ter encontrado profundas oposições, seja no mundo acadêmico, no político, no midiático ou no editorial.

Se alguns comentadores, como Traimond (2012), acreditam que com a morte de Bourdieu suas atividades militantes e científicas foram dramaticamente interrompidas, a maioria vem a público destacar que o sociólogo é um dos pensadores mais influentes e citados no mundo, ainda que não tenha atingido em seu país a áurea que sua obra monumental alcançou em nível mundial (MOURGUES, 2012).

O artigo de Chevassus-au-Louis (2012) corrobora a afirmação acima quando destaca que mesmo antes da aparição do livro de mais de 600 páginas Sur L'État, uma compilação de cursos de Bourdieu de 1989 a 1992 com o tema o Estado no Collège de France, os direitos mundiais de tradução em inglês já estavam vendidos, um indicativo do reconhecimento internacional do sociólogo. O cronista se pergunta, então, como uma Sociologia fundada sobre o estudo de somente duas sociedades – a cabila dos anos 1950 e a francesa dos anos 1960 a 1990 – pôde adquirir tal audiência mundial? Isso se explicaria porque o autor, mesmo mergulhado em seu universo empírico, tratou de questões universais.

Chevassus-au-Louis (2012) resgata uma pesquisa de 2008, realizada por Gisele Sapiro e Mauricio Bustamante, em que foram recenseados 347 livros de Bourdieu em 34 línguas diferentes, difundidos em 42 países, provando que, sem dúvida, Bourdieu é um pensador globalizado. Curiosamente, ao se observar mais atentamente a lista de obras mais traduzidas, poder-se-á identificar que os livros mais comuns na França (A miséria do mundo e Les héritiers) não são os mais traduzidos. As obras mais traduzidas, além dos compilados de artigos e conferências, são Sobre a televisão, A dominação masculina, As regras da arte e as Razões Práticas. Para os autores do recenseamento, a partir destes dados e analisando a circulação internacional dos livros traduzidos, pode-se inferir sobre a recepção de um pensador em larga escala, uma vez que traduzir um livro significa se endereçar a um público mais ampliado que aquele formado pelos pares (pesquisadores, professores universitários, especialistas, alunos e intelectuais).

Outros dados importantes são apresentados ainda no artigo de Chevassus-au-Louis (2012) dando conta da recepção de Bourdieu no meio acadêmico no mundo. A partir de duas bases de dados americanas (Social Sciences Citation Index e Art and Humanities Index), é possível ter uma noção da influência de um autor, sendo que a de Bourdieu, a partir destas bases, é enorme. Desde 1991, data da criação da base, observou-se que, em 2.101 artigos, Bourdieu figurava entre as palavras-chave, concluindo-se que tais trabalhos discutiam algum aspecto de sua obra. Outra pesquisa, buscando agora a citação de artigos ou livros de Bourdieu, atestou igualmente que esse sociólogo, junto com Foucault e Derrida, é um dos autores mais citados. O interessante é que Bourdieu marca sua notoriedade em domínios variados, como Sociologia, Ciências da Educação, Antropologia, Ciências Políticas, História, Geografia, entre outras disciplinas das Ciências Humanas.

Segundo Lenoir (2012), não faltaram, após o falecimento de Bourdieu, numerosos trabalhos consagrados à sua pessoa, sua obra, suas publicações científicas e a seus posicionamentos políticos. Na América Latina, particularmente na Argentina e no Brasil, os investigadores têm tentado manter a maneira do autor de fazer Sociologia, de pensar o funcionamento do mundo social, procurando colocar Bourdieu em ação, em "atos de pesquisa", tal como o título da revista que ele dirigiu até sua morte.

No Brasil, tal premissa pode ser ratificada após o recenseamento de teses e dissertações que utilizaram o sociólogo na produção científica em Educação. Se em um primeiro momento nem todos puderam compreender a intenção de Bourdieu de colocar à disposição estudos e pesquisas repletos de reflexões sobre diversos campos sociais, destacando somente a dificuldade de apreensão de seus textos e de suas frases longas, que para o autor sempre se tratou de uma combinação de rigor científico e de compromisso em revelar a complexidade do que observava, verificou-se uma gradativa superação dos obstáculos na apropriação de sua obra.

Ultrapassando as dificuldades da transmissão oral e escrita de uma obra densa, que forja inclusive novos conceitos, revisita conceitos antigos ampliando-lhes o significado e rompe com o senso comum, os autores das produções discentes têm investido em Bourdieu para tentar explicar o que acontece no campo educacional brasileiro.

De forma geral, parece que os empecilhos próprios das condições sociais da circulação e do comércio internacional de ideias, ou a importação-exportação intelectual, apontados por Bourdieu (2002a), podem estar arranjando uma forma de superar noções preconcebidas, estereótipos, representações elementares e sumárias nutridas por incompreensões e mal-entendidos. Para o autor, esses mal-entendidos podem ser fruto dos fatores estruturais das trocas de noções científicas, como o fato de os textos circularem sem seu contexto, não importando com eles o campo de produção de que são produto. Assim, o sentido e a função de uma obra estrangeira são determinados pelo campo de acolhimento, onde os aspectos do campo de origem da obra são, na maioria das vezes, completamente ignorados.

A superação das dificuldades genéricas de apreensão do trabalho de Bourdieu no Brasil teria agradado ao sociólogo por dois motivos: primeiramente pelo que evidencia Wagner (2005), quando afirma que este autor francês fazia da dimensão internacional uma característica-chave do trabalho de pesquisa coletiva, tendo ambicionado estabelecer proposições científicas válidas em um âmbito mais geral, que pudessem receber sua confirmação a partir de pesquisas empíricas conduzidas em diferentes lugares e em diferentes períodos; em segundo lugar, pelo próprio depoimento de Bourdieu (2002b) por ocasião de uma entrevista concedida a Maria Andrea Loyola, quando reforçou que o Brasil fazia parte dos países com os quais ele contava no combate em defesa da civilização em que os intelectuais deveriam estar engajados. Ele acreditava que, por dispor de recursos culturais e históricos, o Brasil, que sofreu a política neoliberal completa, poderia ser um dos lugares de resistência, a partir de um investimento em capital teórico e em pulsão política. Em outra entrevista, desta vez a Daniel Lins, Bourdieu (2000, p. 12) declarou:

Sim, gosto também da ideia de ser apropriado, devorado por uma espécie de cúmplice um pouco antropofágico e de existir também no Brasil, tão longe, em certo sentido mais do que aqui, na França, onde tenho a impressão, às vezes, de ficar de escanteio... O Brasil tornou-se para mim, muito cedo, quando eu era ainda um jovem pesquisador, uma terra hospitaleira e muitas vezes me perguntei qual era o fundamento dessas afinidades de estilo entre a sociologia que eu defendia e o Brasil, o "temperamento" intelectual brasileiro. Talvez a leveza, a vivacidade, o sentido da complexidade.

 

A apropriação de Pierre Bourdieu nos Programas de Pós-Graduação em Educação no Brasil

Em investigação que mapeou a utilização de Bourdieu no campo educacional brasileiro de 1965 a 2004, utilizando as dissertações de mestrado e teses de doutorado nas quais ocorreram a referência ao autor ou aos conceitos-chave que compõem sua abordagem sociológica, buscou-se verificar como a produção discente, em nível de Pós-Graduação em Educação no Brasil, se apropriou da teoria de Pierre Bourdieu. Enquanto material empírico para uma primeira fase de análise, foram elencados os resumos das teses e dissertações encontrados em duas bases de dados: ANPEd (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação) e CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) a partir de vários descritores de busca. A base de dados da ANPEd possibilitou um acesso de dados cadastrados de 1971 até 1999, e de 2000 até 2004 foi preciso recorrer à base da CAPES, sendo que dados de 2005 e 2006 também foram incorporados posteriormente na averiguação.

Inferiu-se nessa pesquisa que o papel desempenhado pela organização dos primeiros cursos de Pós-Graduação em Educação no Brasil e as áreas de concentração privilegiadas potencializaram determinada recepção da teoria sociológica de Bourdieu no campo educacional. A década de 1990 marcou um período de significativa aproximação entre as áreas da Educação e da Sociologia, que, juntamente com a introdução de pesquisas qualitativas e o destaque à abordagem sociocultural, abriu caminho para a Sociologia da Cultura desenvolvida por Pierre Bourdieu. A partir do ano 2000, intensificou-se a concentração de defesas de teses e dissertações que referenciaram o autor, principalmente em dez Programas de Pós-Graduação em Educação que foram, por isso, considerados como centros produtores, a partir de categoria desenvolvida por Garcia (2001), e que, por seu diferencial quantitativo, foram destacados como programas responsáveis por trabalhos que utilizam o quadro teórico de análise de Bourdieu para a construção das pesquisas e como nichos que parecem ter percebido a fertilidade deste referencial teórico para a construção de conhecimento em Educação.

Entre todos os Programas de Pós-Graduação em Educação cujos resumos compuseram o quadro geral das teses e dissertações com referência em Bourdieu e/ou seus conceitos, nas duas bases de dados consultadas, percebeu-se uma forte incidência dos conceitos de habitus, campo e capital cultural, os mais citados nos resumos. Considerados característicos da teoria sociológica em questão e imediatamente associados ao autor que os forjou, tais conceitos foram empregados na investigação dos professores e das práticas docentes, dos alunos, da escola de ensino fundamental e médio, da universidade e das trajetórias escolares, observando-se as práticas escolares, a comunicação pedagógica e a formação de docentes em trabalhos que incluem pesquisa de campo com predominância de estratégias originadas da etnografia. Notou-se o interesse em buscar desvelar o que acontece nos encontros cotidianos no espaço escolar, bem como a rede de significações contidas nos processos educativos, importando compreender as ações que resultam na formação de disposições; o poder, a dominação ou a violência simbólicos; as relações de força e de sentido estabelecidas na ordem social vigente; o privilegiamento de uns sobre os outros e as lógicas veladas dos espaços sociais. Com relação à análise do funcionamento do sistema de ensino, as pesquisas conseguiram apontar diversas questões a partir da utilização do quadro teórico de análise de Bourdieu, como a amplitude do sistema de socialização escolar, entendendo que o que é transmitido pela escola é bem mais amplo que somente o saber escolar, gerando inclusive distinções que são almejadas e objetivadas estrategicamente como instrumentos de produção e reprodução, e ainda que, em um processo de aculturação, o saber escolar arbitrário poderia auxiliar a legitimação de determinada formação social e cultural.

As interpretações realizadas com o arcabouço teórico de Bourdieu, somadas aos dados numéricos obtidos, a saber, de 296 teses e dissertações que utilizaram o sociólogo para a realização das produções discentes, comprova que as leituras realizadas da obra de Bourdieu no campo educacional sofreram uma alteração significativa, que pode ser atribuída ao processo de formação dos autores discentes em um percurso específico. Este percurso é desenhado em uma rede de relações configurada no campo científico educacional para a formação de disposições científicas. Esta rede pode ser compreendida observando-se os centros produtores. Nesses centros, encontram-se a legitimidade e a autoridade científica, responsáveis por difundir uma lógica de apropriação do autor. Verificou-se a presença de professores/orientadores formados a partir de referências em Pierre Bourdieu, a publicação de periódicos e revistas nesses programas de pós-graduação em que constam artigos de e sobre esse sociólogo francês, disciplinas que se propõem ao estudo de suas ideias e grupos de pesquisa que aplicam sistematicamente seu quadro teórico de análise. Assim, pode-se supor que, ao longo dos últimos anos, os centros produtores têm realizado um processo de ensino-aprendizagem de leitura do autor em um nível mais profícuo. Essa afirmação foi feita com base no movimento de incorporação de sistemas de esquemas cognitivos e de continuidade de apropriação pelo qual se verificou que muitos orientandos passam a ser orientadores de trabalhos que se utilizam da teoria sociológica de Bourdieu, transformando também os Programas de Pós-Graduação em Educação em que atuam em centros produtores de conhecimento a partir dessa teoria.

Com a complementação dos dados acima em nova investigação, foi percebido que o número de teses e dissertações que utilizaram Pierre Bourdieu para o suporte das argumentações e análises de dados só cresceu. Na nova pesquisa, vinculada ao projeto de pesquisa "Mapeando a utilização da teoria sociológica de Pierre Bourdieu na produção de conhecimento científico no campo educacional brasileiro: o estado da arte das tendências da Sociologia da Educação", desenvolvido na Universidade Federal do Paraná, pôde-se verificar que a partir de 2007 até 2010, limite da apresentação dos dados no banco de teses da CAPES, base de dados utilizada, houve um crescimento exponencial da presença do autor nas produções.

Embora ainda possa ser percebida uma defasagem de material disponível sobre o autor e no número de livros de Bourdieu publicados na França e no Brasil, a editoração de obras fundamentais sobre o seu quadro teórico de análise como, por exemplo, A distinção, O senso prático e com o lançamento previsto para o final de 2012 de Os herdeiros, poderá minimizar a lacuna da recepção a distância do sociólogo.

O que parece certo é que a leitura de Bourdieu, anteriormente realizada de forma fragmentada, que a imputação de rótulos e críticas ao autor, muitas vezes advindas da influência das correntes de pensamento em destaque em determinadas épocas e até mesmo o uso seletivo dos conceitos por ele formulados têm sido ultrapassados pela crescente curiosidade que o sociólogo passou a suscitar. Isso se explica, quem sabe, pela confirmação de assertivas de Bourdieu ao desvelar diversos campos sociais e que passaram a fazer sentido para explicar a realidade social do Brasil do século XXI, pelo persistente caráter operatório de suas categorias de análise, ou, ainda, pela maturidade dos cientistas que conseguiram realizar rupturas com as obediências científicas de toda espécie: teóricas, organizacionais e políticas, aspectos também apontados por Fantasia (2005) como desafios para a utilização de Bourdieu pelos intelectuais norte-americanos, país que, a partir da pesquisa de Sapiro e Bustamante (2009), também parece estar (re)descobrindo Pierre Bourdieu.

Novos dados empíricos foram obtidos com a localização de resumos de teses e dissertações defendidos em Programas de Pós-Graduação em Educação, a partir do descritor mais direto "Bourdieu", ficando para a sequência da investigação a ampliação da busca a partir de outros descritores, bem como a localização da produção em periódicos da área e anais de eventos de Educação que referenciam o sociólogo em questão, compreendendo a interdependência das fontes que pode auxiliar em um mapeamento mais geral da produção do campo educacional brasileiro que utiliza o quadro teórico de análise de Bourdieu.

Nesta ocasião, foram localizados, nos anos de 2007 até 2010, 301 resumos. Tais dados, para efeito comparativo, foram agregados à pesquisa anterior, fornecendo então um novo quadro da apropriação de Bourdieu pelos discentes de Pós-Graduação em Educação no Brasil. Os dados quantitativos foram registrados por meio de uma tabela e a opção para realizar a visualização gráfica foi a Neográfica (La Graphique), em que se seguem princípios básicos da construção gráfica, que asseguram o uso adequado das variáveis visuais e de sua correspondência com as propriedades dos componentes dos dados a representar. A partir da permuta de linhas com base no princípio de proximidade-similitude, realizou-se a verificação do comportamento dos dados e a identificação de grupos e subgrupos. A aplicação dessa técnica foi possível graças à utilização de um programa de computador especialmente concebido para a aplicação da Neográfica, o Analyse Graphique d'une Matrice de Données (A.M.A.D.O.). Na investigação citada, classificaram-se os Programas de Pós-Graduação em Educação, agrupando-os de acordo com as concentrações de incidências de defesa por ano e programa dos trabalhos que apresentaram referência a Pierre Bourdieu. O resultado desta organização pode ser verificado no Gráfico 1 apresentado a seguir.

 

 

Antes mesmo de realizar a análise do gráfico, é interessante mencionar que a partir do descritor de busca "Bourdieu" foram encontrados, no total, 512 dissertações de mestrado e 193 teses de doutorado, totalizando 705 trabalhos para os anos de 2007 a 2010. As trezentas e uma produções defendidas em Programas de Pós-Graduação em Educação (225 dissertações e 76 teses) correspondem a 42% dos trabalhos em cujos resumos se referenciou Pierre Bourdieu. Os 58% restantes foram defendidos em programas diversos, diluindo-se em Pós-Graduações de História, Enfermagem, Administração, Letras, Ciências da Informação, Comunicação, Sociologia, Saúde Coletiva, Antropologia, Linguística, Química Biológica, Direito, Música, Engenharia, Arqueologia e Design, além de defesas ocorridas em programas de caráter interdisciplinar.

O que se pode averiguar em um primeiro nível de análise – lembrando que as etapas complementares e de aprofundamento da inferência de dados preveem a catalogação dos trezentos e um novos resumos encontrados e o cruzamento de informações dos mesmos (autores, orientadores, temas, unidades de análise, técnicas de coleta de dados, conceitos de Bourdieu utilizados) – é que foi possível visualizar quatro grupos distintos, reunidos por suas características semelhantes. O programa do IESAE, já extinto, foi separado dos demais por ser considerado uma exceção em todos os critérios e não se encaixar em nenhum dos outros grupos.

O resultado obtido com o tratamento gráfico dos dados permitiu categorizar os programas quantitativamente, no que diz respeito à utilização da teoria sociológica de Pierre Bourdieu na produção discente, para destacar tanto a configuração de "nichos" que percebem este quadro teórico de análise como uma abordagem sociológica que pode auxiliar na produção do conhecimento em Educação enquanto um referencial fértil, como também para entender alguns programas que ou pararam de defender trabalhos com esta teoria sociológica, ou iniciaram um movimento em direção à apropriação de tal teoria.

No grupo A, se reconhece a presença dos Programas de Pós-Graduação em Educação com um maior número de incidência em todos os anos, unidos, portanto, pela regularidade em apresentar defesas de teses e dissertações que fizeram referência a Pierre Bourdieu. A observação da regularidade é importante, a fim de diferenciar os programas que tenham uma incidência concentrada em alguns períodos, mesmo que numerosa, dos que sistematicamente apresentam trabalhos que se utilizam de Bourdieu e de seu modo de trabalho, distribuindo a produção ao longo dos anos. Com essas características, identificaram-se onze centros produtores que, de forma sistemática, têm se valido desse autor como opção teórico-metodológica. Na concentração de marcadores mais escuros do gráfico, se pode observar um maior número de defesas, destacando-se PUCSP, USP e UFMG.

O segundo grupo, o grupo B, se caracterizou por uma incidência igualmente sistemática, mas concentrada em anos mais recentes. Os programas deste grupo mostram um movimento de continuidade e indicam que devem ser observados de perto para procurar detectar sua posição futura, com a perspectiva de um possível deslocamento para o grupo A, a partir do estabelecimento de um novo recorte temporal, uma vez que alguns programas já se aproximam das características do primeiro grupo, referente aos centros produtores, com um grande número de defesas localizadas de 2007 a 2010.

O grupo C tem em comum o fato de terem surgido na investigação a partir de 2005. As defesas nesses programas ainda acontecem de forma assistemática, excetuando os programas da UFMA e da PUCPR, que têm caminhado para uma possível sistematização das defesas e que também podem ter futuramente sua posição de grupo alterada. Para auxiliar este tipo de análise, se faz imperiosa a inferência qualitativa dos resumos, que podem fornecer dados complementares para a leitura dos dados visualizados no gráfico.

No último grupo, grupo D, estão os programas que não apresentam nem concentração, nem regularidade de registros ao longo dos anos. Os critérios para ranquear este grupo foram a eventualidade e a rarefatibilidade. Deste grupo destaca-se a UFRJ, programa que tem características próximas do Grupo C, mas que, pelo recorte temporal, ainda permanece neste último grupo.

Como é possível perceber, várias são as conclusões a que se pode chegar com a inferência dos dados apresentados pelo gráfico. Aponta-se para a possibilidade de novas investigações realizadas tanto nesta base de dados quanto nas complementares, para estabelecer um quadro atualizado da utilização de Bourdieu no campo educacional brasileiro. Por hora, é fato que o autor tem tido grande destaque nas produções da área, que, em comparação com outros programas de pós-graduação, também aparece como a área que mais tem investido na produção científica com este referencial teórico-metodológico.

 

Bourdieu, um clássico

Se no Brasil, a partir dos dados de pesquisa apresentados anteriormente, foi possível concluir que a teoria sociológica de Bourdieu se mostra fértil para a construção de conhecimento, diagnóstico que pode ter corroboração em muitos outros países, na França ainda se questiona: o que resta de Bourdieu? Os conceitos que ele forjou continuam produtivos? Qual é a herança de Bourdieu? Quem responde a tais questões é Molénat (2007), que aponta algumas tendências, alertando que o legado do sociólogo não está somente em seu quadro teórico de análise. Ele legou, igualmente, aos seus colaboradores, um centro de pesquisa à comunidade científica, uma revista de envergadura internacional, coleções de publicações em grandes editoras e ainda uma editora fundada por ele. Tudo isso parece assegurar a autonomia dos pesquisadores que pretendem prolongar, de forma mais ou menos fiel, o empreendimento do professor do Collège de France. Os dossiês publicados recentemente na revista Actes de la Recherche en Sciences Sociales testemunham a vitalidade da corrente bourdieusiana, mesclando problemáticas clássicas às inovadoras, destacando-se uma internacionalização dos fenômenos sociais. Sapiro (2012) também se reporta à herança que se perpetua no seio do centro de pesquisa outrora animado por Bourdieu, o Centro de Sociologia Europeia, integrado desde 2010 ao Centro Europeu de Sociologia e Ciência Política, que reúne mais de cinquenta pesquisadores e duzentos e cinquenta doutorandos que têm colocado a teoria de Bourdieu à prova de novos objetos, buscando combinações com outras categorias de pensamento, a partir de uma prática que o autor transmitiu em vida nos ateliês e nas discussões dos grupos de trabalho, em que convidava os pesquisadores a considerá-lo como um treinador, mais que como um mestre do pensamento.

Molénat (2007) relembra que muito ainda deve ser feito para dignificar este legado, como aprofundar as noções desenvolvidas por Bourdieu e torná-las complexas, não para dificultar sua compreensão, mas no sentido de lhes ampliar o significado, fazendo-as mais abrangentes, completas e competentes para compreender os sistemas complexos de um mundo dinâmico em transformação. Tudo indica, portanto, que a herança científica se descola pouco a pouco de seu criador para entrar para o patrimônio comum das Ciências Sociais, onde cada um pode utilizá-la segundo sua necessidade. Para além dos conceitos restaria uma linha de análise do mundo social, relembrando seu princípio maior: restituir a dimensão histórica dos fatos sociais, destacar a incorporação de disposições pelos agentes no processo de socialização, desvelar as lógicas das práticas e os mecanismos ocultos da dominação e violência simbólicos, uma iniciativa hoje em dia à qual, segundo o comentador, não seria necessário ser bourdieusiano para aderir.

Segundo Coutant (2004), Truong e Weill (2012) e Calhoun (2012), Bourdieu se tornou um clássico. Ensina-se Bourdieu no ensino médio, nos últimos anos dos Lycées e nas Classes Préparatoires para os cursos de Letras e de Ciências Sociais. Do ponto de vista pedagógico, a abordagem sociológica de Pierre Bourdieu é agradável de ensinar e eficaz. É uma Sociologia que diz respeito aos estudantes, que se apropriam da caixa de ferramentas desse sociólogo por lhe suscitar interesse.

É Calhoun (2012) quem destaca que o fato de ter se tornado um clássico teria deixado Bourdieu triste, uma vez que ele não gostaria de fazer parte das autoridades, desses professores que os alunos celebram. Ele iria preferir ter se mantido uma espécie de criança rebelde, uma vez que representava a geração da reconstrução intelectual pós-2ª Guerra Mundial que chegou à idade adulta em um momento privilegiado de boom pós-guerra e se beneficiou de um público ávido por perspectivas críticas. Desta geração também fazem parte Foucault e Derrida, grandes intelectuais suscetíveis de transcender fronteiras profissionais e disciplinares. Para o comentador, se por diferentes formas de clivagens o sistema de ensino francês pôde produzir tais intelectuais, hoje em dia isso seria muito mais difícil.

Da mesma forma, Champagne (2012, p. 1), que registra que até o momento ninguém substituiu Bourdieu na cadeira de Sociologia no Collège de France, declara que "um Bourdieu é como um Durkheim ou um Marx, só aparece um por geração. Era alguém excepcional, fora do comum". E quem poderia contrariá-lo?

 

REFERÊNCIAS

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Texto recebido em 16 de abril de 2012.
Texto aprovado em 11 de março de 2013.

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