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Revista da Associação Médica Brasileira

versão impressa ISSN 0104-4230
versão On-line ISSN 1806-9282

Rev. Assoc. Med. Bras. v.50 n.4 São Paulo out./dez. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302004000400024 

ARTIGO ORIGINAL

 

Projeto Bambuí: prevalência de sintomas articulares crônicos em idosos

 

Health and aging study: prevalence of chronic joint symptoms among the elderly in Bambui

 

 

Gustavo Pinto da Matta Machado*; Sandhi Maria Barreto; Valéria Maria de Azeredo Passos; Maria Fernanda Furtado de Lima-Costa

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: Avaliar a prevalência e determinar os fatores associados a reumatismo/sintomas articulares crônicos na população de idosos de Bambuí, Minas Gerais, Brasil.
MÉTODOS: Foi conduzido um estudo transversal de base populacional entre 1606 idosos (>=60 anos ). Reumatismo foi assim definido: a) relato de diagnóstico médico de reumatismo e b) relato de sintomas crônicos nas mãos e joelhos (SCMJ). Utilizou-se a regressão logística múltipla para investigar associação independente entre reumatismo/sintomas crônicos e fatores selecionados.
RESULTADOS: A prevalência de SCMJ foi de 44,2% e de reumatismo diagnosticado por médico foi de 25,3% (15,3% nos homens e 31,9% nas mulheres). SCMJ esteve negativamente associado ao sexo (masculino) e à escolaridade (>= 8 anos) e positivamente associado a índice de massa corporal (25-29, 30-34, >=35 kg/m2), relato de infarto do miocárdio, sintomas de acidente vascular cerebral e relato de doença de Chagas.
CONCLUSÕES: Os resultados são coerentes com a literatura internacional no que se refere à maior prevalência de reumatismo em mulheres obesas e de escolaridade mais baixa. A associação de SCMJ com algumas condições clínicas pode estar relacionada ao maior uso de serviços de saúde motivado pelas mesmas e necessita maiores investigações em estudos futuros. A identificação destas características dos idosos residentes na comunidade com maior prevalência de reumatismo pode fornecer subsídios para organização de programas de assistência à saúde para esta faixa etária da população.

Unitermos: Reumatismo. Prevalência. Saúde do idoso.


SUMMARY

BACKGROUND: Arthritis is one of the more prevalent chronic conditions and a leading cause of disability in the elderly. The objective of this study is to assess the prevalence and to identify the factors associated with arthritis in the elderly population of Bambuí, Brazil.
METHODS: A population based cross-sectional study was carried out among 1606 senior citizens (>= 60 years of age). Arthritis was defined by: a) report of medical diagnosis of arthritis and b) report of chronic hand and knee symptoms (CHKS). Multiple logistic regression was used to investigate the independent association between arthritis and selected factors.
RESULTS: Prevalence of medical diagnosis of arthritis was of 25.3% (15.3% in men and 31.9% in women). Prevalence of CHKS was of 44.2%. CHKS was negatively associated with gender (masculine) and years of education (>= 8) and positively associated with Body Mass Index (25-29, 30-34, >= 35 kg/m2), report of myocardial infarct, stroke symptoms and Chaga's disease.
CONCLUSIONS: Our results are consistent with other studies concerning higher prevalence of arthritis among obese and less educated women. Association of CHKS with the report of some chronic conditions may be related to greater utilization of health services motivated by these conditions. This finding requires further investigation in future studies. Identification of these characteristics of the senior citizens living in the community, with a higher prevalence of arthritis may subsidize the organization of healthcare programs for this age group.

Key words: Arthritis. Prevalence. Aging health.


 

 

INTRODUÇÃO

Reumatismo é uma denominação utilizada para designar problemas de saúde que acometem as articulações e estruturas ósteo-musculares adjacentes, associados à dor e rigidez articular. Em estudo prospectivo, o reumatismo representou a condição crônica mais indicativa de limitações de atividades físicas, principalmente mobilidade e auto-cuidado1. Mais de 100 doenças classificadas internacionalmente podem ser relatadas como reumatismo, entretanto a osteoartrose representa a afecção mais freqüente, correspondendo a cerca de 70% dos casos de artrite2. A osteoartrose acarreta importante impacto econômico, em termos de incapacidade e custo da assistência aos indivíduos acometidos pela doença3.

A osteoartrose pode ser definida através de sintomas ou alterações radiológicas, entretanto muitos indivíduos com evidência radiográfica de osteoartrose não apresentam sintomas4. A osteoartrose acomete principalmente joelhos, mãos e quadris, e este padrão de envolvimento articular varia com a idade e sexo. Em inquérito realizado na comunidade, a prevalência de osteoartrose nas mãos, joelhos e quadris após os 30 anos aumentou progressivamente e se estabilizou após os 65 anos5. Antes dos 50 anos, a prevalência de osteoartrose na maioria das articulações é um pouco maior nos homens do que nas mulheres. Após os 50 anos, a prevalência de osteoartrose dos joelhos e mãos torna-se maior nas mulheres6.

Diversos fatores (sociodemográficos, hereditários, clínicos, metabólicos e de estilo de vida) estão associados à osteoartrose em articulações específicas. A prevalência de osteoartrose generalizada das mãos, que acomete as articulações interfalangenas distais e da base do polegar, é cerca de dez vezes maior em mulheres do que em homens e é também maior em gêmeos homozigóticos do que em dizigóticos, sugerindo-se que o fator hereditário seja o mais importante7. O sobrepeso e a obesidade, através de mecanismo de sobrecarga mecânica, estão associados principalmente à osteoartrose de joelho8,9 e a redução do peso está associada à diminuição do risco de progressão da doença10. Alguns estudos evidenciaram associação entre obesidade e osteoartrose das mãos, sugerindo-se a existência de outros mecanismos diferentes da sobrecarga mecânica para explicar esta associação11. Após ajustamento pelo peso, há evidência de associação positiva entre osteoartrose do joelho e hipertensão arterial, hipercolesterolemia e hiperglicemia12 e associação negativa com hábito de fumar13.

As estimativas de prevalência de reumatismo na comunidade são geralmente feitas através de relato de diagnóstico médico e/ou relato de sintomas articulares crônicos. Nos Estados Unidos (EUA), a estimativa de prevalência de reumatismo obtida segundo estes critérios foi de cerca de 15%, aumentou progressivamente com a idade e foi mais elevada em mulheres idosas, obesas e com renda e escolaridade mais baixas14. No Canadá, a prevalência de reumatismo diagnosticado por médico foi um pouco menor (10,7%), mas atingiu mais de 40% em indivíduos com 65 anos ou mais15.

No Brasil, estudo realizado em uma amostra representativa da população idosa brasileira (exceto região Norte) mostrou que o reumatismo é a segunda condição auto-referida mais freqüente, após a hipertensão. A prevalência de reumatismo auto-referido foi de 37,5% nesta população, sendo maior entre as mulheres (43,6%) do que entre os homens (30%)16.

Pelo nosso conhecimento, é desconhecida em nosso país a prevalência de reumatismo na comunidade, estimada através de diagnóstico médico e/ou relato de sintomas articulares crônicos, instrumentos mais específicos e sensíveis que o diagnóstico auto-referido. O envelhecimento progressivo da população brasileira e o aumento da prevalência de reumatismo com a idade justificam estudos semelhantes no Brasil.

O presente trabalho tem como objetivo determinar a prevalência e fatores associados a reumatismo e sintomas crônicos nas mãos e joelhos em idosos residentes na cidade de Bambuí, Minas Gerais.

 

MÉTODOS

Este estudo constitui parte da linha de base do Projeto Bambuí: estudo prospectivo com base populacional sobre a saúde do idoso, que está sendo desenvolvido na cidade de Bambuí, situada no sudoeste de Minas Gerais. Em 1996, a população do município de Bambuí era de 20.573 habitantes, sendo que cerca de 70% eram residentes na sede do município. Naquele ano, a taxa de mortalidade infantil no município era de 48,4/1000 nascidos vivos e a esperança de vida ao nascer era de 70,2 anos. Entre habitantes com 60 anos ou mais, as doenças cérebro-vasculares constituíam a principal causa de óbito, seguida de doença de Chagas e doença isquêmica do coração17.

Os participantes do estudo foram identificados através de um censo realizado pela equipe do Projeto Bambuí entre novembro e dezembro de 1996. Todos os moradores com 60 ou mais anos de idade (1742 pessoas) foram selecionados para o estudo e convidados para participar da linha de base da coorte. Destes, 1606 (92%) foram entrevistados e 1495 foram submetidos aos demais procedimentos do estudo (medidas físicas e exames laboratoriais).

As entrevistas foram realizadas através de questionário estruturado e pré-codificado. Recorreu-se a respondente auxiliar em 90 entrevistas para idosos que apresentavam comprometimento das funções cognitivas ou outro problema de saúde que o impossibilitava de responder ao questionário. As características sociodemográficas destes idosos eram semelhantes às daqueles que responderam pessoalmente ao questionário17.

Duas variáveis dependentes foram utilizadas neste estudo: a) Relato de reumatismo diagnosticado por médico, definida como resposta positiva à pergunta: "Você tem artrite ou reumatismo?" e resposta "pelo médico" à pergunta: "Como ficou sabendo que tinha artrite ou reumatismo?" e b) Relato de sintomas crônicos nas mãos e joelhos (SCMJ), variável definida como resposta positiva a pelo menos uma das seguintes perguntas: 1) "Alguma vez o(a) senhor(a) já teve alguma dor nos joelhos que durou a maior parte dos dias por um período de pelo menos um mês e meio? Isto inclui dolorimento e endurecimento/enrijecimento." 2) "Alguma vez o(a) senhor(a) já teve algum inchaço nos joelhos que durou a maior parte dos dias por um período de pelo menos um mês e meio?" 3) "O(a) senhor(a) já teve algum tipo de rigidez/enrijecimento/endurecimento nos joelhos que aparecia quando o(a) senhor(a) se levantava da cama de manhã e que apareceu na maior parte dos dias por pelo menos um mês e meio?" 4) "Alguma vez o(a) senhor(a) já teve alguma dor nas suas mãos que durou a maior parte dos dias por um período de pelo menos um mês e meio? Isto inclui dolorimento e endurecimento/enrijecimento". 5) "Alguma vez o(a) senhor(a) já teve algum inchaço nas mãos que doía quando a junta encostava em algum lugar e que durou a maior parte dos dias por um período de pelo menos um mês e meio?" 6) "O(a) senhor(a) já teve algum tipo de dormência, rigidez, enrijecimento, endurecimento nas mãos que aparecia quando o(a) senhor(a) se levantava da cama de manhã e que apareceu na maior parte dos dias por pelo menos um mês e meio?" As perguntas acima referidas foram traduzidas para o português a partir da versão em inglês do questionário utilizado na Third National Health and Nutrition Examination Survey18.

Os idosos que preencheram o critério de reumatismo diagnosticado por médico foram indagados sobre incapacidade associada ao reumatismo, através da seguinte pergunta: "Em que grau a artrite ou reumatismo compromete suas atividades?" A resposta positiva poderia ser: a) Um pouco b) Moderadamente/mais ou menos c) Muito.

Foram investigadas as seguintes variáveis independentes: a) características sociodemográficas (idade, sexo, renda familiar mensal em salários mínimos da época e número de anos de escolaridade); b) condições de saúde (doença de Chagas, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, diabetes, hipertensão arterial sistêmica, obesidade, anemia, hipercolesterolemia, hiperurecemia); c) hábito de fumar.

Doença de Chagas foi definida como resposta positiva à pergunta: "Você já teve doença de Chagas?" Infarto do miocárdio foi definido como resposta positiva à pergunta: "Algum médico já disse que você teve infarto do coração (ataque do coração)?" Acidente vascular cerebral foi definido quando o idoso respondeu positivamente a pelo menos uma das seguintes perguntas relacionadas a sintomas sugestivos de isquemia cerebral: a) "Você já teve alguma fraqueza ou paralisia em algum lado do seu rosto/face, um braço ou uma perna, que durou mais de cinco minutos?"; b) "Você já teve perda marcante da visão em um olho ou pronunciado escurecimento ou embaralhamento da visão em ambos os olhos, que durou mais de cinco minutos?"; c) "Você já teve uma grande tonteira ou desmaio que durou mais de cinco minutos?"; d) "Você já teve um período em que você perdeu a fala ou a capacidade de entender o que uma pessoa estava dizendo a você?" Diabetes foi definida quando a glicemia era >= 126 mg% ou quando o indivíduo referia uso de insulina ou hipoglicemiantes orais19. Hipertensão arterial sistêmica foi definida quando a pressão sistólica era >=140 mm Hg ou a pressão diastólica >=90 mmHg ou níveis pressóricos eram <140/90 mm Hg em indivíduos que faziam uso de medicação anti-hipertensiva20. Obesidade e sobrepeso foram avaliados através do índice de massa corporal (IMC), equivalente à razão entre peso em quilogramas e altura ao quadrado. Considerou-se um idoso com baixo peso quando o IMC <20, peso normal quando o IMC >=20 e <25, sobrepeso quando o IMC era >=25 e <30, obeso grau I quando IMC >=30 e <35, obeso grau II quando IMC >=35 <40 e obeso grau III quando IMC>4021,22. Anemia foi definida quando a hemoglobina era <12 g% em mulheres e < 13 g% em homens23. Definiu-se três faixas para o nível sérico de colesterol: <200 mg %, 200 a 239 e >=240, e considerou-se hipercolesterolemia faixas acima de 200 mg%24. Hiperuricemia foi definida quando os níveis de ácido úrico sérico eram >= 6,0 mg%23. Definiu-se como fumante o idoso que relatou ter fumado pelo menos 100 cigarros durante toda sua vida e que continuava fumando por ocasião da entrevista.

As medidas físicas (pressão arterial, peso e altura) foram realizadas por técnicos especialmente treinados. Estes exames ocorreram no Posto de Saúde Emanuel Dias ou no domicílio, quando existia uma condição de saúde limitante. A pressão arterial foi medida 30 minutos ou mais após a última ingestão de cafeína ou após o último cigarro fumado. Foram realizadas três medidas, sendo a primeira após cinco minutos do primeiro descanso e subseqüentemente em intervalos de dois minutos. Quando se identificava aumento da pressão sistólica, todo o processo era repetido em dois dias separados. O peso e altura foram medidos utilizando-se equipamento padrão (CMS Weighing Equipment Ltd, UK).

Para realização de exames laboratoriais, após jejum de 12 horas, amostras de sangue foram coletadas no Posto Emanuel Dias. Glicose, colesterol e ácido úrico foram medidos por analisador automatizado (Eclipse Vitalab, Merck, Netherlands). O valor da hemoglobina foi gerado por contador eletrônico (Coulter Counter T890, USA). As amostras foram separadas e enviadas sob refrigeração para laboratório de referência do projeto em Belo Horizonte.

No que se refere a aspectos éticos, este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Fundação Oswaldo Cruz. A participação foi voluntária e um consentimento informado foi obtido. As entrevistas, medidas físicas e exames laboratoriais foram realizados de janeiro a agosto de 199717.

Em relação à análise estatística, inicialmente realizou-se análise bivariada dos dados, utilizando-se o odds ratio, com intervalo de confiança de 95% (método de Wolf) para estimar a magnitude de associação entre as variáveis25. Posteriormente, foi realizada análise multivariada através da regressão logística múltipla, incluindo-se no modelo inicial todas as variáveis que apresentaram associação na análise bivariada a um nível de significância menor que 0,20. As variáveis que apresentaram associação com a variável dependente a um nível de significância inferior a 0,05 foram mantidas no modelo logístico final26. A análise estatística dos dados foi feita utilizando-se o programa STATA 7.027.

 

RESULTADOS

Entre os 1606 participantes do estudo, a prevalência de reumatismo diagnosticado por médico foi de 25,3% e prevalência de sintomas crônicos nas mãos e joelhos foi de 44,2%. Ambas as prevalências foram maiores no sexo feminino e a razão mulheres/homens entre os idosos com artrite foi de 3,1. Não houve diferença nas prevalências nas faixas etárias analisadas (Tabela 1).

 

 

Quando são agregadas as duas variáveis dependentes (reumatismo diagnosticado pelo médico ou relato de sintomas articulares crônicos nas mãos e joelhos), a prevalência foi de 51,9% (N=833). Destes 833 idosos, 283 (40%) relatam simultaneamente sintomas articulares crônicos nas mãos e joelhos e reumatismo diagnosticado pelo médico.

Entre os 406 idosos com reumatismo diagnosticado por médico, a limitação de atividades relacionada com a doença foi relatada por 296 idosos (73,9%), sendo que 54 (13,3%), consideravam-se muito limitados pela doença.

Na Tabela 2, estão apresentados os resultados da análise bivariada para reumatismo diagnosticado por médico, segundo as variáveis com associação significativa. Apresentaram associação significante e negativa: sexo (masculino) e hábito de fumar (fumante e ex-fumante). Apresentaram associação significante e positiva: índice de massa corporal acima de 25 kg/m2, hipercolesterolemia (200 a 239 mg%), relato de infarto do miocárdio, relato de doença de Chagas e relato de sintomas de acidente vascular cerebral. As seguintes variáveis não apresentaram associação significativa: faixa etária, escolaridade, renda familiar, hipertensão arterial sistêmica, diabetes, anemia e nível sérico de ácido úrico.

 

 

Na Tabela 3, estão apresentados os resultados da análise bivariada para sintomas crônicos nas mãos e joelhos, segundo as variáveis com associação significativa. Apresentaram associação significante e negativa: sexo (masculino), escolaridade (4-7 e >=8), renda familiar (4-5,9 / 6-9,9 / >=10 salários). Apresentaram associação significante e positiva: índice de massa corporal acima de 25 kg/m2, relato de infarto do miocárdio, relato de sintomas de acidente vascular cerebral, relato de doença de Chagas e diabetes. As seguintes variáveis não apresentaram associação significativa: faixa etária, hipertensão arterial sistêmica, nível de colesterol, anemia e nível sérico de ácido úrico.

 

 

Na Tabela 4, estão apresentados os resultados finais da análise multivariada para reumatismo diagnosticado por médico e para sintomas crônicos nas mãos e joelhos. No modelo logístico final, permaneceram positivamente associados a reumatismo: índice de massa corporal (25-29 / 30-34) e relato de sintomas de acidente vascular cerebral. Apenas a variável sexo (masculino) permaneceu significativa e negativamente associada a reumatismo. Permaneceu significativa e negativamente associada a sintomas crônicos: escolaridade (>=8). Permaneceram positivamente associados: índice de massa corporal acima de 25 kg/m2), relato de infarto do miocárdio, relato de sintomas de acidente vascular cerebral, relato de doença de Chagas.

 

 

DISCUSSÃO

Em torno de um quarto dos idosos relatou diagnóstico médico de reumatismo, mas diferentemente de outros inquéritos de base populacional, a prevalência de reumatismo diagnosticado pelo médico na população idosa de Bambuí manteve-se estável em todas as faixas etárias. No Canadá, por exemplo, a prevalência de reumatismo com base na mesma definição de caso do presente estudo foi de 25,4% na faixa etária de 55 a 64 anos, 35,5% na faixa de 65 a 74 anos e 44,2 na faixa acima de 75 anos15. Apesar de mais elevada, a prevalência de reumatismo estimada pelos sintomas em mãos e joelhos também não variou com a idade no presente trabalho. Este achado também contrasta com a literatura internacional utilizando critério semelhante14 e merece mais investigações, uma vez que a osteoartrose, principal doença relatada como reumatismo, não está associada a uma menor sobrevida entre idosos2. Estes dados, aliados à menor prevalência de relato de diagnóstico médico de reumatismo vis a vis o relato de sintomas articulares crônicos, sugerem a necessidade de melhorar o diagnóstico do reumatismo entre idosos, passo importante para prevenir incapacidade entre idosos.

No presente estudo, a alta ocorrência do relato de limitação de atividades associada a reumatismo (74% entre os casos) enfatiza a importância do impacto do reumatismo na qualidade de vida dos idosos. Estudo canadense evidenciou que, entre os indivíduos com reumatismo em todas as faixas etárias, 25% não saíam da sua residência e 45% apresentavam algum nível de dependência física28. Estudos adicionais se fazem necessários no país, a fim de se analisar limitações específicas do reumatismo em atividades de vida diária, tais como aquelas relacionadas à mobilidade física e auto-cuidado.

A associação independente de reumatismo e sintomas crônicos nas mãos e joelhos com sexo feminino também foi encontrada em diversos outros estudos14,15. Considerando-se que as mulheres constituem a maioria da população de idosos e a que mais cresce no país, os programas de prevenção e controle de reumatismo devem considerar este achado.

A relação entre obesidade e reumatismo evidenciada no presente estudo, tanto com artrite diagnosticada por médico como com sintomas crônicos nas mãos e joelhos, é coerente com achados relatados em outros inquéritos populacionais13,14,29. Esta associação, reforçada com um evidente gradiente dose-resposta, pode revelar dois mecanismos: um por meio etiológico, e outro por uma causalidade reversa, uma vez que os indivíduos com acometimento em joelhos tendem a ser mais inativos, e, portanto, têm maior índice de massa corporal. Considerando-se que obesidade foi o único fator potencialmente modificável associado ao reumatismo e sintomas articulares crônicos no presente estudo, deve ser enfatizado mais este benefício de programas de prevenção e controle de obesidade.

O presente estudo evidenciou associação negativa e independente de sintomas articulares crônicos com nível de escolaridade mais elevada, entretanto esta associação não foi demonstrada em idosos com reumatismo diagnosticado por médico. Inquérito realizado em amostra da população dos EUA, utilizando definição de reumatismo auto-referido e/ou sintomas articulares crônicos, também evidenciou esta associação, com nítido gradiente dose-resposta a partir de oito anos de escolaridade14. Ocupações pregressas destes idosos, geralmente relacionadas a uma menor escolaridade, podem contribuir para explicar esta associação, uma vez que a osteoartrose das mãos é mais comum em indivíduos com ocupações manuais30, e osteoartrose dos joelhos é mais comum em indivíduos com ocupações que demandam flexão dos joelhos29.

O presente estudo encontrou uma associação entre sintomas articulares crônicos e relato de infarto do miocárdio, doença de Chagas e acidente vascular cerebral. Um estudo conduzido nos EUA, em mulheres idosas, também relatou uma associação positiva entre reumatismo e diversas doenças crônicas, como por exemplo, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral31. Estes achados podem estar relacionados à maior utilização de serviços de saúde motivada por estas doenças crônicas. A associação entre acidente vascular cerebral e reumatismo, identificada no presente estudo, pode também estar relacionada à subutilização ou baixa oferta de serviços de reabilitação entre idosos, o que pode acarretar deformidades e dor articular. Estas hipóteses necessitam ser investigadas em estudos futuros.

As perguntas utilizadas para definição de caso de reumatismo neste estudo foram semelhantes a inquéritos conduzidos em outros países, como por exemplo no Canadá15 e nos EUA18. Atualmente, os inquéritos realizados nos EUA têm utilizado, além do critério de diagnóstico médico de reumatismo, perguntas relacionadas a sintomas crônicos em todas as articulações periféricas14.

Critérios diagnósticos para osteoartrose recomendados pelo Colégio Americano de Reumatologia preconizam algoritmos específicos para cada articulação, baseados em sintomatologia, exame objetivo e/ou exame radiológico32. No presente estudo, optou-se por estudar os sintomas crônicos nas articulações das mãos e joelhos, uma vez que estas são as mais freqüentemente acometidas em estudos populacionais com base em sintomas articulares crônicos14,33, assim como representam topografias mais freqüentes de osteoartrose em idosos2. Como os dados foram obtidos por questionário, não foi possível utilizar os algoritmos para diagnóstico específico de osteoartrose nestas articulações. Estudos de base populacional, que incluam exame físico e/ou radiológico, são necessários no nosso país para validação do diagnóstico baseado em sintomas de osteoartrose nestas articulações.

 

CONCLUSÃO

Este estudo apresenta resultados coerentes com a literatura internacional no que se refere à maior prevalência de reumatismo e sintomas articulares crônicos em mulheres obesas e de escolaridade mais baixa. A identificação destas características da população de idosos com maior prevalência de reumatismo pode fornecer subsídios para organização da assistência à saúde com melhoria do diagnóstico e a implementação de programas educacionais que enfatizam atitudes relacionadas ao auto-cuidado para prevenção de incapacidade34.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores desejam agradecer aos seguintes pesquisadores que contribuíram no Projeto Bambuí: Elisabeth Uchoa, Henrique L. Guerra, Josélia A.O. Firmo e Pedro G. Vidigal. Agradecemos também a todos os idosos que participaram do estudo.

Conflito de interesse: não há.

 

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Artigo recebido: 06/11/03
Aceito para publicação: 15/04/04
Trabalho realizado no Núcleo de Estudos em Saúde Pública e Envelhecimento (NESPE) do Centro de Pesquisa René Rachou (Fiocruz) e da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais

 

 

* Correspondência: Faculdade de Medicina da UFMG — Departamento de Clínica Médica, Sl 4070 — Av. Alfredo Balena, 190 CEP: 31330100 — Belo Horizonte — MG E-mail: gustavo@medicina.ufmg.br

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