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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.49 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302003000100040 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação do estado nutricional e do consumo alimentar de mulheres no climatério

 

Nutritional status and food intake assessment of climacterics women

 

 

Regina das Neves Girão Montilla; Maria de Fátima Nunes Marucci; José Mendes Aldrighi

Centro de Saúde-Escola "Geraldo de Paula Souza" da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar o estado nutricional e o consumo alimentar de mulheres no climatério.
MÉTODOS: Em um estudo transversal foram avaliadas 154 mulheres atendidas no Ambulatório de Saúde da Mulher Climatérica (ASMUC) do Centro de Saúde-Escola da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. As variáveis analisadas foram Índice de Massa Corporal (IMC) e consumo alimentar (energia, distribuição percentual de proteínas, carboidratos e gorduras, vitaminas A e C, minerais cálcio e ferro). Para analisar valor energético da alimentação e minerais cálcio e ferro foram utilizados dois grupos etários (35-50 anos e 51-65 anos). Para análise de IMC, vitaminas A e C e percentual de macronutrientes, foi considerada a população total estudada (35-65 anos). Em todas as variáveis foram utilizadas médias e desvios padrões.
RESULTADOS: O IMC médio foi 29,3 kg/m² (±6,2 kg/m²), com 75% da população acima do índice de normalidade. Quanto à energia, os resultados mostraram-se adequados para os dois grupos etários; quanto à distribuição percentual dos macronutrientes todos apresentaram-se inadequados; em relação às vitaminas e minerais, somente o ferro mostrou-se adequado.
CONCLUSÃO: A população avaliada apresenta riscos à saúde, face aos valores elevados de IMC e consumo inadequado de macronutrientes, cálcio, vitaminas A e C.

Unitermos: Climatério. Estado nutricional. Consumo alimentar. Índice de Massa Corporal (IMC). Obesidade. Osteoporose.


SUMMARY

BACKGROUND: To evaluate the nutritional status and food intake of climacterics women.
METHODS: In a transversal study were evaluated 154 women matriculated in the Clinic of the Climacteric Woman of the Health Center of Public Health College of the São Paulo University, Brazil. The analyzed variables were body mass index (BMI) and food intake (energy, percentual distribution of macronutrients, A and C vitamins, calcium and iron minerals). To analyse food caloric value and calcium and iron minerals, were utilized two age groups (35-50 y and 51-65 y). To analyse BMI, macronutrients percentage and A and C vitamins were utilized the total population (35-65 years of age). In all variables were calculated mean and standard deviation.
RESULTS: The mean BMI was 29.3 kg/m² (±6.2 kg/m²), with 75% of population above normality. About the energy, the results indicated adequacy to two age groups; about the distribution percentual of macronutrients, all were inadequate. In relation to the vitamins and minerals, all were inadequates, with exception of iron.
CONCLUSION: The population studied presents risks to health owing to high value of BMI and inadequate intake of macronutrients, calcium, A and C vitamins. [Rev Assoc Med Bras 2003; 49(1): 91-5]

Keyswords: Climacterium. Nutritional status. Food intake. Body Mass Index (BMI). Obesity. Osteoporosis.


 

 

INTRODUÇÃO

Vários agravos à saúde constatados no climatério relacionam-se, na maioria das vezes, direta ou indiretamente com a ingestão inadequada de alimentos, quer seja em excesso ou deficiência por longos períodos; essa inadequação, por sua vez, constitui em importante fator de risco1 para inúmeras doenças, tais como as cardiovasculares, a obesidade, a osteoporose, o câncer de cólon e de mama2,3,4.

No caso específico da mulher climatérica, os excessos nutricionais relacionam-se com o alto consumo de alimentos energéticos, principalmente provenientes de gorduras saturadas2,3. Consoante Hill et al.5, a gordura proveniente da dieta é considerada determinante primária de obesidade, sendo esta mais prevalente em mulheres a partir do climatério6. Outros estudos revelam deficiência de nutrientes, como as vitaminas A e C4,7, o cálcio2,8-10 e o ferro4.

A existência de poucos estudos sobre nutrição em mulheres climatéricas reforça a necessidade de avançar nesta investigação. De fato, a própria Organização Mundial de Saúde (OMS)11 recomenda pesquisas nessa área, a fim de melhor conhecer possíveis relações entre distúrbios alimentares e agravos à saúde. Como ocorre um aumento da prevalência de doenças crônicas no climatério, torna-se importante identificar a realidade nutricional da mulher nesse período, uma vez que a nutrição adequada é primordial para assegurar a saúde.

 

MÉTODOS

Trata-se de estudo transversal, cuja população foi constituída por 154 mulheres matriculadas no Ambulatório de Saúde da Mulher Climatérica (ASMUC) do Centro de Saúde-Escola "Geraldo de Paula Souza" da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Sendo o ASMUC um ambulatório de atendimento multiprofissional, todas as pacientes eram encaminhadas primeiramente à consulta médica, onde eram solicitados os exames necessários (dosagem hormonal, colesterol, triglicérides, glicemia, mamografia, densitometria óssea, etc). As mulheres entre 35 e 50 anos apresentavam ciclos menstruais num intervalo variável entre 24 e 38 dias; o grupo após a menopausa, constituído de pacientes entre 51 e 65 anos, não menstruavam há pelo menos um ano e apresentavam níveis séricos de FSH superior a 30 mu/ml. Após atendimento médico, as pacientes eram convidadas a participarem deste estudo e, em caso afirmativo, assinavam o termo de consentimento. As variáveis de estudo foram Índice de Massa Corporal e Consumo Alimentar (energia, distribuição de macronutrientes, cálcio, ferro, vitamina A e C). Para energia, cálcio e ferro, a população foi distribuída em dois grupos (35-50 anos e 51-65 anos) com 77 mulheres em cada, tendo em vista que as recomendações dessas variáveis dietéticas são feitas conforme segmento etário. Para IMC, percentual de macronutrientes e vitaminas A e C, a análise foi feita considerando a população total, uma vez que não existe diferenciação nas recomendações dessas variáveis por grupo etário. A variável para analisar estado nutricional foi o Índice de Massa Corporal (IMC), calculado por meio do "software" "Virtual Nutri" desenvolvido por Philippi et al.12 a partir da relação peso (kg)/ estatura (m²). A avaliação da população por meio do IMC foi realizada, adotando-se o padrão de referência da OMS 199513. Para verificação do consumo alimentar, utilizou-se o método de inquérito alimentar "recordatório de 24 horas", que consiste na quantificação das preparações e/ou alimentos ingeridos durante o dia anterior a entrevista, baseando-se em medidas caseiras. Quanto ao consumo alimentar, as variáveis dietéticas foram energia (Valor Calórico Total - VCT), carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas A e C, e os minerais cálcio e ferro. Os dados referentes ao consumo alimentar foram processados também pelo "software" "Virtual Nutri"12 para obtenção do consumo médio de energia, de macronutrientes (proteínas, carboidratos e gordura) e micronutrientes (vitaminas e minerais), bem como da distribuição percentual dos macronutrientes e a adequação percentual das demais variáveis dietéticas (energia, vitaminas A e C, cálcio e ferro). O padrão de referência utilizado para adequação energética foi o do National Resourch Council (NRC 1989)14, considerando adequada a dieta que apresentasse VCT entre 80% e 120% do recomendado. Para a distribuição percentual das proteínas, utilizou-se a recomendação proposta por Young, Munro e Fukugawa, citados por Horwitz15, que consideram adequada a dieta que apresente percentuais entre 12% e 14%. Para as gorduras e os carboidratos, os parâmetros utilizados foram os valores sugeridos por Norum, Pederson e Wohl, também citados por Horwitz15, considerando adequados os seguintes percentuais: gorduras – 25% a 30%; carboidratos - pelo menos 55% do VCT. Como os autores citados não mencionam o percentual máximo para carboidrato, ficou definido o valor de 63% como porcentagem máxima. A opção por este valor se deu em função da diferença entre 100% do VCT e as recomendações mínimas de proteínas e de gorduras. Quanto às vitaminas A e C e o mineral ferro, foram utilizadas as recomendações do NRC14; em relação ao cálcio, utilizaram-se os valores sugeridos pela National Academy of Sciences (NAS)10. A adequação das variáveis dietéticas (energia, vitaminas A e C, cálcio e ferro) foi avaliada entre 80% e 120% das recomendações. Para todas as variáveis foram calculadas as respectivas médias e desvios padrões, utilizando o aplicativo Excel 2000 da Microsoft.

 

RESULTADOS

Quanto ao IMC, 24% da população apresentaram-se adequados em relação ao estado nutricional, tendo em vista que o IMC situou-se nos valores de normalidade; 35% foram classificados com sobrepeso grau I,34% com grau 2,6% com grau 3 e 1% com magreza grau 1. Portanto, 76% da população estudada apresentaram IMC inadequado, sendo 75% com sobrepeso e obesidade (Tabela 1).

 

 

Quanto à energia, os percentuais médios foram adequados, ou seja, 82,5% (±33,0%) e 88,6% (±35,6%) para os grupos etários de 35-50 anos e 51-65 anos, respectivamente. Avaliando-se a proporção de mulheres com dieta adequada em energia, obteve-se 44,2% para o grupo etário dos 35-50 anos e 46,9% para as mulheres acima de 51 anos (Tabela 2).

 

 

Os percentuais para os três macronutrientes (proteínas, carboidratos e gorduras) indicaram inadequação. Os nutrientes que excederam aos percentuais recomendados foram as proteínas (16,4%±6,3%) e as gorduras (32,2%±12,2%). Já os carboidratos apresentaram valores inferiores (51,4% ±10,3%) à recomendação. Ao analisar a proporção da população com adequação nos macronutrientes, constata-se que somente 28% da população apresentaram quantidade adequada de proteína, 15% de gordura e 17% de carboidrato.

Quanto à adequação das vitaminas A e C, observa-se na Tabela 2, que ambas atingiram valores médios superiores as recomendações. Em relação à proporção de mulheres com dieta adequada em vitamina A e C, constataram-se 18,2% e 7,8%, respectivamente.

Nos dados referentes ao cálcio dietético (640 mg e 610 mg para os grupos dos 35-50 e 51-65 anos, respectivamente), os dois grupos etários apresentaram-se inadequados, sendo que o percentual de adequação para o grupo de 35-50 anos foi de 64% e para o outro grupo de 51-65 anos foi 51%. Em relação à proporção da população com consumo adequado de cálcio dietético, os resultados foram 14,3% e 14,5% para os grupos etários dos 35-50 e 51-65 anos, respectivamente, revelando que a maior parte (mais de 85% em ambos os grupos) da população apresentou-se com consumo inadequado desse nutriente.

Quanto à adequação do ferro, verifica-se que em média o resultado apresentou-se adequado para os dois grupos etários (Tabela 2). Entretanto, apesar dessa adequação, somente 31,5% do grupo entre 35-50 anos e 21,7% para o grupo etário acima dos 50 estavam de acordo com a recomendação do NRC (1989)14.

 

DISCUSSÃO

Os resultados sobre IMC mostraram sobrepeso em 75% da população avaliada; isso é extremamente preocupante, uma vez que o risco de morbi-mortalidade aumenta com a obesidade16,17. Esses resultados se assemelham com aqueles obtidos em outros estudos, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento5,18-21.

Vários estudos revelam que mulheres a partir do início do climatério (40 anos)6,16,22 apresentam progressivo aumento de peso. De fato, isso foi comprovado pelo First National Health and Nutrition Examination Survey Follow-up Study23, que analisando 10.000 americanos, com idade entre 25-74 anos durante dez anos, constatou aumento de peso, tanto em homens como em mulheres.

Em relação à energia, esta apresentou valores de acordo com o estabelecido (80%-120% das recomendações do NRC 198914) para ambos os grupos etários; essa adequação, por sua vez, situou-se próxima ao limite inferior do estabelecido. Entretanto, como se obteve uma prevalência de 75% da população com IMC acima da normalidade (29,3 kg/m² ±6,2kg/m²), ao se comparar o IMC com os valores energéticos da dieta, percebe-se que essas duas variáveis não apresentaram necessariamente a mesma tendência. Isso pode ser explicado por três razões: 1) o IMC é um índice que avalia estado nutricional atual. Assim, ao analisar um indivíduo com IMC inadequado, significa que o ganho ou a perda ponderal ocorreu ao longo do tempo, isto é, tanto sobrepeso, obesidade como magreza representam processos crônicos. Entretanto, a avaliação do inquérito alimentar pelo recordatório de 24 horas verificou quantitativamente a ingestão alimentar no dia anterior a entrevista, independente de seu estado nutricional atual, ou seja, é um dado recente e, portanto, não poderia exercer influência direta na obesidade; 2) como a partir da terceira década da vida ocorre diminuição do metabolismo basal, supõe-se que se esta redução não for acompanhada por queda no valor energético da dieta ou por elevação no dispêndio energético pela atividade física, ocorrerá um desequilíbrio entre consumo e gasto, resultando em sobrepeso e obesidade a médio e longo prazo6,24. Frise-se que para a OMS11 a atividade física é fundamental na prevenção e controle da obesidade; 3) Como esse estudo foi realizado em um ambulatório multiprofissional, é possível que orientações nutricionais básicas dadas anteriormente às mulheres possam ter influenciado os resultados, pois muitas delas consumiam dietas hipocalóricas.

Quanto à distribuição dos macronutrientes, verifica-se que, apesar dos percentuais estarem bem próximos às recomendações, a maioria da população mostrou distribuição inadequada, principalmente quanto às gorduras e aos carboidratos. Esses resultados sugerem uma tendência pela preferência a alimentos gordurosos e protéicos. Apesar de não se tratar de questões relacionadas à mulher climatérica, Mondini & Monteiro19 estudaram as modificações no padrão da alimentação urbana brasileira e perceberam uma tendência de aumento na participação relativa das gorduras e das proteínas. Essa preferência sabidamente é prejudicial à saúde da mulher climatérica, pois o excesso de gordura dietética favorece a obesidade, as doenças cardiovasculares, o câncer de mama e o de endométrio17,26,27, além do que o excesso protéico pode gerar aumento na excreção renal do cálcio, favorecendo a osteoporose2,28-32.

Hill et al.5 argumentam que a gordura dietética é determinante primária de obesidade. Entretanto, outros autores mostram que o percentual de energia proveniente das gorduras tem-se reduzido de forma expressiva nos últimos anos19,22, apesar do aumento na prevalência da obesidade33, sugerindo que a gordura seja somente um dos vários determinantes de uma "superalimentação".

Inúmeros estudos5,34,37 tentam explicar a relação entre o consumo exagerado de gordura dietética e a eclosão da obesidade; assim, dietas ricas em gorduras têm menor termogênese35, maior eficiência no armazenamento5,36, menor poder de saciedade38,39 e são mais palatáveis do que alimentos de baixa densidade energética5,39,40. Dessa forma, a redução na ingestão de gordura dietética parece ser efetiva na queda do peso corporal, mesmo sem restrição energética37. No entanto, Hill et al.5 mencionam que o maior efeito da dieta de baixo teor de gordura pode não ser a diminuição no ganho de peso, mas sim sua prevenção.

Quanto ao percentual de proteína dietética, verificou-se que a média esteve acima da recomendação; como o excesso protéico pode promover maior excreção renal de cálcio, esse fato torna-se particularmente importante na mulher após a menopausa, pois ela já apresenta progressiva perda de massa óssea28,29,31. Além do mais, outra complicação está no fato do consumo de cálcio revelar-se inadequado nos dois grupos etários (Tabela 2). Em um estudo recente41, verificou-se que a proteína poderia contribuir no ganho ósseo desde que o consumo de cálcio estivesse adequado. Para Heaney42, a proteína e o cálcio podem atuar no osso sinergicamente se ambos estiverem presentes na dieta em quantidades adequadas. Entretanto, a proteína pode tornar-se efetivamente antagonista para o metabolismo ósseo quando o consumo de cálcio é baixo.

A despeito do aumento na recomendação dietética do cálcio10,28, a média continua inadequada, comprometendo ainda mais a saúde óssea da mulher no climatério. Considera-se ainda que a proporção de mulheres com dieta adequada neste nutriente foi baixa em ambos os grupos etários (14,3% e 14,5% para os grupos 35-50 anos e 51-65 anos, respectivamente). Esses resultados foram ainda inferiores do que aqueles obtidos por Galeazzi el al43, que verificou o consumo alimentar em cinco municípios brasileiros (Rio de Janeiro, Campinas, Curitiba, Goiânia e Ouro Preto). Neste estudo, o consumo médio de cálcio (em mulheres com idade de 45-65 anos) nas cinco cidades brasileiras foi de 917 mg de cálcio e a proporção de mulheres com consumo de cálcio adequado foi de 31,3%. De acordo com Yates et al10, o aumento na ingestão dietética deste mineral (1000-1200 mg), mesmo em mulheres pós-menopausais, poderia retardar a perda de cálcio ósseo.

Em relação ao ferro dietético, os resultados revelam que a média está adequada, com 90,5% (±90,3) da recomendação para o grupo etário dos 35-50 anos e 112,8% (±58,8) para o grupo dos 51-65 anos. Essa adequação decorre do consumo protéico elevado na dieta, uma vez que as principais fontes de ferro dietético advêm de certos alimentos protéicos (carnes em geral). De acordo com Felippe Jr.44, é comum o consumo excessivo de ferro em adultos, idosos e em mulheres na menopausa. Entretanto, quando se avalia a proporção de mulheres (31,5% para o grupo etário de 35-50 anos e 21,7% para o grupo de 51-65 anos) com dieta adequada em ferro e o desvio padrão, os resultados mostraram-se insatisfatórios, pois a maioria da população apresentou dieta inadequada em ferro.

O percentual médio de vitamina A mostrou-se inadequado (120,7%), segundo os critérios adotados; entretanto, apesar desse resultado situar-se próximo à adequação máxima, somente 18,2% da população estava adequada em relação à vitamina A. Os demais 81,8% apresentaram inadequação, sendo que deste percentual, 47,4% estavam abaixo dos 80% da recomendação, ou seja, quase metade da população tinha consumo deficiente de vitamina A. É importante considerar que essa deficiência pode acarretar cegueira noturna, xeroftalmia, alterações cutâneas, e aumentar a susceptibilidade à carcinogênese7. Para os 34,4% (dos 81,8%) da população que apresentaram consumo acima do recomendado, parece não ocorrer maior risco de agravos à saúde, pois não há na literatura casos conhecidos de toxicidade alimentar por essa vitamina7.

Quanto ao percentual de adequação da vitamina C, o resultado de 201,5% sugere que a população consome dieta rica em ácido ascórbico, porém quando são avaliados o desvio padrão e a proporção da população com dieta adequada nesta vitamina, percebe-se nítida discrepância nos resultados. Assim, a parcela da população que estava com recomendação adequada em vitamina C foi de somente 7,8%. Os demais 92,2% com inadequação nessa vitamina foram divididos em 35,7% abaixo da recomendação mínima (80%) e 56,5% acima da recomendação máxima (120%). O consumo elevado de vitamina C dietética não promove qualquer problema, pois o excesso de ácido ascórbico dietético é excretado pelos rins7. Entretanto, estudos indicam que indivíduos que ingerem dietas com altos teores de ácido ascórbico (acima de 1000mg /dia), apresentam risco significativo de cálculos renais decorrentes de oxalato45. Esses resultados se assemelham aos de Galeazzi et al.43 que confirmaram a mesma tendência de alto consumo de alimentos ricos em vitamina C, nos cinco municípios brasileiros pesquisados (Rio de Janeiro, Campinas, Ouro Preto, Goiânia e Curitiba).

 

CONCLUSÃO

Portanto, na avaliação do estado nutricional e do consumo alimentar, este estudo mostrou que as mulheres climatéricas alimentam-se de forma incorreta, principalmente do ponto de vista quantitativo. Vale ressaltar que o nutriente mais deficiente foi o cálcio, em especial para o grupo que necessita de maior atenção e por isso, programas de orientação nutricional devem fazer parte no atendimento à mulher climatérica. Além do mais, é fundamental que a educação nutricional deva ser estimulada na pré-escola, quando hábitos e atitudes estão em formação. Assim, uma alimentação adequada instituída precocemente e mantida continuamente representa um importante fator promotor de saúde e preventivo quanto aos agravos crônicos à saúde.

 

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Endereço para correspondência
Regina das Neves Girão Montilla
Av. Coral, 280 – Cond. Arujá
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Artigo recebido: 07/06/02
Aceito para publicação: 06/11/02

 

 

Trabalho realizado no Centro de Saúde-Escola "Geraldo de Paula Souza" da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo