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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.49 no.4 São Paulo  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302003000400008 

PEDIATRIA

 

Tratamento com hormônio de crescimento (GM) e neoplasia — coincidência ou conseqüência?

 

 

Nuvarte Setian

 

 

A Sociedade Lawson Wilkins de Endocrinologia Pediátrica (LWPES) tem monitorado de perto e cuidadosamente os relatos de eventos adversos do GH (GH derivado do DNA recombinante), através do seu Comitê Drogas e Terapêuticas. Os relatos anteriores do aumento de leucemia em crianças, após terapia com GH, mostraram-se sem fundamento, quando os dados internacionais sobre crescimento foram cuidadosamente avaliados. Existem evidências indicando que o tratamento com GH não aumenta a recorrência de tumor nos casos em que a lesão primária foi tratada com sucesso. A LWPES tem adotado ,como uma política prudente, aguardar um ano após o término do tratamento do tumor, para só depois deste tempo iniciar o GH. Pessoas tratadas por neoplasia são consideradas de risco para uma segunda neoplasia, daí recomendarem-se exames periódicos especialmente em certas síndromes genéticas (Down, Bloom, Fanconi, neurofibromatose ). Swerdlow em 2002 publicou no Lancet dados sobre a incidência de câncer colo-retal e Hodgkin, em adultos do Reino Unido que na infância haviam sido tratados com GH obtido de hipófise humana, mostrando um risco três vezes maior do que a população geral, para o câncer colo-retal e 11 vezes para o Hodgkin. Levantamento feito para 86.000 pacientes tratados com GH relata apenas um caso de carcinoma intestinal em uma garota de 15 anos tratada com quimio e radioterapia por astrocitoma cerebral, e um caso de câncer de colo em síndrome de Turner. Com estas considerações a LWPES acredita que:

1. As recomendações feitas para o tratamento com GH recombinante, em crianças com deficiência de GH, são seguras e sem riscos comprovados de aparecimento de neoplasias.
2. A possível associação entre incidência de câncer, mortalidade e tratamento com GH precisa ser considerada apenas se grande número de casos forem estudados.
3. A vigilância e monitorização (IGF-1, IGFBP-3) a longo prazo deve ser encorajada e incentivada.

 

Comentário

Neste editorial, a LWPES posiciona-se de maneira evidente quanto à associação: uso de GH e neoplasia. Estas três considerações finais deixam clara a opinião desta Sociedade baseada em levantamento que envolveu um número muito grande de crianças e adolescentes. Contudo, fica sempre o estado de alerta para situações especiais de crianças que apresentaram algum tipo de neoplasia. A sugestão de aguardar pelo menos um ano antes do uso de GH deve ser considerada, pois poderia ser o tempo de reaparecimento do mesmo tumor ou até do surgimento de uma segunda neplasia.

Referências

1. Lawson Wilkins Pediatric Endocrine Society Writting Committee. Special Editorial: growth hormone treatment and neoplasia—coincidence or consequence? J Clin Endocrinol Metab 2002; 87:5351-2.

2. Swerdlow AJ, Higgins CD, Adlard P, Preece MA. Risk of cancer in patients treated with human pituitary growth hormone in the UK ,1959-85: a cohort study. Lancet 2002; 360:273-7.