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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.55 no.4 São Paulo  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302009000400023 

ARTIGO ORIGINAL

 

Os diferentes olhares na avaliação de alunos em estágio clínico supervisionado

 

The different perspectives in the assessment of learners during supervised clinical clerkship

 

 

Rosângela Curvo Leite DominguesI, *; Eliana AmaralII; Angélica Maria Bicudo ZeferinoII

IDoutora em Tocoginecologia – Área de ciências Biomédicas. Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, Campinas, SP
IIProfessor associado da Universidade Estadual de Campinas. UNICAMP, Campinas, SP

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Comparar notas do Conceito Global Itemizado (CGI) e da Avaliação Estruturada (AE), atribuídas por três especialidades - Ginecologia e Obstetrícia (GO), Clínica Médica (CM) e Pediatria (Ped) - a alunos em final de estágio clínico nas unidades básicas de saúde.
MÉTODOS: Cento e seis alunos do 4º ano médico foram avaliados por um docente de cada especialidade, utilizando CGI contendo seis domínios de habilidades técnicas (CGIt) e sete domínios humanísticos (CGIh), em escala 0-10, e pela AE resultante de observação de atendimento. Para análise estatística, utilizaram-se coeficientes de Cronbach, testes de Friedman e pareados de Wilcoxon, coeficientes de correlação de Spearman e Pearson e distâncias Euclidianas (p< 0,05).
RESULTADOS: Houve alta consistência interna do CGI nas especialidades (>0,92). As distribuições das notas concentraram-se no extremo superior da escala. As notas de Ped foram significativamente inferiores às de GO e CM (diferenças de medianas entre 0,50 e 0,67), com correlações baixas entre elas (-0,02<R<0,48). Os domínios que tiveram maior impacto na confiabilidade do CGI foram: julgamento clínico (GO e Ped), solução de problemas (CM) e capacidade de auto-reflexão (Ped). As notas de GO e Ped mostraram a menor concordância; as de GIRt de Ped foram as mais discordantes das outras notas.
CONCLUSÃO: As especialidades têm visões distintas sobre como avaliar alunos, mesmo utilizando instrumentos semelhantes, o que pode ser reflexo de "cultura" de cada uma delas. Permanece o desafio de minimizar tais diferenças com atividades de desenvolvimento docente.

Unitermos: Avaliação educacional. Especialidades médicas. Estágio clínico.


SUMMARY

OBJECTIVE: To compare medical students' global itemized ratings (GIR) and real-case structured clinical assessment (RC-SCA), generated by faculty members from three different specialties (Gynecology-O&G, Internal Medicine-IM, Pediatrics-Ped).
METHOD: 106 Y4 learners were assessed by one faculty member from each specialty, who filled in GIR, consisting of 6 technicaldomains (mean score GIRt) and 7 humanistic domains (mean score GIRh), on a 0-10 scale, and resultant RC-SCA, from direct attendance observation. Statistical analyses used Cronbach coefficient, Friedman and Wilcoxon paired tests, Pearson and Spearman correlation coefficients, Euclidean distances. Significance level=5%.
RESULTS: High internal consistency was observed in the three GIR (> 0.92). Ratings were negatively skewed. Ped scores were significantly lower than O&G and IM (median differences between 0.50 and 0.67), with low correlations between them (-0.02<R<0.48). the domains that had greater impact on the reliability of GIR were: clinical judgment (O&G and Ped), problem-solving (IM), and self-reflective skills (Ped). O&G and Ped scores showed the smallest agreement; GIRt Ped scores showed the greatest disagreement with all the other scores.
CONCLUSION: The specialties have different views on how to evaluate students' skills, inspite of using similar instruments, which can be a reflection of their "culture". the challenge remains to minimize these differences through faculty development activities.

Key words: Educational measurement. Specialties medical. Clinical clerkship.


 

 

INTRODUÇÃO

Desenvolver competências técnicas e humanísticas para o exercício da profissão tem se tornado um aspecto central da educação médica, para a qual o estágio clínico supervisionado assume um papel relevante1. A necessidade de preparar profissionais críticos e reflexivos, capazes de atuar em diversos cenários da prática, em equipes multidisciplinares e aptos a responderem às demandas da sociedade pressupõe grandes transformações educacionais. Dentre elas, destaca-se a capacitação dos docentes/supervisores para garantir maior qualidade no estabelecimento de critérios de desempenho, nas observações da atuação dos alunos, na prática de feedback e no processo de avaliação das competências esperadas2, 3.

Segundo a Associação Européia de Educação Médica (AMEE), o termo supervisão é definido como o fornecimento de orientações e feedback relacionados ao desenvolvimento profissional e educacional do aluno, para ajudá-lo a prover um atendimento médico adequado4. A avaliação é um poderoso componente da supervisão eficaz, pois direciona a aprendizagem, serve como guia para os estudantes em relação às competências que devem ser aprimoradas e auxilia os supervisores a identificarem oportunidades de melhoria da qualidade do ensino5, 6.

Para que a avaliação do aluno em estágio clínico tenha um forte impacto educacional, é importante que haja entendimento dos objetivos a serem atingidos, consenso sobre conteúdo a ser avaliado, conhecimento do nível de competência dos alunos e feedback construtivo e eficaz, para que o estudante possa refletir sobre suas ações e traçar um plano de desenvolvimento profissional contínuo4.

No entanto, a definição de quais domínios da competência os alunos devem atingir nas várias etapas de sua formação pode não ser clara ou ainda não ser igualmente compreendida por supervisores de diferentes estágios clínicos. Essas diferenças tendem a se acentuar quando se contrasta a supervisão oferecida por especialistas, que podem ter distintas percepções de seu papel docente e da importância relativa de sua especialidade na formação do médico4,7,8.

O objetivo do presente estudo foi comparar as avaliações de docentes/supervisores de diferentes especialidades, realizadas com alunos em estágio clínico, durante um módulo de ensino integrado.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal por análise secundária de dados gerados a partir do processo avaliativo de alunos iniciando prática clínica em atenção primária à saúde. No módulo denominado Atenção Integral à Saúde, os alunos do 4º ano devem adquirir experiência clínica fora do hospital universitário, sob supervisão de docentes e tutores da própria unidade de saúde. A experiência leva ao desenvolvimento de habilidades propedêuticas e raciocínio clínico, além de contribuir para criação de vínculo com o paciente e com outros profissionais da equipe de saúde.

Os estudantes são divididos em seis grupos, alocados em Unidades Básicas do Sistema Único de Saúde (SUS), onde realizam atendimentos de Ginecologia e Obstetrícia (GO), Clínica Médica (CM) e Pediatria (Ped). O estágio acontece durante nove meses de um ano letivo, três tardes por semana (12 horas), em semanas alternadas. A cada dia da semana os alunos atendem pacientes de uma das especialidades clínicas. Realizam anamnese e exame físico, indicam condutas diagnósticas e terapêuticas para as situações prevalentes, registram o atendimento, discutem o caso clínico com docentes, tutores e membros da equipe de saúde e participam de reuniões de projeto terapêutico. Os procedimentos do estágio são os mesmos nas diferentes UBS. Além das atividades práticas, há seis horas semanais de seminários sobre os temas clínicos compatíveis com as experiências esperadas neste nível de atenção à saúde, integrando conceitos de saúde de adulto, criança e saúde da mulher.

Este estudo refere-se às avaliações realizadas ao final do segundo semestre de 2005, segundo ano de oferecimento desse módulo de ensino no novo currículo de Medicina. Cada estudante foi avaliado por três docentes/supervisores, de forma independente, um de cada especialidade, por meio do Conceito Global Itemizado (CGI) e da Avaliação Estruturada (AE). O CGI sumarizou a impressão que o avaliador formou do aluno ao longo do semestre em relação a 13 domínios da competência, sendo seis referentes à competência técnica (denominado a partir de agora como CGIt) - qualidade da história, exame clínico, conhecimento médico, julgamento clínico, solução de problemas, hábitos de trabalho) - e sete à competência humanística (denominado a partir de agora como CGIh) - comunicação e relacionamento com pacientes e familiares, respeito, capacidade de autorreflexão, percepção do contexto, interação com colegas, interação com docentes, interação com demais profissionais. As notas atribuídas a cada domínio variaram de 0 a 10, com descritores ancorando o menor e o maior valor.

A Avaliação Estruturada (AE) teve como base a observação docente de três consultas completas, uma em cada das especialidades (GO, Ped, CM). O desempenho de cada aluno foi registrado em uma lista de verificação detalhada, que continha questões relacionadas a aspectos técnicos e humanísticos da competência: abordagem inicial da consulta, anamnese, exame físico, preenchimento dos formulários e orientações ao paciente, em número e conteúdo semelhantes, mas adaptados às especificidades de cada especialidade.

Para melhor diferenciar a percepção dos docentes sobre os alunos, na análise dos dados as duas subescalas do CGI, CGIt e CGIh foram consideradas como estratégias de avaliação distintas. Dessa forma, compararam-se as notas provenientes de CGI (média ponderada de CGIt e CGIh), CGIt (média dos domínios 1 a 6), CGIh (média dos domínios 7 a 13) e AE (média das notas de todas as questões do formulário de desempenho), atribuídas por docentes de cada uma das três especialidades clínicas aos 106 alunos do 4º ano de Medicina. A análise estatística descritiva incluiu medianas, notas mínimas e máximas e distâncias interquartis. Para investigar as diferenças nas quatro distribuições foram aplicados os testes de Friedman e as comparações múltiplas com testes de Wilcoxon (W) para dados emparelhados, com correção de Bonferroni. As correlações entre as notas das três especialidades foram estudadas por meio de coeficientes de correlação de Spearman. O coeficiente alfa de Cronbach foi calculado para investigar a confiabilidade dos questionários de CGI em cada uma das três especialidades. O coeficiente de correlação de Pearson foi usado para a análise de confiabilidade entre os 13 domínios do CGI para cada especialidade. A concordância relativa entre as notas foi calculada recorrendo a distâncias Euclidianas. O nível de significância escolhido foi de 5%. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob o número 581/2005.

 

RESULTADOS

Os resultados apresentam as notas dos 103 alunos que tiveram todas as suas avaliações completas. Participaram desse estudo 19 docentes, cada um avaliando um grupo distinto de alunos. A confiabilidade do questionário foi elevada em todas as especialidades (alfa de Cronbach de 0,933 para GO, 0,939 para CM e 0,916 para Ped).

A Tabela 1 mostra que as distribuições das notas das quatro estratégias de avaliação estão concentradas no extremo direito da escala, com diferenças significativas entre elas, nas três especialidades.

 

 

As correlações entre as notas das três especialidades foram moderadas para CGIt, mas muito baixas ou mesmo negativas para AE, CGIh e CGI (Tabela 2).

 

 

Houve diferenças significativas nas distribuições das notas em seis dos 13 domínios do CGI: um técnico (solução de problemas) e cinco humanísticos (capacidade de autorreflexão, percepção do contexto, interação com colegas e interação com demais profissionais), após correção de Bonferroni. Essas diferenças estiveram presentes em todos os seis domínios, entre CM e Ped, em cinco deles entre GO e Ped (exceto Interação com colegas), mas em nenhum desses domínios entre GO e CM.

O impacto dos diferentes domínios na confiabilidade do CGI para cada especialidade apresentou diferenças relevantes. A Tabela 3 mostra que respeito (GO), hábitos de trabalho (CM) e interação com colegas (Ped) foram os menos correlacionados com a soma dos outros domínios. Exame físico (GO) e hábitos de trabalho (CM e Ped) foram os menos explicados pelos outros domínios. Julgamento clínico (GO e Ped), solução de problemas (CM) e capacidade de autorreflexão (Ped) produziriam a maior queda no alfa, diminuindo a confiabilidade da escala, se eliminados.

 

 

A análise da concordância relativa entre as 12 notas CGI, CGIt, CGIh e AE, (em cada uma das especialidades) mostrou que as notas mais concordantes foram encontradas dentro das especialidades e não entre elas. As notas de Clínica Médica exibiram maior concordância relativa entre si (distância média = 8,05) do que as três notas de GO (distância média = 8,30) ou de Pediatria (distância média = 8,47). As menores distâncias foram observadas entre CM e Ped para CGI e CGIh e entre GO e CM para CGIt e AE, enquanto as notas de GO e Ped exibiram as maiores discordâncias.

 

DISCUSSÃO

O estágio clínico representa um momento especial para a formação global do estudante, pois o ajuda a ampliar seu conhecimento teórico e prático, além de contribuir para que compreenda que deve dar atendimento a pessoas inseridas em contextos socioculturais diversos, com necessidades distintas, que esperam ser compreendidas, respeitadas e cuidadas8. Mas isso acarreta aos docentes/supervisores um desafio adicional, ao serem solicitados a avaliar os estudantes em um cenário complexo, com alto impacto educacional.

Neste estudo, observou-se que as notas de CGI, CGIt, CGIh e AE ficaram concentradas no extremo superior da escala, com medianas mais elevadas no CGIh, nas três especialidades. Esse resultado pode demonstrar que a maioria dos estudantes atingiu satisfatoriamente o nível de competência esperada no Módulo Atenção Integral à Saúde ou ainda sugerir um efeito de leniência entre os supervisores/docentes, especialmente para os domínios humanísticos. De fato, a literatura aponta para uma tendência entre os docentes de supervalorizarem as habilidades técnicas e serem mais condescendentes na avaliação das habilidades humanísticas9. Além disso, parece ser mais difícil justificar notas baixas em aspectos não cognitivos do que apontar e explicar o que precisa ser melhorado dentre os atributos técnicos10.

Os docentes das diferentes especialidades não atribuíram notas que discriminassem facilmente os alunos com desempenho superior daqueles com desempenho inferior. O efeito teto observado pode indicar alguma falha no preenchimento dos formulários, talvez resultante da falta de capacitação dos docentes como avaliadores, ou ainda da ausência de referências consensuais sobre o que se espera do estudante nessa fase do curso médico. Embora nossos dados não nos permitam descartar nenhuma dessas alternativas para explicar as notas elevadas, tal tendência está relatada em outros estudos11,12,13.

As notas de Ped foram significativamente inferiores às de GO e CM nas quatro estratégias de avaliação, enquanto a única diferença estatisticamente significante entre GO e CM foi nas notas da AE. As notas de GO e Ped foram as mais discordantes. As notas de CM mostram maior concordância relativa com as de GO no CGIt e na AE, mas não no CGIh. Tais achados sugerem que os docentes de Ped parecem ser mais rigorosos, apresentando uma forma particular de avaliar os alunos e que há certa similaridade entre a percepção dos docentes de GO e CM sobre o desempenho esperado neste módulo de ensino clínico. As diferenças encontradas entre as especialidades na maneira de perceber e avaliar os alunos podem estar apoiadas nas características particulares de cada especialidade.

Diversos estudos sugerem que há uma relação entre atitudes e características pessoais e especialidade médica14,15,16. Um exemplo dessa relação é apresentado em um estudo chileno que toma como base os tipos psicológicos do Inventário de Indicadores de Tipos Psicológicos de Myers Briggs (MBTI)17,18. Para os autores a maior parte dos clínicos gerais apresenta características predominantemente do tipo denominado INTP (pessoas que procuram e desenvolvem uma explicação lógica para tudo; têm habilidade especial para solucionar problemas, são lógicas, céticas, analíticas e críticas, geralmente quietas, contidas, com maior interesse nas ideias do que na interação social, são flexíveis e facilmente adaptáveis). Os pediatras parecem ser preponderantemente ESFJ, cujas características mais marcantes são o cuidado e a atenção com as pessoas e o desejo de criar um clima harmonioso no ambiente de trabalho. São pessoas empáticas, leais, colaboradoras, organizadas, detalhistas, gostam de trabalhar em equipe, de cumprir prazos e de serem reconhecidas e valorizadas. Nesse estudo, os autores não fazem referência específica à especialidade de GO, mas à de Cirurgia, com a qual os ginecologistas poderiam ter maior aproximação. Observaram que os cirurgiões são geralmente do tipo ESTJ, pessoas práticas, decididas, realistas e diretas, voltadas para a implantação das decisões, focadas em resultados, cuidadosas com detalhes da rotina e gostam de passar rapidamente para a próxima etapa, pensando nos fatos de forma pragmática19.

Ao apresentarem práticas de supervisão realizadas em diferentes especialidades, Kilminster et al.4 também sugeriram que parece haver características particulares de cada uma delas, mais uma vez sem dados específicos sobre GO. Na cirurgia foi valorizado o desempenho em procedimentos essenciais que um aluno deve realizar, enquanto em CM foi dada ênfase a diagnóstico, qualidade das anotações feitas e das prescrições. Em Ped, auto-controle emocional, relações interpessoais e habilidade de trabalhar em equipe foram mencionados. De forma geral, os profissionais que optam por especialidades com grande atuação em atenção primária (dentre elas, Ginecologia e Obstetrícia, Clínica Médica e Pediatria) valorizam a oportunidade de fornecer atendimento direto ao paciente e de se envolver com os aspectos psico-sociais do cuidado médico e apresentam atitudes mais centradas no paciente15,16,20. Mas a área de Ped parece ter uma orientação humanística mais acentuada, enquanto GO e CM parecem colocar mais foco em resultados. Essas características podem nos ajudar a entender a relativa proximidade entre as notas de GO e CM e a evidente particularidade das notas de Ped.

A elevada consistência interna do CGI mostrou que os docentes das três especialidades percebem uma homogeneidade entre os domínios do questionário. Entretanto, ao compararmos as distribuições das 13 notas, observamos que a maior parte das diferenças entre as três especialidades esteve concentrada nos domínios humanísticos, especificamente nos domínios capacidade de autorreflexão, percepção do contexto e interação com demais profissionais. Uma possível explicação para esses resultados é que como os domínios humanísticos são mais passíveis de interpretações do que os técnicos, sua avaliação pode ser influenciada mais marcadamente pela "cultura" ou "personalidade" de cada especialidade21.

A avaliação estruturada foi o método no qual as diferenças significativas entre as especialidades se tornaram mais evidentes. Esse resultado reflete possivelmente a diferença de visão entre os docentes/supervisores sobre o que constitui a gama de conhecimentos e habilidades essenciais para os estudantes em estágio clínico, apesar dos objetivos instrucionais terem sido compartilhados na fase preparatória dessa atividade7.

Embora não seja possível ignorar as diferenças entre as especialidades, vale ressaltar necessidade de se buscar uma uniformização no processo de avaliação, particularmente num módulo integrado13. O fato de diferentes docentes avaliarem o mesmo aluno com critérios muito distintos pode acarretar consequências educacionais negativas tanto para o estudante, levando-o a ter dificuldade de elaborar um plano de melhoria e desenvolvimento, quanto para o corpo docente, prejudicando a distinção clara entre desempenho aceitável e inaceitável22.

Faz-se necessário, portanto, estabelecer critérios de referência para a avaliação do desempenho esperado dos estudantes ao longo do curso. Sem dúvida, essa tarefa se torna mais fácil quando se avaliam as competências cognitivas que as humanísticas, especialmente em um cenário em que múltiplas especialidades estão envolvidas. Nesse caso, o sistema de avaliação poderia ser composto de duas partes. A primeira englobando atributos comuns às diferentes áreas médicas, mensuráveis, relevantes para a prática clínica e uma segunda com um núcleo de conteúdos e domínios específicos para cada especialidade. Esse conjunto permitiria a elaboração de uma matriz de desempenho do aluno que fosse mais facilmente comparável entre as disciplinas23.

Um alimitação do nosso estudo é que ele foi realizado em uma turma de alunos, avaliados por um pequeno número de super-visores/docentes. Portanto, não sabemos se esses dados podem ser generalizados para outros contextos. No entanto, são raras as publicações que comparam avaliações geradas por docentes de diferentes especialidades clínicas. Assim sendo, esse estudo representa uma contribuição inicial para procurar compreender como a "cultura" intrínseca de cada especialidade pode refletir no processo de avaliação realizado por docentes/supervisores.

 

CONCLUSÃO

Há uma tendência dos docentes em atribuírem notas elevadas para os alunos, dificultando a discriminação entre o melhor e o pior desempenho. Os docentes de pediatria têm uma forma particular de avaliar os alunos, enquanto os docentes de ginecologia e obstetrícia e clínica médica os avaliam de forma semelhante. Enquanto os docentes de ginecologia e obstetrícia e clínica médica parecem valorizar mais os domínios técnicos, os de Pediatria parecem ter um olhar mais voltado para os humanísticos, o que pode estar de acordo com as "culturas" das três especialidades e com a tipologia psicológica dos profissionais que atuam em cada uma delas.

A qualificação dos docentes para a aplicação e interpretação de múltiplas estratégias de avaliação pode minimizar o impacto dos diferentes olhares na avaliação dos estudantes em um módulo clínico integrado.

Conflito de interesse: não há

 

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Artigo recebido: 31/08/08
Aceito para publicação: 03/02/09

 

 

Trabalho realizado na Universidade Estadual de Campinas - Faculdade de Ciências Médicas
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