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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.49 no.4 São Paulo  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302003000400007 

OBSTETRÍCIA

 

Perspectivas da versão externa cefálica no cenário obstétrico atual

 

 

Seizo Miyadahira; Roseli Mieko Yamamoto Nomura; Marcelo Zugaib

 

 

A versão externa, um procedimento clássico da Obstetrícia, esteve na iminência de desaparecer, na década de 1960, em face às numerosas complicações fetais observadas na ocasião1. Entretanto, estabelecida a irreversível tendência de se indicar a operação cesariana para a parturição nas apresentações pélvicas (obviamente associada à maior morbidade materna, além de mais onerosa), em nível mundial, houve grande motivação, em diversos centros, para a retomada da aplicação da técnica da versão externa cefálica (VEC). Isso ocorreu de fato a partir da década de 1980, em estreito vínculo com o aprimoramento da tecnologia ultra-sonográfica. Sob o controle desse método os riscos desse procedimento tornaram-se decisivamente irrelevantes e, por isso, mais aceitáveis Os índices de sucesso oscilam entre 35% e 86%, média de 58%2. Para a escolha das pacientes candidatas à VEC são mencionadas, como critério de elegibilidade, uma série de variáveis a serem consideradas, como: consentimento (vinculado ao desejo de parturir por via vaginal); idade gestacional; paridade; tipo de apresentação pélvica; presença de cicatriz uterina anterior; estimativa de peso fetal; presença de miomas ou outros tumores pélvicos; inserção placentária; estimativa do volume de líquido amniótico, análise prévia das condições de vitalidade fetal; análise da morfologia fetal2,3. Embora a maioria dos pesquisadores prefiram efetuar a VEC no termo da gestação, alguns recomendam uma idade gestacional mais precoce2 (34 semanas) e encontram vantagens nessa propositura. Para a manipulação externa do feto preconiza-se a utilização de uterolíticos2, se houver falha na primeira tentativa sem esse recurso. Para um melhor conforto da paciente, podem ser ministrados analgésicos e até anestésicos, por meio de bloqueio loco-regional (raquidiano ou epidural)1-4. O número de tentativas aconselhado é variável, oscilando de três a cinco2,3. A técnica empregada preferencialmente é denominada de "forward roll". Ocasionalmente, se esta falhar, a técnica "back flip" é a recomendada. Todo o procedimento deve ser efetuado sob controle contínuo das condições feto-anexiais por meio da ultra-sonografia e, no final, seja exitoso ou não, deve-se realizar a cardiotocografia para se certificar da preservação da vitalidade fetal. A profilaxia da aloimunização também é mandatória. As complicações mencionadas são: sangramento vaginal, bradicardia persistente, descolamento prematuro da placenta, desacelerações variáveis. Elas são consideradas aceitáveis em virtude de serem raras e em face dos benefícios alcançados com a aplicação da VEC. Maiores taxas de sucesso são obtidas nas seguintes situações: multiparidade, apresentações pélvicas incompletas, placenta posterior e polidrâmnio1.

 

Comentário

Embora não haja um efetivo engajamento, nos meios acadêmicos da comunidade obstétrica nacional, para a obtenção de menores taxas de cesáreas, a técnica em apreço, na situação citada, pode exercer atrativos convincentes, pois, além da simplicidade, não depende de grandes recursos financeiros, mas apenas de equipamentos (ultra-sonógrafos, cardiotocógrafos) disponíveis na maioria das instituições de ensino e de pesquisa. Considerando-se o comprovado aumento da morbidade da operação cesariana quando comparada com a do parto normal, a VEC deve ser estimulada, notadamente quando as perspectivas de sucesso são reais. Portanto, tendo em vista a redução dos índices de cesáreas na apresentação pélvica (9,5%)2 observada com a aplicação dessa técnica, é plausível que se preconize a habilitação de profissionais no ensejo de concretizar tal procedimento.

 

Referências

1. Regalia AL, Curiel P, Natale N, Galluzzi A, Spinelli G, Gaia VL, et al. Routine use of external cephalic version in three hospitals. Birth 2000; 27:19-24.

2. Huttin EK, Kaufman K, Hodnett E, Amankwah K, Hewson AS, McKay D, et al. External cephalic version beginning at 34 weeks' gestation versus 37 weeks' gestation: a randomized multicenter trial. Am J Obstet Gynecol 2003; 189:245-54.

3. Wax, JR; Sutula, K; Lerer, T; Steinfeld, JD and Ingardia, CJ. Labor and delivery following successful external cephalic version. Am J Perinatol 2000; 17:183-6.

4. Birnbach DJ, Matut J, Stein DJ, Campagnuolo J, Drimbarean C, Grunebaum A, et al. The effect of intratecal analgesia on the success of external cephalic version. Anesth Analg 2001; 93:410-3.