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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.49 no.3 São Paulo July/Sept. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302003000300019 

OBSTETRÍCIA

 

Indução do parto em gestações pós-termo com 41 semanas

 

 

Seizo Miyadahira; Rossana Pulcineli Vieira Francisco; Marcelo Zugaib

 

 

Duas premissas básicas elegem a gravidez prolongada (idade gestacional de 42 ou mais semanas) como um dos mais importantes temas obstétricos: a sua elevada incidência, ainda que as resoluções por via abdominal sejam prática corriqueira no Brasil, está entre 3% e 15% das gestações normais1; e as complicações, tanto maternas quanto dos recém-nascidos (RN), associadas a essa intercorrência obstétrica, fatos que preocupam ainda muitos pesquisadores. Figuram entre os resultados indesejáveis: aumento, em até três vezes, da mortalidade perinatal (por anoxia intra-uterina não diagnosticada adequadamente); aumento da morbidade (oligoidrâmnio, síndrome de aspiração meconial, tocotraumatismos pela macrossomia fetal, sofrimento fetal, comprometimento neurológico do recém-nascido e aumento da taxa de cesáreas)2. Um dos principais entraves para a solução dessa anormalidade reside nas dificuldades de se obter sucesso na indução do parto, nesses casos, porque ainda inexiste uma substância ocitócica ideal, não obstante a introdução do misoprostol, em baixas doses, tenha exercido, atualmente, fortes atrativos3. Entretanto, para se evitar que a gestação pós-termo (entre 40 e 42 semanas) avance além de 42 semanas, submetendo-se aos riscos acima listados, uma proposta muito sedutora é a conduta de se induzir o parto, antes da pós-maturidade. Nessa vertente, Sanches-Ramos et al., 20034, em estudo de revisão sistemática com metanálise, selecionam, de um total de 99 trabalhos sobre o assunto, 16 estudos que abordam o impacto da indução com 41 semanas e a conduta expectante. Apesar de que a indução aleatória pudesse estar sob a crítica de promover maior risco de cesárea, porque inclui também os casos de colos desfavoráveis, o índice observado foi menor (20,1% versus 22,0% - OR 0,88; IC 95% 0,78-0,99). Constatou-se, também, menor índice de mortalidade perinatal (0,09% versus 0,33% - OR 0,41; IC 95% 0,14-1,18), embora não houvesse diferença significativa. Similarmente, não foram observadas diferenças quanto a taxas de: admissão do RN à UTI, presença de mecônio abaixo das cordas vocálicas, aspiração de mecônio e índices de Apgar anormais. Portanto, esta revisão demonstra de forma inequívoca a validade de se induzir, utilizando-se de quaisquer métodos, gestações antes de 42 semanas, diminuindo as taxas de cesáreas, sem o comprometimento dos resultados perinatais.

 

Comentário

A filosofia adotada nos trabalhos selecionados para esta revisão sistemática, qual seja, a de não deixar a gestação ultrapassar 42 semanas, converge integralmente com os ideais empregados na elaboração do protocolo assistencial da Clínica Obstétrica da FMUSP, para essa entidade nosológica, desde a década de 19901. Da mesma forma, vai de encontro com a mesma tendência atual, verificada na literatura internacional2 cujos objetivos estão estritamente voltados para a preservação dos indicadores da saúde perinatal. Como adenda às diretrizes que podem emanar dos resultados observados, é interessante ressaltar que nos casos de colos favoráveis (índice de Bishop > 5), a indução é uma prática perfeitamente aceitável, mais precocemente ainda, com 40 semanas de idade gestacional1.

 

Referências

1. Miyadahira S. Pós-datismo. In: Zugaib M, Bittar, RE, editors. Protocolos assistenciais da Clínica Obstétrica da FMUSP. 2a ed. São Paulo: Atheneu; 2002

2. Rand L, Robinson JN, Economy KE, Norwitz ER. Post-term induction of labor revisited. Obstet Gynecol 2000; 96:779-83.

3. Hall R, Duarte-Correa M, Harlass F. Oral versus vaginal misoprostol for labor induction. Obstet Gynecol 2002; 99:1044-8.

4. Sanches-Ramos L, Olivier F, Delke I, Kaunitz AM. Labor induction vesus expectant management for postterm pregnancies: a systematic review with meta-analysis. Obstet Gynecol 2003; 101:1312-8.