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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.55 no.6 São Paulo  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302009000600009 

ARTIGO ORIGINAL

 

Trabalho e síndrome da estafa profissional (Síndrome de Burnout) em médicos intensivistas de Salvador

 

 

Márcia Oliveira Staffa TironiI, *; Carlito Lopes Nascimento SobrinhoII; Dalton de Souza BarrosIII; Eduardo José Farias Borges ReisIV; Edson Silva Marques FilhoV; Alessandro AlmeidaVI; Almir BitencourtVI; Ana Isabela Ramos FeitosaVI; Flávia Serra NevesVIII; Igor Carlos Cunha MotaVII; Juliana FrançaVII; Lorena Guimarães BorgesVII; Manuela Barreto de Jesus LordãoVII; Maria Valverde TrindadeVII; Marcelo Santos TelesVI; Mônica Bastos T. AlmeidaVII; Ygor Gomes de SouzaVI

IMestre e Professora em Psicologia da Universidade de Salvador - UNIFACS, Salvador, BA
IIProfessor Titular do Departamento de Saúde da Universidade Estadual de Feira de Santana, UEFS, Feira de Santana, BA
IIIMédico especialista em Medicina Intensiva e Médico Intensivista do Hospital Santa Izabel, Salvador, BA
IVProfessor Adjunto do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal da Bahia, Salvador, Ba
VMédico especialista em Medicina Intensiva e Coordenador do Programa de Residência em Medicina Intensiva pelo Hospital Santa Izabel, Salvador, BA
VIEstudantes de Graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina - Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA
VIIEstudantes de Graduação em Psicologia pela Universidade de Salvador - UNIFACS, Salvador, BA
VIIIEstudante de Graduação em Medicina pela Escola de Medicina e Saúde Pública, Salvador, BA

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever a prevalência da Síndrome de Burnout em médicos intensivistas de Salvador, associando-a a dados demográficos e aspectos da situação de trabalho (demanda) psicológica e controle sobre o trabalho.
MÉTODOS: Um estudo de corte transversal investigou a associação entre aspectos psicossocias do trabalho e a síndrome da estafa profissional em uma população de 297 médicos intensivistas de Salvador, Bahia. Um questionário individual autoaplicável avaliou aspectos psicossociais do trabalho, utilizando o modelo demanda-controle (Job Content Questionnaire) e a saúde mental dos médicos, usando Inventário de Burnout de Maslach (MBI).
RESULTADOS: Constatou-se elevada sobrecarga de trabalho e de trabalho em regime de plantão. A prevalência da Síndrome da Estafa Profissional (Burnout) foi de 7,4% e estava mais fortemente associada com aspectos da demanda psicológica do trabalho do que com o controle deste por parte dos médicos intensivistas.
CONCLUSÃO: Médicos com trabalho de alta exigência (alta demanda e baixo controle) apresentaram 10,2 vezes mais burnout que aqueles com trabalho de baixa exigência (baixa demanda e alto controle).

Unitermos: Trabalho.Síndrome de burnout.Médicos intensivistas.


 

 

INTRODUÇÃO

Nos últimos cinquenta anos, mudanças significativas ocorreram na organização do trabalho médico em consequência do grande desenvolvimento científico tecnológico e da institucionalização da assistência à saúde. O local predominante da prática médica deslocou-se do consultório individual para as instituições hospitalares modernas. No interior dos hospitais e serviços de saúde, o trabalho médico passou a vivenciar a tensão entre a autonomia do modelo artesanal e a heteronomia da ordem social e institucional1,2,3.

A dimensão científico-tecnológica da medicina tornou-se predominante, orientando os processos de trabalho atuais e impondo um novo padrão de formação escolar ancorado na estrutura altamente tecnificada do hospital-escola, valorizando a aquisição de conhecimentos científicos e a integração ao mercado de trabalho por meio da especialização1,2,3.

Sabe-se que a formação profissional do médico ocorre pelo desenvolvimento de competências e habilidades tanto técnicas como comportamentais. Este processo implica em um conhecimento (reconhecimento de limites pessoal-existenciais), para que o papel profissional não cause prejuízo à sua saúde física e psíquica. Este profissional precisa compreender e apropriar-se dos processos aos quais está submetido no cotidiano do seu trabalho e estar atento a fatores como a tensão emocional, o sentimento de impotência e a pressão frente à luta constante com o sofrimento, a dor e a morte2,4,5,6.

A síndrome da estafa profissional (burnout) constitui um quadro bem definido, caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e ineficácia7. A exaustão emocional representa o esgotamento dos recursos emocionais do indivíduo. É considerado o traço inicial da síndrome e decorre principalmente da sobrecarga e do conflito pessoal nas relações interpessoais7,8,9. A despersonalização é caracterizada pela instabilidade emocional do profissional, que passa a tratar pacientes e colegas como de maneira fria e impessoal7,8. Trata-se de um aspecto fundamental para caracterizar a síndrome de estafa profissional, já que outras de suas características podem ser encontradas nos quadros depressivos em geral7,8. Por fim, a ineficácia (ou sentimento de incompetência) revela uma autoavaliação negativa associada à insatisfação e infelicidade com o trabalho7,8.

A definição mais divulgada de burnout compreende este fenômeno como uma síndrome psicológica, decorrente da tensão emocional crônica, vivenciada pelos profissionais cujo trabalho envolve o relacionamento intenso e frequente com pessoas que necessitam cuidados e/ou assistência7,9,10.

Existe um consenso entre os autores sobre a importância do papel desempenhado pelo trabalho, assim como da dimensão relacional da síndrome. Os autores referem que o que vem sendo distinto sobre o burnout (em oposição a outros tipos de reações de estresse) é a moldura interpessoal do fenômeno. Também concordam que os profissionais que trabalham diretamente com outras pessoas, assistindo-as, ou como responsáveis pelo seu desenvolvimento e bem-estar, encontram-se mais susceptíveis ao desenvolvimento do burnout7-11.

Avaliando as variáveis responsáveis pelo desencadeamento do burnout encontramos: características pessoais (idade, nível educacional, estado civil etc), características do trabalho (tempo de profissão, tipo de ocupação, tempo na instituição, relação com clientes/ colegas, conflito com os valores pessoais etc), características organizacionais (ambiente físico, mudanças organizacionais, normas institucionais, clima, burocracia, comunicação, etc.) e características sociais (suporte social, suporte familiar, cultura e prestígio)8,9.

A medicina intensiva é uma especialidade particularmente estressante por diversas razões, dentre elas a maior exposição à morte, que entra em conflito com o objetivo de cura para o qual os médicos são treinados. O trabalho diário do médico na UTI exige conhecimento técnico qualificado, habilidades, atenção, raciocínio rápido e controle emocional para lidar com as questões ligadas aos pacientes e seus familiares, além de necessidade de atualização científica contínua, frente ao desenvolvimento que a especialidade vem apresentando ao longo dos últimos anos.

Existem poucos estudos sobre as condições de saúde dos médicos no Brasil, a maior parte enfocando a saúde mental desses trabalhadores12-17. Mesmo em países desenvolvidos, poucos são os estudos que buscam associar as condições de trabalho às condições de saúde dos médicos e também predominam estudos sobre os transtornos mentais nesta categoria.12,18-23

Este trabalho investigou a associação entre aspectos psicossociais do trabalho médico e a ocorrência de síndrome de burnout em médicos intensivistas na cidade de Salvador, Bahia, Brasil.

 

MÉTODOS

Realizou-se um estudo epidemiológico de corte transversal, em uma população de 333 médicos intensivistas residentes na cidade de Salvador, registrados na Sociedade de Terapia Intensiva da Bahia (SOTIBA).

Para a coleta de dados utilizou-se um questionário padronizado, respondido pelos próprios médicos, não sendo necessário que o mesmo se identificasse. O questionário apresentou seis blocos de questões: 1° bloco: identificação geral do entrevistado, destinado a caracterizar os indivíduos integrantes do estudo segundo sexo, idade, especialização, tempo de trabalho profissional, carga horária total trabalhada/semana, turnos de trabalho etc.; 2° bloco: características do ambiente de trabalho percebidas pelos médicos como nocivas à sua saúde (Job Content Questionnaire - JCQ); 3° bloco: referente à qualidade de vida (WHOQOL-Bref); 4° bloco: problemas de saúde e doenças referidas, para avaliar a situação global de saúde da população estudada; 5° bloco: avaliação do nível de burnout (Maslach Burnout Inventory - MBI); 6° bloco: questões gerais, fatores estressantes no ambiente de trabalho e hábitos de vida;

O JCQ identifica dois importantes aspectos das situações de trabalho: demanda psicológica e controle da atividade pelo trabalhador24,25,26. A demanda psicológica refere-se à importância da atividade sobre o trabalhador em termos de controle do tempo para a realização das tarefas e dos conflitos sociais existentes. O controle sobre a tarefa refere-se à habilidade ou destreza do trabalhador para realizar as tarefas a ele confiadas e à oportunidade de participar das decisões no ambiente de trabalho. O JCQ permite a construção de quadrantes baseados em combinações de aspectos da demanda psicológica e do controle das atividades; baixa exigência (combinação de baixa demanda e alto controle), trabalho passivo (baixa demanda e baixo controle), trabalho ativo (alta demanda e alto controle) e alta exigência (alta demanda e baixo controle)24.

Para a construção dos indicadores de demanda e de controle procedeu-se ao somatório das variáveis referentes a cada um desses indicadores, considerando-se as ponderações previstas na operacionalização do modelo. Para a dicotomização da demanda (baixa/alta) e do controle (baixo/alto) definiu-se a mediana como ponto de corte. Com base nos pressupostos assumidos no modelo demanda controle, o trabalho realizado em condições de alta demanda e baixo controle (alta exigência) é considerado como a situação de maior exposição. No outro extremo, encontrar-se-ia o trabalho de menor exposição, ou seja, com baixa demanda e alto controle (baixa exigência). As demais combinações seriam consideradas situações de trabalho de exposição intermediária27.

A versão do JCQ em português inclui 41 questões: 17 a respeito de controle sobre o trabalho (seis sobre habilidades e 11 sobre poder de decisão), 13 perguntas sobre demanda (oito sobre demanda psicológica e cinco sobre demanda física), e 11 perguntas sobre suporte social. Trinta e oito questões foram medidas em uma escala de 1 a 4 (1 = discordo; 2 = discordo parcialmente; 3 = concordo e 4 = concordo fortemente).

Estudos de validação do JCQ indicam bom desempenho deste instrumento28. No Brasil, um estudo para sua validação encontrou resultado satisfatório29. Estudos conduzidos no Brasil apresentam resultados consistentes com os obtidos em outros países30.

O Questionário Maslach (Maslach Bornout Inventory) é composto por 22 afirmações sobre sentimentos e atitudes que englobam três dimensões fundamentais da síndrome, divididos em três escalas de sete pontos, que variam de 0 a 67. Desta maneira, foram descritas, de forma independente, cada uma das dimensões que caracterizam a estafa profissional.

A exaustão profissional é avaliada por nove itens, a despersonalização por cinco e a realização pessoal por oito. As notas de corte utilizadas foram as empregadas no estudo de Maslach7.

Para exaustão emocional, uma pontuação maior ou igual a 27 indica alto nível; de 17 a 26 nível moderado; e menor que 16 nível baixo. Para despersonalização, pontuações iguais ou maiores que 13 indicam alto nível, de 7 a 12 moderado e menores de 6 nível baixo7. A pontuação relacionada à ineficácia vai em direção oposta às outras, uma vez que pontuações de zero a 31 indicam alto nível, de 32 a 38 nível moderado e maior ou igual a 39, baixo.

Por não haver consenso na literatura para a interpretação do questionário de Maslach, descrevemos os resultados segundo os critérios de Ramirez et al. e Grunfeld et al. apud Tucanduva et al (2006)31. Os primeiros definiram estafa profissional pela presença das três dimensões em nível grave, enquanto Grunfeld aceita a presença de um nível grave, independentemente de qual seja, para o diagnóstico da síndrome31.

O trabalho foi divulgado nos jornais das entidades médicas do Estado da Bahia e através de folhetos e cartazes afixados em todas as unidades de terapia intensiva da cidade de Salvador. Os questionários foram entregues aos médicos intensivistas, junto com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), por um grupo de estudantes de medicina e psicologia, previamente treinados. Foram entregues envelopes para que os médicos estudados devolvessem os questionários aos estudantes, garantindo dessa forma o sigilo e a confidencialidade dos dados. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Santa Izabel (CEP-HSI)32. A coleta de dados foi realizada nos meses de outubro a dezembro de 2006.

A análise estatística dos dados foi feita com uso do programa SPSS for Windows 9.033, no Laboratório de Informática em Saúde, do Departamento de Saúde, da Universidade Estadual de Feira de Santana (LIS/DSAU/UEFS). Realizou-se análise da associação entre as variáveis independentes, faixa etária, sexo, atividade em regime de plantão, carga horária semanal de plantão, carga horária semanal de trabalho médico, renda mensal como médico, inserção no mercado de trabalho (assalariado setor público e privado, prestação de serviço), demanda (JCQ), controle (JCQ) e seus quadrantes com o resultado do burnout (MBI), adotado como variável dependente. A razão de prevalência foi utilizada para medir a associação entre as variáveis estudadas34. Como o estudo foi populacional, não foram utilizados cálculos de significância estatística35.

 

RESULTADOS

Estudou-se 297 médicos intensivistas correspondendo a 89,2% dos 333 indivíduos inicialmente elegíveis. Houve 36 (10,8%) recusas, pois foram contatados pelos estudantes responsáveis pela coleta de dados, mas não responderam os questionários.

Entre os médicos estudados, 71,7% eram do sexo masculino, com idade média de 34,2 ± 6,9 anos. A média do tempo de graduação foi de 10,0 ± 6,7 anos e a média do tempo que trabalha em UTI foi de 7,4 ± 6,4 anos. Em relação à situação conjugal, 52% eram casados e 41,2% solteiros. Entre os médicos estudados 53,2% (160) não tem filhos (Tabela 1).

 

 

No que diz respeito ao Título de Especialista em Terapia Intensiva, a maioria 73% (218) não possuía a titulação específica da área em que atuava, sendo as especialidades médicas mais encontradas: Cirurgia Geral - 36,3% (103); Clínica Médica - 32% (91); Cardiologia - 10,6% (10); Anestesia - 9,9% (28); Pneumologia - 3,2% (09); Terapia Intensiva - 2,5% (07); Nefrologia - 0,4% (01) e outras - 5,3% (15) (Tabela 1).

A renda mensal aproximada obtida com o trabalho médico foi igual ou inferior a R$ 5.000,00 para 20,2% (49) e 79,8% (242) apresentaram renda superior a R$ 5.000,00.

A carga horária média semanal de trabalho entre os médicos estudados foi de 74,8 horas. Destes, 86,6% (253) apresentaram carga horária de trabalho semanal igual ou superior a 60 horas. A carga horária média semanal de plantão em UTI foi de 33,7 horas e 49% (144) dos médicos estudados referiu apresentar carga horária semanal de plantão em UTI igual ou superior a 24 horas (Tabela 1).

Dos 297 médicos, 99,7% responderam a todas as perguntas do MBI. A prevalência de escore alto em uma das três dimensões do MBI foi de 63,4% (188). A prevalência de escore alto nas três dimensões do MBI foi de 7,4% (22) e a prevalência de escore alto em cada uma das três dimensões analisadas separadamente foi de 47,6% (141) de exaustão emocional, 24,7% (73) de despersonalização e 28,4% (84) de ineficácia.

A prevalência de síndrome da estafa profissional apresentou associação com ter idade igual ou inferior a 33 anos (RP = 1,82), ter tempo de graduação igual ou inferior a 9 anos (RP = 2,13), não realizar atividade física (RP = 5,04) e não ter algum hobby (RP = 3,36) (Tabela 2).

 

 

A prevalência de síndrome da estafa profissional apresentou associação com trabalhar mais de 12 horas no final de semana (RP = 2,15), apresentar carga horária semanal de plantão em UTI superior a 24 horas (RP = 2,15), apresentar renda mensal inferior ou igual a R$ 5.000,00 (RP = 1,84) e apresentar tempo de trabalho em UTI igual ou inferior a sete anos (RP = 1,54) (Tabela 2).

A prevalência de síndrome de burnout (nível alta nos três fatores) variou segundo os quadrantes do Modelo Demanda-Controle. A situação de alta exigência (alta demanda e baixo controle) apresentou a mais elevada prevalência burnout, 13,3%. No extremo oposto, a situação de baixa exigência (baixa demanda e alto controle) apresentou a prevalência mais baixa 1,3%. O trabalho ativo (alta demanda e alto controle) e o trabalho passivo (baixa demanda e baixo controle) apresentaram prevalências intermediárias de 6,5% e de 8,8%, respectivamente. Os resultados apontaram que os médicos com trabalho de alta exigência apresentaram 10,2 (RP=10,2) vezes mais burnout que aqueles com trabalho de baixa exigência (Tabela 3).

 

 

DISCUSSÃO

O perfil dos médicos intensivistas de Salvador-BA foi de uma população jovem, predominantemente masculina, com menos de 10 anos de formados, elevada carga horária de trabalho, principalmente em regime de plantão, e que, em sua maioria, não possuía título de especialista em Medicina Intensiva. A predominância do sexo masculino entre os intensivistas também já foi observada por outros autores40. No entanto, a média da idade, tempo de formado e de trabalho em UTI foi inferior ao observado em outros trabalhos nacionais e internacionais40,41,42. Em estudo realizado por Schein (2006)42, que avaliou médicos de UTI adulto e pediátrica em Porto Alegre (RS), foi encontrada uma mediana de nove anos de tempo de atuação em UTI e de 14 anos de formado.

Constatou-se sobrecarga de trabalho especialmente em regime de plantão. Esses resultados são semelhantes aos obtidos em outros estudos com médicos34,37-40. Essa situação apresenta-se inadequada, pois a atividade médica em UTI caracteriza-se pela necessidade de tempo de acompanhamento e estudo dos pacientes, bem como para atualização científico-tecnológica.

A prevalência de burnout neste estudo, quando considerado o escore alto em pelo menos uma dimensão, foi de 63,3%. No entanto, na literatura esta prevalência varia muito entre os estudos a depender da população avaliada e dos valores conceituais utilizados como referência. Níveis elevados de burnout já foram descritos em cerca de um terço dos intensivistas americanos e em 46,5% dos intensivistas franceses40,46. Lima (2007)45 observou que a prevalência de burnout foi de 53,7% em pediatras de um hospital público no Sul do Brasil. Já em estudo com 1.000 oncologistas americanos, Whinppen e Canellos (1991)46 encontraram que 56% dos pesquisados evidenciaram algum grau de burnout. Utilizando os mesmos critérios adotados no presente estudo, Grunfels et al. (2000)48, Diaz e Stella (2006)44 e Tucanduva et al. (2006)31, respectivamente no Canadá, Argentina e Brasil, encontraram prevalência de burnout em médicos, inferiores às obtidas nesse estudo. Conclui-se, então, que os médicos intensivistas estudados apresentaram prevalência de burnout maior que a observada em outras especialidades médicas e em médicos de outras nacionalidades.

As maiores prevalências de burnout ocorreram entre os médicos do sexo masculino, com idade igual ou menor que 33 anos, que não referiram hobby, que não praticavam atividade física, que apresentavam tempo de graduação igual ou inferior que nove anos, que apresentavam tempo de trabalho em UTI igual ou inferior a sete anos, que apresentavam carga de trabalho no final de semana maior que 12 horas e realizavam mais de dois plantões noturnos.

Os médicos estudados caracterizaram o seu trabalho como sendo de alta demanda psicológica. Esses resultados assemelham-se aos encontrados em outros estudos com médicos37,38.

A elevada prevalência de burnout observada na situação de alta exigência do modelo demanda-controle confirmou a principal predição do modelo: de que o trabalho em alta exigência concentra os maiores riscos à saúde dos trabalhadores. A prevalência mais elevada de burnout na situação de trabalho passivo, quando comparada ao trabalho ativo, sugere que o trabalho realizado em baixo controle, ainda que em situação de baixa demanda, pode ser prejudicial à saúde mental dos médicos intensivistas. Esses achados sugerem que o controle pode ter um papel mais relevante que a demanda psicológica na produção de sofrimento psíquico para os médicos intensivistas de Salvador. Esse resultado difere do resultado obtido por Nascimento Sobrinho37 em seu estudo sobre trabalho e saúde mental dos médicos em Salvador.

A principal dimensão afetada entre os médicos avaliados foi a exaustão emocional, que é considerada como a primeira reação ao estresse gerado pelas exigências do trabalho. Uma vez exaustas, as pessoas sentem cansaço físico e emocional, com dificuldade de relaxar e de desempenhar as suas atividades9,41.

As características desta dimensão, em comparação com as outras, permitem que ela seja aceita e assumida com facilidade pelo profissional ao expressar aspectos consistentes do burnout10.

Diante dos sintomas psicológicos e físicos, o profissional desenvolve a despersonalização, que se caracteriza por atitudes frias e negativas, ocorrendo um tratamento depreciativo com relação às pessoas diretamente envolvidas com o trabalho. O trabalhador passa a se comportar de maneira cínica e irônica com os receptores de seu trabalho10. Sendo esta a dimensão com menor prevalência no presente estudo.

Uma vez que o profissional se sente ineficiente, com diminuição da autoconfiança e sensação de fracasso, ocorre redução na realização pessoal no trabalho11,45. A ineficácia durante a realização das atividades médicas foi observada em quase um terço da população estudada. É importante destacar que esta dimensão é considerada, por alguns autores, como a última reação ao estresse gerado pelas exigências do trabalho11,47.

Em estudo com oncologistas, a falta de tempo pessoal foi apontada como principal motivo para o surgimento da síndrome de burnout49,50. Os resultados sugerem que a síndrome poderia estar associada com depressão e dificuldade de cuidar de pacientes. Apesar de muitos estudos avaliarem a prevalência do burnout em diversas populações o maior desafio hoje é a identificação dos principais fatores de risco relacionados com esta síndrome. Tanto características pessoais como exigências do trabalho são pesquisadas como determinantes dos sintomas desta síndrome nos diversos estudos.

Este estudo é pioneiro no sentido de fornecer um perfil detalhado dos médicos que trabalham em UTI em uma cidade no Brasil e a avaliar a prevalência da síndrome de burnout nessa população. Entretanto, faz-se necessário tecer algumas considerações metodológicas. Inicialmente, devem-se apontar os limites dos estudos de corte transversal. Nestes estudos, coletam-se os dados pertinentes dos membros participantes. Somente na análise dos dados formam-se os grupos, pois é nesta fase que são conhecidos os indivíduos expostos e não-expostos, que estão sadios ou doentes. O estudo de corte transversal examina a relação exposição-doença em uma dada população ou amostra, em um momento particular, fornecendo um retrato de como as variáveis estão relacionadas naquele momento. Por isso, esse tipo de estudo não estabelece nexo causal e apenas aponta a associação entre as variáveis estudadas. Além disso, esse estudo teve cunho exploratório, realizando apenas análises bivariadas sem fazer análises de confundimento e interação, procedimentos importantes para conclusões mais definitivas34.

Um inconveniente dos estudos que utilizam questionários auto aplicáveis é a opção do entrevistado de não responder a todas as questões colocadas, dificultando o controle das perdas de informação34. Entretanto, a coerência e a consistência dos achados, apontam para uma associação entre a situação de alta exigência e a alta prevalência de síndrome de burnout.

 

CONCLUSÃO

Os médicos estudados são predominantemente jovens, do sexo masculino, têm uma elevada carga de trabalho semanal e, em sua maioria, não pretendem trabalhar sempre em UTI. Os resultados apontaram elevada prevalência de síndrome de burnout entre os médicos plantonistas estudados, principalmente naqueles que caracterizaram o trabalho realizado como de alta demanda e baixo controle (alta exigência), identificado nesse trabalho como a situação de maior exposição. Deve-se, então, refletir sobre que medidas poderiam ser adotadas no sentido de modificar as condições de trabalho, a relação médico-paciente e a motivação desses profissionais, afinal, a UTI é um ambiente em que o médico está constantemente exposto a fatores estressantes, principalmente relacionados ao fato de cuidar de pacientes graves com risco iminente de morte.

Os resultados apresentados estimulam os autores a realizar novas análises estatísticas como, análise estratificada e multivariada, que permitirão apontar com maior precisão as associações observadas e novas investigações para caracterizar mais precisamente a exposição a alta demanda psicológica dentro das unidades de terapia intensiva (UTI), na busca de um melhor entendimento dos processos de trabalho aos quais estão submetidos os médicos intensivistas.

 

SUPORTE FINANCEIRO:

Conselho Regional de Medicina da Bahia (CREMEB), Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia (SINDMED), Associação Baiana de Medicina (ABM) e Sociedade de Terapia Intensiva da Bahia (SOTIBA).

 

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Artigo recebido: 12/04/08
Aceito para publicação: 16/08/09
Conflito de interesse: não há

 

 

Trabalho realizado na Universidade Salvador - UNIFACS, Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS, Universidade Federal da Bahia - UFBA
* Correspondência: Departamento de Ciências Humanas e da Saúde. Alameda das Espatódias, 915. Caminho das Árvores - Salvador- BA. CEP: 41820-460