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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230On-line version ISSN 1806-9282

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.51 no.4 São Paulo July./Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302005000400016 

ARTIGO ORIGINAL

 

A toxicidade do Hypericum perforatum administrado a ratas prenhes

 

Evaluation of Hypericum perforatum toxicity when administered to pregnant rats

 

 

Luciana Valente Borges; Juliana Corrêia do Carmo; Vera Maria Peters; Lucimar Las Casas; Martha de Oliveira Guerra*

 

 


RESUMO

OBJETIVO: No presente trabalho foi avaliada a toxicidade do H. perforatum administrado a ratas no período de organogênese (9º ao 15º dia de gestação).
MÉTODOS: Trinta ratas Wistar inseminadas foram distribuídas aleatoriamente nos grupos controle e tratado, que receberam, respectivamente, 0,5 mL de solução fisiológica e 36 mg/kg de extrato seco de Jarsin diluídos em 0,5 mL de solução fisiológica por gavagem. A toxicidade materna foi avaliada por: consumo de água e ração, peso corporal, piloereção, deambulação, diarréia e ocorrência de mortes. As ratas foram sacrificadas no 21º dia de gestação, quando foram removidos e pesados: rins, fígado e ovários. Foram calculados os índices de implantação e de reabsorção e foi verificado o número médio de fetos por rata.
RESULTADOS: Não foram observados sinais clínicos de toxicidade materna e nenhuma das variáveis analisadas apresentou diferenças estatisticamente significativas entre os grupos experimentais.
CONCLUSÃO: Na dose administrada e no modelo experimental utilizado, o Hypericum perforatum não apresenta manifestações tóxicas para ratas prenhas no período de organogênese.

Unitermos: Hypericum perforatum. Erva de São João. Organogênese. Toxicidade. Reprodução. Ratas.


SUMMARY

BACKGROUND: Saint John's wort (Hypericum perforatum) is a medicinal plant used in the treatment of depression and other psychiatric disorders.
OBJECTIVE: In the present paper, the toxicity of H. perforatum administered to female rats during organogenesis (9th to 15th day of pregnancy) was evaluated.
METHODS: Thirty inseminated Wistar rats were randomly distributed into Control and Treated groups, which received by gavage, respectively, 0.5 ml of saline and 36 mg/Kg body weight of Jarsin dried extract diluted into 0.5 ml of saline. Maternal toxicity was evaluated by means of: water and food intake, body weight, piloerection, walking activity, diarrhea and death. Animals were killed on the 21st day of pregnancy, when kidneys, liver and ovaries were weighed. Implantation and reabsorption indices were calculated, as well as the average number of fetuses per mother.
RESULTS: Clinical signs of maternal toxicity were not observed and none of the variables analyzed showed statistically significant differences.
CONCLUSION: At the dose administered in the experimental model used, H. perforatum does not seem to be toxic to the mother.

Key words: Hypericum perforatum. St. John's wort. Organogenesis. Toxicity. Reproduction. Rat.


 

 

INTRODUÇÃO

O Hypericum perforatum (erva de São João) é utilizado no tratamento da depressão leve a moderada e em outros distúrbios psiquiátricos, em humanos, como uma alternativa comprovadamente eficaz aos antidepressivos sintéticos, e também com excelente tolerabilidade1. A maioria dos fármacos usados no tratamento da depressão atravessam a placenta, são detectados no líquido amniótico e excretados pelo leite2,3,4, sendo seu uso desaconselhado para gestantes. Como a depressão em gestantes tem aumentado5, a busca de antidepressivos eficientes e seguros para o feto é uma necessidade real.

Sobre a toxicidade reprodutiva do Hypericum perforatum sabe-se que: afeta severamente a penetração do espermatozóide no ovócito de hamster; desnatura significativamente o DNA do espermatozóide e reduz sua viabilidade6; ativa o sistema enzimático citocromo P-450, o qual está envolvido com o metabolismo de muitos medicamentos, incluindo os contraceptivos de uso oral7,8. Administrado a ratas Wistar durante o período de pré-implantação, não altera o processo de segmentação do zigoto até blastocisto; não interfere no trânsito tubário nem na migração do blastocisto para o útero9. Embriões de ratos (com 9,5 a 11,5 dias) cultivados in vitro com hipericina apresentaram redução do número de somitos e do diâmetro do saco vitelino10.

O tratamento de ratos com dietas contendo concentrações variadas de H. perforatum (0, 180, 900, 1800, 4500 ppm), do início da gestação até o desmame, não alterou o ganho de peso materno nem a duração da gestação; não foram relatadas alterações comportamentais e o peso da ninhada foi similar até o 56º dia pós-natal; depois dessa idade, alguns animais do grupo tratado pesavam significativamente menos11.

Em camundongos, a exposição pré-natal a doses terapêuticas (180mg/Kg/dia) não teve impacto sobre a cognição de crias12 e a administração antes e durante a gestação (180mg/Kg/dia) não afetou o desenvolvimento nem a maturação física da prole13.

Nota-se que os estudos relacionados à toxicologia do desenvolvimento concentram-se na fase pré-implantação9, no cultivo in vitro de embriões de ratos10 e na maturação física e pós-natal de camundongos12. O cultivo in vitro de embriões elimina a possibilidade de modificação do princípio ativo durante o transporte através da placenta e pode mascarar um efeito tóxico que seria observável in vivo. Assim, o presente trabalho teve como objetivo avaliar a toxicidade do H. perforatum administrado a ratas no período de organogênese.

 

MÉTODOS

H. perforatum

O hipérico foi administrado sob a forma de extrato seco de Jarsin, contendo 0,4% de hipericina (Lote SJ001108 - Galena Química e Farmacêutica Ltda), gentilmente fornecido pela farmácia de manipulação Las Casas, Juiz de Fora, MG. A dose do hipérico foi calculada tendo como base a usada na terapêutica humana - 1800 mg/dia14.

Animais

Foram utilizadas 30 ratas Wistar, com quatro a cinco meses de idade, pesando em média 170 g, no primeiro dia após a inseminação, obtidas da colônia do Biotério do Centro de Biologia da Reprodução – UFJF. As condições do alojamento dos animais já foram descritas anteriormente15.

Procedimento experimental

As ratas foram distribuídas aleatoriamente nos grupos controle (n=15) e tratado (n=15). Os animais do grupo controle receberam 0,5 mL de solução fisiológica e os do grupo tratado, 36 mg/Kg de peso corporal (correspondente à dose terapêutica humana) de extrato seco de Jarsin, fracionado em duas doses de 18mg/Kg, diluídos em 0,5 mL de solução fisiológica. O tratamento foi realizado via intragástrica, duas vezes ao dia, do 9º ao 15º dia de gestação (período de organogênese na rata16).

Para a observação de efeitos tóxicos maternos utilizou-se o critério clínico descrito por Manson & Kang16. As ratas foram observadas visando a constatação de modificação da deambulação, piloereção, ocorrência de diarréia e de mortes. As fêmeas foram pesadas a cada três dias desde o 1º de prenhez, no dia do início do tratamento (9º dia) e no dia do sacrifício - 21º dia de gestação, quando o peso foi obtido antes e após a remoção do sistema reprodutor e seu conteúdo.

Durante todo o experimento, o consumo diário de ração foi estimado pela diferença de peso entre a ração colocada em um dia e a que sobrou no dia seguinte. Para estimar o consumo diário de água foram colocados 100 mL e no dia seguinte mediu-se a sobra de água.

O sacrifício foi realizado no 21º dia de gestação por excesso de inalação de éter. Foram dissecados e pesados fígado, rins e ovários maternos. Os índices de implantação (número de implantes/número de corpos lúteos x 100) e reabsorção (número de reabsorções/número de implantes x 100) foram calculados, assim como a média de fetos por rata foi verificada.

Este protocolo experimental foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Juiz de Fora (Protocolo número 009 de 2002).

Análise estatística

A análise estatística foi feita pelo teste t de Student para amostras independentes. Nível de significância dos testes a = 0,05.

 

RESULTADOS

Em nenhum dos grupos experimentais foram observadas modificações da deambulação, piloereção, diarréia e nem mortes. O consumo de ração e de água não mostrou diferenças significativas entre os grupos experimentais.

Conforme se observa no Gráfico 1, o peso corporal materno não mostrou diferença significativa quando se comparam os dois grupos experimentais.

 

 

Na Tabela 1 são apresentados os pesos de órgãos maternos. Os resultados obtidos mostram que não houve diferenças estatisticamente significativas no peso de órgãos ao se compararem os grupos experimentais.

 

 

Os índices de implantação e reabsorção (Tabela 2) não diferiram entre os grupos, assim como a média de fetos por rata (C= 10,53±2,13 e T= 10,13±1,59) ( p>0.05 para Qui-quadrado e teste de t de Student, respectivamente).

 

 

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

A avaliação de efeitos tóxicos de um fármaco inclui pesquisas para analisar sua toxicidade sobre o organismo materno, pois a toxicidade materna, definida como uma alteração transitória ou permanente na fisiologia materna com potencial para causar efeitos adversos nas crias durante o desenvolvimento embrionário ou pós-natal está intimamente associada com malformações características de cada espécie17. Neste sentido, foram utilizadas algumas abordagens visando detectar a toxicidade materna, entre elas, o controle do peso corporal, do consumo diário de ração e de água, modificações da deambulação, piloereção, ocorrência de diarréia e morte do animal, além do peso de fígado e rins16,18. Entre os animais controle e os tratados com o extrato de Jarsin, não foram encontradas quaisquer de tais alterações, indicando que o medicamento não parece ser tóxico para as mães, considerando-se os sinais clínicos observados.

O tamanho (ou peso) dos corpos lúteos correlaciona-se com a concentração de progesterona circulante19, que é o principal hormônio para manutenção da gestação20. Como o peso dos ovários não apresentou diferenças significativas entre os grupos experimentais, pode-se sugerir que não deva ter ocorrido alteração hormonal considerável em animais tratados com hipérico.

Sabe-se que o índice de implantação correlaciona-se com o número de corpos lúteos, e é um indicador do sucesso da implantação do blastocisto no endométrio21. Contrastando com o índice de implantação, a presença de reabsorções indica uma falha no desenvolvimento embrionário. Como os dois índices não apresentaram diferenças significativas entre os grupos experimentais, pode-se assumir que a capacidade reprodutiva materna foi semelhante.

Pode-se concluir, portanto, que na dose administrada e no modelo experimental utilizado o Hypericum perforatum não parece ter efeito tóxico sobre a rata prenha no período de organogênese.

 

AGRADECIMENTOS

Esta pesquisa foi parcialmente financiada pela FAPEMIG (EDT 1879/02 – Rede Mineira de Ensaios Farmacológicos e Toxicológicos de Produtos Terapêuticos), FINEP (CT-Infra 1). As autoras agradecem aos técnicos Rosimar Rodrigues de Azevedo, Evelise Rocha de Almeida e Paulo Sérgio do Carmo, à Profª. Drª. Rita de Cássia da Silveira e Sá pela revisão do abstract e ao CNPq/PIBIC-UFJF pela bolsa concedida.

Conflito de interesse: não há.

 

REFERÊNCIAS

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Artigo recebido: 01/03/04
Aceito para publicação: 02/06/04

Trabalho realizado no Centro de Biologia da Reprodução, Universidade Federal de Juiz de Fora e na farmácia de manipulação Las Casas, Juiz de Fora, Minas Gerais, MG

 

 

* Correspondência: R. São Mateus, 187, Apto. 801, Juiz de Fora, MG, Cep: 36025-001, Tel: (32) 3229-3251 moguerra@cbr.ufjf.br

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