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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230On-line version ISSN 1806-9282

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.53 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2007

https://doi.org/10.1590/S0104-42302007000100004 

EDITORIAL

 

A síndrome de Burnout: realidade ou ficção?

 

 

Glasberg et al. apresentam, nesta revista, o artigo "Prevalence of the burnout syndrome among Brazilian medical oncologists". Trata-se da publicação do resultado de uma pesquisa realizada com oncologistas, com o intuito de detectar a prevalência do burnout por meio do Maslach Burnout Inventory e as variáveis que se relacionam com a sua presença, investigadas por meio de um questionário. Utilizando o rigoroso critério de interpretação dos resultados (Ramirez), concluíram que 7,8% desses médicos apresentam a síndrome e que aqueles que possuem um hobby, que realizam atividades físicas, que têm mais idade e que seguem alguma religião possuem menos risco de desenvolver a síndrome. Utilizando um critério mais flexível (Grunfeld), a prevalência subiu para 68,6%, sendo que indivíduos casados, com pouco tempo de férias, sem hobby e sem atividade física correm maior risco de desenvolver a síndrome. Trata-se de um artigo bem escrito e bem elaborado, importante por chamar a atenção para as condições de trabalho dos oncologistas, submetidos a grandes pressões no seu dia-a-dia. É questionável, porém, a utilização de critérios de análise que levam a uma discrepância tão grande dos resultados (mais de 60%). Talvez fosse melhor utilizar apenas o critério de Ramirez, que considera que a síndrome só deve ser reconhecida se houver comprometimento nas três dimensões avaliadas para o diagnóstico: exaustão emocional, despersonalização e comprometimento da realização pessoal.

Criado na década de 70 por Maslach, o conceito de Burnout, apesar de algumas críticas iniciais, foi rapidamente aceito e tem sido tema de inúmeros artigos científicos, livros e de apresentações em congressos de psicologia, psiquiatria e educação médica. Tornou-se, assim, um conceito praticamente inquestionável. Porém, ao examinarmos atentamente suas três dimensões básicas, observa-se que todos os sintomas descritos, sem exceção, estão presentes na depressão. Por exemplo, na dimensão exaustão emocional o indivíduo sente-se esgotado e com a sensação de que não será possível recuperar sua energia, torna-se irritável e amargo, pouco generoso, sente-se menos capacitado a cuidar dos outros e torna-se pessimista; na despersonalização há um distanciamento emocional e uma indiferença diante do sofrimento alheio, com uma perda da capacidade de empatia, o que faz com que o paciente seja tratado como um objeto (há, aqui, uma distorção do clássico conceito de despersonalização utilizado há décadas pela psiquiatria); na dimensão comprometimento da realização pessoal o indivíduo sente-se impotente, frustrado, infeliz e com baixa auto-estima. A psicopatologia nos ensina que o diagnóstico psiquiátrico não é feito pela descrição de uma lista de sintomas, algo que está tão em voga nos dias de hoje, nas inúmeras escalas diagnósticas, mas sim pela observação fenomenológica criteriosa que propicia a detecção de elementos que, juntos, nos permitem reconhecer uma determinada patologia. Para isso, é necessária grande experiência clínica, algo que também não tem sido valorizado como deveria. O fato de o trabalho ser o fator desencadeante não justifica a criação de um novo conceito. Caso contrário, a cada fator desencadeante descoberto, um novo diagnóstico seria criado, o que tornaria a classificação psiquiátrica um verdadeiro caos. A meu ver, Maslach era uma ótima observadora, pois percebeu com clareza o que se passava com muitos profissionais que se dedicavam ao cuidado de outras pessoas. O estudo desses problemas tem sido fundamental para a melhora da qualidade desses profissionais, o que, sem dúvida, trará benefícios a seus pacientes. Porém, cometeu um equívoco ao dar um novo nome a algo que Hipócrates já conhecia há mais de 2300 anos. É preciso desfazer com urgência essa confusão, sob o risco de criarmos uma nova Babel.

 

Luiz Roberto Millan

 

Referência:

Glasberg J, Horiuti L, Novais MAB, Canavezzi AZ, Miranda VC, Chicoli FA, et al. Prevalence of the burnout syndrome among Brazilian medical oncologists. Rev Assoc Med Bras 2007; 53(1): 85-9.

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