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Revista da Associação Médica Brasileira

versão impressa ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. v.52 n.3 São Paulo maio/jun. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302006000300015 

ARTIGO ORIGINAL

 

Prevalência de sintomas urinários no terceiro trimestre da gestação

 

Prevalence of urinary symptoms in the third trimester of pregnancy

 

 

Katia Pary Scarpa; Viviane Herrmann*; Paulo César Rodrigues Palma; Cássio Luiz Zanettini Ricetto; Sirlei Morais

Trabalho realizado na Universidade Estadual de Campinas – SP

 

 


RESUMO

OBJETIVO: O objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência de sintomas urinários irritativos no terceiro trimestre da gestação e a correlação destes com a paridade e a forma de término de partos anteriores.
MÉTODOS: Foram selecionadas 340 gestantes no terceiro trimestre da gestação, atendidas no Ambulatório de Pré-Natal do Hospital das Clínicas da Unicamp, entre junho e outubro de 2003. O desenho consistiu em um estudo analítico de corte transversal.
RESULTADOS: Os sintomas mais prevalentes foram: noctúria (80,6%); polaciúria (70,3%) e urgência miccional (44,4%). Embora não houvesse associação entre a prevalência de sintomas irritativos e a forma de término dos partos anteriores, observou-se correlação significativa entre multiparidade e os sintomas de enurese noturna, noctúria e freqüência urinária.
CONCLUSÃO: Concluiu-se que, no grupo estudado, a gestação per se foi um fator de risco para a ocorrência de sintomas urinários irritativos.

Unitermos: Sintomas urinários irritativos. Gestação. Paridade. Forma de término do parto.


SUMMARY

BACKGROUND: This study evaluated the prevalence of irritative bladder symptoms of women in the third trimester of pregnancy and the correlation to parity and route of delivery.
METHODS: Between June and October 2003, 340 women attending the prenatal clinic at the Department of Obstetrics and Gynecology, State University of Campinas (Unicamp) were selected for study.
RESULTS: On the total, 80.6% presented nocturia, 70.3% presented urinary frequency and 44.4% presented urgency. No statistic correlation was observed between irritative bladder symptoms and route of delivery however, when considering parity, nocturia and urinary frequency were significantly more frequent in multiparous women.
CONCLUSION: In the population under study pregnancy per se was associated to a high prevalence of irritative bladder symptoms.

Key words: Irritative bladder symptoms. Pregnancy. Parity. Route of delivery.


 

 

INTRODUÇÃO

Os sintomas urinários irritativos são considerados problemas comuns que afetam principalmente as mulheres, podendo causar constrangimento e restrição das atividades diárias, influindo de forma negativa na qualidade de vida da mulher. Na literatura, encontra-se poucos estudos epidemiológicos descritivos sobre a prevalência de sintomas urinários irritativos em determinadas populações1.

A ocorrência de sintomas urinários geralmente está associada a alterações anatômicas e a danos neurológicos decorrentes do trauma obstétrico, que podem levar à importante perda de sustentação do colo vesical e da uretra proximal1,2. Entretanto, estudos relatam o aparecimento destes sintomas no decorrer da primeira gestação3,4, sugerindo fortemente que os fatores envolvidos em seu desencadeamento não se encontram exclusivamente relacionados aos danos provocados pelo parto vaginal traumático. Durante a gestação, modificações anatômicas e funcionais no trato urinário inferior possivelmente alteram os mecanismos envolvidos com a continência urinária, desencadeando sintomas urinários5,6,7. Chaliha et al.3, analisando 549 gestantes nulíparas, observaram que 81,1% apresentaram polaciúria, 67% noctúria e 22,9% urgência miccional. A gestação per se parece envolver processos que predispõem a recorrência de sintomas urinários nas gestações subseqüentes e, posteriormente, ao longo da vida8.

Na literatura, a exata natureza dos fatores de risco relacionados ao surgimento de sintomas urinários durante a gestação não é totalmente compreendida. Pretendemos, neste estudo, avaliar a prevalência de sintomas urinários irritativos no terceiro trimestre da gestação e sua relação com a forma de término de partos anteriores e a paridade. Futuramente, o reconhecimento destes fatores poderá contribuir para a elaboração de programas preventivos que visem melhorar a qualidade da atenção oferecida durante o pré-natal pelos profissionais da saúde.

 

MÉTODOS

Participaram do estudo 340 gestantes com idade gestacional > 26 semanas, selecionadas do Ambulatório de Pré-Natal do Departamento de Tocoginecologia, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, entre junho e outubro de 2003, após assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa desta instituição. Um questionário pré-testado foi aplicado individualmente às gestantes pela fisioterapeuta responsável pelo estudo. Foram registradas informações relativas às características demográficas das pacientes, dados obstétricos (forma de término de partos anteriores e paridade), assim como a presença de sintomas urinários irritativos na gestação atual.

Os critérios de exclusão foram: diabetes mellitus; litíase renal; doença pulmonar obstrutiva crônica; infecção do trato urinário (ITU); história pregressa de cirurgia pélvica; e uso de medicações que interferem na função do trato urinário inferior (TUI).

Os sintomas urinários irritativos foram definidos segundo o subcomitê de padronização da Sociedade Internacional de Continência9: noctúria: acordar uma ou mais vezes à noite para urinar; polaciúria: urinar com muita freqüência durante o dia; urgência: desejo súbito e incontrolável de urinar, difícil de ser adiado; urge-incontinência: perda involuntária de urina acompanhada ou imediatamente precedida por urgência; enurese noturna: perda urinária que ocorre durante o sono.

Os resultados foram analisados por meio do cálculo de freqüências, teste de Qui-quadrado ou Exato de Fisher, quando necessário, e do cálculo de razão de prevalência (RP). O nível de significância foi assumido em 5%.

 

RESULTADOS

A idade das 340 gestantes estudadas variou de 17 a 46 anos, sendo a idade média 26,4 anos. Com relação à etnia, 47,1% se autoclassificaram brancas, 41,2% pardas e 10,9% negras. No momento da entrevista, 47% viviam em união consensual, 34,7% eram casadas e 15,6% eram solteiras. Quanto à escolaridade, a maioria não completou o ensino fundamental.

Das 340 gestantes, 94,4% apresentaram um ou mais sintomas urinários irritativos. Os sintomas mais freqüentemente relatados foram noctúria, polaciúria e urgência, conforme dados apresentados na Tabela 1.

 

 

Com relação à paridade, as gestantes foram divididas em quatro grupos: 38,2% nulíparas, 28,2% primíparas, 26,2% multíparas com até três partos e 7,4% multíparas com quatro partos ou mais. As multíparas com quatro partos ou mais apresentaram 100% e 92% de noctúria e polaciúria, respectivamente. O estudo da associação entre a presença de sintomas urinários irritativos e a paridade evidenciou diferença estatisticamente significativa entre noctúria (p = 0,0354) e polaciúria (p = 0,0327) quando comparadas as multíparas com quatro partos ou mais aos outros grupos. Também foi elevada a prevalência destes sintomas entre as nulíparas, 77,7% e 65,4%, respectivamente, mostrando o risco do desencadeamento destes sintomas na primeira gestação (Tabela 2). A análise da razão de prevalência (IC 95%) mostrou que as multíparas (= 4) apresentaram 1,29 e 1,41 vez mais chances de desencadear noctúria e polaciúria, respectivamente, e 5,2 vezes mais chances de desencadear enurese noturna quando comparadas às nulíparas.

 

 

Com relação à forma de término de partos anteriores, as gestantes foram selecionadas por parto exclusivamente vaginal ou exclusivamente cesáreo. A associação entre sintomas urinários irritativos e a forma de término do parto não demonstrou diferença estatisticamente significativa (Tabela 3).

 

 

DISCUSSÃO

O presente estudo evidenciou uma alta prevalência de sintomas urinários irritativos no terceiro trimestre da gestação, podendo este fato estar associado à pressão exercida pela cabeça fetal sobre a bexiga, com conseqüente redução da capacidade vesical5. Os sintomas mais freqüentemente observados foram a noctúria e polaciúria em 80,6% e 70,3% dos casos, respectivamente, sendo estes resultados semelhantes aos observados por outros autores6,10. Entretanto, sintomas de urgência e particularmente de urge-incontinência tiveram uma prevalência acentuadamente maior do que a observada por outros autores3,6. É provável que diferenças na argüição das pacientes ou até mesmo na definição deste sintoma reflitam esta disparidade.

Acredita-se que a variação dos níveis hormonais, a qual ocorre paralelamente ao desenvolvimento da gestação, possa influenciar o mecanismo de continência3,5,11. Wijma et al.12 observaram que altos níveis de progesterona levam à hipotonicidade das estruturas do assoalho pélvico, influenciando o desencadeamento de sintomas urinários no início da gestação. O'Boyle et al.13 observaram aumento significativo da mobilidade uretral em gestantes nulíparas, sugerindo que alterações fisiológicas no assoalho pélvico podem ser objetivamente demonstradas antes do parto.

Altos níveis de hormônio relaxina estão presentes na circulação sangüínea durante a gestação, atingindo maiores níveis no terceiro trimestre15. O aumento na mobilidade articular, ocorrido em gestantes nulíparas, sugere que também o relaxamento nas estruturas do tecido conjuntivo da pelve, neste período, predispõe o desencadeamento de sintomas urinários16. Para Östgaard et al.17, as gestantes que apresentaram maior grau de frouxidão articular foram as que desenvolveram maior diâmetro abdominal, provavelmente pelo aumento da elasticidade da parede abdominal resultante da diminuição da produção de colágeno causada pela ação do hormônio relaxina. As alterações posturais que ocorrem ao longo da gestação possivelmente estão relacionadas aos altos níveis de relaxina, que influenciam a estrutura músculo-esquelética18,19. Para Sapsford & Hodges20, quando a parede abdominal encontra-se relaxada, há uma diminuição na atividade eletromiográfica da musculatura do assoalho pélvico, com conseqüente diminuição da função de sustentação do assoalho pélvico, comprometendo o mecanismo da continência urinária.

A gestação per se parece envolver processos que predispõem a recorrência de incontinência em gestações subseqüentes e ao longo da vida8, mas alterações patológicas resultantes de danos teciduais no parto podem ser sobrepostas7. Neste estudo, a paridade (multíparas = 4) foi significativamente associada ao aumento da prevalência de sintomas na gestação. O estiramento acentuado dos elementos de sustentação do assoalho pélvico durante o período expulsivo aumenta a probabilidade de danos a estas estruturas14,21. O primeiro parto vaginal é responsável por relaxamento tecidual significativo das estruturas do assoalho pélvico e dano nervoso22, sendo que os partos subseqüentes elevam apenas discretamente a prevalência.

Assim como observado por outros autores2,11, o presente estudo não mostrou associação entre a presença de sintomas urinários irritativos na gestação e a forma de término de partos anteriores. Pessina et al.23 propõem que sintomas irritativos possam resultar de isquemia do músculo detrusor associada à parcial denervação, desencadeando um comportamento contrátil anormal. Freqüentemente, estes sintomas persistem ao longo da vida, interferindo intensamente nas atividades diárias da mulher e comprometendo gravemente sua qualidade de vida.

Segundo Morkved et al.24, exercícios da musculatura do assoalho pélvico em gestantes nulíparas preveniram o desencadeamento de sintomas urinários na gestação e após o parto. O conhecimento de uma alta prevalência de sintomas urinários na gestação pode trazer um argumento favorável para a implementação de uma intervenção preventiva na gestação, como um programa intensivo de exercícios da musculatura do assoalho pélvico que mantenha a função satisfatória do mecanismo da continência e também a função sexual da mulher.

Conflito de interesse: não há

 

REFERÊNCIAS

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Artigo recebido: 18/02/2005
Aceito para publicação: 16/11/2005

 

 

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