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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.49 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302003000100010 

À BEIRA DO LEITO
BIOÉTICA

 

Sobre a morte e o morrer: tecnologia ou humanismo?

 

 

José Eduardo de Siqueira

 

 

Dois estudos publicados na Revista "Archives of Internal Medicine" mostram de maneira contudente como a questão da morte é inadequadamente tratada na formação médica.

Artigo de Hill mostra que de 126 escolas de medicina norte-americanas apenas cinco oferecem ensinamentos sobre a terminalidade da vida; maior ainda é a desatenção ao tema nos 7.048 programas de residência médica, já que apenas 26 apresentam o assunto em reuniões científicas.

Em outro artigo, Lynn, estudando mais de 9.000 pacientes portadores de insuficiência cardíaca em fase III ou IV e doentes em situação de terminalidade por câncer, mostrou que 55% dos mesmos estiveram conscientes nos três dias que antecederam a morte e incompreensivelmente enfrentaram os seguintes padecimentos: 40% tiveram dores insuportáveis, 80% fadiga extrema e 63% experimentaram grande sofrimento físico e emocional.

Indiscutivelmente, estamos despreparados para conduzir com proficiência estes sofridos momentos da vida de nossos pacientes. Praticamos medicina, que embora dominando sofisticada tecnologia, subestima o conforto do enfermo terminal, impondo-lhe longa e sofrida agonia. Nossas UTIs recebem contigente expressivo de doentes terminais e para eles são oferecidos cuidados que preservam variáveis biológicas sem considerar que isso é feito à custa de grande sofrimento. Um sobreviver precário, muitas vezes, não mais que vegetativo. Adiamos a morte através de insensato e prolongado sofrimento para o paciente e sua família, sem mencionar o tremendo ônus financeiro imposto a todo sistema de saúde.

Necessário se faz resgatar sentimentos como compreensão, solidariedade e compaixão sem o que estaremos fazendo uma ciência fria que não contempla a dignidade do ser humano.

 

Referências

1. Hill TP. Treating the dying patient: the challange for medical education. Arch Intern Med 1995; 155:1265-9.

2. Lynn J. Perceptions by family members of the dying experience of older and seriously ill patients: study to understand prognoses and preferences for outcomes and risks of treatments (SUPORT). Ann Intern Med 1997; 126:97-106.