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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.58 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302012000500001 

EDITORIAL
REDAÇÃO E LITERATURA CIENTÍFICA

 

Discussão

 

 

Paulo Saldiva

Professor Titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil - pepino@usp.br

 

 

A discussão é a parte do artigo que se depara com o desafio de manter o equilíbrio entre erudição e concisão. É importante apresentar ao leitor as implicações dos resultados obtidos, e, ao mesmo tempo, não desviar significativamente dos achados objetivos. Em outras palavras, algum nível de especulação sobre o potencial dos achados é esperado, sem, no entanto, permitir que as asas da imaginação conduzam o texto para o etéreo domínio do devaneio, sem fundamento em dados obtidos no estudo em discussão. Tendo em mente as dificuldades acima expostas, serão feitas algumas sugestões orientadoras sobre como escrever uma discussão.

Inicialmente, seria oportuno logo no começo do texto colocar, de maneira objetiva e sucinta, um resumo dos resultados. Por exemplo, "Os dados obtidos no presente estudo demonstram que o tratamento X mostrou ser positivo para o tratamento da doença Y. Os efeitos positivos observados foram consistentes e se mantiveram inalterados frente a diferentes procedimentos de controle, tais como X, Y e Z.". Logo após essa pequena revisão da seção de resultados, é importante apontar as potenciais implicações do estudo, como "o conjunto de achados indicam que, nas circunstâncias e limitações definidas no presente estudo, o tratamento X tem o potencial de beneficiar os pacientes portadores da doença Y, sem apresentar alguns dos efeitos adversos (ou menor custo, ou em menor tempo, etc.) dos tratamentos convencionais".

Em seguida, seria oportuno comparar os resultados obtidos com a literatura e expor, ao mesmo tempo, os estudos concordantes e discordantes. Caso existam estudos que divirjam dos resultados obtidos, seria oportuna a apresentação das possíveis razões da divergência, tais como, diferentes protocolos, regimes de tratamento, métodos de avaliação, entre outros. Não é justo nem mesmo eticamente justificável ignorar deliberadamente os estudos divergentes. Não se deve deixar de tornar evidente ao leitor em que medida os resultados do estudo contribuem para o tema. Em outras palavras, os autores estão em uma posição privilegiada para dizer o que há de novo no estudo e não devem se furtar a apontá-los.

Após comparar os resultados obtidos em relação aos já existentes, seria interessante fornecer as bases biológicas que conferem plausibilidade aos dados obtidos. Nesse ponto, é importante incluir as medidas feitas no próprio estudo, realizadas com o intuito de determinar as bases mecanísticas dos efeitos observados e, também, referenciar a literatura existente que comprovam os mecanismos apontados como responsáveis pelos efeitos observados. Essa parte da discussão poderia soar como "os efeitos observados são compatíveis com um aumento da condutância do canal de sódio, mediada pelo aumento da expressão da proteína Z. As medidas de expressão gênica do gene que controla a expressão da proteína Z (Figura XX) corroboram esta hipótese. Em estudo realizado em roedores, Fulano et al. (referência) demonstraram efeitos similares". Essa parte da discussão - a explicação dos mecanismos responsáveis pelos efeitos observados - é uma das mais suscetíveis a declarações hiperbólicas, ou seja, argumentos que, embora plausíveis, não encontram suporte nos resultados obtidos. Portanto, caro leitor, cuidado nessa parte!

É também importante na discussão expressar de maneira clara as limitações do estudo. Por exemplo, não se pode furtar da discussão os pontos fracos do estudo, tais como tamanho da amostra, falta de medidas complementares que ajudariam a comprovar as hipóteses testadas, inconsistências com estudos anteriores, e outros pontos que mereçam comentários. Um reconhecimento objetivo dos pontos fracos não prejudica a aceitação do estudo e, pelo contrário, demonstra o conhecimento que o grupo executante tem do assunto e sua seriedade. Portanto, nada de tentar ignorar as fragilidades. Os revisores do estudo são, via de regra, especialistas no tema e irão apontar as deficiências do trabalho sob seu julgamento.

Finalmente, uma maneira elegante de finalizar a discussão é apresentar de modo resumido as conclusões que se possibilita fazer em face dos resultados obtidos, como "Em resumo, os resultados obtidos suportam o conceito de que o tratamento X tem efeitos positivos sobre a doença Y, indicando ser esta abordagem uma alternativa adicional para o manejo dos pacientes. Caso sejam confirmados, o tratamento empregado neste estudo abre novas perspectivas terapêuticas para o controle de uma condição de extrema importância em termos de saúde pública".

Um último comentário. Essas "regras" não representam necessariamente uma verdade absoluta. Traduzem apenas a experiência de alguém que escreve e revisa trabalhos com alguma frequência. Espero sinceramente que este texto possa ser de alguma ajuda para os novos pesquisadores. Boa sorte!

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