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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230On-line version ISSN 1806-9282

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.49 no.3 São Paulo July/Sept. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302003000300018 

GINECOLOGIA

 

Existe câncer do colo uterino sem HPV?

 

 

Sérgio Mancini Nicolau

 

 

Nos últimos anos tem-se constatado uma impressionante evolução quanto à relação entre câncer de colo uterino e HPV; assim, entre os anos 70 e 80 surgiram as primeiras evidências da provável associação e, no final dos anos 90, descrevia-se a presença viral em aproximadamente 100% dos casos de câncer cervical; por isso, passou-se a afirmar que não existe câncer do colo sem HPV.

Admitia-se, naquela época, que ao se utilizar um teste biomolecular para a detecção do DNA viral, poderíamos identificar mais mulheres com risco para o desenvolvimento da neoplasia e, com isto, diminuir a mortalidade pela doença, que, especialmente no nosso meio, é um grave problema de saúde pública, visto que é um dos mais importantes tumores da genitália feminina e a maior parte dos casos que procuram os serviços públicos são diagnosticados em estádios avançados.

Na década de 80, surgiram as primeiras evidências da relação entre infecção viral e desenvolvimento da neoplasia invasora do colo uterino. Aventava-se a hipótese de causa e efeito pelos estudos de biologia molecular. Na década seguinte, notava-se nítida tendência de se utilizar estas técnicas para rastreamento primário do câncer do colo do útero; atualmente, vários estudos e o FDA dos EUA aconselham a captura híbrida para pesquisa do HPV, juntamente com o exame de Papanicolaou para o rastreamento primário de câncer do colo em mulheres com 30 anos ou mais.

 

Comentário

É importante salientar que a pesquisa viral tem como única finalidade identificar mulheres com risco para a doença nas suas diversas fases e não detectar alterações teciduais ou avaliar a gravidade; nessa situação é necessário que se indiquem propedêuticas subsidiárias, que devem incluir citologia, colposcopia e histopatologia, para se definir a conduta.

Em relação ao parceiro, ainda não está claro quando investigar ou tratar a doença, especialmente quando subclínica. As evidências demonstram que, para o casal constituído, talvez não seja necessário tratar o homem ou indicar o preservativo por longo período, como se preconizava anteriormente; a história natural da doença parece ter seu curso independente em cada um dos parceiros e não há risco de reinfecção.

Entre as recomendações, é fundamental que se invista em educação, especialmente dos adolescentes, estimulando o uso do preservativo para prevenção da transmissão do vírus; além disso, as pesquisas devem continuar na busca de métodos diagnósticos mais sensíveis e de menor custo para dar cobertura a toda população feminina suscetível e de risco. Isso propiciará possibilidade de tratamento restrito às doenças precursoras do câncer cervical e intervenção mais precoce nos casos de doença invasora.

Em relação à vacinação contra os principais tipos virais envolvidos no desenvolvimento do câncer do colo uterino, os primeiros resultados dos estudos (que hoje se encontram em fase 3) são promissores. Porém, deve-se ter em mente que ainda demandará algum tempo para que ela esteja disponível para uso populacional e, principalmente, para se ter o real impacto sobre o risco do câncer cervical.

Apesar desses avanços, nunca é demais insistir que outros tipos virais podem estar envolvidos na história natural da neoplasia e que não estão na mira destas vacinas; por isso, é prudente não se admitir que esta seja a solução final.

 

Referências

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