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Educar em Revista

 ISSN 0104-4060 ISSN 1984-0411

        09--2019

http://dx.doi.org/10.1590/0104-4060.64399 

Dossiê - Metodologia da pesquisa em Educação Histórica

As histórias em quadrinhos e a Ditadura militar brasileira: a triangulação metodológica como critério investigativo das ideias históricas de jovens brasileiros1

*Universidade Federal de Mato Grosso. Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. E-mail: fronzam08@gmail.com.

RESUMO

Investiga-se como inventariar as histórias em quadrinhos que abordam a Ditadura Militar Brasileira de 1964-1985 que possibilitam mobilizar as dimensões estética, política e cognitiva da cultura histórica (RÜSEN, 2016) dos jovens estudantes brasileiros de escolas públicas. Essa investigação é ligada ao projeto da CAPES Memórias Brasileiras: Conflitos Sociais, denominado Indígenas, Quilombolas e Napalm: uma história da guerrilha do Vale do Ribeira (2015-2019). Parte-se de uma triangulação metodológica fundamentada na compreensão dos processos históricos vinculados à relação entre as estruturas de sentimento (WILLIAMS, 2003) pertencentes a cultura juvenil, a interculturalidade e o novo humanismo (RÜSEN, 2014), e ao princípio da “burdening history” proposto por Bodo von Borries (2016), o qual propõe que o fardo da história pode ser superado pela interpretação multiperspectivada instauradora de controvérsia provida pela autocrítica na teoria da história. Busca-se, a partir do inventário da tipologia das histórias em quadrinhos que narram as experiências históricas relacionadas à Ditadura Militar Brasileira, a criação de um instrumento de investigação que possibilita a construção de uma história em quadrinhos paradidática sobre a Guerrilha do Vale do Ribeira.

Palavras-chave: Educação Histórica; Fardo da história; Estrutura de sentimento; Histórias em quadrinhos; Ditadura militar brasileira.

Introdução

Este artigo pretende inventariar como as histórias em quadrinhos que abordam a Ditadura Militar Brasileira de 1964-1985 permitem compreender as dimensões estéticas, políticas e cognitivas da cultura histórica no Brasil que expressa as estruturas de sentimento que os sujeitos têm sobre aquela época. O trabalho é produzido a partir do grupo de professores historiadores vinculados à Associação Ibero-americana de Pesquisadores da Educação Histórica (AIPEHD), ao Laboratório de Pesquisa em História da Educação (LAPEDUH/UFPR) e ao Grupo Pesquisador Educação Histórica: consciência histórica e narrativas visuais (GPEDUH/UFMT), que fazem parte do Projeto Memórias brasileiras: Conflitos Sociais - Indígenas, Quilombolas e Napalm: uma história da guerrilha do Vale do Ribeira, que investiga a cognição histórica situada a partir da Epistemologia da História (SCHMIDT, 2009).

Começa com a preocupação de entender os processos históricos ligados à relação entre a estrutura de sentimentos (WILLIAMS, 2003) pertencentes à cultura juvenil e expressa pela cultura histórica de uma comunidade (RÜSEN, 2016), a interculturalidade e o novo humanismo (RÜSEN, 2014), e o princípio da “burdening history” proposto por Bodo von Borries (2016), que entende que o fardo da história pode ser superado pela interpretação multiperspectivada instituída da controvérsia proporcionada pela autocrítica na teoria da história (FREITAS, 2017).

Neste texto pretendo construir uma tipologia a partir do inventário das narrativas gráficas históricas que narram as experiências históricas relacionadas à ditadura militar brasileira em 1964 a 1985. Esta pesquisa tipológica será o embasamento para o desenvolvimento de ferramentas de pesquisa como critérios metodológicos, a fim de, no futuro, investigar as ideias históricas de jovens estudantes brasileiros sobre a Guerrilha do Vale do Ribeira ocorrida em 1970.

As formas de narrar das histórias em quadrinhos como expressão das estruturas de sentimento em relação à cultura histórica

De acordo com Jörn Rüsen, a interculturalidade parte do princípio do reconhecimento igualitário da diferença cultural, que supera a compreensão etnocêntrica pautada na tolerância cedida, pelo civilizado, ao não civilizado. As lutas pelo reconhecimento estão na base dos conflitos culturais contemporâneos. Contudo, é no campo desses conflitos que as chances de comunicação intercultural se fazem valer, pois as “culturas se interpenetram, delimitam-se umas em relação às outras, combatem-se, aprendem umas das outras e se modificam no relacionamento mútuo” (RÜSEN, 2014, p. 296). Essa comunicação intercultural humanista se faz por meio de narrativas históricas em constantes diálogos.

Se entendermos que o fardo da história pode ser superado pela interpretação multiperspectivada instituída pela controvérsia proporcionada pela autocrítica na teoria da história (FREITAS, 2017), podemos aprender que lidar com o fardo de que a história é um problema relativo às operações mentais da narrativa histórica. Para Bodo von Borries (2016), existem formas de se lidar com histórias difíceis. Em suas investigações construiu uma tipologia das formas narrativas dos fardos da história: 1) histórias hostis em um modelo de vingança e “rivalidade de sangue” (inimizade herdada) vinculadas a estudos empíricos da cultura histórica (autobiografias, romances, entrevistas, narrativas históricas); 2) a história dos vencedores e da perda/esquecimento dos perdedores (cinismo do poder); 3) a história oculta e subalterna dos perdedores e a esperança por uma rememoração histórica (heroísmo da rememoração); 4) o abandono e esquecimento da história hostil devido à irrelevancia para a vida prática (prioridade pela sobrevivência em momentos violentos). Essas histórias foram geradas pelo sofrimento e não permitem alcançar uma reconciliação histórica. Alcançar uma reconciliação entre antigos inimigos (vítimas e algozes) é uma experiência histórica de um movimento em direção de uns em relação aos outros e na busca por continuar a seguir o mesmo caminho juntos. O caminho de tornar os humanos mais humanos (BORRIES, 2016, p. 32-33).

É possível desenvolver estratégias mentais de reconciliação histórica por meio das narrativas históricas, dentre elas as histórias em quadrinhos. Entre os primeiros passos dessa reconciliação está a necessidade de abolir as falsificações e mitos tendenciosos, distanciando-se do passado de sofrimento e rivalidade, sem, no entanto, esquecê-lo. Dentre os passos intermediários está o movimento de uns em direção aos outros, buscando caminhar juntos para construir as chances e condições para um futuro comum. Por fim, apostar em passos avançados de mutualidade, construindo histórias novas, plausíveis e compatíveis, mesmo que ao menos parcialmente comuns, desenvolvendo, com isso, o reconhecimento dos “outros” e a aceitação e internalização mútua na própria história (BORRIES, 2016, p. 40-41).

Defendo que a categoria de estrutura de sentimento desenvolvida por Raymond Williams (2003) pode ser articulada com as formas de narrar o fardo da história e as estratégias mentais de reconciliação histórica investigadas por Bodo von Borries (2016), assim como com a categoria de cultura histórica proposta por Jörn Rüsen (2016). Isto porque as histórias em quadrinhos são artefatos da cultura histórica que expressam as estruturas de sentimento de uma comunidade relativa ao seu passado. A estrutura de sentimento pode ser descrita como uma cultura relacional, ou seja, a cultura comum vivida de uma época. É uma “estrutura” que “atua nas partes mais delicadas e menos tangíveis” da atividade humana. Os artefatos culturais como as histórias em quadrinhos são expressões dessa estrutura de sentimento porque incluem “enfoques e tons característicos da argumentação”, pois são acessíveis à comunicação documentada de onde se extrai o “sentido vital real” na comunidade profunda que faz possível a comunicação. Com isso, uma geração pode formar a sua sucessora, mas a nova geração terá uma estrutura de sentimento distinta: a nova geração apropria-se a sua maneira do mundo único que herda, mesmo considerando as continuidades e a reprodução de inúmeros elementos de sua cultura, ela sente diferentemente a sua vida e configura sua “resposta criativa” em uma nova estrutura de sentimento. Esse processo é constitutivo de uma “tradição seletiva” que corresponde a um sistema contemporâneo de valores e interesses fundada num compromisso com o passado (WILLIAMS, 2003, p. 57-60).

Segundo Raymond Williams (2003, p. 70, 87), as estruturas de sentimento de uma época estão na “interação” entre os diferentes “caracteres sociais” de uma sociedade. O “caráter social”2 é uma resposta seletiva em relação às experiências históricas dos sujeitos ligadas a um sistema aprendido de sentir e atuar numa comunidade. É possível identificar uma proximidade epistemológica entre esses caracteres sociais que produzem estruturas de sentimento, com as formas de narrar as histórias difíceis e as estratégias mentais de reconciliação histórica desenvolvidas por Bodo von Borries (2016), pois expressam os valores, significados e sentimentos dos diferentes sujeitos históricos em situação de conflito tal como os existentes na Ditadura Militar Brasileira e seus reflexos ou reverberações no século XXI.

Ao investigar as narrativas históricas gráficas sobre a Ditadura Militar Brasileira, os embates presentes na dimensão estética das histórias em quadrinhos podem revelar a estrutura narrativa de sentimento na concepção básica de que alguém conta a alguém uma história sobre uma experiência do passado interpretada no presente e que cria expectativas de futuro. Portanto, é a estrutura narrativa, argumentativa, comunicativa e, portanto, dialógica que define as histórias em quadrinhos como artefatos culturais onde a dimensão estética fornece um sentimento de vida e novos significados às dimensões cognitiva, política, ética e religiosa da cultura histórica de uma comunidade.

Uma tipologia das formas de pensar as histórias em quadrinhos como expressão das estruturas de sentimento relativas à Ditadura Militar Brasileira

Nesta investigação pretendo desenvolver uma triagulação metodológica entre as categorias relativas às formas de narrar as histórias difíceis e as estratégias mentais de reconciliação histórica (BORRIES, 2016) e as estruturas de sentimento (WILLIAMS, 2003) expressas pelas histórias em quadrinhos sobre a Ditadura Militar Brasileira3. Isso, inventariando como a experiência histórica da ditadura militar está demarcada na culturahistórica brasileira a partir desses artefatos culturais4.

Neste inventário encontrei dois tipos estruturais nas narrativas históricas gráficas sobre a Ditadura Militar Brasileira de 1964-19855: a) as histórias em quadrinhos que despersonalizam as narrativas históricas sobre a Ditadura Militar Brasileira, a partir da perspectiva da transposição didática; b) Histórias em quadrinhos que personalizam as narrativas históricas sobre a Ditadura Militar Brasileira, a partir de uma geração de sentido histórico. Essas formas de pensar de narrar as histórias difíceis e as possíveis estratégias de reconciliação histórica nas histórias em quadrinhos expressam diferentes estruturas de sentimento na cultura histórica brasileira.

a) Histórias em quadrinhos que despersonalizam as narrativas históricas sobre a Ditadura Militar Brasileira (transposição didática)

Esse tipo de histórias em quadrinhos que despersonalizam as narrativas históricas a partir da transposição didática é caracterizado pela desvalorização dos sujeitos que atuam historicamente, pois são enquadrados ou didatizados por meio de uma narrativa anônima e generalizadora6. Em geral, essas narrativas aparecem sob a forma de materiais didáticos ou como obras de divulgação histórica de caráter didático.

Dentre as histórias em quadrinhos didáticas produzidas no contexto da ditadura militar brasileira está o livro didático de história de Julierme, Colonnese e Zalla (1970) organizado como uma narrativa histórica gráfica. Esse manual didático tinha uma concepção de ensino da história ligada à prática da memorização e da retenção de informação histórica específica a partir de uma narrativa tradicional e genérica. Essa concepção de um ensino objetivo estava relacionada à compreensão da história enquanto conhecimento objetivo tradicional (WALSH, 1978).

Fonte: CASTRO, COLONNESE & ZALLA, 1970, p. 167.

FIGURA 1 A GUERRILHA URBANA E O SEQUESTRO DO EMBAIXADOR DOS EUA 

A despersonalização didática é visível na Figura 1 relativa ao capítulo intitulado Governos Kubitschek a Garrastazu Médici no livro didático História do Brasil: História para a Escola Moderna. A ousadia de apresentar o tema da ditadura e das ações da resistência num livro didático publicado durante a Ditadura Militar, não impediu que a ação descrita dos movimentos guerrilheiros urbanos do Brasil (chamados pelo autor do quadrinho na última legenda de “terroristas”), tal como o sequestro do embaixador estadunidense, fosse didatizada de maneira pouco contextualizada, pois não explica historicamente porque esses sujeitos sequestravam embaixadores estrangeiros em troca da libertação dos presos políticos.

É perceptível como os elementos estéticos de uma narrativa histórica gráfica podem, através da imagem, potencializar o desenvolvimento de aprendizagem histórica, mas, ao mesmo tempo, a limitação das características estéticas do texto pode se opor e mitigar o poder imaginativo das imagens. As formas narrativas em que se apresentam o fardo da história nesses quadrinhos estão entre a história dos vencedores e da perda, e esquecimento dos perdedores vinculados ao cinismo do poder, pois incorpora a narrativa oficial do regime que chamava o golpe militar de 1964 de “movimento de 1964”, e uma história oculta e subalterna dos perdedores voltada para a esperança de uma rememoração histórica ao abordar o sequestro do embaixador estadunidense (BORRIES, 2016).

Há, nessa história em quadrinhos, uma contradição nas estruturas de sentimento do Brasil da década de 1970, entre o caráter social dominante da sociedade de então, uma perspectiva majoritariamente oficial e autoritária vinculada à indicação do Ato Institucional nº 5, e a imagem em tamanho maior de Emílio Garratazu Médici, e os caracteres sociais de uma estrutura de sentimento alternativa mobilizada pela informação do sequestro do embaixador estadunidense. O caráter alternativo está na dimensão estética apresentada pelo confronto da imagem em destaque do embaixador e a informação de que os guerilheiros “terroristas” conseguiram o que almejavam: a libertação de presos políticos. Apresenta-se aqui de modo ainda implícito uma estrutura de sentimento embrionária relativa a uma “dissidência humana radical” (WILLIAMS, 2003, p. 74) mesmo que a narrativa predominante deste artefato da cultura histórica seja tradicional, portanto, não reconciliatória.

Existem histórias em quadrinhos sobre a Ditadura Militar Brasileira que se caracterizam pela divulgação histórica com pretensão didática. Coloquei na categoria vinculada à transposição didática porque no capítulo Começa a Ditadura, da narrativa histórica gráfica O golpe de 64, Oscar Pilagallo e Rafael Rocha (2014) despersonalizam os sujeitos históricos em prol de uma grande narrativa fragmentada e dessincretizada.

Fonte: PILAGALLO & ROCHA, 2014, p. 108.

FIGURA 2 REPRESSÃO MILITAR E GUERRILHA URBANA 

As imagens dos requadros da Figura 2 não apresentam uma história dos sujeitos em ação, mas as ações dos sujeitos estão representadas em uma história determinista baseada em causas e consequências inexoráveis, mas, conforme apresentado nos requadros, desconexas.

Fonte: PILAGALLO & ROCHA, 2014, p. 109.

FIGURA 3 O ASSASSINATO DE CARLOS LAMARCA 

A estética usada para narrar nessas duas páginas (Figuras 2 e 3), seja por meio da tortura, da ação dos grupos guerrilheiros urbanos, seja pela apresentação canônica da imagem do assassinado de Carlos Lamarca, é acompanhada pela relativização histórica ao apresentar a vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo do México de 1970. Percebe-se, uma espetacularização da narrativa histórica por meio da explicitação da violência da cultura do espetáculo que se expressa por uma forma narrativa pautada em histórias hostis em um modelo de vingança (BORRIES, 2016). Essa forma narrativa de história hostil voltada para a vingança expressa uma estrutrura de sentimento vinculada a uma memória de sofrimento pautada na brutalidade da repressão do Estado autoritário brasileiro. É também reforçada pelo uso das estratégias estéticas próprias aos quadrinhos de horror da década de 1970. Essa espetacularização estética da violência do Estado representada em imagens desconexas e aterrorizantes do sofrimento de suas vítimas enfraquece o teor denunciatório que essa narrativa gráfica pretendia comunicar.

Busco agora inventariar formas de narrar histórias difíceis que encontrem estratégias de reconciliação histórica em histórias em quadrinhos que dialoguem com a possibilidade de revelar estruturas de sentimento que se fundamentem numa dissidência humana radical pautada no novo humanismo defendido por Jörn Rüsen.

b) Histórias em quadrinhos que personalizam as narrativas históricas sobre a Ditadura Militar Brasileira (geração de sentido histórico)

Esse tipo de quadrinho que personaliza narrativas históricas é caracterizado pela humanização dos sujeitos que atuam historicamente por uma narrativa que dá sentido de orientação temporal à história. Este sentido de orientação temporal é fundamentado na formação histórica relacionada às representações de continuidade significativas (interpretações históricas), criando perspectivas de ação para o futuro a partir da narrativa histórica (RÜSEN, 2014).

Nesse sentido, a formação histórica, enquanto práxis é organizada na realização objetiva da existência na luta social, na defesa das próprias convicções que determinam a subjetividade e a relação com os outros sujeitos e com a natureza. Essas convicções devem ser ponderadas pela argumentação estruturada pela validade das narrativas históricas, permitindo, assim, a expressão de um sentido formativo emancipador (RÜSEN, 2007). A geração de sentido histórico presente em certas histórias em quadrinhos expressam uma estrutura de sentimentos ligada a uma dissidência humana radical (WILLIAMS, 2003). Nesse inventário constatei que este tipo de narrativa histórica gráfica são artefatos da cultura histórica que dialogam com as (auto)biografias.

Uma biografia em quadrinhos que aborda o contexto da Ditadura Militar Brasileira à luz da história do movimento musical mineiro denominado Clube da Esquina é evidência da existência de estruturas de sentimento alternativas voltadas para uma geração de sentido histórico. Na obra Histórias do Clube da Esquina, os quadrinistas Laudo Ferreira e Osmar Viñole (2011) apresentam como se dava a relação dos músicos no enfrentamento da censura.

Fonte: FERREIRA & VIÑOLE, 2011, p. 39.

FIGURA 4 A CENSURA AO ÁLBUM “MILAGRE DOS PEIXES” 

A Figura 4 apresenta Márcio Borges narrando a censura sobre a música “Hoje é dia de El Rey” do album “Milagre dos Peixes” produzido em 1973 cuja letra censurada foi composta por Milton Nascimento e Márcio Borges. O compositor narra que Milton Nascimento foi intimado a comparecer ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) para prestar “esclarecimentos”. Como resultado, ao invés de abandonar a música, Milton Nascimento a grava sem letra como ato de resistência.

Fonte: FERREIRA & VIÑOLE, 2011, p. 40.

FIGURA 5 A TRANSFORMAÇÃO DA OBRA MUSICAL EM RESISTÊNCIA 

Márcio Borges narra que, a partir da resistência à censura, o processo da construção de do álbum se transformou, pois grandes artistas passaram a participar da gravação do mesmo, fazendo com que “Milagres dos Peixes” se tornasse uma das obras primas musicais da cultura brasileira. Essa breve narrativa tem um caráter genético, pois apresenta uma concepção de geração de sentido histórico pautada na transformação (RÜSEN, 2007): do medo produzido pela censura à liberdade dissidente de criar uma obra que expressa uma estrutura de sentimento ligada ao significado histórico universal da união do ser humano com a natureza e a sua história. Parte-se de uma forma de narrar uma história difícil onde sujeitos narram uma história oculta que busca uma rememoração sobre a memória da censura para uma estratégia de reconciliação histórica (BORRIES, 2016) com a sociedade brasileira e seu passado apresentada nos requadros da Figura 5 que mobiliza as imagens da cantora afro-brasileira Clementina de Jesus cantando “Escravos de Jó” ou do músico afro-brasileiro Naná Vasconcelos, que introduziu os ritmos e sonoridades africanos nas composições de Milton Nascimento. Aqui, a dimensão estética da cultura histórica brasileira expressa uma estrutura de sentimento alternativa e humanista (WILLIAMS, 2003).

Outro exemplo de histórias em quadrinhos com personagens históricos sobre a ditadura militar brasileira por meio de (auto)biografias está presente na narrativa historiográfica em quadrinhos Herói de Guerra, na graphic novel Notas de um tempo silenciado, de autoria de Robson Vilalba (2015). Nela é narrada a biografia de um líder guerrilheiro afro-brasileiro, Osvaldo Orlando da Costa, alcunhado de Osvaldão, que lutou na Guerrilha do Araguaia, a mais violenta das batalhas contra as forças armadas durante a ditadura militar. Era um guerrilheiro bem integrado com as comunidades camponesas da região do Araguaia, como é representado na Figura 6 por meio das imagens da história em quadrinhos.

Fonte: VILALBA, 2015, p. 45.

FIGURA 6 OSVALDÃO, O INQUEBRÁVEL: UM GUERRILHEIRO NEGRO DO ARAGUAIA 

Devido à integração com a comunidade trabalhadora camponesa, muitas lendas giravam em torno das lutas de Osvaldão contra as expedições do exército brasileiro. Ao sobreviver a duas expedições militares altamente equipadas, a população local afirmava que esse personagem tinha o corpo fechado (as balas não o atingiam). Segundo as documentações existentes, os militares o assassinaram somente numa terceira expedição. No entanto, mesmo assim, muitos camponeses locais informam até hoje que ele se transformou num pássaro e voou (Figura 7).

Fonte: VILALBA, 2015, p. 49.

FIGURA 7 OSVALDÃO, O INQUEBRÁVEL: UM GUERRILHEIRO NEGRO DO ARAGUAIA 

Essa narrativa historiográfica de um guerrilheiro negro, mesmo baseada em farta documentação escrita e oral, é também uma história oculta que busca uma esperança de rememoração e é pautada numa memória de heroísmo, que garante a diversidade de tradições contra-hegemônicas, mas não atingem uma reconciliação histórica com o passado (BORRIES, 2016, p. 32-38). Isto porque ainda hoje a guerrilha rural do Araguaia, assim como a guerrilha do Vale do Ribeira, é um tabu para a historiografia brasileira e mais ainda para a historiografia militar. No entanto, a história em quadrinhos está imbuída de uma estrutura de sentimento alternativa, pois narra uma comunhão de valores de solidariedade mútua e cooperação que esse guerrilheiro tinha com a classe trabalhadora camponesa do Brasil.

Nesse inventário, um quadrinho (auto)biográfico relevante sobre a Ditadura Militar Brasileira é “1968: Ditadura Abaixo”, de Teresa Urban e Guilherme Caldas (2008). Nessa narrativa histórica gráfica é perceptivel a presença de uma estrutura de sentimentos alternativa e dissidente em relação ao caráter social autoritário do regime ditatorial no Estado do Paraná. Essa história em quadrinhos narra a história de resistência dos estudantes da Universidade Federal do Paraná contra a violência Estatal. Os autores utilizam nomes fictícios para preservar a identidade dos sujeitos históricos, haja vista que em 2008 ainda a questão da violência da ditadura aprensentava repercussões contraditórias na sociedade paranaense e brasileira.

Fonte: URBAN & CALDAS, 2008, p. 128.

FIGURA 8 A RESISTÊNCIA ESTUDANTIL NO PARANÁ 

A Figura 8 narra um momento de rememoração histórica da resistência estudantil em 1968 por meio de uma fonte histórica, uma reportagem do jornal Tribuna do Paraná, e as imagens em quadrinhos do momento em que os estudantes jogaram bolinhas de gude nos cavalos da polícia repressiva da ditadura. A dimensão estética apresentada nesse artefato da cultura histórica mobiliza a dimensão política de dissidência presente na memória dos sujeitos que foram estudantes no período ditatorial. Aqui também existe uma forma de narrar baseada numa história oculta dos vencidos que buscam uma rememoração histórica por meio da construção heróica da resistência (BORRIES, 2016). Essa narrativa expressa uma estrutura de sentimento de dissidência humana radical (WILLIAMS, 2003) de solidariedade e resistência às políticas autoritárias do Estado que predominou em grande parte do movimento estudantil paranaense mesmo após o regime de exceção.

Fonte: URBAN & CALDAS, 2008, p. 129.

FIGURA 9 A RESISTÊNCIA ESTUDANTIL NO PARANÁ 

No entanto, a Figura 9 também revela o caráter social autoritário e desumanizador da repressão militar ao narrar a violência que os policiais fizeram uso para prender e desmobilizar os estudantes. Aqui se evidencia uma forma de narrar que não esconde uma história hostil marcada pelo modelo de vingança (BORRIES, 2016), própria do Estado ditatorial no Brasil em 1968.

No decorrer deste inventário encontrei uma narrativa histórica gráfica que apresenta uma perspectiva de reconciliação histórica com o passado. Ao apresentar personagens históricas que enfrentaram e sofreram a Ditadura Militar Brasileira, a narrativa é uma divulgação didática da luta por reparações das injustiças cometidas no período. Composta pelas estudantes da Universidade Federal Fluminense, Joana D’Arc Fernandes Ferraz, Elaine de Almeida Bortone e Diana Helene (2012), a história autobiográfica em quadrinhos Brasil: ditadura militar: um livro para os que nasceram bem depois... é uma rememoração que expressa uma estrutura de sentimentos que busca reconciliar o sofrimento da perda durante o Estado de exceção.

Uma das autoras, ao narrar o momento da infância em que perguntou para a sua mãe onde estava o pai (Figura 10), apresenta, nas imagens, sua mãe contando a história de lutas que tiveram contra a ditadura. Rememora os diversos momentos em que ela e seu marido lutaram contra os poderes constituídos.

Fonte: FERRAZ, BORTONE & HELENE, 2012, p. 4.

FIGURA 10 A MENINA PERGUNTA À MÃE ONDE ESTÁ SEU PAI 

Um dos momentos mais marcantes foi quando seu pai e sua mãe se vincularam aos movimentos guerrilheiros de resistência à ditadura, pois optaram pela luta armada ao invés das formas pacíficas de resistência (Figura 11). Foi nesse momento da luta que seu pai desapareceu durante um processo violento de repressão militar.

Fonte: FERRAZ, BORTONE & HELENE, 2012, p. 19.

FIGURA 11 A LUTA ARMADA PELOS MOVIMENTOS DE GUERRILHA 

Como forma de resistência, como é evidenciado na Figura 12, a filha que narra a história de sua mãe, representa-se lutando em favor da lei dos desaparecidos políticos que tem o objetivo de recuperar informações sobre as pessoas assassinadas pela ditadura militar brasileira.

Fonte: FERRAZ, BORTONE & HELENE, 2012, p. 22.

FIGURA 12 PROJETO DE LEI DOS DESAPARECIDOS POLÍTICOS (LEI 111/1991) 

Essa é, portanto, uma narrativa histórica que persegue os primeiros passos e os passos intermediários de uma reconciliação histórica com o passado de violência e sofrimento (BORRIES, 2016). Isto porque busca abolir as falsificações históricas e os mitos tendenciosos construídos tanto pela esquerda quanto pela direita quando se lembra do período de exceção. A narrativa busca um distanciamento em relação ao passado, mas não seu esquecimento. Mas também foram dados os passos intermediários, pois essa narrativa (auto)biográfica procura uma direção em relação aos outros na busca de um caminhar juntos ao lutar para que todos os que sofreram com a perda de parentes e amigos durante a ditadura tivessem o direito de saber o que ocorreu naquele passado ainda oculto7. Essa narrativa histórica gráfica expressa uma estrutura de sentimento de dissidência humana radical (WILLIAMS, 2003) por meio de uma busca das condições da geração de sentido histórico para um futuro comum entre os brasileiros.

Considerações finais

Nessa investigação inventariei dois tipos estruturais nas narrativas históricas gráficas sobre a Ditadura Militar Brasileira. Por um lado, as histórias em quadrinhos que despersonalizam as narrativas históricas sobre a Ditadura Militar Brasileira a partir da perspectiva da transposição didática, por outro, as histórias em quadrinhos que personalizam as narrativas históricas sobre a Ditadura Militar Brasileira a partir de uma geração de sentido histórico.

É perceptível que as histórias em quadrinhos que despersonalizam as narrativas por meio da transposição didática, seja na forma de livros didáticos de história, seja na dos quadrinhos de divulgação histórica, narram por meio de uma espetacularização da violência contra os guerrilheiros na ditadura militar brasileira. A característica dessa despersonalização está no fato de que as histórias dos personagens históricos é espetacularizado porque o contexto histórico é esteticamente dimensionado como uma estrutura determinista. A transposição didática de despersonalização e de dessincretização foi a concepção de ensino de história que menos apareceu neste inventário de histórias em quadrinhos sobre a Ditadura Militar Brasileira.

No que diz respeito às histórias em quadrinhos que despersonalizam as formas narrativas das histórias difíceis evidenciei que existem duas estruturas de sentimento predominantes. Uma pautada numa memória de repressão oficial e brutal por meio da violência estatal que, nessas históras em quadrinhos, aparece seja enquanto aceitação desse estado de coisas seja como denúncia em relação a ele. Outra estrutura de sentimento, esta de caráter social alternativo, é a memória de vitimização dos sujeitos que sofreram essa violência a qual é marcada pelas imagens espetacularizadas das torturas e assassinatos que o Estado cometeu contra seus opositores.

Já as histórias em quadrinhos que personalizam as narrativas históricas sobre a Ditadura Militar Brasileira a partir da geração do sentido histórico têm um carárer (auto)biográfico e permitem afirmar que as dimensões estéticas, cognitivas e políticas/éticas da cultura histórica mobilizam a geração do sentido temporal através de histórias de personagens históricos fortes carregados de experiências históricas significativas.

Como síntese do tipo referente às histórias em quadrinhos que personalizam as narrativas históricas sobre a Ditadura Militar Brasileira por meio da geração de sentido histórico é possível constatar que predomina uma forma de narrar as histórias difíceis desse período por meio da memória históricados subalternos que constrói uma história de heroísmo da resistência - artística, estudantil e trabalhadora - contra a violência política do autoritarismo brasileiro (BORRIES, 2016). Mesmo reconhecendo a existência de uma estrutura de sentimento tradicional pautada num modelo de vingança e brutalidade dos adeptos do Estado ditatorial, essas narrativas (auto)biográficas em quadrinhos expressam uma estrutura de sentimento alternativa fundamentada em modelos de cooperação mútua de um caráter social de dissidência humana radical ligada aos trabalhadores, estudantes e subalternizados (WILLIAMS, 2003).

Por conta disso, novas possibilidades se abrem: a investigação de histórias em quadrinhos sobre a Guerrilha do Vale do Ribeira produzidas por alunos de escolas públicas neste local e em outras regiões do Brasil e a construção de um roteiro de uma história em quadrinhos didática sobre a Guerrilha do Vale do Ribeira desenvolvida por professores de história.

Finalizo com uma passagem da romancista Mary Ann Evans, também conhecida como George Eliot, citada por Raymond Williams (2003, p. 75) para descrever a estrutura de sentimento que existia durante os conflitos e revoluções de 1848

Chegará o dia em que haverá um templo de mármore branco, quando doces incensos e hinos surgirão na memória de todo homem e mulher que teve um profundo Ahnung, um pressentimento, um anseio ou uma visão clara da época em que este miserável reinado de Mammon terminará - quando os homens deixarem de ser “como peixes do mar” - a sociedade não mais será como uma face metade da qual - o lado da crença, de uma fé insincera - é justa e divina, e a outra metade - o lado dos feitos e das instituições - com uma pele enrugada, dura e velha, franzida no desdém de um Mefistófeles.

Em 1970, uma história em quadrinhos expressa uma estrutura de sentimento semelhante, mas diversa. Denominada “Napalm” contra plantação de maconha” (Figura 13), nela, Henfil divulga que bombas napalm estavam sendo lançadas contra a resistência guerrilheira à ditadura militar no Vale do Ribeira, e contra os indígenas da região norte do Brasil, que também resistiam contra o regime de exceção.

Fonte: HENFIL, 1970.

FIGURA 13 “NAPALM” CONTRA PLANTAÇÃO DE MACONHA 

Essas imagens alternativas (SALIBA, 1999) bem-humoradas remetem às informações que eram divulgadas pela imprensa censurada no ano de 1970, pois nela apareciam falsas notícias relativas a ataques militares a plantações ilegais de maconha com esse tipo de bombas quando, na verdade, ocorriam massacres militarizados contra jovens resistentes e indígenas. As histórias em quadrinhos de Henfil são apresentadas, como era o estilo desse quadrinista, enquanto uma forma narrativa voltada a um modelo de vingança direcionado à rememoração das lutas dos subalternizados, no entanto, expressa uma estrutura de sentimento pautada numa dissidência humana radical fundamentada na solidariedade de uma humanidade igualitária.

REFERÊNCIAS

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1Grupo Pesquisador Educação Histórica: Consciência histórica e narrativas visuais (GPEDUH-UFMT), Universidade Federal do Mato Grosso, Cuiabá, Brasil. Laboratório de Pesquisa em Educação Histórica (LAPEDUH-UFPR), Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Brasil. Agradeço também ao CITCEM - Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória” - da Universidade do Porto, Portugal, onde desenvolvo meu estágio de pós-doutoramento sob a supervisão da Profª. Drª. Isabel Barca, por possibilitar as condições de tempo e estrutura para a realização desse artigo.

2O conceito de caráter social foi desenvolvido por Erich Fromm (1963) e apropriado por Raymond Williams (2003) com a finalidade de construir uma análise da cultura a partir do funcionamento das estruturas de sentimento que mobilizam a tradição seletiva numa comunidade.

3Conheço o debate historiográfico em relação ao que foi o regime autoritário instalado no Brasil de 1964 a 1985. Optei pelo conceito histórico de Ditadura Militar Brasileira porque compreendo que, mesmo com os suportes civil, religioso, institucional e empresarial que os outros conceitos (que também considero válidos) integram e descrevem, o regime de violência imposto no Brasil foi administrado, organizado e estruturado hegemonicamente por militares das Forças Armadas Brasileiras do período. Considero que é falsa a noção de “revolução de 1964”, pois não tem validade historiográfica e evidencial no que diz respeito à experiência ditatorial específica que o Brasil passou no referido periodo histórico.

4A outra ponta dessa triangulação metodológica está ligada à futura construção de um instrumento de investigação para compreender a forma como a Ditadura Militar Brasileira está presente nas ideias históricas dos jovens estudantes brasileiros. Também está em construção pelos professores historiadores do LAPEDUH um roteiro de uma história em quadrinhos paradidática sobre a cultura histórica das populações do Vale da Ribeira inspiradas, em parte, nos pressupostos teóricos que discuto nesse artigo.

5Nesta investigação optei por abordar somente histórias em quadrinhos não-ficcionais, pois tenho a intenção de verificar como as estruturas de sentimento (WILLIAMS, 2003) baseadas na cultura jovem e as formas de narrar e superar o sofrimento pela reconciliação histórica a partir da “burdening history” (BORRIES, 2016) se expressam em narrativas gráficas que se baseiam numa pertinência intersubjetiva da busca da verdade (RÜSEN, 2001). Também, por motivos de espaço nesse artigo, não apresentarei todas as histórias em quadrinhos que existem em relação a cada tipo encontrado e também porque foram e serão utilizadas em outras investigações com finalidades diferentes.

6A transposição didática se fundamenta epistemologicamente, conforme afirmação do matemático francês Yves Chevallard (2000), a partir da pedagogia dos objetivos e se estrutura em estratégias didáticas como a dessincretização, a despersonalização, a programabilidade e a publicidade do saber, além do controle social do conhecimento típicos dessa epistemologia. Esses requisitos estruturam o que Chevallard chama de sistema didático: a relação entre o saber acadêmico, o saber a ensinar, o saber ensinado e o saber a ser aprendido. Esta perspectiva se caracteriza pela ideia de que o professor sabe mais que o aluno e que a transmissão do conhecimento só é possível se o estudante for um ente passivo nesse processo. Mais do que isso, esses sujeitos (professores e estudantes) não são o foco desta concepção, porque o que importa, de fato, é o funcionamento do sistema didático, que, em última análise, faz do professor, também, um sujeito passivo ao ser considerado um reprodutor dessa estrutura. A maioria dessas estratégias didáticas é verificável nesse tipo despersonalizador de histórias em quadrinhos sobre a Ditatuda Militar Brasileira.

7Essa constatação é muito significativa, pois mesmo em 2018 a maioria absoluta dos documentos produzidos e armazenados pelas Forças Armadas Brasileiras sobre a repressão militar e desaparecimentos políticos ainda não foi divulgada, mesmo sob pressão da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que de 2012 a 2014 investigou o processo de violência política realizado pela repressão da Ditadura Militar Brasileira.

Received: January 18, 2019; Accepted: January 29, 2019

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