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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230On-line version ISSN 1806-9282

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.47 no.3 São Paulo July/Sept. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302001000300013 

À beira do leito

Ginecologia

 

HIRSUTISMO AGUDO: COMO AVALIAR?

 

 

ROB, 57 anos, casada, branca, brasileira, procurou o Setor de Climatério referindo menopausa há ± 8 anos e que fez uso de medicações para a mesma, cujos nomes não recorda até há ± 5 anos. Há ± 1 ano notou aparecimento de pêlos, inicialmente na face e depois pelo corpo todo e que estes vêm se intensificando, levando-a a fazer depilações com lâminas quase que diariamente. Antecedentes pessoais: operada de varizes há 15 anos. Menarca aos 15 anos com ciclos regulares (3-4 / 28dias, quantidade normal). Coitarca aos 19 anos, um único parceiro, libido exacerbada ultimamente. II gesta, II para 2 cesáreas, último parto há 21 anos. Exame físico- bom estado geral. Peso-65,4kg; Altura-1,56m; PA-110x70mmHg; Pulso-72 bpm. Ausência de alopécia, de aumento da massa muscular, de acanthosis nigricans e de acne. Índice de Ferriman e Gallway- 27, com pêlos no buço e mento abundantes. Relação cintura/quadril- 0,9. Mamas- sem alterações; abdome- cicatriz transversa em abdome inferior. Genitais externos- Índice clitoridiano- 8,0 mm x 6,0 mm (48 mm2) ; Genitais internos- colo impérvio; útero em AVF móvel de volume normal; anexos não palpados.

Com o diagnóstico de hiperandrogenismo foram solicitados os seguintes exames: FSH- 20,1 mUI/ml; LH- 16,5 mUI/ml; prolactina- 13,5 ng/dl; estradiol- 51,2pg/ml; testosterona- 490ng/dl; sulfato de deidroepiandrosterona (SDHEA)- 163ng/ml; androstenediona- 6,5ng/ml; cortisol- 2,7ng/dl; glicose- 96mg/dl; insulina-14,2mUI/ml (estradiol, testosterona e androstenediona estão aumentados para a faixa etária). Ultra-som (USG) adrenais- ndn. USG endovaginal- útero- 58 cm3, com eco endometrial de 5 mm; ovário direito (OD)- não vizualizado; ovário esquerdo (OE) de 3x2,2x 2,1cm com imagem hipoecóica de 2x 1,8cm em seu interior. Teste de supressão com dexametasona (dosagens antes / depois de 5 dias de dexametasona 0,5 mg cada 6 horas)- testosterona- 514ng/dl / 735ng/dl; androstenediona- 6,5ng/ml / 6,9ng/ml; SDHEA- 163ng/ml / 15ng/ml; 11 deoxicortisol - 21ng/dl / 2,0ng/dl; cortisol - 8,7ng/dl / 1,1ng/dl ( boa supressão dos hormônios adrenais, mas não dos androgênios mostrando origem ovariana). Submetida à histerectomia total com anexectomia bilateral: endométrio atrófico com pólipos endometriais sem atipia. OD-ndn OE- nódulo amarelado de 2 cm: tumor de células esteroídicas, tipo células hilares. Após a cirurgia, os níveis de androgênios normalizaram e os pêlos estão crescendo mais lentamente; a paciente deverá ser submetida a tratamento cosmético definitivo.

Manifestações androgênicas de aparecimento abrupto e de evolução rápida devem ser investigadas prontamente e de maneira intensiva, pois quase sempre são de origem tumoral. Níveis de testosterona acima de 200ng/dl ou de SDHEA acima de 700ng/ml são considerados tumorais. Imagens das adrenais e dos ovários são importantes na propedêutica, no entanto, como adenomas não funcionantes das adrenais aparecem em mais de 5% das autópsias e como cistos funcionais de ovários, às vezes hemorrágicos, são comuns nas endocrinopatias, consideramos o teste de supressão com dexametasona de capital importância. Os tumores de células esteroídicas são tumores originados dos cordões sexuais; substituem a antiga denominação de "tumores de células lipoídicas" e incluem o luteoma estromal, os tumores das células de Leydig (é do tipo hilar pela ausência de cristalóides de Reinke) e tumores de células esteroídicas sem outras especificações.

 

WILSON MAÇA YUKI ARIE
MARIA HERMINIA ALEGRE ARIE
VICENTE RENATO BAGNOLI

 

Referência

Fonseca AM, Arie WMY, Sauerbronn AVD, Bagnoli VR, Arie MHA. Síndrome hiperandrogênica - hirsutismo. In: Oliveira HC Lembruber I editores. Tratado de Ginecologia Febrasgo. Rio de Janeiro: Revinter; 2000. v. 1, p. 271-84.

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