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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.59 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302013000100012 

ARTIGO ORIGINAL

 

Efeitos do exercício físico e da orientação nutricional no perfil de risco cardiovascular de crianças obesas*

 

 

Lisiane Schilling PoetaI; Maria de Fátima da Silva DuarteII; Bruno CaramelliIII; Jorge MotaIV; Isabela de Carlos Back GiulianoV

IUniversidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, SC, Brasil
IIPrograma de Pós-graduação em Educação Física, UFSC, Florianópolis, SC, Brasil
IIIPrograma de Pós-graduação em Cardiopneumologia, Instituto do Coração, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil
IVUniversidade do Porto, Porto, Portugal
VDepartamento de Pediatria, Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva, UFSC, Florianópolis, SC, Brasil

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar os efeitos de um programa de exercício físico e orientação nutricional supervisionado, de caráter lúdico, no perfil de risco cardiovascular de crianças obesas.
MÉTODOS:
Quarenta e quatro crianças com idades entre 8 e 11 anos divididas em dois grupos pareados em sexo e idade: grupo intervenção (n = 22) e controle (n = 22). Mensurou-se, antes e após a intervenção, a massa corporal, estatura, perímetro abdominal, colesterol total, HDL-colesterol, LDL-colesterol, triglicérides, glicemia de jejum, proteína C reativa ultrassensível, pressão arterial e espessura médio-intimal carotídea. Ambos os grupos continuaram com acompanhamento médico tradicional. O grupo caso participou de 12 semanas de exercício físico, com atividades recreativas em três sessões semanais e uma sessão semanal de orientação nutricional. O grupo controle não participou da intervenção descrita. Na análise foram utilizados a estatística descritiva, o teste t pareado e o teste não pareado, o teste U de Mann Whitney e o teste do Wilcoxon, adotando-se nível de significância p > 0,05.
RESULTADOS: Trinta e duas crianças completaram o estudo (16 em cada grupo). Ao final, o grupo caso apresentou redução significativa no índice de massa corporal (IMC) (p = 0,001), colesterol total (p = 0,001) e LDL-colesterol (p = 0,001), pressão arterial diastólica (p = 0,010) e espessura médio-intimal média (p = 0,003) e máxima (p = 0,002). O grupo controle apresentou aumento significativo no perímetro abdominal (p = 0,001), glicemia (p = 0,025), proteína C reativa (p = 0,016) e redução do HDL-colesterol (p = 0,012) e colesterol total (p = 0,042) e aumento na espessura médio-intimal média (p = 0,012) e máxima (p = 0,024).
CONCLUSÃO: O programa foi efetivo na redução dos indicadores de obesidade e na diminuição da espessura médio-intimal, um sinal indireto e precoce da aterosclerose.

Palavras-chave: Doenças cardiovasculares; Atividade física; Obesidade; Criança; Recreação


 

 

Introdução

A obesidade é uma doença crônica, e atualmente epidêmica, tendo apresentado importante aumento na sua prevalência nas últimas décadas em diferentes países, inclusive no Brasil.1,2

Além da elevada prevalência, a obesidade infantil tem adquirido grande significância pela sua associação a diversas condições mórbidas, como diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia e complicações da aterosclerose na vida adulta.3,4 É descrita também disfunção endotelial precoce em crianças e adolescentes obesos, em que a espessura médio-intimal carotídea é significativamente maior do que naqueles com peso normal.5

A relação entre obesidade e síndrome metabólica parece especialmente importante mesmo na infância, já que o excesso de peso tem sido considerado fator predisponente para essa síndrome mesmo na faixa etária apresentada, sendo diagnosticada em aproximadamente 40% das crianças obesas.6 A síndrome metabólica compreende agrupamento de fatores de risco cardiovasculares, tais como hipertensão arterial, deposição central de gordura corporal, dislipidemia e resistência à insulina.7 Em crianças e adolescentes vêm ganhando importância, devido à associação aos sinais precoces de comprometimento miocárdico e aterosclerose subclínica.8

Como componente básico da prevenção e tratamento da obesidade, deve ser considerada a adoção precoce de estilos de vida relacionados à manutenção da saúde, como dieta equilibrada e prática regular de atividade física, preferencialmente desde a infância.9 Além de a prática regular de atividade física apresentar efeitos benéficos na prevenção e tratamento do diabetes, associado à obesidade e à síndrome metabólica,10 pode também determinar melhora significativa do perfil metabólico por efeito independente, mesmo quando o paciente se mantém acima do peso.11,12

Programas de exercício físico e orientação nutricional mostraram-se efetivos no tratamento da obesidade e do perfil lipídico em adolescentes obesos.12 Porém, em se tratando de crianças, embora efetivos, programas de exercícios físicos estruturados podem ser menos receptivos, gerando menor adesão. Sendo assim, exercício físico com atividades recreativas, por ser prazeroso, pode gerar maior participação e adesão nas atividades propostas durante a infância, podendo ser fator preditivo para a manutenção da prática regular de atividade física na adolescência e na idade adulta.

As evidências sobre a efetividade de programas interdisciplinares supervisionados em crianças obesas parecem ser ainda relativamente escassas, sobretudo no Brasil, e, especialmente, no que se refere aos efeitos na espessura da carótida após intervenções na população pediátrica. Estudos prévios encontraram efeitos positivos do exercício físico com atividades recreativas e orientação nutricional nos componentes da síndrome metabólica,13 na redução do excesso de peso, da massa gorda, do perímetro abdominal e da pressão arterial14 em crianças obesas.

Dadas as lacunas descritas, o objetivo deste estudo foi analisar os efeitos de um programa de exercício físico e orientação nutricional supervisionado, de caráter lúdico, no perfil de risco cardiovascular de crianças obesas.

 

Métodos

Trata-se de um ensaio clínico controlado. A população inicial do estudo envolveu crianças com idades entre 8 e 11 anos e com índice de massa corporal (IMC) acima do 95º percentil pelos critérios do NCHS - National Center for Health Statistics.15 As crianças foram recrutadas consecutivamente no ambulatório de cardiologia e endocrinologia pediátrica do Hospital Infantil Joana de Gusmão - HIJG de Florianópolis, SC, Brasil (centro de referência estadual para essa doença), no período de janeiro a julho de 2009. Critérios de inclusão: crianças obesas com idade entre 8 e 11 anos de idade atendidas no serviço e residentes em Florianópolis, SC. Critérios de exclusão: estar participando de algum tipo de programa estruturado interdisciplinar para perda de peso ou apresentar alguma deficiência física ou mental que impossibilitasse a participação no programa. Todas as crianças que se enquadravam nos critérios de inclusão e que procuraram o serviço nesse período foram convidadas pelos médicos da instituição para participarem do estudo. Também foram fixados cartazes sobre o programa no corredor de entrada da instituição, com um número de telefone para os interessados contatarem. Durante o período de recrutamento, foram atendidas no ambulatório aproximadamente 120 crianças obesas com idades entre 8 e 11 anos, e, dentre elas, 90 se enquadravam nos critérios de inclusão.

Demonstraram interesse na participação do seu filho no programa 77 pais/responsáveis. Dentre esses, 32 crianças estudavam no período matutino, e 45, no período vespertino. Por questão de disponibilidade de infraestrutura no Centro de Desportos da UFSC, o programa foi realizado no período vespertino. Assim, as crianças que estudavam no período matutino foram alocadas no grupo intervenção (n = 32), e as que estudavam no vespertino, no grupo controle (n = 45). As perdas entre o contato inicial e o início do programa totalizaram 10 no grupo intervenção e 23 no grupo controle. Desse modo, cada grupo foi composto inicialmente por 22 crianças (11 meninas e 11 meninos), totalizando 44 crianças obesas pareadas em sexo e idade. As crianças do grupo controle não participaram da intervenção, além do acompanhamento médico tradicional. Todas as crianças, de ambos os grupos, foram instruídas a manter suas atividades usuais durante o período estudado e receberam orientações da equipe médica do HIJG, ou de outras unidades onde eram acompanhadas, referentes à manutenção de um estilo de vida ativo e hábitos alimentares saudáveis durante seu acompanhamento, como habitualmente é feito no tratamento de obesidade, independentemente da idade.

Para o cálculo do tamanho da amostra, considerou-se diferença clinicamente significativa de pressão arterial sistólica de 15 mmHg e desvio-padrão de 15 mmHg da população de crianças obesas de Florianópolis, SC (Brasil), com erro tipo I de 5% e erro tipo II de 20%, por ser o fator de risco que mais precocemente determina repercussão cardiovascular na infância e na adolescência.8 Considerando esses parâmetros, o tamanho mínimo da amostra seria de 16 sujeitos em cada grupo. A esse valor foram acrescentados 25%, por possíveis perdas e recusas, o que coincide com o número de crianças que se propuseram a participar.

Após o início do programa, foram adotados os seguintes critérios de exclusão: crianças do grupo caso que não frequentaram pelo menos 90% das sessões16 e cujos cuidadores não participaram das orientações nutricionais; e crianças do grupo controle cujos pares do grupo caso desistiram da intervenção ou foram excluídos da análise.

Todas as crianças foram submetidas às avaliações no HIJG, no período matutino, das 7h 30min às 12 horas, respectivamente até uma semana antes e até uma semana após o início e término do programa de intervenção.

Para a caracterização da amostra, foi aplicado questionário pré-codificado com questões sobre aspectos sociodemográficos e clínico, preenchido pelo cuidador da criança. Além disso, também foram coletadas informações referentes à maturação sexual, por meio da autoavaliação conforme os estágios de maturação de Tanner17 considerando, neste estudo, as informações relativas aos pelos púbicos em ambos os sexos.

Para aferir a massa corporal, foi utilizada uma balança eletrônica com resolução de 100 g e carga máxima de 150 kg. A balança foi aferida antes das medidas e as crianças foram pesadas de pé, descalças, e usando shorts e camiseta. Para medir a estatura, foi utilizado estadiômetro portátil, fixado na parede onde não havia rodapé e com escala e resolução de 1 mm, tomando-se como pontos de referência o vértex e a região plantar.18 O IMC foi determinado pela fórmula massa corporal (kg) dividida pela estatura (m) elevada ao quadrado. O perímetro abdominal foi aferido por meio de fita métrica com resolução de 1 mm. A fita foi aplicada acima da crista ilíaca, paralela ao chão, com o indivíduo em pé, abdome relaxado, braços ao longo do corpo e pés unidos. Todas as medidas antropométricas foram realizadas em duplicata, sempre pelo mesmo avaliador, sendo repetida em caso de discordância.

Na dosagem dos níveis de colesterol total e frações, triglicérides, glicemia e proteína C reativa de alta sensibilidade foi realizada coleta de sangue venoso (4 mL), respeitando jejum de 12 horas. O colesterol total e os triglicérides foram determinados usando método enzimático (SHOD-PAP, Merck®). O HDL-colesterol foi determinado diretamente, após precipitação das outras lipoproteínas.19 O LDL-colesterol foi calculado usando a fórmula de Friedewald et al.20 Os níveis de glicemia foram determinados com o método enzimático (glicose oxidase). Os níveis de proteína C reativa foram determinados utilizando imunonefelometria, pelo método de alta sensibilidade.21

A pressão arterial sistêmica foi mensurada pelo método auscultatório, com esfigmomanômetro de mercúrio e manguito de tamanho adequado ao perímetro braquial, seguindo as diretrizes internacionais. Foram efetuadas duas medidas no braço direito por um médico experiente: após cinco minutos de repouso na posição supina e aproximadamente 25 minutos após a primeira aferição, repetindo-se outra medida se as duas anteriores se encontravam acima do 90º percentil para idade, sexo e estatura.

Todas as medidas foram feitas cerca de uma hora após a coleta de sangue. O lanche foi servido após a coleta de sangue e pelo menos uma hora antes das medidas de pressão arterial. Para fins de análise, foi utilizada a média das duas ou três aferições.

A avaliação da espessura médio-intimal carotídea foi realizada por médico cardiologista, utilizando o aparelho GE (Connecticut, USA), modelo Vivid i®, com transdutor linear de 12 MHz. Foram capturadas seis fotos de cada indivíduo, visualizando longitudinalmente o bulbo carotídeo, sendo posteriormente selecionadas as três imagens mais nítidas, em diástole arterial. Foi realizada leitura digital off line de cada imagem para fins de determinação de espessuras médio-intimal média e máxima. Foram calculadas a média dos valores médios e a média dos valores máximos.

Programa de Intervenção PICCOLI (Programa de Intervenção Cardiometabólica em Crianças Obesas, Lúdico e Interdisciplinar)

O programa de intervenção consistiu de exercício físico com atividades de caráter lúdico e orientação nutricional durante 12 semanas consecutivas.

Os exercícios físicos foram realizados em um ginásio e em um campo (duas vezes por semana) e em uma piscina (uma vez por semana), do Centro de Desportos - CDS, da UFSC (Brasil). Os exercícios foram realizados em três sessões semanais, com duração de 60 minutos cada, totalizando 36 sessões. Cada sessão consistia de alongamento/aquecimento (5-10 minutos), parte principal - atividades físicas aeróbias (40-45 minutos) e volta à calma (5-10 minutos). Os exercícios eram previamente programados e desenvolvidos por dois profissionais de educação física, e englobavam atividades recreativas (como caminhadas, corridas, circuitos, jogos pré-desportivos, brincadeiras na cama elástica, pular corda, danças e atividades na piscina) de intensidade moderada a vigorosa.13,16

As atividades foram realizadas com o objetivo de alcançar uma intensidade de 65 a 85% da frequência cardíaca máxima,16 determinada de forma indireta pela fórmula (Frequência cardíaca máxima = 208 - 0,7 x idade).22 A frequência cardíaca foi acompanhada durante todas as atividades individualmente, por meio da marca Polar (S610i), para assegurar sua manutenção dentro da faixa preconizada. Após os exercícios, os dados dos frequencímetros eram analisados e transportados para um programa informático do Polar (S620i). Ao final de todas as sessões, eram dadas orientações sobre a importância da prática regular de atividade física.

A orientação nutricional foi conduzida por uma nutricionista e um grupo de estudantes do curso de nutrição da UFSC, e consistia de reuniões semanais com os pais e as crianças, com propósito educativo e informativo, objetivando incentivá-los na mudança para hábitos alimentares mais saudáveis. Nestes encontros, foram realizadas palestras sobre orientação nutricional, com a utilização da pirâmide alimentar brasileira.23 Após as explanações, foram realizados jogos e brincadeiras relacionadas ao tema.

Na análise dos dados, inicialmente foram realizados procedimentos da estatística descritiva, com cálculo de média e desvio-padrão nas variáveis com distribuição paramétrica, e mediana e intervalo interquartílico nas variáveis com distribuição não paramétrica. Foram utilizados o teste t pareado e o teste não pareado para os dados com distribuição normal; o teste U de Mann Whitney e o teste do Wilcoxon foram utilizados nas variáveis com distribuição não normal. Todas as análises estatísticas foram realizadas no programa SPSS 17.0, adotando-se nível de significância p < 0,05, admitindo que todos eram testes bicaudais.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC (protocolo n.302/08). Todos os cuidadores das crianças foram previamente esclarecidos sobre o objetivo e delineamento do estudo, e aqueles que aceitaram participar assinaram um Termo de Consentimento Livre, Esclarecido e Revogável. Todas as crianças, antes de serem admitidas na pesquisa, foram submetidas a uma avaliação médica. Após o encerramento do estudo, todas continuaram recebendo acompanhamento médico no serviço de origem.

 

Resultados

Das 44 crianças (22 em cada grupo) que iniciaram o estudo, houve perda de seis crianças no grupo intervenção, e o mesmo foi concluído com 32 crianças (16 em cada grupo). Como os sujeitos eram pareados, os respectivos pares do grupo controle foram excluídos. Não houve diferenças significativas entre os sujeitos que completaram ou abandonaram o estudo (p > 0,05).

A média de idade no grupo intervenção foi 9,6 anos, e no grupo controle, 9,4 anos (p = 0,625). Todas as crianças eram estudantes de escolas da rede pública de Florianópolis, SC, tinham aulas de educação física três vezes por semana, se encontravam no estágio maturacional pré-púbere ou púbere, e a maioria pertencia a famílias com renda mensal entre 2 e 5 salários-mínimos. No grupo intervenção, o tempo destinado a assistir TV ou usar o computador foi 3,6 ± 1,8 horas/dia, e no grupo controle foi 3,1 ± 1,5 horas/dia (p = 0,460). No grupo intervenção, uma criança era medicada para tratamento da dislipidemia e uma para refluxo gastroesofágico. No grupo controle, uma criança era medicada para hipertensão arterial, uma para depressão e uma para asma brônquica. As demais crianças dos grupos não ingeriram medicamentos regularmente.

A análise comparativa dos parâmetros antropométricos e metabólicos iniciais demonstrou que não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos no pré-teste (teste t não pareado ou Mann-Whitney). Entretanto, no pós-teste, os grupos diferiram na pressão arterial sistólica (p = 0,003), na pressão arterial diastólica (p = 0,025), na proteína C reativa (p = 0,002) e na espessura médio-intimal média (p = 0,018), com valores inferiores no grupo intervenção, representando resultados mais satisfatórios.

A Tabela 1 apresenta os resultados do impacto do programa de intervenção sobre o perfil antropométrico e metabólico. Verificou-se que o grupo intervenção apresentou redução significativa do IMC, do colesterol total, do LDL-colesterol e

da pressão arterial diastólica após o término do programa. Para as demais variáveis não foram observadas diferenças significativas. Por outro lado, o grupo controle apresentou aumento significativo do perímetro abdominal e da glicemia de jejum, bem como redução do HDL-colesterol e do colesterol total (Tabela 1). Os dados da tabela indicam que a redução do colesterol total foi observada nos dois grupos; no entanto, a redução foi quase duas vezes maior no grupo intervenção comparado ao grupo controle. Quatro crianças do grupo intervenção passaram da classificação de "obesidade" para "sobrepeso" ao final do programa.

Na Tabela 2 são apresentados os resultados referentes à espessura médio-intimal, triglicérides e proteína C reativa antes e após a intervenção. Foram encontradas mudanças significantes quanto à espessura médio-intimal média e máxima do grupo intervenção; já no grupo controle, houve aumento estatisticamente significante tanto da espessura médio-intimal média quanto máxima. Não foram observadas melhoras significativas nos demais parâmetros analisados após o programa de intervenção no grupo caso. O grupo controle apresentou aumento da proteína C reativa no pós-teste.

 

Discussão

Os resultados deste estudo evidenciaram efeitos positivos do programa no perfil de risco cardiovascular de crianças obesas, especialmente na redução do IMC, do colesterol total, do LDLcolesterol, da pressão arterial diastólica e do espessamento médio-intimal carotídeo no grupo intervenção. Pela primeira vez, foi demonstrado o impacto de um programa de intervenção lúdico na progressão da aceleração da aterosclerose.

Um dos pontos fortes deste estudo foi o fato de a amostra ser pareada por sexo e idade, minimizando as possíveis influências dessas variáveis nos parâmetros antropométricos e metabólicos durante o período estudado.

Os exercícios físicos executados no programa tiveram caráter lúdico, evidenciando que esse tipo de atividade, junto com a orientação nutricional, também exerce efeitos positivos em crianças obesas, além do tratamento convencional (acompanhamento, tratamento e aconselhamento médico tradicionais). Tais resultados podem sugerir que a magnitude do impacto do programa foi similar à observada em outros programas de exercícios físicos estruturados acompanhados de orientação nutricional12 ou sem intervenção nutricional.24

Outro estudo que utilizou intervenção com características semelhantes às do aqui apresentado - 12 semanas de exercícios físicos com atividades recreativas e orientação nutricional - também mostrou efeitos positivos nos componentes da síndrome metabólica e na resistência à insulina, com reduções significativas no IMC, níveis de leptina, pressão arterial sistólica, colesterol total, triglicérides e níveis de glicose em crianças obesas.13 Outro estudo, que envolveu dieta hipocalórica e atividade física aeróbia e jogos lúdicos para crianças obesas, mostrou aumento do HDL-colesterol, sem relação com o valor basal, quando comparado à dieta hipocalórica isoladamente.25 Este estudo mostrou que dieta isolada ou associada ao exercício aeróbio reduz colesterol total e LDL-colesterol, quando estes estão em níveis elevados.25 Outros resultados sugerem que pacientes pediátricos com síndrome metabólica têm grandes melhorias com exercício físico e orientação nutricional, apresentando recuperação significante no perfil lipídico após um curto período de intervenção (duas semanas com exercícios físicos diários).11,26 Nestes programas para crianças obesas com síndrome metabólica, os exercícios ginásticos e os jogos, além da orientação nutricional, resultaram em reduções significativas na massa corporal, IMC, colesterol total, pressão arterial e triglicérides.11,26 Ainda foram encontradas reduções na circunferência abdominal, HDL-colesterol11 e LDL-colesterol.26

Os resultados encontrados no presente estudo mostram que, apesar do período de intervenção ter sido relativamente curto para promover grandes variações no IMC, verificou-se melhoras importantes no perfil metabólico após a intervenção. Isso parece ser especialmente importante para a saúde das crianças, uma vez que a intensidade, a extensão e a prevalência da aterosclerose parecem estar relacionadas à ocorrência e à gravidade dos fatores de risco cardiovasculares descritos tradicionalmente em adultos.8 O fator de maior influência na aceleração desse processo é a dislipidemia, especialmente quando os níveis de colesterol total, LDL-colesterol e triglicérides estão elevados, e a concentração de HDL-colesterol, reduzida.27 Os benefícios na redução dos parâmetros antropométricos (IMC e, apesar de não significativo, do perímetro abdominal) também devem ser destacados, dada a gravidade da obesidade e comorbidades associadas.3,4

A diminuição no espessamento médio-intimal carotídeo foi significante no grupo que sofreu a intervenção, o que pode sugerir que houve redução no risco de eventos relacionados à aterosclerose em médio e longo prazos, se mantidos os hábitos saudáveis. Tal redução corrobora a impressão de estudo prévio28 que mostrou melhora da espessura médio-intimal em seis meses de exercício físico supervisionado, sugerindo reversibilidade significativa da progressão da aterosclerose na infância, quando instituído um programa com exercício físico aliado ao aconselhamento nutricional. Outro estudo também mostrou que a obesidade relacionada à disfunção vascular foi parcialmente reversível com dieta sozinha ou combinada com exercício físico durante seis semanas, com substancial melhora naqueles que persistiram com dieta e exercício por 12 meses, apresentando menor espessamento da carótida.29 No entanto, os resultados encontrados no presente estudo, embora significativos, também podem ser atribuídos a questões técnicas, já que o aparelho utilizado para avaliar o espessamento carotídeo é muito sensível e capaz de detectar mudanças mais sutis e em menor tempo, pois tem uma resolução muito grande. Há a necessidade de novos estudos, no intuito de identificar o significado clínico destas alterações em médio e longo prazos. Ainda assim, a medida ultrassonográfica das espessuras da camada íntima e média das artérias carótidas tem surgido como teste de grande potencial para a avaliação não invasiva da doença aterosclerótica, mostrando a associação entre a espessura da carótida e a incidência de doenças cerebrovascular e coronariana.30

No presente estudo, ao final do programa, não foram encontradas melhoras no perímetro abdominal, no HDL-colesterol, nos níveis de triglicérides, na glicemia de jejum, na proteína C reativa, e na pressão arterial sistólica. Outros estudos também não encontraram efeitos nos níveis de triglicérides25 e na glicose12 após a intervenção, confirmando nossos achados. Porém, há estudos que encontraram melhoras nessas variáveis com programa similar ao nosso.13 É possível que essas diferenças possam ser atribuídas à quantidade e intensidade do exercício físico, duração total do programa, restrição calórica, distribuição de gordura corporal inicial e perfil metabólico inicial. Uma das limitações do presente estudo foi a falta de controle efetivo dos hábitos alimentares do grupo no seu dia a dia, o que pode ter influenciado nos efeitos não significativos após o programa nos níveis de triglicérides, na glicemia e no HDLcolesterol. Além disso, os diferentes parâmetros podem requerer diferentes doses de exercício físico, o que também pode ter influenciado nas variações dos resultados. Estudos com um maior número de crianças talvez tragam contribuições importantes sobre o comportamento de tais variáveis.

É importante destacar que as crianças se mostraram muito receptivas na maior parte das atividades propostas, principalmente nas atividades aquáticas. Apesar de se tratar de um programa de exercício físico com atividades recreativas, as crianças se mantiveram dentro da zona-alvo nas sessões durante, aproximadamente, 40 minutos, com variações individuais conforme dados do polar. As atividades de circuito e na cama elástica foram as que mantiveram as crianças a maior parte do tempo dentro da zona-alvo preconizada. Reforça-se a importância das reuniões nutricionais desenvolvidas ao longo do programa, com o intuito de favorecer mudanças nos hábitos alimentares das crianças.

Outra limitação foi o uso de medicação durante o programa, o que pode ter influenciado nos resultados obtidos. No entanto, os dados iniciais do perfil metabólico e antropométrico mostraram similaridade entre os grupos, independentemente do medicamento utilizado e nenhuma criança do grupo passou ou deixou de ser medicada após o início do acompanhamento. A adiposidade foi aferida apenas pelo resultado do IMC, o que necessariamente não traduz adiposidade.

A perda amostral (27,3%) durante a intervenção não era esperada. As perdas foram superiores às de outros estudos realizados com jovens obesos.12,26 Alguns fatores podem ter contribuído para as perdas, como, por exemplo, a dificuldade de deslocamento, já que muitas crianças necessitavam de transporte público e o projeto não dispunha de recursos para controlar essa dificuldade; e a necessidade da presença de um responsável para conduzir a criança até o local da intervenção, devido ao compromisso no trabalho.

 

Conclusão

O programa de exercício físico e orientação nutricional, adicional ao tratamento clínico convencional, foi efetivo na redução do IMC, do colesterol total, do LDL-colesterol, da pressão arterial diastólica e do espessamento médio-intimal carotídeo (um sinal indireto e precoce da aterosclerose). Esses achados são importantes, considerando as implicações da obesidade na saúde das crianças, alertando sobre a importância da prevenção desses fatores de risco cardiovasculares já na infância.

 

Agradecimentos

Professor Dr. José Cazuza de Farias Junior, professora Ms Ileana Kazapi, professor Wagner Luiz Testa, enfermeira Maria Cristina de Almeida Fernandes, Joy Bergamnn Soares, Adriana Cassia Pirassol, Rogéria Perin, Tatiane Flores, Juliana Carlos e Souza e Pedro Albuquerque.

 

Conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

 

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Autor para correspondência:
Lisiane Schilling Poeta
Laboratório de Desenvolvimento Humano
Rua Pascoal Simone, 358, Coqueiros
Florianópolis, SC, 88080-350, Brasil
E-mail: lisianepoeta@hotmail.com

Recebido em 28 de maio de 2012
Aceito em 14 de agosto de 2012

 

 

* Trabalho realizado na Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil

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