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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.58 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302012000100012 

ARTIGO ORIGINAL

 

Valor energético total e contribuição percentual de calorias por macronutrientes da alimentação de idosos domiciliados em Fortaleza - CE

 

Total energy value and percentage contribuition of calories from macronutrients in the diet of elderly individuals from Fortaleza, state of Ceará, Brazil

 

 

Tarciana Nobre de MenezesI; Maria de Fátima Nunes MarucciII

IDoutora em Saúde Pública; Professora, Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, PB, Brasil
IIDoutora em Saúde Pública; Professora, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

Correspondência para

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever o valor energético total e contribuição percentual de calorias por macronutrientes da alimentação de idosos domiciliados em Fortaleza/CE.
MÉTODOS: Este estudo é populacional, transversal e domiciliar. Participaram deste estudo 458 idosos (66,6% mulheres). As variáveis avaliadas foram: valor energético total (VET) da alimentação e contribuição percentual de calorias por proteínas, carboidratos e lipídios. Os resultados são apresentados sob a forma de médias, desvios-padrão e distribuição percentilar (P5, P10, P25, P50, P75, P90, P95). Os testes t-Student e análise de variância (ANOVA de uma via) com o teste Post Hoc LSD foram utilizados para verificar a diferença estatística das médias entre dois grupos e entre três grupos ou mais, respectivamente.
RESULTADOS: Ao comparar os valores médios do VET entre as categorias das variáveis socioeconômico-demográficas foi encontrada diferença estatisticamente significativa entre as mulheres para cor, anos de estudo e nível socioeconômico. Entre os homens foram encontradas diferenças para anos de estudo e nível socioeconômico. O valor energético médio da alimentação dos homens foi significativamente superior ao das mulheres. Entre as mulheres o valor médio foi 1.236,4 kcal e entre os homens foi 1.475,8 kcal. Os valores médios da contribuição percentual de calorias por proteínas, carboidratos e lipídios foram semelhantes entre homens e mulheres.
CONCLUSÃO: Os idosos deste estudo apresentam diferenças significativas nas médias do valor energético da alimentação entre os sexos e entre as categorias de anos de estudo e nível socioeconómico. As mulheres apresentaram, ainda, diferenças significativas entre as categorias de cor. A contribuição relativa média dos macronutrientes no valor energético da alimentação foi semelhante entre os sexos e grupos etários.

Unitermos: Idoso; energia; macronutrientes; alimentação.


SUMMARY

OBJECTIVE: Describe the total energy value and percentage contribution of calories from macronutrients in the diet of elderly individuals living in Fortaleza/CE.
METHODS: This is a population-based, cross-sectional domiciliary study, which included 458 elderly individuals (66.6% women). The variables evaluated were total energy value (TEV) and the percentage contribution of calories from proteins, carbohydrates, and lipids. The results are shown as mean, standard deviation, and percentile distribution (P5, P10, P25, P50, P75, P90, P95). The Student's t-test and analysis of variance (one-way ANOVA) with LSD post-hoc tests were used to determine the statistical significance of means between two groups and among three or more groups, respectively.
RESULTS: When comparing the mean values of TEV among categories of socioeconomic and demographic variables, statistically significant differences were found between women for ethnicity, years of schooling and socioeconomic level. Among men, differences were found for years of schooling and socioeconomic level. The mean energy value of men's diet was significantly higher than that of women (1475.8 kcal and 1236.4 kcal, respectively). The mean values of calorie percentage contribution from proteins, carbohydrates, and lipids were similar between men and women.
CONCLUSION: The elderly of this study showed significant differences in mean values of TEV between sexes and between the categories years of schooling and socioeconomic level. Women also showed significant differences between the ethnic categories. The mean relative contribution of macronutrients in TEV was similar between genders and age groups.

Keywords: Elderly; energy; macronutrients; diet.


 

 

INTRODUÇÃO

A manutenção da saúde e a prevenção de doenças configuram preocupações rotineiras na vida da pessoa idosa1,2. A ingestão alimentar adequada é, reconhecidamente, fundamental para garantir a boa saúde e a boa qualidade de vida do idoso; no entanto, o processo de envelhecimento acarreta mudanças na ingestão alimentar, as quais resultam da combinação de condições que incluem alterações fisiológicas, problemas bucais, presença de doenças, uso de diversos medicamentos, incapacidade física e mental3. Essas condições podem causar perda de apetite e diminuição do estímulo para se alimentar, sendo acompanhadas, muitas vezes, por uma redução geral dos nutrientes da alimentação, assim como diminuição da densidade de nutrientes, com consequente queda da função imune e perda de peso que, juntamente com a ausência de prática de atividade física, contribuem para o declínio das funções corporais, desenvolvimento de doenças agudas ou crônicas relacionadas à nutrição, bem como aumento da prevalência de incapacidades e da mortalidade4-6.

Pesquisas alimentares têm verificado declínio gradual no valor energético da alimentação de idosos7-11. Alguns desses estudos sugerem que o declínio da ingestão seja acompanhado por um aumento no percentual de energia oriundo de carboidratos, enquanto que a contribuição de gordura declina. Fato preocupante, visto que dietas nutricionalmente inadequadas podem contribuir para o desenvolvimento ou agravamento de doenças crônicas e agudas relacionadas à idade. A contribuição dos macronutrientes na alimentação e a perda de peso têm sido fonte de interesse em pesquisas, as quais sugerem que o percentual de energia oriundo de carboidratos, proteínas e lipídios podem influenciar no aparecimento e tratamento do sobrepeso12-14.

Apesar de a boa nutrição ser apenas um dos aspectos relacionados ao alcance e manutenção da saúde em idosos, a alimentação é o fator que melhor pode ser controlado, uma vez que uma diminuição da sobrecarga evitável de doenças crônicas não apenas eleva a longevidade e prolonga a sobrevivência, como melhora a qualidade de vida desses idosos15. Por isso a importância de pesquisas que avaliem a ingestão alimentar dessa população. Diante disso, e da escassez de informações na cidade de Fortaleza, optou-se por realizar uma pesquisa que objetivou descrever o valor energético total e contribuição percentual de calorias por macronutrientes da alimentação de uma amostra representativa dos idosos de Fortaleza.

 

MÉTODOS

Este estudo é transversal, populacional, de base domiciliar, que investigou indivíduos com 60 anos ou mais, residentes habituais em domicílios particulares de Fortaleza. Foram excluídos do estudo idosos com doença sem possibilidades terapêuticas e que apresentassem debilidade clínica grave, e idosos que estivessem ausentes de Fortaleza por mais tempo que a pesquisa de campo naquele setor.

A descrição detalhada do plano de amostragem deste estudo é apresentada no estudo de Menezes et al.16 A coleta dos dados foi realizada por três equipes de dois entrevistadores cada uma, constituída por alunos do curso de Nutrição da Universidade Estadual do Ceará (UECE), devidamente treinados.

Foram coletadas informações socioeconômico-demográficas (sexo, grupos etários, cor, situação conjugal, escolaridade, nível socioeconômico, número de residentes no domicílio e prática de atividade física regular (30 minutos por dia, por, no mínimo, três vezes por semana) e alimentares (valor energético total da alimentação e contribuição percentual de calorias, fornecidas por macronutrientes). O nível socioeconómico foi identificado pelo Critério de Classificação Econômica da ABA/ANEP/ABIPEME (Associação Brasileira de Anunciantes, Associação Nacional de Empresas de Pesquisa e Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa de Mercado, respectivamente)17, que abrange a escolaridade do idoso e itens de posse da família, os quais são contabilizados, resultando em uma escala de pontuação. Para fins estatísticos, os idosos foram categorizados como pertencentes às classes A/B, C, e D/E.

O método de inquérito alimentar utilizado foi o recordatório de 24 horas (R24) com o auxílio de álbum fotográfico, que apresenta porções e medidas caseiras de determinados alimentos, facilitando a identificação da quantidade de alimentos referidos pelos idosos18, considerando todos os dias da semana. Quando necessário, o entrevistador solicitava ao idoso que mostrasse a medida caseira utilizada, bem como a embalagem dos alimentos industrializados, de forma a garantir maior exatidão na descrição dos alimentos e das quantidades.

Os dados do inquérito alimentar foram calculados pelo Sistema de Análise Nutricional: Virtual Nutri19, com acréscimo de alguns alimentos que não constavam no programa, bem como a composição centesimal de cada um. Para os alimentos industrializados, foram utilizadas as informações contidas no rótulo, e para os alimentos in natura, foram utilizadas informações de tabelas de composição de alimentos20. As informações estatísticas foram obtidas com o auxílio do aplicativo estatístico SPSS 16.0.

A descrição dos idosos foi realizada segundo sexo, grupos etários (60 a 69 anos; 70 a 79 anos; 80 anos ou mais), cor (branca; não branca), situação conjugal (casado; separado; solteiro; viúvo), escolaridade (0 a 8 anos; 9 anos ou mais), nível socioeconômico (A/B; C; D/E), número de residentes no domicílio (1; 2; 3 a 5; 6 ou mais) e prática de atividade física regular (não; sim). As variáveis alimentares são apresentadas por meio de média, desvio-padrão e percentil (P5, P10, P25, P50, P75, P90, e P95).

O teste Kolmogorov-Smirnov foi utilizado para aferir a normalidade da distribuição das variáveis de estudo. O teste t de Student e a análise de variância (ANOVA de uma via) com o teste Post Hoc LSD foram utilizados para verificar a diferença estatística dos valores médios entre dois grupos e entre três grupos ou mais, respectivamente. Foi utilizado o nível de significância a < 5%.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública/Universidade de São Paulo (USP) em 07/08/2001. Os idosos participantes deste estudo assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, segundo Resolução nº 196, de 10 de outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta pesquisas envolvendo seres humanos.

 

RESULTADOS

Foram selecionados 385 domicílios para comporem a amostra deste estudo, nos quais foram entrevistados 483 idosos (327 mulheres e 156 homens) residentes em Fortaleza. A média etária dos idosos foi 70,7 anos (DP = 7,8 anos), sendo 70,9 anos (DP = 7,9 anos) para mulheres e 70,3 anos (DP = 7,8 anos) para homens.

Para a avaliação do valor energético, foram excluídas informações da alimentação de 25 idosos, em virtude das mesmas apresentarem valor energético inferior a 500 kcal, visto que, possivelmente, esses valores resultariam em uma subestimativa da alimentação21. Sendo assim, foi avaliada a alimentação de 458 idosos (153 homens e 305 mulheres).

Na Tabela 1, são apresentados para cada sexo as médias e desvios-padrão do valor energético total (VET) da alimentação, segundo características socioeconômico-demográficas. Ao comparar os valores médios do VET entre as categorias das variáveis socioeconômico-demográficas foi encontrada diferença de média estatisticamente significativa entre as mulheres para cor, anos de estudo e nível socioeconômico. Quanto à diferença de médias do VET da alimentação das mulheres, de acordo com o nível socioeconômico, a classe A/B foi diferente da C e da D/E, com valores de p = 0,037 e < 0,001, respectivamente. Entre oshomens foram encontradas diferenças para anos de estudoe nível socioeconômico. A diferença de média verificada,quanto ao nível socioeconômico, foi entre o nível A/B eD/E (p=0,004) e C e D/E (p = 0,041). Em ambos os sexos,não foi encontrada diferença estatística entre os valoresenergéticos médios da alimentação e as categorias númerode residentes no domicílio, prática de atividade física regulare situação conjugal.

Os valores médios de cada variável alimentar, segundosexo e grupos etários, são apresentados na Tabela 2. OVET médio da alimentação dos homens (1.475,8 kcal) foisignificativamente superior ao das mulheres (1.236,4 kcal)(p < 0,001). Não houve diferença estatisticamente significativaentre as proporções médias de proteína, carboidratoe lipídio, de acordo com o sexo. A Tabela 2 apresenta, ainda,os valores médios das variáveis, de acordo com os gruposetários. Nessa tabela, observa-se que entre os homensdos grupos etários mais avançados os VET da alimentaçãosão menores, no entanto a diferença entre os grupos nãofoi estatisticamente significativa. No caso das mulheres,o VET médio da alimentação entre os idosos de 70 a 79anos foi superior aos com 60 a 69 anos e com 80 anos oumais, sem diferença estatisticamente significativa entre osgrupos. Apesar de as diferenças entre os valores médiosnão apresentarem significância estatística, essa tendênciade os idosos em idade mais avançada apresentarem menoresvalores de determinadas variáveis alimentares pode serobservada de forma mais detalhada na Tabela 3 em que asvariáveis são apresentadas sob a forma de percentil.

 

DiSCUSSÃO

O presente estudo apresenta informações alimentares dos idosos de Fortaleza, com as quais valores obtidos da alimentação de outros idosos poderão ser comparados. Estudos alimentares apresentando dados em percentil, de acordo com os grupos etários, têm sido pouco explorados na literatura científica9,22, resultando em poucas informações a esse respeito, principalmente no Brasil, onde não foi encontrado estudo desse tipo. Essa forma de apresentação das informações permite conhecer a distribuição dos valores das variáveis alimentares na população, assim como verificar suas diferenças de acordo com o sexo e grupos etários, identificando, assim, variações entre os idosos. Estudos antropométricos populacionais realizados com idosos no Brasil23-25 e em outros países26 têm apresentado seus dados em percentil. Quanto às informações alimentares, Fulgoni22, em estudo que objetivou determinar a ingestão habitual de proteínas na América, apresentou os dados, entre outras, sob a forma de médias e percentis.

Os resultados deste estudo mostram idosos com diferenças significativas no valor energético total da alimentação, com relação a sua escolaridade e nível socioeconômico. Embora outros estudos tenham verificado relação estreita entre escolaridade e renda com boa nutrição27-29, esses achados nem sempre são encontrados em estudos com idosos30. Guthrie e Lin28, em estudo com idosos não institucionalizados, verificaram que os de baixa renda consumiam significativamente alimentação com baixas calorias quando comparados com aqueles de alta renda. Em estudo realizado por Marín-León et al.31 para verificar a prevalência de insegurança alimentar em famílias com idosos de Campinas/SP, foi observado que idosos de famílias com insegurança alimentar apresentaram maior proporção de idosos de baixa renda e baixa escolaridade.

O valor energético total da alimentação dos homens deste estudo foi 19,3% superior ao das mulheres (1.475,8 kcal e 1.236,4 kcal, respectivamente). As informações são coerentes com diversos estudos alimentares realizados com idosos, os quais têm verificado homens com valor energético da alimentação superior ao das mulheres7,32-34. Isso se deve, principalmente, ao fato de o homem apresentar gasto energético total superior ao da mulher7, ocasionando, assim, a necessidade de ingestão alimentar superior em termos energéticos.

Essa diferença entre homens e mulheres foi, por muito tempo, contemplada em publicações que recomendavam valores energéticos desejáveis para a alimentação da população idosa35-37. O National Research Council ao recomendar as necessidades alimentares para indivíduos de diferentes grupos etários, em todas as suas edições anteriores35,36, considerava essas diferenças entre homens e mulheres. Em sua décima edição36, a recomendação era a de que o valor energético da alimentação dos homens com 51 anos ou mais deveria ser de 2.300 kcal/dia e, das mulheres com 51 anos ou mais deveria ser de 1.900 kcal. Atualmente, a recomendação é que se calcule a Necessidade Estimada de Energia (NEE)38, cuja equação considera, entre outros aspectos, a idade, o que sugere a influência da idade na necessidade energética do indivíduo, não devendo ser, então, um valor único para todas as mulheres ou todos os homens, como anteriormente preconizado35,36.

Ao avaliar os valores energéticos médios da alimentação de acordo com os grupos etários, observa-se que os valores médios dos homens permanecem superiores aos das mulheres em todos os grupos etários. A diferença de média entre os grupos etários para ambos os sexos não foi significativa, evidenciando uma alimentação, em termos energéticos, similar entre os grupos etários. Resultado diferente ao verificado em outros estudos, que têm observado idosos com idades mais avançadas apresentando valores médios significativamente menores7,9. Essa distinção nos resultados deste estudo com relação a outros pode ser devido a diferenças entre populações e características metodológicas, as quais podem contribuir para variações na ingestão alimentar. Além disso, essa estabilidade no valor energético da alimentação entre os grupos etários pode ser um indicativo de idosos em bom estado de saúde8.

Quanto à contribuição percentual de calorias a cada macronutriente, observaram-se neste estudo valores similares, entre homens e mulheres, dos valores médios das proporções de proteínas, carboidratos e lipídios. Ao avaliar esses valores de acordo com os grupos etários, observam-se diferenças, que não se mostraram estatisticamente significativas. O mesmo pode ser observado nos dados em percentil. Essa semelhança entre valores se deve, principalmente, ao fato de as recomendações para macronutrientes não considerarem diferenças entre os sexos, uma vez que, em sendo uma proporção, a quantidade seria determinada pelo valor energético total da alimentação.

Estudos avaliando a proporção de macronutrientes da alimentação de idosos têm encontrado variações de 12% a 18% para proteína, 44% a 60% para carboidratos e 25% a 42% para gordura22,37,39. O Institute of Medicine (IOM)3 8 recomenda para adultos intervalos de distribuição aceitáveis dos macronutrientes, sendo considerada aceitável a variação de 10% a 35% para proteína, de 45% a 65% de carboidratos e 20% a 35% de lipídios. Avaliando os valores médios da proporção de macronutrientes da alimentação dos idosos deste estudo, é possível observar que os mesmos foram semelhantes ao preconizado pelo IOM38. Ao avaliar os dados em percentil, é possível observar que cerca de 10% dos homens e 5% das mulheres apresentaram alimentação com proporção de proteínas abaixo do recomendado. Com relação aos carboidratos, 25% dos idosos apresentaram alimentação com proporção acima do recomendado. Cerca de 5% dos homens e 10% das mulheres apresentaram alimentação elevada na proporção de lipídios.

Oliveira et al.40, em estudo avaliando a contribuição calórica de macronutrientes na alimentação de adultos Portugueses e comparando-a aos níveis aceitáveis preconizados pelo IOM38, observaram que 100% tanto dos homens como das mulheres com 70 anos ou mais apresentaram alimentação adequada em termos proteicos. Quanto aos carboidratos, 9,1% dos homens e 1,1% das mulheres apresentaram alimentação com proporção de carboidratos acima do recomendado. Com relação à contribuição dos lipídios na alimentação, 8,3% dos homens e 8,6% das mulheres apresentaram valores acima do recomendado. Em estudo realizado por Volkert et al.9 verificou-se que a alimentação dos idosos avaliados apresentava elevada proporção de energia derivada de gordura e proteína e baixa energia de carboidratos.

Comparações minuciosas entre estudos normalmente são dificultadas por possíveis diferenças nos métodos de avaliação alimentar e na forma de apresentação dos dados, além das características da amostra como localidade, idade, situação de saúde, estado nutricional e prática de atividade física. No caso deste estudo, a comparação dos resultados em percentil, com outros achados, torna-se difícil, devido à carência de estudos utilizando essa forma de apresentação dos dados. Embora haja essa limitação para discussão, a opção por apresentar as variáveis alimentares sob a forma de percentil possibilitou conhecer a distribuição dessas variáveis na população estudada, além de verificar os valores e a proporção de idosos que se encontram acima ou abaixo de determinado percentil.

 

CONCLUSÃO

Os resultados mostram uma população idosa com diferenças significativas nas médias do valor energético total da alimentação entre os sexos e entre as categorias de anos de estudo e nível socioeconômico, tanto para homens como para mulheres. Além disso, a contribuição relativa média dos macronutrientes no total energético da alimentação foi semelhante entre os sexos e grupos etários. A tendência de valores médios do valor energético da alimentação diferentes entre os sexos e menores nos grupos etários mais avançados, verificada neste estudo, mostra semelhança à de outros estudos; no entanto, os valores diferem.

Estudos têm apontado, cada vez mais, para a importância da alimentação na vida de cada indivíduo, onde a boa escolha dos alimentos e uma ingestão suficiente parecem ser necessárias para alcançar uma alimentação nutricionalmente adequada41. Diante disso, as informações aqui apresentadas, apesar de essencialmente descritivas, constituem ferramenta importante para planejamentos e intervenções voltados à saúde do idoso. Nesse contexto, sugerimos a realização de estudos longitudinais que permitam estabelecer determinantes das alterações na alimentação do idoso, de acordo com sexo e grupo etário, permitindo, ainda, a construção de padrões de referência com pontos de corte definidos, os quais se relacionem com morbidade e mortalidade em idosos.

 

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Correspondência para:
Tarciana Nobre de Menezes
Avenida das Baraúnas, 351, Campus I, Prédio dos Mestrados, 2º andar, Bodocongó
Campina Grande, PB, Brasil, CEP: 58429-500
tnmenezes@hotmail.com

Artigo recebido: 05/04/2011
Aceito para publicação:16/10/2011
Conflito de interesse: Não há.
Suporte Financeiro: Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (SESA) em convênio com o Centro de Treinamento e Desenvolvimento - (CETREDE), (Processo no 02429195-1)

 

 

Este trabalho é parte da pesquisa de doutorado da Dra. Menezes.