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Revista de Sociologia e Política

Print version ISSN 0104-4478

Rev. Sociol. Polit.  no.12 Curitiba June 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-44781999000100003 

DOSSIÊ POLÍTICA INTERNACIONAL

 

Brasileiros na Guerra Civil Espanhola: combatentes na luta contra o fascismo

 

Brazilians in Spanish Civil War: combatants in the fight against fascism

 

Les brésiliens dans la Guerre Civile Espagnole: impliqués dans la lutte contre le fascisme

 

 

Paulo Roberto de Almeida

Ministério das Relações Exteriores - Brasil

 

 


RESUMO

Este artigo analisa a participação de brasileiros, majoritariamente pertencentes ao Partido Comunista, na guerra civil espanhola e o contexto político-diplomático do conflito espanhol. Baseado em pesquisa original feita em fontes primárias, sobretudo em entrevistas e questionários com ex-combatentes e seus familiares, e em consulta às fontes secundárias disponíveis sobre o assunto, o trabalho constitui um dos primeiros levantamentos sobre o envolvimento de combatentes voluntários brasileiros nos episódios militares daquela guerra civil, com destaque para sua participação nas Brigadas Internacionais.

Palavras-chave: guerra civil espanhola, 1936-1939; Brigadas Internacionais; participação de brasileiros voluntários.


ABSTRACT

This article analyses the participation of Brazilians in Spanish Civil War, most of whom belonged to the Communist Party. The article also analyses the political and diplomatic context of the Spanish conflict. It is based in an original research on primary sources, specially questionnaires and interviews with ex-combatants and their relatives as well as on available secondary sources. This research constitutes one of the first surveys of voluntary involvement of Brazilian combatants in the military episodes of the Spanish Civil War, with emphasis given to their participation in the International Brigades.

Key words: Spanish Civil War, (1936-1939); International Brigades; voluntary participation of Brazilians.


RÉSUMÉ

Cet article analyse la participation des brésiliens, membres, pour la plupart, du Parti Communiste dans la guerre civile espagnole et le contexte politico-diplomatique du conflit espagnol. Fondé sur des recherches originales faites à partir des sources primaires constituées essentiellement d'interviews et de questionnaires réalisés auprès des anciens combattants et de leurs parents ainsi que sur la consultation des sources secondaires disponibles sur le sujet, ce travail représente une des premières études sur l'engagement de combattants brésiliens volontaires dans les épisodes militaires de cette guerre civile. Il accorde une place particulière à la participation de ces brésiliens dans les Brigades Internationales.

Mots-cles: guerre civile espagnole, 1936-1939; brigades internationales; participation de brésiliens volontaires.


 

 

I. INTRODUÇÃO: BIOGRAFIA DE UMA HISTÓRIA

A Guerra Civil Espanhola começou em julho de 1936 e terminou em março-abril de 1939: durante todo o período do conflito, ambas as partes em luta, os republicanos governamentais de um lado, os monarquistas e direitistas revoltosos de outro, contaram com apoio internacional e solidariedade política e material de suas correntes de adesão respectivas; o movimento democrático e comunista internacional os primeiros, as forças organizadas do nazi-fascismo europeu os segundos. A ajuda ativa, para ambos os lados, traduziu-se também no envio de contingentes de combatentes estrangeiros - voluntários e profissionais - que foram integrados às diversas forças e exércitos em presença nos campos de batalha, embora desproporcionais em número e em organização e, sobretudo, dispondo de logísticas militares diferenciadas e de suprimentos bélicos desiguais, quando comparados entre si.

Do lado republicano, que é a vertente privilegiada neste ensaio, a solidariedade internacionalista para com o governo legal de Frente Popular manifestou-se pela criação, em quase todo o mundo, de "comitês de ajuda à Espanha republicana", em especial pelo afluxo de voluntários estrangeiros, vários milhares deles, que se agrupariam nas "Brigadas Internacionais". O Brasil também se fez presente, embora modestamente, nesse movimento internacional de solidariedade, através do envio irregular e clandestino - pois que coordenado pelo Partido Comunista, então na ilegalidade - de um pequeno grupo de combatentes experimentados que, apesar de dispersos em diferentes unidades militares, distinguiram-se todos pela bravura demonstrada nas várias frentes de luta em que estiveram engajados e pela dedicação à causa legalista, que era também identificada, pela maior parte deles, com a luta antifascista e com a causa do socialismo internacional.

Este estudo de caráter histórico intenta, precisamente, determinar as circunstâncias políticas, focalizar a amplitude humana - que foi, no confronto com a experiência de outros países, relativamente modesta, diga-se desde logo - e discorrer, com base na documentação disponível, sobre as modalidades individuais da participação de voluntários brasileiros na Guerra Civil Espanhola, do lado republicano. Trata-se, manifestamente, de tema pouco conhecido dos historiadores brasileiros contemporâneos, insuficientemente desvendado à opinião pública de um modo geral e praticamente ignorado pelas gerações mais novas. Buscando constituir um primeiro esforço de recuperação da memória política do movimento comunista brasileiro nesse setor - e por isso mesmo introdutório a pesquisas ulteriores -, o presente trabalho pretende ainda prestar uma modesta homenagem a esse punhado de brasileiros internacionales que regaram com seu sangue as terras de Espanha na luta contra as forças do fascismo internacional1.

Como todo esforço de pesquisa histórica, este trabalho também tem a sua própria história, que deve ser brevemente mencionada. Em outubro de 1979, depois de mais de três anos de pesquisa e de coleta de depoimentos orais e escritos junto a ex-combatentes brasileiros das Brigadas Internacionais e suas respectivas famílias, eu concluía a primeira versão de um texto cuidadosamente intitulado "Brasileiros na Espanha: um estudo preliminar sobre a participação de brasileiros na guerra civil espanhola'. Tratava-se, como seu subtítulo indicava, de um levantamento, largamente provisório, dos brasileiros que tinham participado do trágico conflito espanhol durante a segunda metade dos anos trinta, que tinham sido caracterizados pela ascensão dos fascismos e dos regimes de direita em diversos países da Europa e da América Latina, bem como por tentativas comunistas de "subversão da ordem" em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.

Esse envolvimento de brasileiros na guerra civil espanhola, a quase totalidade na qualidade de militares profissionais, constitui, claramente, um capítulo, ou pelo menos um subcapítulo, do movimento comunista brasileiro. Com efeito, a maior parte dos brasileiros que tomou parte na guerra civil, na condição de combatentes voluntários em favor do governo republicano espanhol, era, como se sabe, egressa do movimento comunista e aliancista de 1935, tinha conhecido a prisão ou o exílio no período imediatamente posterior à tentativa de golpe militar de novembro daquele ano, em várias capitais do Brasil, e respondia, dessa forma, aos apelos de "solidariedade internacionalista" lançados pelo movimento comunista internacional; alguns poucos cederam a impulsos vagamente românticos, enquanto outros tentavam continuar carreiras militares cortadas pelas desventuras políticas do movimento tenentista no Brasil.

Aquele trabalho de pesquisa histórica, conduzida em plena vigência do regime militar anti-comunista que dominou o Brasil entre 1964 e 1985, e que podia ser considerado como a primeira investigação seguindo seriamente os cânones da disciplina no Brasil - já que os poucos documentos divulgados até então ou os depoimentos existentes sobre a participação de combatentes brasileiros eram, et pour cause, inspirados politicamente -, permaneceu rigorosamente inédito durante vários meses, até que, por iniciativa de um velho combatente de esquerda, Eduardo Maffei - ele mesmo autor de uma tetralogia sobre o ciclo do tenentismo e as lutas operárias nos anos vinte e trinta (v. MAFFEI, 1978, 1979a, 1980 e 1982) -, me decidi por sua publicação em revista de penetração nos meios então visados, ou seja a esquerda militante. Naquela conjuntura, de amplas dúvidas sobre o sucesso final da política de abertura iniciada pelo governo Geisel e atabalhoadamente seguida pelo governo Figueiredo - com ameaças e manifestações efetivas de atentados da direita militar e a plena vigência de um aparato de repressão ainda bastante eficiente e operacional -, eu decidi não publicar o trabalho sob meu próprio nome, uma vez que havia recém-iniciado minha carreira no serviço exterior brasileiro e tinha motivos bem fundados para pensar que um trabalho do gênero seria considerado como - como de fato era, em parte - uma "provocação" direta aos herdeiros das "vítimas" da Intentona de 1935. De fato, o trabalho era em grande medida uma homenagem pessoal àquele punhado de "comunistas" e homens de esquerda que tinham pego em armas em terras estrangeiras para combater o fascismo internacional, mas que também tinham tido participação na luta contra o "fascismo" brasileiro, o dos anos trinta e o que ainda teimava em se manifestar na turva conjuntura dos anos setenta e início dos oitenta.

A primeira versão do trabalho foi então publicada sob o título pouco apelativo e vagamente críptico de "Brasileiros na Espanha", sob o pseudônimo que constituía meu alter ego literário e militante desde os anos de auto-exílio na Europa, entre os anos 1971 e 1977 (RODRIGUES, 1980), no periódico Temas de Ciências Humanas, então uma revista dos meios marxistas independentes que era editada em São Paulo. Eu estava, então, em meio a uma carreira de "escritor militante", centrado em temas políticos e sociais, que se manifestou em vários outros trabalhos também publicados sob cobertura de pseudônimo, em atenção às circunstâncias da época (RO-DRIGUES, 1973a, 1973b, 1974, 1976, 1978, 1979a, 1979b, 1981 e 1987), e cuja paternidade efetiva pode agora ser finalmente recuperada.

No seguimento imediato de sua publicação, continuei a acumular outros elementos de informação, em fontes primárias e secundárias, tendo inclusive fornecido muito material a esse respeito ao pesquisador norte-americano John W. F. Dulles. O brasilianista da Universidade de Texas em Austin, grande conhecedor do movimento anarquista e comunista brasileiro, apresentou agradecimentos indiretos a este autor em sua segunda obra sobre a história do movimento comunista no Brasil - "Grande ajuda me foi dada pelo pesquisador Pedro Rodrigues, que muito me ensinou sobre a participação dos brasileiros na Guerra Civil espanhola..." -, na qual inseriu um capítulo, apropriadamente intitulado "Brasileiros nas Forças Republicanas Espanholas (1936-1939)", na parte VI do utilíssimo e acurado O comunismo no Brasil (DULLES, 1985, p. 7, p. 174-184 e p. 312-316).

A documentação recolhida, em arquivos brasileiros e do exterior, permaneceu contudo devidamente "arquivada" em meus próprios fundos documentais, enquanto as poucas "fontes orais" disponíveis naquela época iam, paulatinamente, desaparecendo fisicamente. Muitos pontos, entretanto, mantinham-se - e de certa forma ainda mantêm-se - obscuros, como aqueles relativos às relações dos comunistas brasileiros com os "agentes de Moscou" e, mistério dos mistérios, o desaparecimento na Espanha de um desses brasileiros de esquerda considerados "traidores", pois que vinculado, aparentemente, aos "trotsquistas" do POUM2. Uma tentativa do autor de penetrar, ainda durante a era socialista, nos arquivos soviéticos e de investigar, precisamente, o destino de Alberto Besouchet, não logrou resultados positivos.

Passados mais de vinte anos do período inicial da pesquisa - e decorridos agora seis décadas do início do conflito espanhol, com democracias restauradas e funcionando plenamente tanto na Espanha como no Brasil -, penso que chegou a hora de retomar aquele velho texto preliminar, completá-lo com algumas outras pesquisas empreendidas depois de sua redação original e oferecê-lo novamente à publicação, desta vez com meu próprio nome. Uma palavra de reconhecimento e de desculpas se impõe a todos os excombatentes e seus familiares que tão gentilmente cederam-me preciosas horas de seu tempo e atenção, nos anos 1976-1979, para registrar depoimentos orais, responder a intermináveis perguntas e questionários escritos e que esperavam, naturalmente, que daquele esforço fosse emergir um livro, capaz de realmente prestar-lhes uma justa homenagem e registrar para a história os gestos heróicos do juventude.

Naquela época, nada mais consegui senão uma publicidade semi-clandestina das gestas individuais e coletivas das quais eles tinham sido os heróicos protagonistas quarenta anos antes, muito embora eu tenha colaborado modestamente para torná-los um pouco melhor conhecidos de alguns pesquisadores e especialistas, entre eles, como referido, o brasilianista John W. F. Dulles, com quem colaborei ativamente durante alguns anos em pesquisas sobre os movimentos comunista e operário, brasileiro e internacional. A revista "marxista" de São Paulo tinha escassa penetração fora de um círculo restrito de iniciados, o que explica que esse trabalho - apesar de referência bibliográfica em alguns trabalhos posteriores desses meios (MENDES DE ALMEIDA, 1981, p. 96) - permaneceu praticamente desconhecido durante as duas últimas décadas.

Como forma de resgatar a memória histórica dessas épocas pregressas - tanto os anos de chumbo dos fascismos europeus, como os próprios anos de chumbo do autoritarismo no Brasil, na era Vargas e durante o período militar do regime de 1964 -, chegou a hora de retomar aquele texto, completá-lo com os materiais acumulados desde então e publicar um novo trabalho, corrigindo e ampliando o original onde necessário. O presente artigo não se destina apenas a reconstituir a história "verdadeira" do envolvimento de brasileiros na guerra civil espanhola - um episódio carregado de paixões e ódios, essencialmente explorado para fins propagandísticos, políticos e ideológicos, por várias correntes de pensamento, e não apenas marxistas, durante muito tempo -, mas busca, também, prestar uma singela homenagem àqueles homens que souberam arriscar suas vidas por uma causa que era, então, vista como essencial para a defesa da democracia, para a liberação da exploração do homem pelo homem, para o progresso da humanidade. Poucos desses homens se encontram ainda vivos, dentre eles três entrevistados pelo autor: Apolônio de Carvalho, Delcy Silveira e Homero de Castro Jobim, este último o que inspirou o escritor gaúcho Érico Veríssimo a escrever o romance Saga, cujo personagem principal vai combater na Espanha, mas que volta desiludido3. A todos eles, meu renovado testemunho de apreço e admiração, sob a forma desta nova homenagem historiográfica.

 

II. QUESTÕES DE MÉTODO E LIMITES DA PESQUISA

A documentação disponível sobre o tema era e permanece paupérrima, quase inexistente, o que levou este autor a basear-se fundamentalmente em depoimentos pessoais (orais e escritos) de excombatentes, fonte primária ainda não explorada em toda a sua extensão. No período recente, pesquisadores acadêmicos voltaram a interessar-se pelo tema, como manifestado em artigo de levantamento documental e em livro sobre a guerra civil por professores de São Paulo (v. MEIHY, 1996; MEIHY e BERTOLLI, 1996), mas que parecem ignorar a publicação daquele texto pioneiro de "Pedro Rodrigues", que primeiro procedeu a essa avaliação crítica da bibliografia publicada e das fontes existentes.

Os trabalhos escritos, dos próprios voluntários ou de diletantes, contam-se nos dedos de uma só mão; podemos alinhá-los cronologicamente. Em 1940, o romancista gaúcho Érico Veríssimo publicava seu romance Saga, primeira manifestação da presença de um brasileiro na Guerra Civil Espanhola, exposta em forma literária: apoiado principalmente nas informações transmitidas pelo ex-combatente Homero de Castro Jobim, a primeira parte do romance em questão apresentava o itinerário de um brasileiro antifascista - sintetizado na personagem Vasco Bruno - que voluntariamente se alista no corpo de brigadistas internacionais; essencialmente subjetivo, o romance de Veríssimo é também excessivamente pessimista quanto à luta travada pela Espanha republicana contra seus inimigos fascistas.

Decretada a anistia em 1945 e iniciado o processo de redemocratização do país, diversos excombatentes da Guerra Civil Espanhola, a maior parte deles egressa do movimento aliancista de 1935 e condenados a longas penas pelo Tribunal de Segurança Nacional, voltam ao Brasil e aqui recomeçam sua militância política. Apenas um, contudo, colocaria no papel sua experiência espanhola de combatente internacional: o ex-Segundo Tenente José Gay da Cunha que, em 1946, publicaria pela Editora Globo o único relato pessoal, circunstanciado e objetivo, sobre o envolvimento de brasileiros naquele conflito, Um brasileiro na guerra espanhola. O livro de Gay da Cunha constitui, até hoje, com a possível exceção parcial das memórias de Apolônio de Carvalho - adiante referidas -, o único depoimento original de um ex-combatente brasileiro sobre episódios militares da guerra e apresentase, assim, como uma preciosidade documental. Por ocasião do cinqüentenário da Guerra Civil espanhola, o livro foi novamente editado no Brasil, sem qualquer modificação em relação ao texto original, à exceção de pequeno acréscimo em seu título e de um prefácio encomiástico por Eduardo Maffei (GAY DA CUNHA, 1986).

O romancista Jorge Amado, em sua trilogia Os subterrâneos da liberdade, também aborda o tema, embora de forma episódica, através da personagem Apolinário Rodrigues - visivelmente calcada na figura de Apolônio de Carvalho -, militar perseguido em 1935 e que se torna capitão do Batalhão Lincoln e depois major do Exército Republicano, cujo itinerário é, na verdade, uma composição das experiências dos diversos combatentes brasileiros filiados no PCB. O relato ocasional do combatente brasileiro na Espanha é, na obra de Jorge Amado, algo como o manifesto político da maior parte dos voluntários brasileiros, quase todos vinculados ao movimento comunista, e constitui, por assim dizer, a antítese do enfoque captado em Saga de Veríssimo.

Nas duas décadas seguintes nada mais foi publicado sobre esta questão, salvo esparsas e ocasionais referências em discursos ou artigos de militantes e dirigentes comunistas, contendo mais invectivas contra o regime franquista do que informações objetivas sobre a atuação dos brasileiros na guerra civil. Em 1975, finalmente, Roberto Morena - líder sindicalista exilado e um dos poucos civis a terem integrado o contingente brasileiro na Espanha - publicou na revista Études brésiliennes, editada pelo PCB no exterior, três pequenas páginas sobre o tema. O artigo de Morena, "La solidarité brésilienne avec les luttes des Républicains Espagnols: souvenirs d'un combattant", constitui provavelmente o primeiro e único levantamento sistemático - por um protagonista direto - dos brasileiros que participaram das Brigadas Internacionais (MORENA, 1975b). Mesmo a biografia de Apolônio de Carvalho, Vale a pena sonhar, a despeito de fazer freqüentes menções a episódios envolvendo diversos outros brasileiros engajados na empreitada, não comporta uma lista sistemática daqueles que foram seus companheiros na luta políticomilitar em solidariedade à República espanhola (CARVALHO, 1997).

As fontes documentais até o momento da elaboração da primeira versão deste trabalho resumiam-se, assim, a esses poucos trabalhos publicados, devendo o pesquisador eventual utilizarse dos recursos da história oral, com a ajuda dos ex-combatentes que estavam ainda disponíveis para depoimento. Para fins do primeiro levantamento, o autor contou com a preciosa ajuda de José Homem Correia de Sá, ex-Sargento de aviação, envolvido no levante da Escola de Aviação Militar de novembro de 1935, e combatente incorporado à XII Brigada Internacional (Batalhão Garibaldi), cuja boa vontade e disposição cooperativa foram indispensáveis à consecução do estudo. Deve ser ainda assinalada a colaboração inestimável de Apolônio de Carvalho, à época da entrevista exilado em Paris, de Delcy Silveira, Homero Jobim e Nemo Canabarro, estes últimos vivendo no Brasil. Roberto Morena, infelizmente morto no exílio em setembro de 1978, deixou depoimentos de uma grande riqueza fatual e humana, alguns recolhidos pelo próprio autor, outros preservados pelo "Archivio Storico del Movimento Operaio Brasiliano", de Milão. Por fim, o Professor John W. F. Dulles, da Universidade do Texas em Austin, suplementou a primeira versão do trabalho com diversas informações e cópias de depoimentos realizados por ele com alguns ex-combatentes, assim como com indicações e dados transmitidos por outros estudiosos do assunto.

Posteriormente à elaboração da primeira versão da pesquisa - feita inteiramente no Brasil, cabe observar - o autor recolheu ainda informações primárias junto a alguns familiares dos combatentes, junto a arquivos, centros de documentação e associações de ex-combatentes em diversos países da Europa, bem como compulsou a bibliografia existente no exterior, bastante numerosa em títulos e orientações de análise. Nenhuma dessas fontes secundárias agregou, entretanto, informações relevantes sobre a participação de brasileiros, salvo casos individuais de estrangeiros residentes durante um certo tempo no Brasil (vários italianos ou judeus, por exemplo) e algumas estatísticas indiretas sobre sua participação nos conflitos, de resto dificilmente verificáveis. Estão nesse caso a excelente pesquisa conduzida contemporaneamente pelo suíço Gerold Baumann, em relação aos hispano-americanos, especialmente os peruanos, que combateram na guerra espanhola (BAUMAN, 1979) e o estudo clássico sobre as Brigadas Internacionais por um historiador espanhol, cujas fontes para a participação brasileira resumem-se, contudo, ao livro de Gay da Cunha (CASTELLS, 1974). Cabe mencionar ainda, do ponto de vista documental, "fichas de brasileiros" na Espanha, copiadas dos arquivos do Comintern, disponíveis no Arquivo Edgard Leuenroth, bem como pesquisas em fundos diversos empreendidas por historiadores brasileiros, às quais no entanto o autor não teve acesso no momento de concluir este trabalho de sistematização4.

Mais recentemente, veio agregar-se à literatura disponível no Brasil o livro autobiográfico de Apolônio de Carvalho, no qual o ex-combatente dedica um capítulo inteiro - sintomaticamente intitulado "No pasarán!" - aos episódios de sua aventura espanhola, onde fornece igualmente indicações preciosas sobre os destinos de outros combatentes saídos do Brasil (CARVALHO, 1997). De forma geral, contudo, tanto o testemunho pessoal de Gay da Cunha, escrito poucos anos depois de seu envolvimento num conflito que ainda estava nas memórias dos contemporâneos, como as memórias bastante "defasadas", em termos estritamente cronológicos, de Apolônio de Carvalho constituem dois exemplos de relatos mais impressionistas do que propriamente objetivos sobre os eventos ou processos a que assistiram ou de que participaram seus respectivos autores, escapando, portanto, aos cânones "científicos" do trabalho historiográfico enquanto tal; eles constituem, no entanto, valiosos aportes à pesquisa histórica e a uma informação "primária" sobre esse capítulo ainda agora pouco conhecido do movimento comunista brasileiro.

É com base, portanto, numa pluralidade de fontes "orais" e no recurso extensivo à documentação escrita disponível que reconstruímos este breve relato, essencialmente fatual e objetivo, em torno desse side-chapter internacional do movimento de esquerda no Brasil, sobre o qual se procurará agora deitar mais luzes. As insuficiências do relato derivam da própria precariedade das fontes existentes, tal como relatado neste trabalho, mas é evidente que pesquisas adicionais em arquivos e fundos documentais oficiais - sobretudo aqueles vinculados às instituições militares e às chancelarias dos países envolvidos, bem como os recursos ainda largamente inexplorados do "movimento comunista internacional", em primeiro lugar do PCUS e dos partidos comunistas e de esquerda diretamente vinculados ao conflito espanhol - poderão suplementar a informação ainda lacunar aqui oferecida. Trata-se de um trabalho a ser conduzido doravante por historiadores profissionais, e não por um simples "militante de base, pesquisador diletante e amante da História" como este que aqui escreve.

 

III. A REVOLUÇÃO E A GUERRA DA ESPANHA

Em 1930 a Espanha assiste à queda da ditadura de Primo de Rivera, que durante sete anos nada mais fez senão exacerbar os conflitos sociais e o sentimento antimonarquista de grandes camadas da população (BRENAN, 1944). Sua queda significa assim a ascensão dos grupos políticos republicanos: colocado em minoria e isolado politicamente, o rei Alfonso XIII abdica e, imediatamente, é proclamada a segunda República. Nas eleições para as Cortes, em julho de 1931, os socialistas (cento e dezesseis cadeiras), mas sobretudo os republicanos de esquerda (cento e sessenta cadeiras) conseguem estabelecer uma maioria política; os republicanos de direita (cento e dez) e a direita, com apenas sessenta cadeiras, ficam em minoria. Apesar da CNT (Confede-ración Nacional del Trabajo) e da FAI (Federación Anarquista Ibérica) - respectivamente a central sindical e o partido político dos anarquistas espanhóis, bastante poderosos - terem recomendado voto nulo, as massas trabalhadoras apóiam em peso os candidatos republicanos. Segue-se um período de conquistas sociais e econômicas favorecendo o proletariado urbano, avança-se no sentido da concessão de autonomia para as províncias bascas e catalãs e, no campo, começam a ser implementadas as primeiras leis de reforma agrária e de expropriação dos latifúndios.

A crise econômica mundial e o período de recessão que atinge toda a Europa, trazendo desequilíbrios econômicos igualmente para a Espanha tornam, contudo, difícil o prosseguimento da política reformista: greves, atentados políticos e repressão oficial causam o descrédito do governo. Em novembro-dezembro de 1933 são dissolvidas as Cortes e convocadas novas eleições: a direita, agora reagrupada no CEDA (Confederación Española de Derechas Autónomas) de Gil Robles, reconquista a maioria com duzentos e sete cadeiras, seguida pelos republicanos de direita (cento e sessenta e sete). Os socialistas conseguem apenas cinqüenta e nove cadeiras e os republicanos de esquerda, que haviam liderado o governo anterior, caem ainda mais (quarenta cadeiras).

Nos dois anos seguintes, 1934 e 1935, o governo instalado persegue uma política de anulação pura e simples das conquistas sociais e regionais alcançadas no período anterior. Em outubro de 1934, com o crescente descontentamento popular e novas exigências da direita, a crise política se transforma em rebelião aberta: a greve geral comandada pelos socialistas da Unión General de Trabajadores, liderada por Largo Caballero, provoca uma insurreição armada em Madri, Astúrias e Barcelona. Nesta última cidade, a revolta é rapidamente dominada, pois a CNT se havia recusado a apoiá-la; em Madri, o exército emprega a força bruta e os socialistas não conseguem obter armas. Apenas nas Astúrias os trabalhadores conseguem resistir durante um certo tempo às investidas das tropas mouras e da Legião Estrangeira, comandadas por um oficial monarquista, do séquito do rei Alfonso XIII e de nome Francisco Franco. O relativo sucesso da revolta nas Astúrias se explica também pelo fato de que, pela primeira vez na história política da Espanha contemporânea, a CNT, a UGT e o Partido Comunista haviam unido suas forças. Mas, o resultado das rebeliões abortadas é catastrófico: de outubro de 1934 até janeiro de 1936, a direita domina sozinha o governo republicano.

Nesse período, a situação internacional também passa por mudanças significativas: é um período de ascensão dos regimes autoritários e de um recuo concomitante na idéia liberal da representação democrática. A Liga (ou Sociedade) das Nações era considerada, cada vez mais, um organismo ineficiente: apesar da adesão, em 1934, da URSS - mas no mesmo período dela sairão a Alemanha, a Itália e o Japão -, a SDN se revela impotente para enfrentar as novas situações políticas derivadas de uma alteração na estrutura do poder mundial. As mudanças no equilíbrio de forças provocadas pela política agressiva das potências fascistas emergentes - invasão da Manchúria pelo Japão desde 1931 - colocam o sistema mundial em crise: a "Europa de Versalhes" deixava de existir em face do rearmamento nazista e da agressão de Mussolini à Etiópia (anexão da Abissínia em 1935 e fracasso das sanções econômicas decretadas pela SDN). Alemanha e Itália, ademais, lideravam o anticomunismo europeu; a reação contra a "ameaça bolchevista" toma forma no Pacto Anti-Comintern, assinado inicialmente pela Alemanha e pelo Japão, recebendo um ano mais tarde a adesão da Itália.

O movimento comunista internacional, por sua vez, já era, nessa época, um instrumento dócil nas mãos de Stalin, servindo aos objetivos da política exterior soviética: face ao agravamento da ameaça fascista, abandonou-se a desastrosa política de isolamento e de hostilidade em relação às correntes moderadas de esquerda praticada nos anos vinte - que havia inclusive facilitado a ascensão da direita em alguns países - em favor da colaboração com os movimentos socialistas e com as forças social-democratas no seio do movimento operário, política ratificada no sétimo, e último, congresso do Comintern (a III Internacional Comunista, criada por Lênin em 1919). A nova tática apresenta resultados imediatos: na França, em maio de 1936, o "Front Populaire" ganha as eleições legislativas, instalando-se logo em seguida o governo de Léon Blum.

Na Espanha, o Presidente moderado Alcalá-Zamora dissolve, em janeiro desse ano, o gabinete e as Cortes, convocando novas eleições para o mês seguinte. Os partidos de esquerda, com exceção dos anarquistas, constituem a "Frente Popular" que incluía os socialistas do PSOE (Partido Socialista Obrero Español), republicanos de esquerda, a União Republicana (grupo dissidente dos radicais), o partido sindicalista, a Federação das Juventudes Socialistas Unificadas (união das juventudes socialista e comunista), o Partido Comunista e o POUM (de orientação anti-stalinista). Os anarquistas, alertados para o perigo de um governo de direita, concedem seu apoio crítico, com o que a Frente Popular conquista duzentos e cinqüenta e seis cadeiras nas eleições, contra os cinqüenta e cinco lugares do centro (republicanos de direita) e os cento e quarenta e três da direita renovada. O desdobramento imediato é a remoção de Alcalá-Zamora da presidência e a instalação de Manuel Azaña: nos meses seguintes o ambiente político e social se torna extraordinariamente tenso, com lutas nas ruas, distúrbios nos principais centros econômicos do pais e inquietação nas forças armadas, ao mesmo tempo em que Largo Caballero, cortejado pelos comunistas, desponta como "herói" socialista.

A revolução social, contudo, não começaria antes de consumada a divisão do país, social e militarmente, em julho desse ano; até lá, os gabinetes se sucedem, em meio à crise política e greves esporádicas. Os atentados políticos e ideológicos se multiplicam: na primeira quinzena do mês de julho de 1936 são assassinados o Tenente Castillo, das forças policiais, e o líder dos monarquistas Calvo Sotelo. No dia dezessete, finalmente, depois de longa maturação das forças direitistas e monarquistas, ocorre o levante do Marrocos, seguido no dia seguinte pela revolta direitista que irrompe em Madri e se estende por toda a Espanha. O país e a sociedade se dividem: o dia 18 de julho marca o começo de uma das mais longas e cruéis guerras civis da história moderna5.

Mas não se tratava de uma "simples" guerra civil, no sentido em que as partes em luta se digladiavam por questões meramente locais ou se dividiam em função de querelas políticas nacionais. A Espanha dos anos trinta foi um grande laboratório político e militar de todas as rupturas ideológicas deste século, em particular a luta entre a democracia, o fascismo e o comunismo, como salienta Jackson no prólogo a sua obra (1981, p.17). No mundo inteiro, toda uma geração de militantes de esquerda e de cidadãos progressistas, de modo geral, se sentiu tocada pelo drama que tinha lugar no país que, nas lutas contra as tropas napoleônicas, tinha inventado o conceito de "liberal".

De fato, a tragédia espanhola adquiriu imediatamente uma dimensão internacional. Se, de um lado, os conspiradores de direita, como escreveu Raymond Carr, tinham planejado um golpe militar quase sem resistência nas guarnições de província, seguido de uma marcha triunfal sobre Madri, eles falharam. Se, por sua vez, o governo republicano reagiu otimisticamente ao que chamou de "conspiração absurda", ele ficou logo desiludido com a extensão da rebelião (1980, p. 135). Como afirmou por outro lado o outro Carr, a guerra civil se converteu logo em problema internacional: "O manifesto de Franco em Las Palmas, transmitido por rádio na manhã de dezoito de julho de 1936, pode não ter chamado muito a atenção em Paris ou Londres, mas deve ter sido escutado com satisfação em Berlim e Roma" (CARR, 1986, p. 39). Na vertente propriamente ideológica do conflito, a dimensão internacional da guerra civil que se iniciava ficou patente tanto para a União Soviética, que no entanto hesitou em engajar-se no apoio direto à República - preferindo integrar o Comitê de Não-Intervenção para não dificultar seu já complicado relacionamento com as democracias "burguesas" do Ocidente, num momento de ascensão dos fascismos na Europa - como para os regimes de direita, em especial a Alemanha hitlerista, que via num futuro regime "irmão" na península uma fonte segura de matérias primas em caso de guerra -, aliás já antevista e objeto de cuidadosa preparação - e um possível contrapeso a uma eventual guerra em duas frentes (BOLLOTEN, 1979, p. 102105).

 

IV. A INSURREIÇÃO ALIANCISTA NO BRASIL

A substituição, na direção do Comintern, de Manuilski por Dimitrov marca a passagem no âmbito das táticas do movimento comunista internacional, da antiga posição sectária para uma política de "frentes populares". No entrechoque de posições, contudo, a América Latina serviria de teste para ambas as táticas: no Chile se faria a experiência da unidade eleitoral do movimento de massas sob a forma de uma "frente popular", enquanto no Brasil seria acelerada a marcha para a preparação de um levante armado, conforme intenção de Luiz Carlos Prestes e do então secretário do PCB, Miranda (DULLES, 1977, p. 418419)6. A missão da frente popular brasileira, antifascista e antiimperialista, seria criar as condições para um levante nacional na base do "programa popular revolucionário", para o que se utilizaria do grande prestígio de Prestes, notadamente no meio militar7. A Aliança Nacional Libertadora (ANL) congregaria, efetivamente, grande número de oficiais militares, que depois integrariam o contingente brasileiro na Espanha, corno por exemplo o Major Carlos da Costa Leite, revoltoso dos anos vinte e conhecido como o "Prestes da cidade" (AMADO, 1979, p. 169).

Outro militar de capacidade comprovada, que também lutaria mais tarde pela Espanha republicana, integrando a direção da ANL no Rio de Janeiro durante sua fase legal, era o Primeiro Tenente Nemo Canabarro Lucas. Revolucionário histórico, o Tenente Canabarro participou de todas as lutas do período tenentista, incluindo a revolução constitucionalista de São Paulo, em 1932, e uma atuação voluntária, do lado paraguaio, na Guerra do Chaco, durante quatorze meses, tendo sido promovido a capitão do exército (CANA-BARRO LUCAS, 1979b)8. De uma forma geral, todos os militares brasileiros que viriam posteriormente a participar da Guerra Civil Espanhola militaram na ANL durante seu período legal e, grande parte deles, vinculados ou não no PCB, tiveram envolvimento na preparação da insurreição aliancista e seus desdobramentos militares.

A maior parte, também, se encontrava no Rio de Janeiro à época da insurreição, apesar de que o governo e as autoridades militares, alertados quanto às atividades aliancistas de muitos deles, se tenham encarregado, depois da decretação da ilegalidade daquela organização, em julho de 1935, de despachá-los para pontos longínquos no interior do país. O Major Costa Leite, para citar um caso, se encontrava comandando um regimento de artilharia em Bagé (MORENA, 1976), onde também estava servindo o jovem tenente Apolônio de Carvalho (CARVALHO, 1979a e 1997, p. 58). Ambos dedicam-se a organizar, mesmo veladamente, as bases da insurreição da Aliança Nacional Libertadora do sul do País. No Rio Grande do Sul se encontrava igualmente Roberto Morena que, depois de mais de um ano de exílio no Uruguai, se dedicava ao trabalho de organização do Partido Comunista nas cidades da fronteira e na região de Porto Alegre (MORENA, 1976). "De 23 a 27 de novembro de 1935, três insurreições isoladas, a partir de unidades militares localizadas em Natal, Recife e Rio de Janeiro, desafiaram a ordem estabelecida, em nome da revolução popular e da ANL. Todas falharam em ganhar apoio popular; todas foram subjugadas rapidamente, dando a Vargas um pretexto para suspender a Constituição e instalar o estado de sítio prolongado, obscurecendo assim, temporariamente, as dificuldades políticas que tinham atingido seu clímax em novembro de 1935 [...]" (LEVINE, 1970, 104).

Em Recife, o movimento se estendeu durante dois dias, vinte e quatro e vinte e cinco, causando mais de cem vítimas e levando à derrota total dos revoltosos: o tenente Alberto Besouchet foi um dos poucos que conseguiu escapar (DULLES, 1977, p. 425)9. No Rio de Janeiro, a insurreição ficou restrita aos quartéis do 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, e da Escola de Aviação Militar, no Campo dos Afonsos, levando à prisão mais de 1 100 rebeldes e suspeitos (LEVINE, 1970, p. 119-120). No Rio Grande do Sul, Roberto Morena e os demais militantes da ANL foram "surpreendidos com a [notícia da] insurreição no Rio Grande do Norte; ninguém esperava". Acompanhando já os combates em Pernambuco, Morena argumentou com seus companheiros que qualquer tentativa de se lançar a insurreição também no Rio Grande do Sul "resultaria fatalmente num desastre" (MORENA, 1976); contentaram-se, então, em lançar um manifesto apoiando a luta e opondo-se a que qualquer força estadual fosse em socorro do governo federal.

A repressão que se seguiu fez com que o PCB deixasse de existir efetivamente como organização política, embora sua estrutura organizacional permanecesse relativamente intata10. O Tribunal de Segurança Nacional, criado especialmente para julgar os revoltosos de 1935, funcionou ativamente nos dois anos seguintes. Já em dezembro daquele ano, o decreto governamental nº 558 determinava a perda de patentes e posto de oficiais, sem prejuízo de ação judicial, dos militares que haviam participado do movimento insurrecional nas unidades do Rio de Janeiro, entre os quais se encontravam futuros voluntários das Brigadas Internacionais: o Primeiro-tenente Celso Tovar Bicudo de Castro e os Segundos-tenentes Joaquim Silveira dos Santos, Dinarco Reis e José Gay da Cunha (SILVA, 1970, p. 126). Em abril de 1936, pelo decreto nº 741, a mesma medida se aplicava ao major Carlos da Costa Leite, ao Primeiro-tenente Nemo Canabarro Lucas e aos Segundos-tenentes Apolônio Pinto de Carvalho e Alberto Bomilcar Besouchet (SILVA, 1970, p. 166167). Este último não chegou a sofrer prisão de espécie alguma e Roberto Morena, por exemplo, só foi preso no final de 1936, quando já se encontrava no Rio de Janeiro, trabalhando pela reorganização do Partido. Nessa época, alguns dos participantes da insurreição no Rio de Janeiro já se encontravam detidos, como o Aspirante de Cavalaria Homero Jobim que permaneceu na Casa de Detenção, à Rua Frei Caneca, de dezembro de 1935 a maio de 1936 (JOBIM, 1979a, b, c). A maior parte dos integrantes do futuro contingente brasileiro permaneceria, contudo, detida um ano mais, até junho de 1937, pelo menos.

Em três de junho desse ano assume o cargo de Ministro da Justiça José Carlos de Macedo Soares que, poucos dias depois, determina a soltura de todos os prisioneiros políticos ainda não condenados, num gesto que ficou conhecido como a "macedada": boa parte dos quadros militares da ANL e do PCB, assim como numerosos civis, foram colocados em liberdade. Nessa ocasião, "se reuniu clandestinamente o Bureau Político do PCB, ampliado a alguns camaradas convidados examinando a situação política do país, a significação da luta do povo espanhol e as medidas a serem tomadas para organizar a solidariedade ativa com os combatentes espanhóis. Entre as decisões tomadas no curso dessa reunião, a de enviar um contingente de militares saídos de prisão para se engajar nas fileiras dos combatentes das Brigadas Internacionais, foi uma das mais altas manifestações de solidariedade com aqueles que lutavam pela democracia, pela liberdade e pelo socialismo em seu país" (MORENA, 1975b, p. 70).

O Bureau Político do PCB pretendia formar um contingente de aproximadamente cem voluntários (MORENA, 1975a), mas devido às difíceis condições em que se encontrava então o Partido, "bastante arriscadas e em razão da falta de recursos financeiros" (MORENA, 1975b, p. 70), não foi possível enviar esse número. Por outro lado, um certo número de militares experientes - como por exemplo Agildo Barata, Agliberto Vieira de Azevedo, Gregório Bezerra, Ivan Ramos Ribeiro - tinha sido condenado a duras penas de prisão, o que diminuiu ainda mais a quota de voluntários disponíveis para embarque.

 

V. AS BRIGADAS INTERNACIONAIS NA GUERRA CIVIL ESPANHOLA

Uma vez iniciada a rebelião dos generais direitistas, grande parte do Exército espanhol se passou para o lado dos revoltosos; as unidades que não o fizeram encontravam-se eventualmente em regiões de forte influência revolucionária, socialista ou anarquista, tendo sido, portanto, "neutralizada" pelo clima de revolução política que logo começa a agitar o país. A República perde imediatamente grandes extensões de território ao norte e a oeste e, já em setembro, numa tentativa de cerco e ocupação rápida, as colunas fascistas se aproximam de Madri, provocando pânico na capital11.

A resistência é, contudo, vigorosa e, à medida que a guerra assume características de longa duração, a intervenção estrangeira em favor de Franco - alemã e italiana fundamentalmente - toma grandes proporções: não apenas aviões, tanques, navios, armas de artilharia e de infantaria são fornecidos em grandes quantidades aos generais direitistas, mas igualmente divisões inteiras de combatentes profissionais. Em abril de 1937, Mussolini já dispunha de mais de setenta mil homens combatendo sob as ordens de Franco (COVERDALE, 1975, p. 396); a contribuição de Hitler compreendia não apenas a Legião Condor, com centenas de pilotos, mas também companhias de tanquistas e, pelo menos, duzentos instrutores servindo as tropas franquistas (CATTELL, 1955, p. 82)12. Os nacionalistas dispunham ainda de uma fonte inesgotável de tropas estrangeiras "voluntárias" - os "cipaios espanhóis" - que eram as forças marroquinas, incorporadas compulsoriamente ou à custa de dinheiro nas fileiras do exército de Franco: pelo menos setenta e cinco mil mouros combateram contra a República, sobretudo no período inicial da guerra civil (THOMAS, 1977, p. 980).

A dimensão internacional do conflito espanhol se revelou desde cedo, interessando a todas as forças e movimentos antifascistas engajados no combate contra as forças ascendentes da direita. No começo, a República buscou dispensar o apoio estrangeiro, além do fornecimento legal de armas, chegando mesmo a denunciar, por vezes em forma anônima, os aspectos mais graves da violação da soberania espanhola pelos governos da Alemanha, da Itália e de Portugal (HISPANICUS, 1937). Mas a agravação da situação militar que, em alguns casos, se traduzia mesmo pela completa desagregação das tropas de combate, forçou-a a aceitar a ajuda externa, nem sempre destituída de interesses políticos. O Exército republicano, ou o que restou dele, estava praticamente desmantelado e, às tarefas propriamente militares se sobrepunham as de administrar amplas regiões em verdadeira revolução social, providenciar o abastecimento dos grandes centros urbanos, conduzir a expropriação de fábricas e latifúndios e, tarefa mais ingrata, manter o equilíbrio político entre as diversas correntes que compunham a Frente Popular.

Desde o começo do conflito, a opinião progressista mundial se viu atraída pelos, manifestamente, princípios exemplares da revolução e da guerra da Espanha: a luta pela liberdade, pela justiça social, pelo socialismo. Já em agosto de 1936, diversos estrangeiros, de iniciativa própria, começam a lutar ao lado das forças governamentais, como André Malraux que organiza sua precária "escuadrilla España". Os italianos antifascistas, muitos deles no exílio, são os primeiros a aderir à causa republicana, sob a consigna: "oggi in Spagna, domani in Italia" (PACCIARDI, 1972, p. 165).

Outros aderiam a suas correntes ideológicas respectivas ou às milícias de maior apelo local: "os estrangeiros em Barcelona juntaram-se ao POUM, na suposição romântica de que ele encarnaria uma magnífica aspiração utópica" (THOMAS, 1977, p. 302). Mas esta fase de adesão espontânea de voluntários estrangeiros às milícias revolucionárias deveria ser rapidamente superada em função do estabelecimento de uma organização mais séria de defesa da República, menos romântica e militarmente mais eficaz.

No começo da guerra, o Secretariado Executivo do Comintern - à época composto por Dimitrov, como secretário-geral, Togliatti, Manuilski, Pieck, Kuusinen, Marty e Gottwald - reúne-se para discutir a organização da solidariedade com o governo republicano que, numa fase inicial, deveria ficar a cargo dos sindicatos e dos trabalhadores de todo o mundo. Em Paris, onde funcionava a sede européia da Internacional Sindical Vermelha, organizou-se um comitê para arrecadar fundos para a República: o "Comitê International d'Aide au Peuple Espagnol" que, multiplicando-se brevemente por diversos países, dedicava-se essencialmente à ajuda humanitária.

No final de setembro, reuniram-se em Paris representantes do Comintern - Willi Muezenberg era o responsável pela seção da Europa Ocidental -, dos partidos comunistas da Itália (Togliatti), da França (Maurice Thorez) e o representante do Comintern na Espanha (o argentino Vitorio Codovilla), decidindo-se efetuar a constituição de colunas internacionais que já vinham sendo espontaneamente formadas. Luigi Longo, do Partido Comunista Italiano e conhecido na Espanha pela alcunha de "comandante Gallo", fica sendo o encarregado dos contatos com o governo espanhol: em outubro se fazem os preparativos finais e o governo republicano aceita a idéia (THOMAS, 1977, p. 452-454). Assim, os estrangeiros que já se encontravam combatendo, precariamente distribuídos em colunas nacionais - os italianos com a coluna "Giustizia e libertà", os alemães com a centúria "Thaelmann", os franceses e belgas na coluna "Commune de Paris" - serão organizados em batalhões e enquadrados nas agora chamadas Brigadas Internacionais (BROUÉ e TÉMIME, 1961, p. 348)13. "A formação das brigadas internacionais tornou-se então a principal tarefa do Comintern. Cada partido comunista foi instruído a enviar um certo número de voluntários. Em muitos casos, a cifra indicada era superior à capacidade de arregimentação de determinados partidos" (THOMAS, 1977, p. 454), como parece ter sido o caso do PCB.

No começo de novembro, o General Mola dá inicio ao "ataque final" dos nacionalistas contra Madri, com colunas comandadas por oficiais que haviam lutado no Rif marroquino e compostas, em sua maior parte, por legionários estrangeiros e tropas mouras. O governo republicano abandona a capital e instala-se em Valência. A primeira aparição das Brigadas Internacionais se dá nessa batalha: um batalhão de alemães, com uma seção de metralhadores britânicos (Edgar André), um segundo batalhão composto de franceses e belgas (Commune de Paris) e o terceiro formado de poloneses que viviam na França e na Bélgica (Dombrowski) constituíram a XI Brigada - outras dez brigadas já tinham sido formadas pelo Exército republicano - , comandada pelo húngaro Kleber. A XII Brigada, que chega em Madri no dia treze de novembro, compreendia os batalhões André Marty, Thaelmann e Garibaldi. Em dezembro, mais duas brigadas internacionais são formadas: a XIII, integrada principalmente por europeus do leste - provavelmente encaminhados por Tito -, alinhada na frente de Teruel, e a XIV, de anglo-saxões, com uma companhia inteira de britânicos, na frente de Córdoba (BROME, s.d.; BANDE, 1972). No final de 1936 estimavase que cerca de vinte mil voluntários estrangeiros já haviam cruzado a fronteira da França (THOMAS, 1977, p. 573). Em fevereiro de 1937, na batalha de Jarama, foi engajada a XV Brigada Internacional, formada por voluntários de vinte e seis nações: seiscentos ingleses, oitocentos balcânicos (do batalhão Dimitrov), oitocentos franco-belgas e quinhentos e cinqüenta americanos (constituindo o batalhão Lincoln, com um certo número de combatentes negros) e um pequeno número de irlandeses, divididos entre os batalhões americano e britânico. A bravura e a intrepidez das brigadas internacionais, a par de um enorme sacrifício em homens, foram cruciais em várias batalhas. "Qualquer que seja sua tendência política, jornalistas e escritores não deixaram de evidenciar a influência da entrada em luta dos batalhões internacionais no revigoramento da resistência republicana. Eles constituíram um corpo de elite engajado até o final de 1938 em todos os combates importantes. Em sete de novembro estão em Madri, no dia treze participam dos combates de Cerro de los Angeles; em dezembro eles aparecem em Teruel e em Lopera, na frente do Córdoba. Em fevereiro-março de 1937 eles combatem na frente de Jarama, em Málaga, em Guadalajara. Serão encontrados mais e em Belchite, em Teruel e, finalmente, na batalha tarde em todas as grandes ofensivas, em Brunete do Ebro, onde eles participam da última ofensiva republicana" (BROUÉ-TÉMIME, 1961, p. 349).

O número de latino-americanos a integrar as brigadas internacionais foi bastante reduzido: pouco mais de um milhar durante a duração do conflito, num total de cerca de sessenta mil voluntários. O maior contingente era constituído de mexicanos, cujo governo sustentou política e materialmente a causa republicana. Eles eram seguidos pelos cubanos, cujos vínculos com a Espanha e com os Estados Unidos, ao mesmo tempo, tanto do ponto de vista nacional como político - comunistas cubanos e americanos colaboravam freqüentemente - permitiram uma integração rápida dos voluntários, no batalhão Lincoln ou no próprio Exército republicano espanhol. Venezuelanos e argentinos também constituíram uma boa fração do contingente latino-americano, que muitas vezes foi contado em dobro - como no caso de cubanos integrados às unidades de norte-americanos - ou, inversamente, subestimado, pelo fato da incorporação imediata de muitos desses voluntários, originais do país ou descendentes de espanhóis, nas próprias fileiras do exército republicano. Assim, muitos latino-americanos vivendo na Espanha ou espanhóis emigrados na América Latina acorreram voluntariamente em socorro da República, cujo número é, por essa razão, difícil de ser precisado.

Uma estatística efetuada em finais de julho de 1937, durante a batalha de Brunete, que registrou a máxima afluência de voluntários estrangeiros, assinalava, segundo Castells (1974, p. 379), um total de quarenta e sete mil, oitocentos e quatro brigadistas de mais de setenta nacionalidades, distribuídos nas diversas forças mobilizadas. O quadro (pág. 47) dá o volume numérico para as nacionalidades mais representadas nas Brigadas e os números respectivos para aqueles originários de países da América Latina.


Quadro

Em que pese essa estatística algo "inflacionada" apresentada no livro de Castells - proveniente, sem embargo, de fontes militares, mas que deve ter incluído um certo número de brasileiros já residentes na península ibérica - os "brasileiros" saídos do próprio Brasil não ultrapassaram três dezenas, se tanto, e sua participação apenas se verificou na segunda metade da guerra, integrados nos diversos batalhões internacionais - o italiano e o americano sobretudo - e em unidades especializadas do Exército republicano; um pequeno número vivendo na Espanha e em Portugal também alistou-se nas tropas de voluntários, apesar de que, neste último caso, o governo salazarista, aliado de fato das forças fascistas, colocasse inúmeros óbices ao envio de combatentes pró-republicanos, que tinham de buscar outras vias para alcançar a Espanha, já que as tropas de Franco dominavam praticamente toda a região da fronteira. Finalmente, não se tem notícias de brasileiros que tivessem servido sob as ordens de Franco, apesar da simpatia despertada pela revolta nacionalista nos meios direitistas e abertamente fascistas do Brasil.

 

VI. OS VOLUNTÁRIOS BRASILEIROS

Apesar de algumas referências apontarem a existência de mais de trinta brasileiros combatentes na Espanha republicana (COSTA LEITE, 1939)14 , o número provável de voluntários saídos do Brasil não ultrapassaria vinte e cinco, dos quais apenas dezessete ou dezoito - segundo os dados aqui disponibilizados e sustentados em mais de uma fonte - foram mobilizados nos cenários de guerra e se tornaram efetivamente combatentes15 . As motivações que presidiram à tomada de decisão, por parte desse punhado de homens, de participar da Guerra Civil Espanhola como combatentes voluntários, foram as mais diversas possíveis. Basicamente, podem ser identificadas duas posições: por um lado, o cumprimento de um dever de solidariedade e de internacionalismo proletário da parte dos militares vinculados ao PCB; por outro, a colaboração pessoal e direta em defesa de convicções políticas - no caso, a luta contra o fascismo - mas sem injunções partidárias, da parte dos voluntários não-comunistas. Em ambas as situações tratava-se de uma manifestação concreta de solidariedade fundamentada na certeza de que os combates nos campos da Espanha constituíam parte de uma mesma luta geral contra as forças do fascismo; o primeiro grupo, contudo, além de ser mais numeroso, era melhor preparado organicamente e mais motivado ideologicamente, mas em ambos seus elementos se distinguiram heroicamente em situações pessoais de combate.

O levantamento que intentaremos a seguir, apesar de suficientemente abrangente do ponto de vista numérico, não pode ser completo, do ponto de vista da determinação da situação pessoal, profissional ou política de cada um dos voluntários brasileiros, seu itinerário espanhol ou sua atuação no conflito; tampouco haverá uma cronologia estrita, pois as informações sobre o encaminhamento dos voluntários são parciais e fragmentárias, não se tendo notícia da constituição eventual de grupos de voluntários, já que as difíceis condições da época tornavam quase impossível a organização de contingentes vinculados a um movimento político específico. Não se deve esquecer, contudo, que nem todos eram clandestinos ou perseguidos políticos; alguns dispunham de passaporte brasileiro e viajaram a partir de portos brasileiros, se bem que a maior parte dos voluntários tenha embarcado em Montevidéu ou Buenos Aires. Em sua grande maioria, eram militares de patente, envolvidos em lutas políticas no Brasil contra o regime varguista, quase todos na casa dos vinte anos. Não se pode, entretanto, generalizar situações, já que motivações, objetivos, experiências e grau de participação foram os mais diversos possíveis para os voluntários brasileiros da Guerra Civil Espanhola16.

A informação que se conseguiu recolher sobre o conjunto dos voluntários brasileiros não é, contudo, uniforme a partir de um enfoque individual, já que nem todos foram diretamente contatados pelo autor: morte, perseguições políticas e clandestinidade limitaram bastante o estabelecimento de uma informação proporcional e satisfatória para cada um dos combatentes brasileiros. Ainda que a título provisório, pode-se apresentar a seguinte relação de voluntários brasileiros:

1) Alberto Bomilcar Besouchet. O Tenente Besouchet era o mais novo da família, composta ainda dos irmãos Augusto, Marino e Lídia, militantes e simpatizantes comunistas que, em meados de 1935, se alinham com o jornalista João Barreto Leite Filho e Febus Gikovate na oposição à política tática do PCB, devido à "orientação insurrecional" dada por este à ANL. Servindo em Recife por ocasião do levante da ANL, o Tenente Besouchet participa da tentativa insurrecional levada a efeito em vinte e quatro de novembro, a partir do Quartel do Socorro, nas cercanias da cidade. Conseguindo escapar à repressão que se seguiu ao debelamento da revolta aliancista, Besouchet ganha o exterior e, ao estourar a Guerra Civil Espanhola, é provavelmente o primeiro dos brasileiros a se fazer voluntário pelo lado republicano. No primeiro semestre de 1937, quando a maior parte do futuro contingente brasileiro ainda se encontrava detrás das grades ou refugiada, o Tenente Besouchet já estaria combatendo nas fileiras do POUM, de orientação anti-stalinista17 . Nessa condição, teria participado das "jornadas de maio" em Barcelona, o enfrentamento armado entre partidários das "milícias populares" - grosso modo, os revolucionários do POUM e os anarquistas da CNT-FAI - e organizadores do "exército popular" - os militantes comunistas - em maio de 1937 (BESOUCHET, 1979 e 1981). Acusados pelos comunistas de estarem liderando um "complô fascista", os líderes do POUM foram presos em junho desse ano e desmanteladas suas colunas militares18 . A morte do Tenente Besouchet ocorreu em condições até hoje ignoradas: "apesar de que (Andrés) Nin foi o único membro da liderança do POUM a ser morto, um número de simpatizantes internacionais também morreu em circunstâncias misteriosas" (THOMAS, 1977, p. 706). Tentativas efetuadas pelo autor para reconstituir o itinerário espanhol e as circunstâncias da morte de Besouchet revelaram-se infrutíferas, cabendo contudo buscar eventuais informações constantes dos antigos arquivos soviéticos, ainda não explorados19 .

2) Apolônio Pinto de Carvalho. Com vinte e cinco anos em 1937, expulso do Exército por sua militância na ANL, que lhe rendeu um ano e meio de prisão, o Tenente de Artilharia Apolônio de Carvalho é beneficiado pela "macedada", em junho desse ano, e instala-se por um curto período na Bahia, onde contata novamente o PCB. Sua saída do Brasil se deu em circunstâncias especiais: tendo conseguido um passaporte legal junto ao governo do estado - na época comandado por Juracy Magalhães - embarca, a partir de Salvador mesmo, no barco brasileiro Bagé, com destino ao Havre. Para driblar o controle do "Comitê de Não-Intervenção" nas fronteiras da França, Apolônio ingressa na Espanha como cidadão de Almeria, cidade da Andaluzia, com um legítimo passaporte espanhol fornecido pelo consulado republicano em Paris (CARVALHO, 1997, p. 95), expediente largamente utilizado por centenas de voluntários internacionais, inclusive diversos brasileiros; o outro expediente era cruzar ilegalmente a fronteira dos Pirineus. Pertencente à primeira leva de brasileiros que chegaram à Espanha, Apolônio foi designado para receber formação em Almansa, pequena cidade entre o porto de Alicante e Albacete, a base de treinamento das Brigadas Internacionais: "a 'troika' suprema no comando da base era André Marty, corno comandante, Luigi Longo ('Gallo'), como inspetor-geral, e Giuseppe di Vittorio ('Nicoletti'), como comissário político em chefe" (THOMAS, 1977, p. 457)20. Perto dali, em Chinchilla de Monte Aragón, ficava a escola de artilharia do Exército republicano, cujo comandante era o capitão checo Mikeche (THOMAS, 1977, p. 458). Apesar de que, no romance de Jorge Amado, o "Capitão Apolinário Rodrigues" seja apontado como combatente do batalhão "Lincoln" da XV Brigada Internacional (1954, p. 183)21, o Tenente Apolônio de Carvalho, na verdade, serviu como tenente de Artilharia no Exército do Centro, participando de combates nas frentes de Extremadura e Andaluzia, sucessivamente nas funções de capitão, major e coronel (CARVALHO, 1979a; 1997, p. 122). Apolônio comandou uma agrupación (bateria de artilharia) na frente Centro Sul (MORENA, 1975b, p. 71; CARVALHO, 1997, p. 101112), participou da batalha de Teruel - dezembro de 1937 a fevereiro de 1938 - e, finalmente, da última tentativa defensiva do Exército republicano na Catalunha, antes de refugiar-se na França com os demais integrantes do contingente brasileiro. Apolônio se confessou "surpreendido [pela] quixotesca decisão" do governo republicano de retirar os combatentes estrangeiros e, já sentindo que a "derrota avultava no horizonte da República" (1997, p. 114), foi transportado a Barcelona às vésperas do Natal de 1938. No início de janeiro de 1939, "o rolo compressor fascista passa por toda a Catalunha deixando um rastro de morte e ruína" (idem, p. 115).

3) Joaquim Silveira dos Santos. Saído numa das primeiras levas de voluntários para a Espanha, o Tenente de Infantaria Joaquim Silveira era um dos envolvidos no levante do 3º Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro, em vinte e sete de novembro de 1935; libertado na "macedada", embarca logo em seguida para a Europa, com trânsito pelo sul do país e o Uruguai. Designado tenente do Exército do Centro, "Quincas" Silveira se distingue em diversas frentes de luta, como por exemplo em Huesca, sendo gravemente ferido duas vezes num mesmo combate22. Roberto Morena o encontra "convalescendo num hospital militar da província de Alicante" (1975b, p. 71), após o que realiza trabalho político junto à direção do PCE em Alicante (CARVALHO, 1997, p. 108). Depois da retirada das Brigadas Internacionais, isolado, juntamente com Apolônio de Carvalho, dos demais brasileiros que se encontravam na Catalunha, o Tenente Silveira ainda cumpre diversas operações militares antes de ser enviado para a Catalunha e a França, no começo de 1939 (GAY DA CUNHA, 1946, p. 186). Por ironia do destino, ele e Apolônio, dois comunistas convictos, viajam para a França escoltando um colégio de freiras, também em busca de refúgio dos combates (CARVALHO, 1997, p. 116).

4) José Homem Correia de Sá. Sargento aviador, participante do levante na Escola de Aviação Militar do Rio de Janeiro, Correia de Sá acabava de completar vinte e cinco anos, em julho de 1937, quando partiu para a Espanha, depois de purgar vários meses de prisão. Saído clandestinamente do País, juntamente com David Capistrano e Jorge Eneas de Andrade, o Sargento Correia de Sá embarca em Montevidéu, num barco inglês - Harlander - com passaporte da República espanhola, nome espanhol e suposta naturalidade espanhola. Desembarcando em Cherbourg, na França, Correia de Sá contata em Paris o centro de encaminhamento das Brigadas Internacionais que funcionava na Maison des Syndicats, rua Mathurin Moreau; em setembro, finalmente, atravessou a fronteira de Port Bou, fez curtas escalas em Barcelona e em Valência - que continuava como sede do governo republicano, agora dirigido por Juan Negrin, socialista moderado que substituiu Largo Caballero - e de lá seguiu para Albacete. Correia de Sá e o Cabo Eneas foram enviados a um campo de aviação em Los Alcaceres, a vinte quilômetros de Cartagena, onde havia aviões de treinamento, de fabricação espanhola, e de combate, de fabricação russa e pilotados quase que exclusivamente por russos. Mesmo se Correia de Sá, ocasionalmente, desempenhou as funções de instrutor de tiro aéreo, "os brasileiros especializados em aviação ficaram subtilizados, até que foram mobilizados para a infantaria" (CORREIA DE SÁ, 1979). Designado, com outros brasileiros para o Batalhão Garibaldi, da XII Brigada, Correia de Sá foi para o serviço especial de comunicações e, mais tarde, para a tropa de combate; na condição de soldado, fez a batalha do Ebro, de onde conseguiu escapar sem receber ferimento de gravidade, um fato raro nesse batalhão.

5) David Capistrano da Costa. Também Sargento aviador e igualmente implicado na insurreição de 1935, David Capistrano saiu da cadeia para a Espanha. Como para os demais militares vinculados ao PCB, o envio se fazia com ajuda externa, já que o partido brasileiro atravessava difíceis condições financeiras: a passagem era paga pelo PC dos Estados Unidos, através de um comitê americano de ajuda à Espanha (SILVEIRA, 1979a). Incluído no Batalhão Garibaldi, Capistrano teve brilhante atuação militar, sendo logo promovido a tenente. Enviado a diversas frentes, Capistrano comportou-se sempre com bravura, sendo ferido num dos combates do Centro-Sul. Em meados de 1938, comandando uma companhia, Capistrano participa da ofensiva do Ebro; na retirada das forças republicanas, imobilizou as tropas inimigas de metralhadora em punho, permitindo assim a retirada de seus homens e a reorganização dos combatentes republicanos em novas linhas de defesa (CANABARRO, 1979a).

6) Eneas Jorge de Andrade. Cabo de aviação e um dos mais jovens militares voluntários, Eneas de Andrade foi a única vítima, do contingente brasileiro, morto em combate. Integrante da segunda leva de voluntários brasileiros, ao contrário dos demais que foram designados quase todos para a XII Brigada, o Cabo Eneas "não quis combater em outra unidade militar que não fosse de aviação" (CORREIA DE SÁ, 1979). Quando estava em sua base de Quintanar de la Republica (antiga Quintanar del Rey, a dezoito quilômetros de Albacete), Correia de Sá veio a Albacete para visitar Eneas que, tendo cumprido já algumas ações, tinha sido promovido a tenente de aviação23 ; em janeiro de 1938, Correia de Sá recebeu carta dele, acompanhado de foto do sanatório onde se encontrava repousando. Pouco tempo depois, Correia de Sá recebe carta de Roberto Morena, comunicando a morte de Eneas em combate, sobre Saragoça, retornando de uma missão contra aviões alemães e italianos (CORREIA DE SÁ, 1979; MORENA, 1975b, p. 71).

7) Nelson de Souza Alves. Tenente da Polícia Militar no Espírito Santo, Nelson Alves participou do movimento aliancista e como tal sofreu perseguições e prisão. Vinculado ao PCB, o Tenente Alves foi enviado à Espanha no segundo semestre de 1937, sendo designado para a XII Brigada Internacional, onde revela brilhante atuação. Ferido gravemente na batalha do Ebro, recebe no hospital a notícia de que as brigadas internacionais estão sendo desmobilizadas (setembro de 1938); do Hospital de Moyá é transferido por caminhão a Barcelona para ser evacuado pela fronteira francesa. Recuperado, volta a assumir o posto de comandante de pelotão numa das unidades da XV Brigada, reorganizada quase no final da guerra por André Marty em pessoa; sua conduta foi exemplar em todas as frentes de combate de que participou24 .

8) Roberto Morena. Um dos poucos civis a participar do contingente brasileiro, Morena teve um papel proeminente em função de sua posição como líder do PCB. Sindicalista histórico, marceneiro-entalhador de profissão, Roberto Morena tinha já uma longa vocação internacionalista, participante que foi dos primeiros congressos de unificação do movimento trabalhador latino-americano, no ano de 1929, com a criação da Confederação Sindical Latino-Americana em Montevidéu e sua vinculação à Internacional Sindical Vermelha, com sede em Moscou (RODRIGUES, 1979a, 1979b, 1987; ALMEIDA, 1991). Dirigente do PCB em Porto Alegre por ocasião do levante aliancista, Morena passa alguns meses em prisão, no Rio de Janeiro, saindo com a "macedada", no mês de junho de 1937. Imediatamente, atendendo a instruções da liderança do partido, Morena organizou e despachou o maior número possível de voluntários para a Espanha, ele mesmo seguindo viagem em outubro daquele ano. Chegando na Espanha em novembro, Morena foi inicialmente ligado ao Batalhão Garibaldi: sua missão "era de ser o responsável pelos quadros brasileiros e de (se) incorporar a uma unidade militar com o cargo de comissário político. Teve pouca participação militar porque o secretariado do Partido Comunista Espanhol achou que precisava de alguns quadros no setor administrativo; optaram pela região de Alicante, onde fui como instrutor do comitê central do Partido Comunista Espanhol" (MORENA, 1975a).

9) Dinarco Reis. Tendo ingressado na Aviação militar como soldado, em 1924, Dinarco Reis era Segundo Tenente e militante do PCB em 1935, quando participou do movimento insurrecional de vinte e sete de novembro (REIS, 1981). Daí em diante, ele seguiu praticamente o mesmo itinerário dos demais companheiros da insurreição aliancista e voluntários da Guerra Civil Espanhola: prisão em novembro de 1935 e expulsão do Exército, libertação condicional em junho de 1937, saída clandestina pelo sul do país e embarque em Montevidéu num navio inglês em direção à França (SILVEIRA, 1979c). Em Paris, em março de 1938, quando muitos brasileiros já julgavam perdida a causa da República, Dinarco interveio decisivamente para lembrar-lhes o dever de solidariedade e os compromissos com o Partido (CARVALHO, 1997, p. 124). Designado para o segundo batalhão da XII Brigada, Garibaldi, Dinarco Reis serviu sempre na Catalunha, no início como simples soldado, tendo sido promovido a cabo três meses depois. Exceção rara na guerra e no contingente brasileiro, Dinarco Reis não foi ferido em combate, apesar de ter participado de todos os combates na frente do Ebro desde que chegou (REIS, 1981). Ele também exerceu, durante um certo tempo, funções não combatentes como especialista da Força Aérea republicana (CANABARRO, 1967). Participou da ofensiva do Ebro e, já na fase final da guerra, foi designado capitão, tendo sido evacuado pouco depois com os demais membros do contingente brasileiro (REIS, 1981).

10) Delcy Silveira. Natural de Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul, o cadete do último ano de Aviação Delcy Silveira participou do movimento aliancista e comunista, foi preso e passou mais de um ano na cadeia, onde conheceu Roberto Morena e o escritor Dyonélio Machado (SILVEIRA, 1979c). Libertado na "macedada" de 1937, não se sentiu seguro e mergulhou na clandestinidade; saiu do Brasil, para o Uruguai, por determinação da direção estadual do PCB no Rio Grande do Sul, juntamente com Dinarco Reis, seu irmão Eny e Nelson de Souza Alves. Em Montevidéu, partilhou sua casa Hermenegildo de Assis Brasil, antes de seguirem, no navio polonês Pulaski, para a França e depois Espanha (SILVEIRA, 1979b, 1980). Atendendo a convite de um dos comandantes italianos, Randolfo Pacciardi, Delcy, integrante da terceira leva de voluntários brasileiros, juntamente com seu irmão Eny, foi incorporado ao Batalhão Garibaldi no começo de 1938, entrando imediatamente em ação. Em julho de 1938, os republicanos atravessam o Ebro e estabelecem uma cabeça de ponte de mais de trinta quilômetros na margem direita do rio, pouco depois dos nacionalistas terem dividido a zona republicana ao meio ao conquistar Villaroz, no Mediterrâneo. A batalha do Ebro mobilizou todas as unidades das brigadas internacionais, nela tomando parte ativa o já Tenente Delcy Silveira: ele foi ferido duas vezes nessa ofensiva. Ele só foi ser oficial na fase final da guerra, passando a comandar um pelotão em uma companhia de metralhadoras pesadas (SILVEIRA, 1979c).

11) Eny Antonio Silveira. Irmão de Delcy, Eny, "à época do conflito espanhol era estudante ginasial, sendo o mais jovem combatente brasileiro na guerra da Espanha e, também, o único civil do grupo e, por isto, teve que custear sua ida para a Espanha, o que não aconteceu com os demais, todos militares [...]. Combateu na XII Brigada Internacional, [Batalhão] Garibaldi. Foi delegado político de pelotão, tendo o posto de Tenente. Era possuidor de grande coragem pessoal, tendo sido ferido durante a batalha do Ebro, em combate noturno, ao assaltar uma trincheira fascista, num corpo a corpo, em que seu pelotão de vinte e seis homens, após algumas horas de luta, ficou reduzido a seis combatentes, pois os demais estavam fora de combate, mortos ou feridos" (SILVEIRA, 1979a). Em setembro de 1938, juntamente com seu irmão, Homero Jobim e Nelson de Souza Alves, se encontrava hospitalizado por ferimentos recebidos nessa batalha e, até pouco antes da evacuação, participou de tarefas militares no âmbito das brigadas internacionais (GAY DA CUNHA, 1946, p. 156).

12) Nemo Canabarro Lucas. Originário do Rio Grande do Sul, o Capitão de Cavalaria Nemo Canabarro tinha vinte e nove anos quando abandona seu exílio no Uruguai (onde figurava no Estado Maior do oposicionista Flores da Cunha) e viaja para a Espanha, via França, no final de 1937, com passaporte fornecido pelas autoridades espanholas de Montevidéu. Sem vinculações com o PCB, Nemo Canabarro declinou a oferta de alistar-se nas Brigadas Internacionais, preferindo servir no Exército republicano espanhol. Mobilizado para a Agrupação do Exército da Catalunha, Nemo Canabarro foi designado oficial de Estado Maior na 218ª Brigada Mista da 34ª Divisão de Infantaria que integrava o 10º Corpo do Exército do Leste. Como comandante da seção de operações da Brigada, Canabarro dedicou-se à inspeção de batalhões localizados à margem do rio Noguera-Pallaresa, nos Pirineus, contribuindo para o aperfeiçoamento da posição das armas pesadas (metralhadoras e bateria de reserva de 75 mm). Na Divisão, Canabarro, logo promovido a Capitão e comandante do Estado Maior de sua Brigada, nos últimos meses, travou contato como o Capitão Dimitri, conselheiro soviético de pouca experiência militar; participou igualmente em operações defensivas e ofensivas nos setores de Sorte, das quais resultaram, contra suas observações não acatadas, grande número de mortos e feridos. Canabarro esteve ainda em ação em Seo de Urgel e na contra-ofensiva de Segre, área de Balaguer, em apoio do exército do Leste ao exército do Ebro, durante a fase final da batalha do Ebro. Durante a evacuação, voltou a encontrarse com os demais brasileiros, reagrupados na Catalunha e alinhou-se entre os participantes na proteção à retirada dos exércitos do Ebro e do Leste, para a fronteira franco-espanhola (CANABARRO LUCAS, 1967, 1979a, 1979b, 1979c).

13) José Gay da Cunha. Também de Porto Alegre, Gay da Cunha foi ajudante de ordens de Oswaldo Aranha, enquanto ministro da Fazenda, em 1932, voltando logo depois para a Escola Militar. Formado tenente de aviação, toma parte na insurreição, consegue escapar, mas se apresenta poucos dias após. Depois de vários meses de prisão, inclusive num navio ancorado na baía da Guanabara, Gay da Cunha refugiou-se no Uruguai e viajou para a França, com documentos espanhóis forjados, em companhia de Assis Brasil, no navio francês Belle Isle. Ao embarcar para Perpignan, em princípios de 1938, são acompanhados pelo Major Costa Leite, atravessando a fronteira clandestinamente, a pé, na altura de Port Bou (GAY DA CUNHA, 1979a e 1979b). Em abril é incorporado ao Batalhão 569 da 143ª Brigada Mista do Exército republicano, integrada por sua vez à 24ª Divisão da Agrupação Norte do Exército da Catalunha. Nomeado comandante da Primeira Companhia, o Tenente Gay da Cunha participa de diversas operações no vale do rio Noguera-Pallaresa, dominando posições fascistas naquela área. Em meados do ano, já integrado ao 24º Batalhão de Metralhadoras Motorizado, Gay da Cunha participa da ofensiva do Ebro, onde é ferido gravemente; internado durante mais de um mês em hospitais militares, volta, no final do ano, ao corpo de voluntários da XV Brigada Internacional, na qual, designado pelo próprio André Marty, exerceria funções de comando (GAY DA CUNHA, 1946, p. 156).

14) Hermenegildo de Assis Brasil. De tradicional família gaúcha, o Cabo de aviação Assis Brasil figurava entre os mais jovens voluntários brasileiros, dentre os quais se distinguiu por extraordinária bravura em combate nas frentes de Espanha. Designado como comandante de pelotão de uma unidade integrando a 31ª Divisão do X Corpo de Exército, nos Pirineus, Assis Brasil participou de violentos combates em meados do ano. "No combate de Piedras de Aolo, no setor de Sorte, o Tenente Hermenegildo de Assis Brasil, em operação noturna que começou ao crepúsculo e terminou ao alvorecer do dia, repeliu quatro assaltos consecutivos das unidades franquistas, ao nível de companhia ou batalhão. Nesse combate, Hermenegildo lutou entre seus homens, atuando ao mesmo tempo como comandante da companhia e como simples soldado. Um fato é característico de sua ação: ele pessoalmente lançou mais de cem granadas de mão. Carregou nas costas vários de seus homens feridos para o posto de primeiros socorros' (CANABAR-RO LUCAS, 1967). Na fase final da guerra e praticamente na retirada para a França através dos Pirineus, Assis Brasil ainda chegou a dirigir uma companhia, tendo sido designados comandantes de pelotão Capistrano e Nelson Alves: "essa unidade, muito bem armada, esteve cercada pelos fascistas e, após duros combates, rompeu o cerco, juntando-se à Brigada já na fronteira com a França" (SILVEIRA, 1980). Assis Brasil saiu vivo da Espanha, mas veio a morrer na França, pouco depois.

15) Carlos da Costa Leite. O mais graduado e o mais idoso do grupo de voluntários brasileiros, o Major de Artilharia Costa Leite era um revolucionário histórico e um dos mais brilhantes líderes da ANL no Rio de Janeiro, antes de ser despachado para o comando de uma unidade de artilharia em Bagé, onde também serviu o jovem Tenente Apolônio de Carvalho. Na Espanha, Costa Leite serviu inicialmente como instrutor do Centro de Organização e Preparação número dois, localizado numa cidade da Catalunha. Em meados do ano já era, contudo, comandante de uma unidade de artilharia do Exército do Ebro, num batalhão que participou da última ofensiva das forças republicanas naquela região (MORENA, 1975b, p. 71; GAY DA CUNHA, 1946, p. 156).

16) Homero de Castro Jobim. Gaúcho de nascimento, Homero Jobim não havia ainda atingido a maioridade quando foi excluído do Exército, como aspirante de Cavalaria, em dezembro de 1935, após haver concluído o curso da Escola Militar do Realengo. Um mês antes ele havia tomado parte em reuniões preparatórias da insurreição aliancista, o que lhe valeu seis meses de prisão na Casa da Detenção do Rio de Janeiro. Depois de alguns meses em Porto Alegre, ele se sente ameaçado de prisão, com a intervenção de Vargas no governo local e se refugia em Montevidéu e Buenos Aires, onde já se encontravam diversos outros companheiros25. Em fevereiro de 1938, embarca em Montevidéu com destino à Europa, no Olympic, munido de passaporte brasileiro obtido no Consulado brasileiro daquela capital; depois de trânsito pela Inglaterra, Bélgica e França, penetra na Espanha, pela fronteira de Cerbere-Port Bou, no final de março. Em abril é comissionado no posto de tenente do Batalhão Garibaldi da XII Brigada, seguindo imediatamente para a frente do Ebro. Ferido diversas vezes nessa frente, Homero Jobim exerce o comando de uma companhia de infantaria durante a fase mais aguda dos combates. No mês de setembro, ferido gravemente no pulmão por granada de artilharia, é hospitalizado durante dois meses, em Vallarca e no Hospital de Mataró, em Barcelona. Ele seria ainda ferido duas vezes mais em outros combates na mesma região. Mesmo depois da retirada dos voluntários estrangeiros das frentes de combate, participa de diversas ações militares em localidades da Catalunha, no quadro da XV Brigada, desta vez no Batalhão Lincoln, ainda como Tenente (JOBIM, 1979a, 1979b e 1979c)26.

A esse conjunto de combatentes brasileiros deve ser acrescentado alguns nomes de oficiais voluntários que não chegaram contudo a pegar em armas pela Espanha republicana; são eles: o Major Alcedo Cavalcanti, ex-professor do Estado-Maior do Exército brasileiro e provisoriamente exilado no Uruguai, os oficiais Celso Tovar Bicudo de Castro e Paulo Machado Carrión e o Tenente aviador Carlos Brunswick França, todos participantes do movimento aliancista. Os três primeiros não chegaram a ir para a Espanha: em Paris, desentenderam-se com as autoridades espanholas e voltaram para o Uruguai; o Tenente França foi à Espanha, mas não chegou a combater, pois as autoridades militares já estavam retirando os pilotos estrangeiros (CORREIA DE SÁ, 1979; CANABARRO LUCAS, 1979a).

Em contrapartida, poderiam ser arrolados ao grupo de voluntários saídos do Brasil, diversos outros combatentes estrangeiros que, na maior parte, eram ou tinham sido imigrantes ou residentes, numa ou noutra época, no Brasil. Caberia citar, em primeiro lugar, os combatentes da primeira hora que foram os italianos antifascistas e, como menção especial, os militantes comunistas ou progressistas de origem judaica, duas categorias que engajaram-se decisivamente na luta antifascista espanhola, para eles parte do combate mundial contra as ditaduras nazi-fascistas que, na mesma época, estavam massacrando militantes comunistas e socialistas e, particularmente, judeus alemães.

17) Ramón Prieto Bernié. Espanhol residente no Brasil, onde exercia a profissão de jornalista, foi um dos participantes do movimento aliancista e, como tal, teve de sair do Brasil. Integrado numa unidade do Exército republicano, a 100ª Brigada do V Corpo do Exército, Prieto serviu em seguida como comissário da XII Brigada dessa força: segundo Apolônio, ele foi "cinco vezes ferido, cinco vezes de volta ao front" (CARVALHO, 1997, p. 125)27 . Também integrado como combatente ao batalhão Garibaldi, na batalha do Ebro, Prieto atuou como comandante de uma companhia de metralhadoras, refugiando-se, depois da guerra, na Argentina (PRIETO, 1966).

18) Libero Battistelli. Republicano, advogado e escritor, pertencente ao movimento socialista Giustizia e Libertà, militante da causa antifascista que, para escapar à polícia de Mussolini, tinha emigrado para o Brasil, onde se tornou agricultor28 , mas aqui desenvolveu, também, atividades editoriais e jornalísticas. "Acorreu à Espanha, com a mulher, em setembro de 1936. Depois de ter feito parte do [batalhão] 'Rosselli' e comandado um grupo de artilharia, na formação Ascaso [líder anarquista], vem à Garibaldi, em abril de 1937, assumindo o comando do 1º batalhão" (CALAN-DRONE, 1967, p. 616). O major Battistelli foi golpeado quando comandava um ataque seu batalhão num ataque sem apoio aéreo ou de artilharia na região de Huesca, onde pouco antes tinha sido atingido por um canhonaço fascista o famoso comandante bolchevique de origem húngara Lukács29 . Segundo o comandante italiano Pacciardi, que coordenava as operações, "Battistelli è della teoria che un comandante non deve mai abbassarsi, un comandante non deve mai ripararsi. Armato di una bonaria filosofia fatalista, agitando la cannetta come se andasse a vedere il racolto della sua 'fazenda' brasiliana, Battistelli va incontro alla morte" (PACCIARDI, 1938, p. 237).

19) Francesco Leone. Também italiano, mas nascido em 1899, em São Paulo, onde seus pais eram trabalhadores agrícolas, o revolucionário profissional Francesco Leone foi criado na Itália, aderiu ao PCI desde sua constituição, recebeu formação militar na União Soviética, militou intensamente na clandestinidade, até ser preso pela polícia de Mussolini e condenado a sete anos. Em 1934, desfrutando da dupla nacionalidade, retornou ao Brasil, aqui envolvendo-se igualmente nas atividades do PCB e da ANL; fugindo à repressão varguista, Leone viaja para a França, começando a trabalhar para a organização humanitária de vinculação comunista, Secours Rouge International, que o envia à Espanha assim que explode a guerra civil (LEONE, 1944; ANDREUCCI e DETTI, 1966, III, p. 92-93). Já em agosto de 1936, ele encontrava-se em Madri, servindo como comissário político na centúria Gastone Sozzi (que tinha sido seu colega em Moscou), antes mesmo que o governo republicano autorizasse a formação das Brigadas Internacionais (CALANDRONE, 1967, p. 602-604)30.

20) Ernest Yosk. Judeu alemão, militante socialista, tinha emigrado ao Brasil no final dos anos 20, envolvendo-se com a agitação comunista de meados da década seguinte: preso em São Paulo, deportado para a Alemanha pela polícia de Vargas, aliás no mesmo barco em que viajava Apolônio, o Bagé, ele consegue escapar no porto do Havre, rumando logo em seguida para a Espanha onde se integra às Brigadas (CARVALHO, 1997, p. 8687 e p. 131). Já quarentão, Yosk foi internado com os demais brigadistas nos campos de Argelès e de Gurs; mais tarde, ele vem a fugir, mas permaneceu na França, onde se incorporou aos grupos de resistência anti-nazista; segundo certas informações, ele veio a morrer num campo de concentração alemão, em circunstâncias não elucidadas31.

21) Wolf Reutberg. Outro judeu, de origem romena, trabalhou na Light and Power de São Paulo, enquanto esteve emigrado no Brasil e militou na ANL ainda muito jovem. Expulso do Brasil, também se dirige à Espanha, participando dos combates nas fileiras das Brigadas (DULLES, 1985, p. 38 e p. 174). Internado nos campos franceses, ele foge com os demais brasileiros durante o caos gerado pela invasão da França. Participou das primeiras organizações de resistência e, em 1942, estava nas fileiras dos Franc-Tireurs et Partisans, seção MOI (mão-de-obra imigrada). Segundo Apolônio, ele foi preso quase no final do conflito, tendo sido sumariamente fuzilado (DIAMANT, 1979, p. 371; CARVALHO, 1997, p. 167).

Outros combatentes na Espanha tiveram, num momento ou noutro de suas vidas, vínculos com o Brasil, como o comunista italiano Nino Nanetti, aqui nascido mas criado na Itália, onde teve intensa militância comunista; um dos voluntários italianos da primeiríssima hora, já em agosto de 1936 ele participava dos primeiros combates no Aragão (DELPERRIE DE BAYAC, 1968, p. 48), vindo a morrer, em abril de 1937, despedaçado num bombardeio aéreo (LONGO, 1956, p. 337). Desde 1923 no Brasil, o suíço Otto Brunner tinha trabalhado no Mato Grosso, entrando em contato com a Coluna Prestes, quando ela se interna na Bolívia, mas já em 1927 ele se encontrava de volta à Suíça, de onde sai para a Espanha numa das primeiras levas de combatentes voluntários (ZSCHOKKE, 1976, p. 93). Na vertente "surrealista", pode ser citado Benjamin Peret, companheiro de André Breton, e que viveu no Brasil entre 1928 e 1932, tendo um filho brasileiro; retornado à França, foi um dos primeiros a seguir para a Espanha, em grande medida por impulso romântico-revolucionário de colaborar com as atividades do POUM; ele saiu depois das jornadas de maio de 1937 em Barcelona, que assistem à repressão à oposição de esquerda (NAVILLE, 1981). Finalmente, consta que Oreste Ristori, velho militante anarquista de ascendência italiana e pioneiro das lutas classistas do proletariado brasileiro, se teria alistado como voluntário nas Brigadas Internacionais, depois de ter sido expulso pela última vez do Brasil, em abril de 1936 (DULLES, 1977, p. 41 e p. 427), mas não há evidências positivas nesse sentido. Eduardo Maffei, aliás, indica a pouca consistência do suposto "episódio espanhol" na vida do grande militante anarquista Ristori (MAFFEI, 1979b, p. 119-120).

 

VII. OS BRASILEIROS NA GUERRA CIVIL

Nas Brigadas Internacionais estavam representados cinqüenta e três países: a quinzena de voluntários brasileiros ali integrados constituiu a modesta porém decidida ação de solidariedade internacionalista por parte do movimento antifascista do Brasil em relação à República espanhola. O pequeno número de brasileiros, assim como a diversidade de suas especializações militares não permitiram que se constituísse uma unidade homogênea; ademais, o grande espaço de tempo entre uma chegada e outra - do início de 1937 a março de 1938 - dificultou a concentração do grupo brasileiro numa única unidade, acrescido ao fato da grande mobilidade organizacional dos diversos batalhões internacionais, permanentemente submetidos a grandes drenagens humanas, necessitando assim recomposições rápidas, sem distinção de nacionalidade (cf. BROUÉ-TÉMIME, 1961, p. 357-358; BROME, s.d., p. 191). A partir de uma determinada fase da guerra, aliás, existiam mais espanhóis que estrangeiros nas brigadas internacionais: "A medida que o fluxo de voluntários diminuía, pelo que os batalhões ameaçavam ficar reduzidos nas suas forças, eram transferidos espanhóis do seu próprio exército ainda em crescimento e cada vez mais disciplinado" (BROME, s.d., p. 293)32 .

Os voluntários brasileiros, tendo chegado à Espanha a partir de meados de 1937, com a exceção precoce do Tenente Besouchet, combateram nos dois terços finais da guerra civil, permanecendo em território espanhol até os últimos momentos do esforço republicano: de julho de 1937 a janeiro de 1939, os brasileiros estiveram representados em todas as frentes de combate - de Belchite a Teruel, de Lerida ao Ebro, passando por Huesca e pelas campanhas de Aragão e das Astúrias e, finalmente, pela da Catalunha - , nas diversas armas militares engajadas na luta - artilharia, infantaria, cavalaria blindada e aviação militar - e também como comissários políticos de unidades específicas.

Nesse período, apesar de efêmeros sucessos governamentais - a captura de Belchite, o ataque a Teruel, a ofensiva do Ebro - as tropas rebeldes estiveram constantemente em avanço e a situação das forças republicanas e internacionais não deixou de ser crítica, mesmo se a melhor organização destas últimas, a partir de meados de 1937, conseguiu prolongar o conflito e postergar a derrota militar do governo republicano. Mas, mesmo na ofensiva do Ebro, o destino da República estava selado. Delcy Silveira traduz sua própria experiência nessa fase: "A tática dos fascistas era escolher dois quilômetros de frente e concentrar todo o peso da aviação e da artilharia durante o dia e depois avançar com tanques e homens. Uma vez quebrada a frente, não se conseguia mais deter o avanço do inimigo: levavam de roldão o que restava das forças republicanas. A concentração de fogo durante esses ataques localizados era impressionante: a topografia do terreno chegava a mudar" (SILVEIRA, 1979c).

Não há dúvida que a derrota foi antes militar do que política, a despeito das acirradas divisões ideológicas entre as forças que compunham a Frente Popular, e mesmo essa derrota militar deve ser avaliada levando-se em conta os recursos materiais e humanos postos à disposição de cada um dos adversários. A mobilização dos fascismos em favor de Franco foi, nesse caso, decisiva: em primeiro de dezembro de 1936, a Alemanha e a Itália tinham encaminhado cerca de trezentos aviões e quase cem tanques, além de centenas de peças de artilharia e de metralhadoras, dezenas de milhares de granadas de mão e toneladas de munição para armas automáticas (COVERDALE, 1975, p. 115). O esforço redobraria nas grandes batalhas do ano seguinte.

A mesma desproporção gritante se revelou nos "recursos humanos": em janeiro de 1937, quando não se tinha conseguido ainda juntar dez mil voluntários internacionais ao lado das forças republicanas, já havia trinta mil italianos de Mussolini combatendo por Franco (BROME, s.d., p. 191). Essa constatação de uma "luta dura e desigual" corresponde à percepção dos próprios brigadistas que combateram pela República: Dinarco Reis, por exemplo, que condena o atendimento pelo governo republicano da solicitação da Liga das Nações de retirada de "todos" os corpos estrangeiros, é eloqüente nesse aspecto: "O governo da República aceitou e cumpriu à risca esse compromisso; o mesmo não se deu do lado franquista. [...] A ajuda de toda a natureza recebida pelos franquistas era imensamente maior e sem limites. [...] A derrota militar das forças armadas espanholas da maneira rápida como ocorreu foi devida, entre outros fatores, pela falta de recursos materiais para prolongar a resistência. Era geral a carência não só de armamentos e recursos bélicos como de elementos vitais para a população da retaguarda" (REIS, 1981).

Portanto, se a intervenção estrangeira do lado republicano não foi decisiva - em termos de homens ou armas - para o desempenho efetivo de guerra, mesmo se ela assumiu uma grande importância em determinados momentos da condução do conflito, já a ajuda das potências fascistas foi essencial para a vitória militar de Franco: sem ela, dificilmente o golpe militar de julho de 1936 teria se transformado em guerra civil e esta assumido as proporções que teve no decorrer dos três anos seguintes. Os ex-combatentes brasileiros entrevistados são unânimes em reconhecer a capacidade militar superior das tropas rebeldes como o principal fator da vitória franquista, contribuindo inclusive para agravar as dissensões políticas no seio das forças republicanas. Por outro lado, a capacidade de resistência da República espanhola, durante os três longos anos de uma cruel guerra civil, foi antes de mais nada a expressão de uma vontade política extremamente combativa, que só se poderia explicar pela moral elevada dos soldados e civis empenhados naquela resistência33.

Nenhum brasileiro voluntário foi para a Espanha por espírito de aventura ou como tentativa romântica de se projetar militarmente; todos assumiram conscientemente seu lugar no combate antifascista do povo espanhol e contribuíram, ainda que modestamente, no esforço de guerra republicano. Roberto Morena, responsável que foi por grande parte dos quadros militares brasileiros na Espanha, escreveu que "nas unidades para as quais os brasileiros foram enviados, seu comportamento sempre mereceu o elogio de seus comandantes" (MORENA, 1975b, p. 71) e, reconhecidamente, todos eles foram promovidos, com exceção de Costa Leite que conservou, desde o início, seu já alto posto de Major do Exército Republicano espanhol. Nemo Canabarro, Gay da Cunha, Dinarco Reis, Apolônio de Carvalho e Joaquim Silveira foram promovidos ao posto de Capitão de suas unidades militares respectivas; Assis Brasil (que era apenas cabo no Brasil), Correia de Sá, Capistrano, Delcy, Eny e Homero Jobim atingiram o posto de Tenente; o Cabo Eneas, antes de morrer em combate, tinha sido promovido a Tenente de aviação.

Como informa, aliás, Apolônio de Carvalho, nem todos os brasileiros deslocados voluntariamente para a Espanha puderam empregar plenamente suas qualificações militares. "Metade de nosso contingente militar, por exemplo, provinha da Aeronáutica, mas apenas Eneas Jorge de Andrade conseguiu lugar na aviação espanhola [...]. Independentemente de tais vicissitudes, no entanto, ao fim da guerra todos os nossos voluntários serão promovidos, por merecimento, ao posto de capitão [...]" (CARVALHO, 1997, p. 123). Uma frustração unanimemente partilhada pelos brasileiros eram as condições inferiores de luta a que estavam submetidas as forças republicanas. Como disse Delcy Silveira, "enquanto os fascistas disparavam dez obuses, os republicanos só ripostavam uma vez" (SILVEIRA, 1979c).

 

VIII. DERROTA E EVACUAÇÃO

Em abril de 1938, o território espanhol ainda sob controle do governo republicano é dividido em duas partes, como conseqüência da ofensiva fascista no estuário do Ebro e a conquista de Villaroz, no Mediterrâneo: a Catalunha fica isolada do centro, acrescentando novos problemas estratégicos às já pesadas tarefas do governo de Valência. A tentativa de romper o domínio fascista sobre essa frente foi a última ofensiva coordenada do lado republicano: de julho a setembro de 1938, as forças combinadas republicanas, espanholas e internacionais, são concentradas na margem do Ebro, conseguindo estabelecer uma cabeça-de-ponte de mais de trinta quilômetros no lado direito do rio. As Brigadas Internacionais, já parcialmente desagregadas nessa época, são totalmente engajadas nessa frente e nela os voluntários brasileiros recebem sua mais dura prova de combate: praticamente todos recebem ferimentos, de maior ou menor gravidade, ao participarem das ferozes lutas que se travam em torno da conquista de poucos palmos de terreno.

A vinte e um de setembro, em Genebra, perante a Sociedade das Nações, o chefe do gabinete republicano, Juan Negrin, anuncia a decisão do governo espanhol de retirar todos os voluntários internacionais das frentes de combate, numa controvertida tentativa de mostrar que o lado legalista não precisaria recorrer a forças estrangeiras para enfrentar um conflito interno. Os poderes fascistas, que nunca se haviam submetido ao controle do "Comitê de Não-Intervenção", aproveitam-se desse gesto gratuito e unilateral para reforçar ainda mais a ajuda à Franco, esperando eliminar rapidamente a já debilitada resistência republicana. Os voluntários brasileiros, muitos deles internados em hospitais da Catalunha, são informados dessa decisão ao mesmo tempo que da notícia do Acordo de Munique, entre Daladier, Chamberlain e Hitler, consubstanciando a entrega da Checoslováquia à Alemanha. Roberto Morena enviou uma carta a todos os brasileiros combatentes na Espanha: "pela primeira vez Morena falava na retirada dos quadros brasileiros e na necessidade de preservar sua experiência para as lutas no Brasil" (SILVEIRA, 1979c).

Em quinze de novembro de 1938, já desmobilizados, os voluntários internacionais participam da parada de despedida, em Barcelona, saudados por Negrin e La Passionaria e aclamados delirantemente pela população34. Em Barcelona, se encontravam naquela ocasião todos os voluntários brasileiros que tinham participado ultimamente de operações militares no âmbito do Exército do Leste: Gay da Cunha, Dinarco Reis, Homero Jobim, Correia de Sá, Delcy Silveira, Nelson de Souza Alves, David Capistrano, Nemo Canabarro, Costa Leite, Assis Brasil e Eny Silveira. Os demais, Joaquim Silveira, Apolônio de Carvalho e Roberto Morena ainda estavam no Centro, agora isolado dos Pirineus, e apenas os dois primeiros conseguiram chegar à Catalunha nos dois meses seguintes.

A desmobilização é, contudo, parcial, já que nem todos os combatentes internacionais poderiam sonhar em voltar a suas pátrias. Os voluntários de países democráticos - franceses, ingleses, americanos e alguns latino-americanos como mexicanos e cubanos - foram retirados sem maiores problemas, mas os combatentes de países fascistas ou antidemocráticos não tinham para onde ir. Em dezembro, o governo mexicano permitiu a ida de seis mil e seiscentos voluntários internacionais que esperavam repatriação: foram fretados cinco vapores que deveriam atracar em Bordéus e oferecidos passaportes aos que conseguissem obter visto de trânsito do governo francês (CORREIA DE SÁ, 1979; GAY DA CUNHA, 1946, p. 187). Os voluntários recebem o passe de saída do governo republicano e se colocam em marcha para a fronteira: são milhares de combatentes de todas as nacionalidades, agora desarmados e combalidos, fazendo dezenas de quilômetros a pé, sob neve e frio. Contudo, quando se apresentam na fronteira francesa, a seis de janeiro de 1939, não lhes é permitida a entrada, sendo obrigados a voltar para os centros de desmobilização, organizados precariamente.

Entrementes, Franco dá início à campanha da Catalunha, região que no espaço de dois meses cairia sob seu controle: em dezembro oito divisões blindadas - italianas em sua maior parte - irrompem na Catalunha. Surpreendentemente, Barcelona cairia em menos de dois dias de luta, resultado sem dúvida da ação da quinta coluna no interior da cidade (THOMAS, 1977, p. 870-873; GAY DA CUNHA, 1946, p. 189). André Marty reconvoca os voluntários disponíveis para lutar, mas apenas para efetuar ações de retardamento: a XV Brigada é reorganizada rapidamente e os brasileiros se apresentam para pegar em armas novamente. Designado comandante de Estado-Maior da Brigada, Gay da Cunha começa a organizar uma companhia, apontando os oficiais Assis Brasil, Nelson Alves e David Capistrano para comandantes de pelotão. No mesmo grupo figuravam ainda Dinarco Reis, Nemo Canabarro, Homero Jobim, Correia de Sá, Delcy e Eny Silveira, cuja tarefa era fundamentalmente organizar a retaguarda da coluna de retirada e manter a ordem nos comboios de refugiados.

No final do mês de janeiro, mais de duzentas mil pessoas se acotovelam na fronteira francesa. Os anarquistas da FAI, que já há algum tempo antes se tinham retirado da Frente Popular e que, mesmo depois de abandonar as frentes de luta, tentam ainda conservar suas armas, provocam alguns incidentes, rapidamente debelados pelas forças organizadas dos voluntários internacionais (cf. GAY DA CUNHA, 1946, p. 189). No dia nove de fevereiro, finalmente, na presença do Presidente do Conselho Juan Negrin, do Secretário-Geral da Defesa Coronel Antonio Cordón e de André Marty, os voluntários atravessam a fronteira. Era o final das Brigadas Internacionais, que atravessam a fronteira "num cenário de êxodo bíblico", segundo as palavras de seu comandante, Luigi Longo (1956, p. xix). Nessa altura, o regime de Vargas, cada vez mais pró-fascista, já tinha-se decidido a reconhecer o governo de Franco, um dos primeiros no mundo a fazê-lo, juntamente com a ditadura estadonovista de Salazar.

Quanto a Roberto Morena, ele "havia ficado na província de Alicante, cuja capital sofria bombardeios aéreos todos os dias [...]" (1975b, p. 71), e ainda se encontrava lá, mesmo depois da traição da junta de capitulação de Casado, Besteiro e Miaja, em princípios de março (THOMAS, 1977, p. 902-903). "No dia 30 de março, os italianos de Gambara entravam em Alicante [...]" (idem, p. 915); pouco antes, na madrugada desse mesmo dia, Roberto Morena pegava o último navio a largar o porto de Alicante - o Stanbroock, barco espanhol de bandeira inglesa -, "subindo por uma corda porque o navio já se estava retirando [...]" (MORENA, 1975a e 1978). Os que ficaram para trás foram fuzilados sumariamente. O navio atraca em Oran, na Argélia francesa, e, com milhares de outros refugiados, Morena é internado num campo de concentração em Boghar, no interior do país. Em meados do ano, depois de duas tentativas de fuga, Morena embarca para a União Soviética, que estava recebendo um certo número de refugiados espanhóis; lá, Roberto Morena deveria permanecer durante cerca de um ano - trabalhando numa fábrica de tratores de Tcheliabinsk, entre outras atividades - antes de voltar à América do Sul pelo Pacífico.

"Para todos os refugiados começa então a terrível provação do exílio. Na África do Norte ou na França, eles são internados em campos onde enfrentam condições materiais e morais muito duras, esperando o acolhimento por um país estrangeiro ou a autorização para permanecer na França" (BROUÉ-TÉMIME, 1961, p. 498). Com exceção de Morena, todos os demais brasileiros são encaminhados aos campos de Argelès-surmer ou de Saint-Cyprien - mais tarde ao de Gurs, nos Pirineus orientais - com dezenas de milhares de outros refugiados. Correia de Sá, que foi encaminhado ao de Argelès, diz que "os franceses nos encurralaram na praia, vinte quilômetros de mar, cercaram com arame farpado e nos deixaram lá, ao ar livre, na chuva, em pleno inverno, um vento terrível que levantava a areia; nos forneciam comida, aos tachos, mas nada de habitação" (CORREIA DE SÁ, 1979).

A Garde Mobile, responsável pela vigilância dos refugiados, delegava o trabalho de enquadramento aos Tirailleurs Sénégalais, o que não contribuía em nada para facilitar os contatos com as autoridades francesas. No romance Saga, o escritor Érico Veríssimo, com base nos depoimentos de Homero Jobim e de um espanhol refugiado, Jesus Corona, reconstituiu o clima pavoroso do campo de Argelès-sur-mer: "[...] somos cerca de cento e oitenta mil homens encurralados como animais entre o mar e uma cerca de arames farpados, guardados por tropas senegalesas [...] a disenteria faz dezenas de vitimas. Não temos recursos para os medicar. Há homens que caem e se entregam" (1960, p. 179 e p. 181)35. Delcy diz que esse campo logo se transformou "num mar de merda", mas depois foram organizados precários banheiros coletivos; "um burro que ocasionalmente havia aparecido no campo foi, em questão de segundos, devidamente esquartejado e posto no caldeirão [...]" (SIL-VEIRA, 1979c).

Em abril, os ex-voluntários brasileiros são visitados no campo pelo Conselheiro Carlos da Silveira Martins Ramos, encarregado de negócios junto ao governo republicano espanhol, que se havia retirado com o Presidente do Conselho, Negrin, então já desligado da representação e lotado em Paris. Ele oferece passaportes aos que desejassem voltar ao Brasil, além de facilitar a vida dos demais, conseguindo cobertores e alimentos. Aqueles que não tinham condenação no Brasil aceitaram a repatriação. O diplomata, que relatou a Delcy ter ele próprio recomendado ao governo brasileiro o reconhecimento do governo franquista, forneceu algum dinheiro e documentos de viagem aos brasileiros (SILVEIRA, 1979c). No mesmo mês, Nemo Canabarro, Homero Jobim, Nelson Alves e os irmãos Silveira receberam os passaportes e tomam um barco em Marselha, o vapor "Mendoza", com destino à América do Sul.

Na volta ao Brasil, ficaram alguns dias detidos na Polícia do Rio de Janeiro e depois de interrogados ganham a liberdade. Os demais, isto é a maioria, permaneceriam ainda em campos de concentração durante vários meses, pelo menos até o começo da guerra, no mês de setembro. Com a construção do campo de Gurs - "os franceses instalaram barracas enormes nos Pirineus orientais e nos transportaram todos" - são transferidos para lá: Costa Leite, Assis Brasil, Joaquim Silveira, Gay da Cunha, Dinarco Reis, Correia de Sá, David Capistrano, Apolônio de Carvalho e Nelson Alves (CORREIA DE SÁ, 1979)36 .

Quando se iniciou a guerra, em setembro, as autoridades militares francesas fizeram pressão para que os ex-combatentes internacionais e espanhóis se alistassem na Legião Estrangeira para lutar contra os alemães. "Inclusive, o General Gamelin, que tinha sido o Chefe da missão militar francesa no Brasil [e, nessa condição, professor de Costa Leite], foi ao campo e nos convida para integrar a Legião Estrangeira, com os mesmos postos que tínhamos na Espanha. Nós concordamos com a manutenção das patentes, mas não no quadro da Legião Estrangeira, que era uma força de repressão colonial, e sim no Exército francês, mas eles não aceitaram" (CORREIA DE SÁ, 1979,).

Pouco tempo depois, mesmo condenados no Brasil, Gay da Cunha e Correia de Sá conseguem, através da representação brasileira em Paris - onde trabalhava um sobrinho do ex-Ministro das Relações Exteriores, Pimentel Brandão -, passaportes de repatriados, concedidos pelo Consulado em Marselha; no começo de 1940, antes que os alemães rompessem a frente francesa, embarcam separadamente para a América do Sul37 .

Os demais permanecem no campo alguns meses mais, enfrentando em seguida destinos diversos. Apolônio de Carvalho, Capistrano e Dinarco Reis fogem de Gurs, "aproveitando o caos reinante", em meados de 1940 e vivem, legal ou clandestinamente, na França de Vichy, em regiões diversas e com ocupações diferentes. Dinarco Reis conta que "Hermenegildo, eu, Joaquim [Silveira] e Wolf [Reutberg] conseguimos atingir Paris quando esta era ocupada pelos alemães. Costa Leite, Apolônio e outros foram para Marselha. Correia de Sá escapou para Portugal e Capistrano caiu preso pelos alemães sendo, porém, libertado e voltado a Marselha um ano depois" (REIS, 1981).

Correia de Sá, condenado no Brasil, vive alguns meses, clandestinamente, em Portugal, onde tenta alistar-se no Exército de Chiang Kai-chek para combater os japoneses que haviam invadido a China, mas não obteve ajuda da Embaixada chinesa em Lisboa. Detido no segundo semestre de 1940 pelas autoridades portuguesas, passa algum tempo no Forte de Caxias, onde também se encontrava Álvaro Cunhal, com quem trava conhecimento. Expulso do país, com a ajuda do Cônsul brasileiro que lhe consegue o repatriamento, consegue entrar clandestinamente no Brasil, onde permanece alguns meses antes de juntar-se aos demais exilados em Buenos Aires (CORREIA DE SÁ, 1979).

Em julho de 1941, Joaquim Silveira e Dinarco viajam para Marselha, onde já se encontrava Apolônio, de onde passam a Portugal en fins de 1941, juntamente com Capistrano. Este último viaja ao Uruguai, Silveira foi para o México e Dinarco entrou clandestinamente na Venezuela, onde passou quatro meses, viajando então ao Rio de Janeiro, onde permanece na ilegalidade, mas retomando os contatos com o PCB (REIS, 1981). Quanto a Assis Brasil, ainda no Campo de Gurs, ele foi mobilizado compulsoriamente para as frentes de trabalho nos primeiros meses da guerra, sendo obrigado a reforçar a linha Maginot na fronteira franco-belgo-luxemburguesa. Depois da ofensiva alemã, Hermenegildo, Reutberg e outros quatro brasileiros ficam no mesmo campo de prisioneiros, de onde conseguem escapar, sob fogo de metralhadoras. Em 28 de junho de 1940, eles conseguem chegar a Paris, depois de cento e vinte quilômetros de marcha noturna. Novamente a caminho da liberdade, Assis Brasil vem a morrer acidentalmente de septicemia durante uma extenuante jornada para a França de Vichy (BARATA, 1950, p. 127).

Apolônio de Carvalho, por sua vez, tendo feito contatos com militantes comunistas brasileiros, consegue estabelecer-se em Marselha, primeiro dando aulas de francês a judeus refugiados desejosos de emigrar ao Brasil, depois trabalhando no próprio Consulado, como auxiliar local (CARVALHO, 1997, p. 138-139). Em 1941, já encontram-se reunidos em Marselha Costa Leite, Dinarco, Joaquim Silveira e Capistrano. Quando do rompimento de relações entre o Brasil e a Alemanha e da invasão por esta última da "zona livre" francesa, Apolônio deixa o serviço no Consulado e ingressa na resistência ao ocupante nazista, participando desde as primeiras horas da organização de grupos de partisans (CARVALHO, 1979a, 1979b, 1997, p. 144-145). Ele só retorna ao Brasil, depois de tantos combates, no final de 1946.

Costa Leite, Joaquim Silveira e Nelson Alves conseguem, de várias maneiras, alcançar a América do Sul, refugiando-se em Buenos Aires, onde também chegaria, em meados de 1941, vindo da União Soviética, Roberto Morena, acompanhado do líder do PCB Fernando de Lacerda. Com a intensificação da campanha pela entrada do Brasil na guerra, ao lado dos aliados, vários do exilados brasileiros em Buenos Aires operam uma entrada em massa no Brasil, com a intenção de se oferecerem voluntários para o eventual corpo expedicionário que se constituiria dessa ação: Nemo Canabarro, no Brasil, lança a idéia de formação de um "Exército de Voluntários Americanos" para combater nos campos da Europa o totalitarismo fascista, tentando forçar, sem resultados nessa fase, uma mudança na orientação pró-Eixo do governo Vargas. Os exilados brasileiros não conseguem, contudo, maior repercussão com seu controvertido ato: são todos presos à sua entrada na fronteira e enviados para a ilha-prisão de Ilha Grande no Rio de Janeiro, entre eles Correia de Sá. Ironicamente, o diretor da Penitenciária era um tio do escritor Érico Veríssimo, o também gaúcho Nestor Veríssimo (CORREIA DE SÁ, 1979; VERÍSSIMO, 1973).

 

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MORENA, R. 1975a. Entrevista concedida a Leandro Konder e Pedro Scuro Neto. Bonn, junho. Archivio Storico del Movimento Operaio Brasiliano. Milão.         [ Links ]

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______. 1978. Entrevista concedida ao autor. Praga, 28 de junho.         [ Links ]

NAVILLE, P. 1981. Entrevista ao autor. Paris, 02 de junho.         [ Links ]

SILVEIRA, D. 1979c. Depoimento ao autor. Porto Alegre, 17 de novembro.         [ Links ]

2. CARTAS

CANABARRO LUCAS, N. 1979d. Carta ao autor. Rio de Janeiro, 15 de novembro.         [ Links ]

COSTA LEITE, C. da. 1939. Carta a Roberto Sisson et alii. Campo de Gurs, Pirineus franceses, 23 de junho.         [ Links ]

DULLES, J. W. F. 1980. Carta ao autor. Austin, 19 de setembro.         [ Links ]

REIS, D. 1981. Carta ao autor. Rio de Janeiro, 4 de abril.         [ Links ]

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VERÍSSIMO, É. s.d. Carta a Delcy Silveira (cópia datilografada). [Porto Alegre]         [ Links ].

VERÍSSIMO, L. F. 1979. Carta ao autor. Porto Alegre, 27 de maio.         [ Links ]

3. DOCUMENTOS E RELATOS

GAY DA CUNHA, J. 1966. La Bandera de la Brigada. In: MALRAUX, André et alii. Los que fueron a España. Buenos Aires : Editorial Jorge Álvarez. p. 153-165.         [ Links ]

HISPANICUS. 1937. Foreign Intervention in Spain (vol. I: documents from July 1936 until). Londres : United Editorial.         [ Links ]

LEONE, F. 1944. Le Brigate Garibaldi nel Movimento Partigiano in Italia. Roma : Società Editrice L'Unità         [ Links ].

MAFFEI, E. s.d. Nota informativa ao Professor Dulles. [São Paulo]         [ Links ].

MORENA, R. 1975b. La solidarité brésilienne avec la lutte des républicains espagnols : souvenirs d'un combattant. Études Brésiliennes, Paris, ano 1, n. 2, p. 69-72, julho.         [ Links ]

PRIETO, R. 1966. El Paso del Ebro. In: MALRAUX, A. et alii. Los que fueron a España. Buenos Aires : Editorial Jorge Álvarez. p. 135-152.         [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em julho de 1998.

 

 

Paulo Roberto de Almeida (pralmeida@mre.gov.br) é Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas, Mestre em Planejamento Econômico pela Universidade de Antuérpia e diplomata de carreira desde 1977. Ocupa atualmente o cargo de Diretor-Geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, é Editor do Boletim de Diplomacia Econômica (do Ministério das Relações Exteriores) e Editor-Adjunto da Revista Brasileira de Política Internacional (http://members.tripod.com/rbpi).

 

 

1 O autor está consciente das limitações documentais - intrínsecas e extrínsecas - a esta pesquisa e, por essa razão, indica aos estudiosos e pesquisadores engajados direta ou indiretamente no estudo dessa questão que muito ainda resta a ser feito no trabalho de levantamento histórico, visando uma avaliação a mais completa possível sobre o grau de participação dos brasileiros na guerra civil espanhola. Investigações mais detalhadas e acuradas serão de toda forma necessárias, seja para corrigir eventuais erros inseridos nesta abordagem inicial, seja para complementar as informações aqui recolhidas e apresentá-las sob novo enfoque, o que depende de um mapeamento ainda mais completo das fontes de história oral - pessoais e familiares - e da documentação oficial - diplomática, militar, dos partidos políticos envolvidos na questão - relativa à participação estrangeira na guerra civil, em particular, no que se refere ao enfoque aqui privilegiado, no movimento de solidariedade à Espanha republicana à época do conflito. Dispensável dizer que uma consulta às fontes primárias dos antigos governos, partidos e correntes de orientação comunista e socialista, depositados na ex-União Soviética ou alhures - e inacessíveis quando da elaboração desta pesquisa -, afigura-se como essencial para a elucidação de muitos dos episódios aqui relatados de maneira perfunctória.
2 O próprio Partido Obrero de Unificación Marxista, liderado por Andrés Nin, recusaria essa qualificação de "trotsquista", sem dúvida alguma inadequada em vista de suas tomadas de posição independentes e das análises originais, no conjunto dos esforços críticos das diversas "oposições de esquerda", em relação ao processo de "degeneração" do socialismo burocrático na URSS, então em fase de "congelamento" stalinista.
3 A indicação de que Homero Jobim colocou suas reminiscências a serviço da pluma de Érico Veríssimo no romance Saga foi dada por Maurício Rosenblatt, de Porto Alegre, informação repassada ao autor em carta de Luis Fernando Veríssimo (1979).
4 Sou grato pela menção aos arquivos do Comintern - que serão explorados no momento oportuno - ao Professor João Quartim de Moraes, do Departamento de Filosofia da UNICAMP e um dos pareceristas deste artigo, juntamente com o Cel. Geraldo Lesbat Cavagnari Filho, do Núcleo de Estudos Estratégicos da mesma Universidade, cujas recomendações em prol da melhoria do texto também agradeço. No que se refere, por outro lado, a pesquisas de historiadores brasileiros, menção deve ser feita ao Prof. José Carlos Sebe Bom Meihy, da USP, a cujos trabalhos, entretanto, a despeito de tentativas, o autor tampouco teve acesso até o fechamento deste artigo.
5 A Espanha moderna e a guerra civil espanhola tem sido objeto de diversos estudos de grande valor histórico e documental. Algumas obras de referência - que foram utilizadas pelo autor - merecem contudo destaque especial, um vez que cobrem, sob enfoques diferentes, os vários aspectos políticos, sociais e ideológicos daquele conflito, além dos episódios propriamente militares e de participação internacional nas frentes de luta. Para uma introdução geral aos problemas políticos e sociais de sua história contemporânea é útil o trabalho de Raymond Carr, Modern Spain (1980). O livro de Hugh Thomas (1977) oferece a maior riqueza de informações numa análise destituída de paixões e algumas vezes interpretada como "conservadora" pela corrente mais identificada com a República. A obra de Pierre Broué e Émile Témime (1961), sem acrescentar muito à precedente, é, por sua vez, uma excelente discussão das posições dos diversos grupos de esquerda, nacionais e internacionais, envolvidos no turbilhão espanhol, com, talvez, um ligeiro penchant trotsquista. Uma outra análise isenta, mas não destituída de simpatia cordial para com o regime republicano, está consignada em Jackson (1981). O americano David T. Cattell apresenta os meandros da política comunista - do PCE e do Comintern, ou melhor, da URSS - na condução da guerra civil, em Communism and the Spanish Civil War (1955). A análise definitiva das posições da esquerda em sua luta pelo poder - uma verdadeira revolução dentro da guerrra civil - foi feita pelo antigo correspondente da United Press na guerra civil, Burnett Bolloten, primeiro em The Grand Camouflage (1961), depois expandido em The Spanish Revolution (1979). Finalmente, Edward Carr, em The Comintern and the Spanish Civil War (1986), trata das mesmas questões com uma visão propriamente européia e com um certa sensibilidade de esquerda.
6 Prestes se encontrava em Moscou, trabalhando no Comitê Executivo do Comintern e, no final de 1934, chegam à capital soviética, para assistir a um Congresso Latino-Americano dos Partidos Comunistas - rapidamente improvisado em vista do adiamento do 7º Congresso do Comintern - os líderes do PCB: "Miranda" (Antonio Maciel Bonfim), Fernando de Lacerda e José Caetano Machado.
7 Para um relato circunstanciado da criação e atividades da ANL ver Levine, 1970, cap. 3: "The Left and the National Liberation Alliance", p. 58-80. Referências documentais se encontram em Hélio Silva (1968).
8 De dezembro de 1932 a fevereiro de 1934 Nemo Canabarro tinha participado da Guerra do Chaco.
9 Alberto Bomilcar Besouchet era o mais moço dos irmãos Besouchet que, na época, participavam de uma dissidência semi-trotsquista do PCB; foi também, aparentemente, o primeiro brasileiro a ir combater na Espanha.
10 O período de repressão ao movimento aliancista e ao PCB é objeto de toda a primeira parte do livro de Dulles (1985).
11 A Embaixada do Brasil em Madri chegou a acolher um certo número de asilados políticos, cerca de setenta pessoas em princípios de 1937, mas a "atmosfera inóspita" que ali reinava determinou a saída voluntária de muitos deles, com o que apenas restavam menos de quarenta no final de 1938 (RUBIO, 1979, p. 32 e p. 74-76).
12 Incluindo civis e instrutores, os alemães que serviam do lado nacionalista atingiram dezesseis mil homens que, à diferença dos italianos (em grande parte, simples soldados rasos pagos para lutarem), possuíam especialização militar de algum tipo (cf. THOMAS, 1977, p. 977).
13 Outros estrangeiros também se engajam nas organizações militares dos partidos políticos espanhóis, como o inglês George Orwell - nas milícias do POUM - e a escritora francesa Simone Weil que, durante um certo tempo, combate na Coluna Durruti de orientação anarquista.
14 A fonte é uma carta do Major Carlos da Costa Leite (Camp de Gurs, 23 de junho de 1939) a Sisson, Mota Lima e demais companheiros da ANL, cuja cópia nos foi gentilmente cedida pelo Professor Dulles. Nela ele faz referência a trinta e três brasileiros internados no Campo de Gurs, nos Pirineus franceses, número que incluía provavelmente antigos residentes em Portugal ou Espanha e refugiados na fase final da guerra.
15 O levantamento quase completo do pessoal brasileiro voluntário está em Gay da Cunha (1946, p. 156). Roberto Morena (1975, p. 70) fornece os mesmos quinze nomes que Gay da Cunha, com exceção do espanhol emigrado no Brasil, Ramón Prieto. Muitos outros voluntários que se preparavam para ir à Espanha, diz Morena, "foram presos a caminho ou na fronteira".
16 Apolônio de Carvalho, em entrevista ao autor (1979b), adverte para o perigo da generalização de situações individuais ao conjunto de combatentes brasileiros.
17 As informações sobre a atividade militar de Besouchet são desencontradas, pois ora está lutando nas fileiras do POUM, ora nas Brigadas Internacionais, ora ainda pertence aos quadros do exército republicano, e mesmo ao Estado-Maior do general Miaja, como informa um despacho da agência Europe, pelo jornalista Richard Bloch, publicada no Diário de Pernambuco (16 de junho de 1937), recorte repassado ao autor por sua irmã Lídia, em Madri (12 de março de 1981).
18 Para uma análise da "revolta de Barcelona" ver Cattell (1955, p. 141-149). Um testemunho pessoal é fornecido por George Orwell em Homage to Catalonia (1967; edição original: 1938).
19 Informa Augusto Besouchet que, tendo partido da Argentina com passaporte espanhol Alberto levava uma carta de Mário Pedrosa a Andrés Nin, o Presidente do POUM, e que sua entrada na Espanha foi facilitada por Costa Leite, já então na França, que por sua vez estava em contato com o PCF; nas milícias do POUM, na Espanha, chegou ao posto de Coronel, tendo sido ferido em combate; Questionário (1979). Na informação algo imprecisa de Apolônio, Besouchet teria se integrado às milícias do POUM no "início de 1936" [sic] e meses após "torna-se membro do estado-maior do general Miaja"; é feito "coronel em maio de 37, [...] e logo depois é preso como militante do partido de Andrés Nin. Fins de 38, com os franquistas às portas de Barcelona, Besouchet é assassinado covardemente" (CARVALHO, 1997, p. 123). Na opinião de Barreto Leite Filho - entrevistado pelo Professor Dulles - e de Augusto Besouchet - mencionado por Basbaum em suas memórias - Besouchet teria sido fuzilado por ordem dos stalinistas (cf. DULLES, 1977, p. 430; BASBAUM, 1976, p. 154), sem precisar quais. José Homem Correia de Sá, em entrevista ao autor (1979), informou que, quando na Espanha, recebeu a informação do Ministério da Defesa republicano de que Besouchet teria sido fuzilado, mas acrescentou, em caráter pessoal, que essa informação não constitui um julgamento político: "Havia muita incompreensão e ser fuzilado não denigre ninguém. Qualquer comandante podia fuzilar, sem julgamento". Gay da Cunha, por sua vez, diz saber de boa fonte que Besouchet foi "fuzilado por ordem de [André] Marty" (GAY DA CUNHA, 1946, p.156).
20 Os voluntários internacionais, cujo recrutamento central era coordenado em Paris (na rue de Lafayette), uma vez introduzidos na Espanha, por trem, barco ou a pé, eram conduzidos a Albacete para receber instrução e aguardar designação nas unidades militares.
21 Nessa época, aliás, as perdas das Brigadas Internacionais foram particularmente pesadas na batalha de Brunete, em julho de 1937: "os batalhões Lincoln e Washington perderam um número tão grande de homens que precisaram ser fundidos em um só" (THOMAS, 1977, p. 715716).
22 Foi na batalha pela tomada de Huesca que Silveira foi ferido duas vezes em seguida, dizendo Correia de Sá que ele tinha "o incrível azar de atrair balas".
23 No livro de Gay da Cunha, o Cabo Eneas é apresentado como Sargento aviador, metralhador (1946, p. 156).
24 As informações sobre Nelson de Souza Alves, que não pode ser contatado diretamente pelo autor, estão dispersas nas várias fontes citadas até aqui: entrevista com Correia de Sá, depoimento de Nemo Canabarro ao Professor Dulles, artigo de Roberto Morena e livro de Gay da Cunha.
25 Numa travessia de lancha, no Prata, Jobim, Delcy, Eny, Gay da Cunha, Nelson Alves e Dinarte da Silveira são presos como "contrabandistas", sendo soltos depois de alguns dias.
26 O itinerário espanhol de Jobim é praticamente o mesmo seguido pelo "voluntário Vasco Bruno", tal como reconstituído no romance de Érico Veríssimo, Saga (1960).
27 A informação sobre Ramón Prieto é bastante escassa; ver também "Nota" de Eduardo Maffei ao Professor Dulles (datilografada, s.d.) e a pequena referência no livro de Gay da Cunha (1946, p. 156).
28 Segundo informação oral de Eduardo Maffei ao Professor Dulles (São Paulo, 11 de novembro de 1968), Libero Battistelli tinha um sítio em Jacarepaguá, onde escondeu-se Carlos Lacerda em 1935/1936, para fugir da repressão varguista, tendo ali, para ganhar algum dinheiro, traduzido Les caractères de La Bruyère; Carta de Dulles ao autor (1980).
29 Tratava-se do famoso oficial do exército austro-húngaro Mate Zalka, convertido ao bolchevismo na Primeira Guerra Mundial, escritor revolucionário no intervalo e um dos primeiros comandantes das Brigadas Internacionais na Espanha; ver a interessante novela de Tijomirov (1962).
30 O autor entrevistou-se pessoalmente com Francesco Leone, já Senador da República pelo PCI, em 1981, em sua residência de Vercelli, no norte da Itália, acompanhado do historiador José Luis Del Roio, do Archivio Storico del Movimento Operaio Brasiliano, em Milão. Leone, depois de internado na França, chegou a participar da resistência francesa à ocupação nazista, foi preso e deportado para a Itália, onde passou algum tempo nas prisões fascistas, de onde fugiu a tempo de participar da luta partigiana na fase final da luta na península itálica.
31 Segundo Correa de Sá, em carta ao autor, Yosk teria sido internado num hospital parisiense. Durante a ocupação, ele teria sido fuzilado pelos nazistas.
32 Em meados de 1937, aliás, a "proporção de espanhóis [já] aumentara até serem 35% no Garibaldi, 35% no Dombrowsky, 45% no Rakosi e 85% no Thaelmann" (BROME, 1965, p. 191).
33 Em julho de 1940, o ex-combatente Delcy Silveira enviava uma carta ao escritor Érico Veríssimo para refutar a visão pessimista expressa no romance Saga, traçando, de sua parte, o que considerou um perfil mais conforme dos "voluntários da liberdade", engajados de forma desprendida na luta antifascista do povo espanhol; em sua resposta, Veríssimo lamenta não ter podido "dar uma imagem exata das BI", declara ter "aceito e compreendido" o protesto de Delcy, mas afirma que, com base em sua "experiência de vida", uma "seleção rigorosa" de tipos humanos não é possível. Cópias dessas cartas foram gentilmente cedidas por Delcy ao autor (v. SILVEIRA, 1940; VERÍSSIMO, s.d.[1940?]).
34 Em dezessete de outubro, as Brigadas Internacionais já haviam desfilado nas ruas da Albacete, sua base de treinamento mais importante (cf. BROME, 1965, p. 331335). Delcy Silveira, imobilizado num hospital da Catalunha, não pôde participar do desfile de Barcelona, que, segundo ele, "foi uma apoteose" (SILVEIRA, 1979c).
35 Esses campos de "concentração" chegaram a "abrigar" duzentos e cinqüenta mil combatentes, do total de meio milhão de refugiados entrados pelas fronteiras dos Pirineus. Sobre as condições terríveis do gulag francês, ver GRANDO; QUERALT; FEBRÉS (1981).
36 Na citada carta do Major Costa Leite, de junho de 1939, é feita referência a trinta e três brasileiros internados no Campo de Gurs, mas o autor não conseguiu muita informação sobre o destino dos demais, à exceção do alemão Yosk e do romeno Reutberg.
37 No começo dos anos trinta, Gay da Cunha tinha sido oficial de gabinete de Oswaldo Aranha, anteriormente Ministro da Justiça e Negócios Interiores e, a partir de março de 1930, Ministro das Relações Exteriores, segundo informação de Correia de Sá. O sobrinho do ex-Ministro das Relações Exteriores, Mário de Pimentel Brandão, a que se refere Correia de Sá, era o auxiliar contratado pelo Consulado Geral do Brasil em Paris, Alfredo de Pimentel Brandão.

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