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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.49 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302003000100004 

PANORAMA INTERNACIONAL
CLÍNICA MÉDICA

 

A obesidade e a insuficiência cardíaca

 

 

Antonio Carlos Pereira Barretto

 

 

A insuficiência cardíaca (IC) tornou-se um dos grandes problemas de Saúde Pública do mundo moderno. Apesar dos avanços terapêuticos, a morbidade e a mortalidade por insuficiência cardíaca permanece muito alta, sendo necessário desta forma a sua prevenção, que deve ter um enfoque prioritário.

A obesidade extrema é reconhecida, há anos, como um fator de risco para insuficiência cardíaca. Dados do estudo de Framingham mostraram, com base na análise de 5881 pessoas, com idade média de 55 anos, sendo 54% mulheres, que o aumento do índice de massa corpórea (IMC) em uma unidade aumentaria o risco de apresentar IC em 5% para os homens e em 7% para as mulheres. Quando se compara a evolução dos obesos (IMC de 30 ou mais) com os normais (IMC entre 18,5 e 24,9) os obesos apresentaram o dobro de chance de apresentar descompensação cardíaca, sendo este risco 2,12 para as mulheres e 1,90 para os homens.

Este estudo populacional, de análise de uma comunidade, documentou que pacientes com aumento do IMC apresentam uma maior chance de desenvolver IC. Dado o aumento da prevalência da obesidade, especialmente nos Estados Unidos, mas também em certas regiões do Brasil, estratégias promovendo a busca do peso ótimo podem reduzir a epidemia de IC dos nossos dias.

Se a obesidade é um fator de risco para o desenvolvimento da IC, é interessante entretanto notar que ela confere uma possível proteção quanto à mortalidade aos pacientes portadores de IC. Numa coorte de 1203 pacientes com disfunção ventricular (FE média de 0,22) e IC pode-se observar que aqueles com maior IMC (IMC >31) apresentaram uma mortalidade menor do que os três grupos com IMC mais baixo (<20,7; entre 20,7 e 27,7 e entre 27,3 e 31).

Os dados deste estudo mostraram que nos pacientes com IC avançada a obesidade não estaria associada a um aumento de mortalidade e que ela parece oferecer um prognóstico mais favorável.

 

Comentário

A obesidade é um fator de risco para a população sadia, com os obesos apresentando pelo menos duas vezes mais quadro clínico de IC do que os sem aumento de peso, mas nos portadores de IC o fato de o paciente não estar emagrecido está associado a um melhor prognóstico. Este resultado decorreria de uma menor estimulação neurohormonal, incluindo uma menor elevação do fator de necrose tumoral-alfa, fato que confere aos pacientes uma melhor evolução, uma vez que a estimulação neurohormonal aumentada é um importante determinante de progressão da doença e do prognóstico.

Observamos nestes estudos os dois aspectos extremos de uma doença, pois para prevenir a IC, controlar o excesso de peso é benéfico e com a IC instalada, evitar o emagrecimento reduz mortalidade. É importante, no entanto, ressaltar que os dados destes dois estudos são fundamentados em análise de população e não foram desenhados prospectivamente para verificar se a perda do peso realmente reduziria o risco de IC e se a prevenção da perda de peso nos portadores de IC reduziria a sua mortalidade.

 

Referências

1. Kenchaiah S, Evans JC, Levy D, Wilson PW, Benjamin EJ, Larson MG, et al. Obesity and the risk of heart failure. N Engl J Med 2002; 347: 305-13.

2. Horwich TB, Fonarow GC, Hamilton MA, Mac Lellan WR, Woo MA, Tellisch JH. The relationship between obesity and mortality in patients with heart failure. J Am Coll Cardiol 2001; 38: 789-95.