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Educar em Revista

versão impressa ISSN 0104-4060

Educ. rev.  no.spe3 Curitiba  2014

https://doi.org/10.1590/0104-4060.38040 

 

 

Apresentação

 

 

A questão ambiental é um dos desafios colocados pela sociedade contemporânea a todos os níveis de formação institucionalizados, em especial, ao ensino superior. Este desafio tem apontado para a necessidade de construção de um novo projeto de universidade, que leve em conta as inovações na formação acadêmica que articulam novos arranjos de conhecimento e outras possibilidades de relação entre a ciência, a prática social e as políticas públicas. As instituições de ensino superior respondem a este desafio recompondo a problemática ambiental que a ela retorna, levantando outras questões e interferindo, sobretudo, na pesquisa e na formação acadêmica. Complexidade, interdisciplinaridade, educação ambiental, sustentabilidade e outros conceitos e noções passam a fazer parte do vocabulário da cultura acadêmica. A graduação e a pós-graduação reconstroem os espaços de conhecimento e criam novos cursos de formação para atender as solicitações da sociedade em torno da questão ambiental. Se há um processo de ambientalização da universidade em marcha, há o seu correspondente em termos de formação de ideias, opiniões, representações e conhecimentos.

O Seminário Internacional de Educação, Meio Ambiente e Mudanças Climáticas: as Relações entre a Cultura Científica e a Cultura Popular nas Sociedades Brasileira e Espanhola, realizado conjuntamente pela Universidade de Santiago de Compostela (USC), através do Grupo de Investigación en Pedagoxía Social e Educación Ambiental, e pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), através do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) e do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento (PPGMADE), em setembro de 2013, na cidade de Curitiba, apresentou o exemplo desta retroalimentação entre sociedade e universidade1. O evento possibilitou a acolhida de pesquisadores da Espanha e do Brasil que se dedicam às áreas de educação e comunicação aliadas à temática ambiental. Nesta oportunidade, o seminário abordou não só resultados de pesquisas e reflexões sobre os aspectos socioculturais e educativos das mudanças climáticas, mas também instigou reflexões sobre os resultados e potencialidades da universidade diante da questão ambiental. Este dossiê temático proposto à Educar em Revista apresenta algumas delas e representa a consolidação deste debate no âmbito da cooperação científica internacional, enfocando as respostas do ensino superior – já existentes, em andamento ou possíveis – sobre matérias distintas: as mudanças climáticas, a ambientalização da universidade e a educação ambiental na formação de professores.

Os quatro primeiros artigos tratam da constituição de representações, compreensões, ações e comportamentos diante do fenômeno das mudanças climáticas e das articulações da formação acadêmica neste processo. Em "Representaciones del cambio climático en estudiantes universitarios en España: aportes para la educación y la comunicación", Pablo Ángel Meira-Cartea e Mónica Arto-Blanco analisam as representações sociais das mudanças climáticas de estudantes universitários. Procuraram identificar a influência de algumas variáveis sobre as representações, tais como o conhecimento científico sobre o tema, a área de conhecimento e o período do curso dos estudantes, destacando como a cultura comum se sobrepõe à cultura acadêmica como condicionante das representações das mudanças climáticas. No mesmo sentido, e passível de comparação com o anterior, Edgar J. González-Gaudiano e Ana Lucía Maldonado-González no artigo "¿Qué piensan, dicen y hacen los jóvenes universitarios sobre el cambio climático? Un estudio de representaciones sociales", realizado na Universidad Veracruzana, no México, investigam a influência da informação científica sobre as representações e a relação entre estas e o comportamento dos estudantes para conter as mudanças climáticas. Os dois artigos apresentam elementos importantes para subsidiar estratégias de comunicação e educação ambiental.

Ainda sobre mudanças climáticas, Pedro Jacobi em "Mudanças climáticas e ensino superior: a combinação entre pesquisa e educação", a partir do conceito de aprendizagem social, apresenta a proposta metodológica do Núcleo de Apoio à Pesquisa – Mudanças Climáticas da Universidade de São Paulo (USP), que combina pesquisa e ensino, através da interdisciplinaridade, para incluir o tema das mudanças climáticas na formação acadêmica.

O artigo "Mudanças climáticas, educação e meio ambiente: para além do conservadorismo dinâmico", de Gustavo F. da Costa Lima e Philippe Pomier Layrargues, critica o discurso sobre a abordagem das mudanças climáticas que se inserem na perspectiva do conservadorismo dinâmico e reflete sobre o papel da educação ambiental na renovação deste discurso.

Na sequência, dois artigos abordam as repostas que diferentes universidades apresentam ao projeto de construção de sociedades mais sustentáveis. De autoria de Germán Vargas Callejas, o artigo "Visión e integración de la perspectiva ambiental en la Universidad Indígena de Bolivia – UNIBOL" apresenta um modelo de universidade no qual as culturas indígenas que estão na sua constituição a tornam, para além de seus outros objetivos, uma universidade comprometida com a sustentabilidade desde sua origem. Partindo do conceito de ambientalização curricular, Antonio Fernando Silveira Guerra e Mara Lúcia Figueiredo, em "Ambientalização curricular na Educação Superior: desafios e perspectivas", apresentam um panorama de trabalhos e experiências de ambientalização nas instituições de ensino que participam da Rede Sul Brasileira de Educação Ambiental (REASul) e da Alianza de Redes Iberoamericanas por la Sustentabilidad y el Ambiente (ARIUSA), refletindo sobre os desafios e as perspectivas deste processo nas universidades.

Os dois últimos artigos se voltam à formação de professores nos cursos de licenciatura para o trabalho com a dimensão ambiental na educação básica. Em "A questão ambiental e a formação de professores para a Educação Básica: um olhar sobre as licenciaturas" Cristina Teixeira e Marília Andrade Torales analisam a retradução da problemática ambiental para o campo acadêmico, através do perfil das disciplinas voltadas à educação ambiental nos cursos de licenciatura e da afinidade destes com os fundamentos da educação ambiental que carregam o seu potencial transformador. O artigo "Educação ambiental escolar, formação humana e formação de professores: articulações necessárias", de Marília Freitas de Campos Tozoni-Reis e Luciana Maria Lunardi Campos, reflete sobre a importância da sólida formação dos professores na pedagogia histórico-crítica na educação para o exercício da educação ambiental efetivamente crítica e transformadora.

Fechando o dossiê, Ana Tereza Reis da Silva resenha o livro "La construcción del campo de la educación ambiental: análisis, biografias y futuros posibles" destacando as suas contribuições à reflexão e à prática de pesquisadores e educadores em Educação Ambiental.

Esperamos que esta publicação possa contribuir com a reflexão dos leitores sobre a importância da universidade na formação comprometida com a questão ambiental.

 

Cristina Teixeira
Pablo Ángel Meira-Cartea

 

1 O seminário que motivou a elaboração deste Dossiê Temático foi organizado no marco do Programa Hispano-Brasileiro de Cooperação Interuniversitária, financiado pelos Governos do Brasil e da Espanha. Também houve a participação da equipe do Projeto Resclima – Respostas educativas e sociais às alterações climáticas, financiado pelo Ministério de Economia e Competitividade do Governo espanhol no marco do VI Programa nacional de I+D+i, convocatória de 2012, e pela Fundação Araucária através do Edital de Apoio à Pesquisa Básica e Aplicada de 2013.

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