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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.57 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302011000500007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Efeitos do aumento progressivo do peso corporal na função pulmonar em seis grupos de índice de massa corpórea

 

 

Saulo Maia D'Ávila MeloI; Valdinaldo Aragão de MeloII; Raimundo Sotero de Menezes FilhoIII; Fábio Almeida SantosIV

IDoutor em Ciências da Saúde, Universidade Federal de Sergipe (UFS); Médico, UFS, Aracaju, SE
IIDoutor, Professor Adjunto, Departamento de Medicina, UFS, Aracaju, SE
IIIMédico Especialista em Endocrinologia; Médico-endocrinologista do Instituto da Previdência do Estado de Sergipe, Aracaju, SE
IVMédico-cirurgião Especialista em Cirurgia Bariátrica, Cirurgião Bariátrico do Hospital São Lucas, Aracaju, SE

Correspondência para

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar os efeitos do aumento progressivo do peso corpóreo na função pulmonar através da saturação periférica de oxigênio, espirometria e pressões respiratórias máximas em diferentes graus de obesidade.
MÉTODOS: Estudo transversal, incluindo 140 pacientes em avaliação clínica e cirúrgica para tratamento de obesidade. Os pacientes selecionados foram divididos em seis grupos de índice de massa corpórea (IMC), incluindo um grupo-controle de não obesos e a subdivisão dos obesos mórbidos em três subgrupos.
RESULTADOS: Foram demonstradas diferenças significativas entre os grupos na saturação periférica de oxigênio (SpO2) (p < 0,001), capacidade vital forçada (CVF) (p < 0,002; p < 0,02) e volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1) (p < 0,001; p < 0,03), em valores relativos e absolutos, respectivamente. O grupo VI (IMC > 50,9 kg/m2) demonstrou diferenças significativas (SpO2, CVF e VEF1) em relação aos demais grupos (exceto grupo V) e o grupo V (IMC > 45 a 49,9 kg/m2) em relação ao grupo-controle. As demais variáveis (razão VEF1/CVF, fluxo expiratório forçado 25-75 [FEF25-75] e pressões respiratórias máximas) não apresentaram diferenças estatísticas.
CONCLUSÃO: A função pulmonar sofre influência do aumento progressivo do IMC, com as alterações funcionais respiratórias sendo mais bem demonstradas com o IMC > 45 kg/m2 e ficando bem mais acentuadas quando o IMC excede a 50,9 kg/m2.

Unitermos: Espirometria; testes de função respiratória; obesidade; obesidade mórbida; estudos transversais; índice de massa corporal.


 

 

Introdução

O crescimento alarmante da obesidade no mundo tem sido uma das preocupações da Organização Mundial de Saúde (OMS), tornando-se um dos mais sérios problemas de saúde pública dos últimos anos, com projeções ameaçadoras para o século XXI1.

No Brasil, semelhante aos países desenvolvidos, a prevalência de obesidade vem apresentando um aumento expressivo em todas as faixas etárias, principalmente no sexo feminino2. A prevenção e o controle da obesidade têm sido uma das prioridades da OMS, pois a obesidade é uma doença sistêmica, associada às diversas comorbidades, sendo um importante fator de risco independente para doenças crônicas (cardiovasculares, diabetes, musculoesqueléticas e alguns cânceres), com alto risco de morte prematura1,3.

A obesidade promove deterioração da mecânica respiratória pela diminuição da expansibilidade do tórax, decorrente do aumento de tecido adiposo na parede torácica e cavidade abdominal que eleva e compromete a mobilidade do diafragma, determinando redução da complacência pulmonar e da caixa torácica e resultando em diminuição dos volumes pulmonares e sobrecarga dos músculos inspiratórios. A redução da ventilação nas bases pulmonares pode levar a um fechamento da periferia pulmonar, anormalidades na relação ventilação-perfusão e hipoxemia arterial3-6 .

A piora da função pulmonar em obesos está associada ao aumento da morbidade e mortalidade, semelhante a outras doenças como cânceres, doenças cardiovasculares, doenças respiratórias crônicas e ataque cardíaco3,4, todavia, muitas vezes a influência da obesidade no aparelho respiratório passa despercebida3-6.

Testes de função pulmonar são fundamentais no manuseio de pacientes com disfunções respiratórias, como também naqueles com risco potencial de desenvolvê-las, pois fornecem dados objetivos sobre a função pulmonar e determinam sua correlação às queixas clínicas do paciente7,8.

A espirometria é o mais frequente e útil teste de função pulmonar realizado na prática clínica9. A saturação periférica de oxigênio (SpO2) realizada pela oximetria de pulso é um método não invasivo, seguro, prático e de baixo custo, sendo um sensível indicador de anormalidade da troca gasosa, servindo de triagem para a realização da gasometria arterial8,10.

A mensuração da força dos músculos respiratórios por meio de medidas de pressões respiratórias máximas é um exame incorporado à prática clínica. A PImáx (pressão inspiratória máxima) é um índex de força do diafragma, ao passo que a PEmáx (pressão expiratória máxima) mensura a força dos músculos abdominais e músculos intercostais6,11,12.

Estudos prévios da função pulmonar em obesos se limitam em avaliar as alterações funcionais em três classes de obesos, considerando os obesos mórbidos (IMC > 40 kg/m2) como um grupo único, conforme classificação da OMS pelo IMC (índice de massa corpórea): Baixo peso: < 18,5 kg/m2; Normal: 18,5-24,9 kg/m2; Sobrepeso: 25-29,9 kg/m2; Obesidade grau I: 30-34,9 kg/m2; Obesidade grau II: 35-39,9 kg/m2; e Obesidade grau III: > 40 kg/m2)13-15.

O objetivo deste estudo é avaliar os efeitos do aumento progressivo do peso corpóreo na função pulmonar através da espirometria, SpO2, PImáx e PEmáx, em diferentes graus de obesidade, subdividindo o grupo de obesos mórbidos em três subgrupos, para melhor demonstrar o efeito do aumento progressivo do IMC nas variáveis funcionais respiratórias pesquisadas.

 

Métodos

Trata-se de um estudo transversal, realizado no serviço ambulatorial da Universidade Federal de Sergipe (UFS), no município de Aracaju-Sergipe. Os dados foram obtidos entre janeiro e dezembro de 2007. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em pesquisa da UFS (CAAE- 0050.0.107.000-07) e um termo de consentimento livre e esclarecido foi obtido de cada um dos pacientes.

Foi selecionada a amostra de pacientes em avaliação clínica e cirúrgica para tratamento de obesidade nos ambulatórios de obesidade do Hospital São Lucas e da UFS, onde foram realizadas avaliação clínica e provas de função pulmonar por um pneumologista assistente. Foi selecionado um grupo-controle de 26 indivíduos sadios, assintomáticos respiratórios e que apresentavam função pulmonar normal de acordo com os critérios das Diretrizes Brasileiras para Testes de Função Pulmonar16, composto por voluntários (familiares e amigos dos pacientes, profissionais da área da saúde).

Os 140 indivíduos selecionados foram distribuídos em seis grupos conforme o nível do IMC: Grupo I: 26 indivíduos (peso normal e sobrepeso) com IMC entre 18,5 e 29,9 kg/m2; Grupo II: 18 indivíduos (obesidade grau I) com IMC entre 30 e 34,9 kg/m2; Grupo III: 24 indivíduos (obesidade grau II) com IMC entre 35 e 39,9 kg/m2; Grupo IV: 30 indivíduos (obesidade grau III) com IMC entre 40 e 44,9 kg/m2; Grupo V: 23 indivíduos (obesidade grau III) com IMC entre 45 e 50,9 kg/m2; Grupo VI: 19 indivíduos (obesidade grau III) com IMC > 51 kg/m2.

Foram incluídos indivíduos maiores de 18 anos de idade, e para o grupo de obesos em avaliação cirúrgica para tratamento de obesidade (grupos III a VI) todos tinham previamente tentado no mínimo três tratamentos clínicos com insucesso e frustração, estavam compensados do ponto de vista clínico com dieta e/ou medicamentos, sendo liberados para tratamento cirúrgico da obesidade.

Os critérios de exclusão foram utilizados para pacientes que apresentassem doença pulmonar aguda ou crônica, incapacidade de realização das provas de função pulmonar, doença neuromuscular, insuficiência cardíaca, hipertensos graves ou mal controlados, doença renal crônica, doença sistêmica grave, uso de corticoterapia sistêmica, diabetes mellitus descompensado, fumantes ativos ou ex-fumantes que tivessem fumado mais de 10 maços/ano. Na avaliação pré-operatória dos obesos, por indicação médica foram realizados radiografia do tórax, eletrocardiograma, ecocardiograma e exames laboratoriais.

Foram considerados não fumantes aqueles que nunca fumaram e ex-fumantes aqueles que deixaram de fumar há pelo menos seis meses e que tivessem fumado menos de dez maços/ano. Fumante ativo foi considerado aquele que estivesse fazendo uso de produto tabágico em qualquer intensidade no momento da pesquisa ou nos últimos seis meses.

Para atividade física regular foi considerado não sedentário o indivíduo que realizasse atividade física regularmente no mínimo três vezes por semana, no período de tempo mínimo de 30 minutos, e considerados sedentários aqueles que não realizassem nenhuma atividade física ou fizessem em menor período.

O peso corporal foi obtido com o indivíduo livre de roupas pesadas e calçados e a estatura foi obtida utilizandose antropômetro acoplado à balança que preenchia os critérios de aferição de peso para obesos mórbidos. O IMC foi obtido através da equação peso em kg/estatura em metro2.

Após o paciente estar sentado em repouso por no mínimo dez minutos, foi aferida a SpO2 utilizando oxímetro digital portátil modelo Medical Onix II 9500 (Nonin, Plymouth, Minneapolis, USA) em um dos dedos das mãos, livre de esmalte, aguardando para sua leitura o tempo mínimo de dois minutos. Em seguida, com o paciente sentado, utilizando clipe nasal, foram realizadas as provas de função pulmonar sequencialmente: PImáx, PEmáx e espirometria.

A PImáx foi medida a partir do volume residual e a PEmáx a partir da capacidade pulmonar total, realizando-se para cada uma delas um mínimo de cinco manobras e aceitando a de maior valor. A equação de referência para as pressões respiratórias máximas utilizada foi expressa em porcentagem da normalidade para a população brasileira pela equação de Neder et al.17 e para a espirometria foi utilizada a equação de referências de Hankinson18, com as manobras sendo realizadas de acordo com as atuais recomendações da SBPT16. Durante a realização do teste espirométrico, a manobra expiratória forçada foi realizada por no mínimo três vezes, sendo escolhida a melhor delas.

A espirometria foi realizada com espirômetro computadorizado (modelo Microlab-3500) e as pressões respiratórias máximas com manovacuômetro digital Micro Respiratory Pressure Meter (Micro RPM), ambos da Micro Medical Ltd., Kent, Inglaterra.

As variáveis analisadas foram: sexo, idade, cor da pele, altura, status tabágico, IMC, atividade física, SpO2, PImáx, PEmáx (cmH2O), CVF, VEF1, FEF25-75, razão entre VEF1/CVF, em valores absolutos e relativos.

A análise estatística foi realizada com o auxílio do software Statistical Package for the Social Sciences, versão 13 (SPSS Inc., Chicago, IL, EUA). As variáveis contínuas foram descritas em média e desvio-padrão e as variáveis categóricas foram sumarizadas por meio de frequências simples e relativas, e foi utilizado o teste de qui-quadrado ou exato de Fisher, quando mais adequado. A comparação entre as diferentes categorias de IMC foi realizada através do teste de ANOVA uma via, seguido do pós-teste de Tukey e cálculo do IC 95%. Utilizaram-se testes bicaudais e o nível de significância estatístico adotado foi p < 0,05.

 

Resultados

Foram avaliados 140 pacientes com média de idade de 36,4 ± 11,2 anos, variando de 18 a 63 anos, sendo 84 (60,0%) do sexo feminino. Quanto à cor da pele, 74 (52,9%) eram brancos. O IMC médio foi de 39,91 ± 10,57 kg/m2 (variação 19,3 a 65,6 kg/m2), com diferença significante entre os grupos (p < 0,001). Os grupos tiveram distribuição homogênea quanto a sexo, idade, cor da pele, altura, status tabágico e atividade física (Tabela 1).

A Tabela 2 compara as variáveis espirométricas, pressões respiratórias máximas e saturação periférica de oxigênio nos seis grupos. O valor médio da SpO2 foi de 97, 18 ± 1,6%, variando de 89% a 100%, com diferença significante entre os grupos (p < 0,001). O grupo VI demonstrou menor SpO2 com diferenças significantes com os demais grupos (grupo I: p < 0,006 e IC 95% 0,9 a 3,4; grupo II: p < 0,01 e IC 95% 0,2 a 3,0; grupo III: p < 0,02 e IC 95% 0,2 a 2,8), exceto com o grupo V. O grupo V demonstrou menor SpO2, com diferenças significantes com os grupos I (p < 0,004 e IC 95% 0,6 a 3,0) e IV (p < 0,003 e IC 95% 0,03 a 2,4). O grupo IV demonstrou uma distribuição homogênea com os grupos I, II e III (Tabela 2; Figura 1).

O valor médio da CVF foi de 3,72 ± 0,87 litro, em valor absoluto, variando de 1,74 a 5,97 litros e em valor relativo 88,97 ± 0,12%, variando de 48% a 119%. Quanto ao VEF1, o valor médio absoluto foi de 3,03 ± 0,72 litro, variando de 1,34 a 5,36 litros e o valor relativo 88,55 ± 11,41%, variando de 51% a 119%.

Os grupos diferiram estatisticamente entre si pelas médias da CVF, em valores absolutos e relativos (p < 0,02; p < 0,002, respectivamente), observando-se redução pro-gressiva da CVF entre os grupos. Em valores absolutos da CVF somente o grupo I foi superior ao grupo VI (p < 0,008 e IC 95% 0,15 a 1,63). Em valores relativos da CVF, o grupo VI foi estatisticamente menor que os grupos: I (p < 0,001 e IC 95% 10,4 a 29,4), II (p < 0,006 e IC 95% 2,6 a 23,3); III (p < 0,006 e IC 95% 2,4 a 21,7); IV (p < 0,003 e IC 95% 3,0 a 21,4). O grupo V foi estatisticamente menor que o grupo I (p < 0,005 e IC 95% 2,3 a 20,4) (Tabela 2; Figura 1).

Os valores médios de VEF1 diferiram estatisticamente entre os grupos, em valores absolutos e relativos (p < 0,03; p < 0,001, respectivamente), com diminuição progressiva do VEF1 entre eles. Em valores absolutos do VEF1, apenas o grupo I foi estatisticamente maior que o grupo VI (p < 0,01 e IC 95% 0,09 a 1,34). Observou-se em valores relativos que o grupo VI foi estatisticamente menor que os grupos: I (p < 0,001 e IC 95% 8,9 a 27); II (p < 0,03 e IC 95% 3,1 a 22,8); III (p < 0,01 e IC 95% 1,7 a 20,1); e IV (p < 0,002 e IC 95% 3,0 a 20,6). O grupo V foi estatisticamente menor que o grupo I (p < 0,03 e IC 95% 0,52 a 17,6) (Tabela 2; Figura 1).

No que se refere às pressões respiratórias máximas, a média da PImáx em valores absolutos foi 105,79 ± 27,10 cmH2O, variando de 50 a 196 cmH2O e para valores relativos foi demonstrado um valor médio de 118,37 ± 31,41%, variação de 53,02% a 218,51%. Quanto à PEmáx foi demonstrado um valor médio de 129,15 ± 32,97 cmH2O para valores absolutos, com variação de 60 a 254 cmH2O e para valores relativos foi demonstrado um valor médio de 118,82 ± 26,94%, com variação de 58,72% a 209,57%.

Os grupos tiveram distribuição homogênea quanto à relação VEF1/CVF, FEF25-75, PEmáx e da PImáx (valores absolutos e relativos), não havendo diferença significante (Tabela 2).

 

Discussão

Estudos prévios avaliando a função pulmonar na obesidade em geral consideram os obesos mórbidos como um grupo único, limitando-se em avaliar as alterações da função pulmonar em duas ou três classes de obesos, com ausência da avaliação funcional respiratória ao longo de todas as classes de obesos6,13-15,19-21.

No presente estudo, procurou-se demonstrar o comprometimento da função pulmonar secundário ao aumento progressivo do peso corpóreo em seis grupos de IMC. Manteve-se a classificação de obesidade da OMS até o IMC < 40 kg/m2, todavia, para diferenciar este estudo dos anteriormente relatados, foi estabelecido um grupo- controle de não obesos e subdividiu-se o grupo de obesos mórbidos em três subgrupos, o que contribuiu para que fosse possível observar o comprometimento progressivo da função respiratória à medida que se eleva o IMC.

Os resultados demonstraram uma relação inversa entre o grau de IMC e as variáveis funcionais respiratórias pesquisadas, com um efeito modesto na função pulmonar até IMC < 45 kg/m2, observando-se que o grupo IV (IMC de 40 a 44,9 kg/m2) apresenta características da função respiratória mais semelhante aos grupos II e III (obesidade grau I e II) do que aos obesos mórbidos dos grupos V e VI (IMC > 45 kg/m2).

As alterações significativas da função pulmonar foram observadas apenas quando o IMC excede 45 kg/m2, intensificando-se quando o IMC alcança valores acima de 50,9 kg/m2, caracterizando o grupo de obesos mórbidos como um grupo heterogêneo do ponto de vista da função respiratória, o que justifica sua subdivisão em subgrupos na avaliação da função pulmonar. Essas alterações divergem de pesquisas anteriores, que relataram alterações funcionais respiratórias mínimas até o IMC < 40 kg/m2, todavia, nestes estudos, o grupo de obesos mórbidos sempre foi considerado como um grupo único (IMC > 40 kg/m2)3,6,19,22.

Nos últimos anos, tem sido marcante o aumento do número de pacientes obesos submetidos a tratamento cirúrgico da obesidade. O bom desempenho da musculatura inspiratória e expiratória no pós-operatório desses pacientes é fundamental para um reflexo de tosse e toalete traqueobrônquica adequada e eficaz, contribuindo para uma boa oxigenação e ventilação pulmonar2,23,24.

Existem controvérsias na literatura sobre o efeito da obesidade nas pressões respiratórias máximas6,11,12. Algumas pesquisas afirmam que elas geralmente são normais em indivíduos saudáveis, nos diversos graus de obesidade e, em particular, em obesos mórbidos sentados6,11,25. A justificativa é que os obesos compensam a carga respiratória duplicando o trabalho respiratório e a pressão diafragmática, incrementando a contribuição da caixa torácica no movimento respiratório, realizando respirações rápidas e superficiais11. Com visão oposta, Poulain et al.26 relataram que a força muscular respiratória pode estar comprometida na obesidade, com pressão inspiratória máxima reduzida em obesos, quando comparada com grupo-controle de não obesos, como consequência da redução da complacência da parede torácica ou dos menores volumes pulmonares, ou ambos.

Os resultados do presente estudo demonstraram pressões respiratórias máximas normais, com uma tendência ascendente à medida que se eleva o IMC, porém, com distribuição homogênea nos grupos estudados.

Uma limitação deste estudo por ser transversal é a falta de visão ao longo do tempo, não permitindo determinar considerações prognósticas sobre os variados subgrupos de obesos.

 

Conclusão

Em conclusão, a função pulmonar sofre influência do aumento progressivo do IMC, com as alterações funcionais respiratórias sendo mais bem demonstradas com o IMC > 45 kg/m2 e bem mais acentuadas quando o IMC excede a 50,9 kg/m2.

 

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Correspondência para:
Saulo Maia D'Ávila Melo
Rua José Olívio do Nascimento, 82 - Edifício Parque da Sementeira, Apto. 201 - Jardins
CEP: 49025-730 - Aracaju- SE
Tel: (79) 9971 3316; 3214 3593 - Tel/Fax: 3214-3491
smaia@infonet.com.br

Artigo recebido: 14/12/2010
Aceito para publicação: 28/07/2011
Conflito de interesse: Não há.

 

 

Trabalho realizado na Universidade Federal de Sergipe, Hospital Universitário, Aracaju, SE