SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número26O camponês e seu corpoOs limites da auto-análise índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Revista de Sociologia e Política

versão impressa ISSN 0104-4478

Rev. Sociol. Polit.  n.26 Curitiba jun. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-44782006000100008 

DOSSIÊ PIERRE BOURDIEU NO CAMPO

 

A odisséia da reapropriação: a obra de Mouloud Mammeri1

 

The odyssey of reappropriation: the work of Mouloud Mammeri

 

L'odyssée de la réappropriation: l'oeuvre de de Mouloud Mammeri

 

 

Pierre Bourdieu

 

 


RESUMO

Este artigo reproduz uma conferência de Pierre Bourdieu sobre a obra do escritor e antropólogo argelino Mouloud Mammeri. O texto de Bourdieu foi lido in absentia no colóquio realizado em Argel sobre "A dimensão magrebina da obra de Mouloud Mammeri". O Autor compara a relação de Mammeri com o Magreb, região do Norte da África, como uma "odisséia", na qual essa peregrinação comporta dois momentos. O primeiro, de afastamento da cultura nativa, em direção à cultura universal universitária. O segundo, de reapropriação da cultura de origem através da investigação etnológica e de suas pesquisas sobre os antigos poetas cabilas. A descoberta de Homero e o investimento no trabalho etnológico sobre sua terra natal permitem a Mammeri ligar as duas pontas dessa viagem, graças ao resgate da cultura renegada através da cultura que impôs sua negação. O fim desse percurso equivale à confrontação com uma das modalidades da dominação simbólica, que é a vergonha de si.

Palavras-chave: Mouloud Mammeri; Magrebe; poesia; Etnologia; Homero; dominação simbólica.


ABSTRACT

This article reproduces a conference that Pierre Bourdieu gave on the work of the Algerian writer and anthropologist Mouloud Mammeri. The text was read in the author's absence, in a colloquium that was held in Algeria on "The Magrebian Dimension in Mouloud Mammeri's work". Bourdieu compares Mammeri's relationship to Magreb, a region of North Africa, to an odyssey, a pilgrimage that is made up of two distinct moments. The first consists of a movement away from his native culture and toward a universal university culture. The second is marked by his return to or re-appropriation of his native culture through ethnological study and research on ancient Kabyle poets. Through the discovery of Homer as well as devotion to ethnological work on his own country, Mammeri is able to link the two points of this pilgrimage, in a return to the denied culture via the culture that led to its denial. The end-point of this journey represents a confrontation of one of the major forms of symbolic domination, shame of one's self.

Keywords: Mouloud Mammeri; Magreb; poetry; ethnology; Homer; symbolic domination.


RÉSUMÉ

Cet article reproduit une conférence de Pierre Bourdieu sur l'oeuvre de l'écrivain et anthropologue algérien Mouloud Mammeri. Le texte de Boudieu a été lu in absentia au colloque qui a eu lieu à Alger sur « La dimension maghrébine de l'oeuvre de Mouloud Mammeri ». L'auteur compare le rapport entre Mammeri et le Maghreb, région du Nord de l'Afrique, à « une odyssée » constituée de deux moments. Le premier, c'est l'éloignement de la culture originelle vers la culture universelle universitaire. Le second, c'est la réappropriation de la culture d'origine à travers l'investigation ethnologique et ses recherches sur les poètes kabyles anciens. La découverte d'Homère et l'attachement au travail ethnologique sur sa terre natale permettent à Mammeri de joindre les deux bouts de ce voyage, grâce à la réappropriation de la culture reniée à travers la culture qui a imposé son reniement. La fin de ce parcours correspond à la confrontation à une des modalités de la domination symbolique : la honte de soi-même.

Mots-clés: Mouloud Mammeri; Magreb; poésie; ethnologie; Homère; domination symbolique.


 

 

Gostaria de estar em Argel para participar da homenagem prestada a Mouloud Mammeri2 e sua obra, falando sobre aquilo que, a meu ver, constitui sua maior contribuição à cultura deste país.

Minha vontade seria mostrar, em poucas palavras, que a história da relação de Mouloud Mammeri com sua cultura de origem e sua sociedade pode ser descrita como uma odisséia, em que um movimento inicial de afastamento, em direção a praias desconhecidas e sedutoras, é sucedido por um longo regresso, lento e cheio de perigos, à terra natal. Essa odisséia é, a meu ver, o caminho que todos os filhos de uma sociedade dominada, de uma classe ou região submetidas a sociedades dominantes, devem percorrer para encontrar-se ou reencontrar-se. Eis o que, a meu ver, torna exemplar o itinerário de Mouloud Mammeri.

O primeiro passo é, então, o movimento a ser feito para se apropriar da cultura, da cultura pura e simples, aquela que não é preciso qualificar e que aparece a si mesma como universal, aquela ensinada oficialmente nas universidades e que só se adquire ao deixar para trás muitas coisas, quase sempre a língua materna e tudo que lhe acompanha. Esse movimento de repúdio, de renegação, muitas vezes ignora-se como tal. Ele sempre é feito, em todo caso, com o consentimento daqueles que o fazem, associando-se a uma espécie de felicidade.

O processo poderia parar aí e são muitos que, integrados ao universo dominante, conhecidos e reconhecidos pela sociedade e pela cultura que eles reconhecem, nada mais lhes pedem. Mouloud Mammeri parte do ponto em que outros teriam se detido: escritor da língua francesa, ele se põe à escuta, agora, dos poetas forjadores, demiúrgicos (Homero usa várias vezes a palavra "demiurgo" para designar o poeta), guardando na memória as poesias que eles compõem, muitas vezes tão sofisticadas quanto as poesias dos simbolistas. Quem teve de pagar seu acesso à cultura legítima com uma espécie de morte simbólica do pai, liga-se de novo, então, à cultura paterna.

Pois essa cultura, tanto tempo reprimida, permanece um propósito contido de reabilitação e leva Mouloud Mammeri a interessar-se por ela. Ele continua preso aos modelos que o fazem buscar referências nobilitadoras nas figuras mais nobres da poesia ocidental, como Victor Hugo. Somente ao descobrir, por ocasião de nossas conversas3, uma figura de Homero que seus mestres acadêmicos não lhe podiam revelar, é que suas pesquisas sobre os antigos poetas cabilas e suas pesquisas etnológicas deixam de se desenvolver em planos distintos. Um Homero reconstituído em sua verdade antropológica e, desse modo, arrebatado à irrealidade da ficção acadêmica, aproxima-se do amusnaw berbere, a quem Mouloud Mammeri confere uma forma de consagração indiscutível.

É longo, como se vê, o caminho até o reencontro da colina, por algum tempo esquecida4. O trabalho que, ao vencer a vergonha em relação à cultura de origem, conduz a sua reapropriação é uma verdadeira socioanálise, de que jamais se está seguro de ter sido inteiramente concluída. Isso porque a superação da negação inicial não pode tomar a forma de uma negação daquilo que determinou a própria negação inicial, isto é, de todas as fontes que a cultura dominante oferece. Toda a dificuldade do caminhar para a reconciliação consigo mesmo é que os instrumentos que permitem a reapropriação da cultura renegada são fornecidos pela cultura que impôs a renegação. O último ardil da cultura dominante consiste, talvez, no fato de que a revolta por ela suscitada arrisca proibir uma apropriação dos instrumentos que, como a etnologia, são condições da reapropriação da cultura de origem, cuja negação foi motivada pela cultura dominante.

Mouloud Mammeri soube escapar desse ardil. Foi um dos primeiros a reclamar o uso da etnologia, combinando seu trabalho pessoal de reapropriação de si mesmo com o empenho para desenvolver um trabalho coletivo de reapropriação de uma cultura esquecida ou reprimida.

Por certo não gostaria de reduzir a só um de seus aspectos uma obra essencialmente plural, múltipla, como a de Mouloud Mammeri, e ninguém se preocupa em protegê-la, mais do que eu, das tentativas de apropriação a que ficará sujeita. De todo modo, parece-me que a conversão pessoal que ele teve de realizar para reencontrar "a colina esquecida", para regressar a sua terra natal é, sem dúvida, aquilo que sobretudo ele quis compartilhar com todos, não apenas seus concidadãos, irmãos na repressão, na alienação cultural, mas também com todos que, submetidos a uma forma qualquer de dominação simbólica, estão condenados a essa forma suprema do desapossamento que é a vergonha de si mesmo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOURDIEU, P. 1985. Du bon usage de l'ethnologie. Awal. Cahiers d'Etudes berbères, n. 1, p. 7-29.         [ Links ]

_____. 1989. Mouloud Mammeri ou la colline re-trouvée. Le Monde, Paris, 3.mars.1989. Republicado na revista Awal. Cahiers d'études berbères, n. 5, p. 1-3, 1989.         [ Links ]

_____. 1998 (2004). L'odyssée de la réappropriation. Awal. Revue d'études berbères, n. 18, p. 5-6. (Publicado primeiramente na revista Le Pays, Argel, 27.juin-3.juil.1992; republicado em inglês : The Odyssey of Reappropriation. Ethnography, v. 5, n. 4, p. 617-621, Dec. 2004).         [ Links ]

 

 

Recebido em 25 de outubro de 2005
Aprovado em 19 de novembro de 2005

 

 

Pierre Bourdieu ocupou a cadeira de Sociologia no Collège de France, onde dirigiu também o Centro de Sociologia Européia e editou a revista Actes de la recherche en sciences sociales até sua morte em 2002. Ele é autor de vários livros clássicos em Sociologia e Antropologia, incluindo La Reproduction: éléments d'une théorie du système d'enseignement (com Jean-Claude Passeron; 1970), Esquisse d'une theorie de la pratique (1972), La Distinction: critique sociale du jugement (1979), Homo Academicus (1984) e Les règles de l'art: genèse et structure du champ littéraire (1992). Dentre seus estudos etnográficos estão: Le déracinement: la crise de l'agriculture traditionnelle en Algérie (com Adbelmalek Sayad, 1964), Algérie 60: structures économiques et structures temporelles (1977), La misère du monde (1993) e Le Bal des célibataires: crise de la societé em Béarn (2002).
Versão deste resumo para o inglês: Miriam Adelman
1 Tradução de Luciano Codato, a partir do texto disponível na internet: <http://www.homme-moderne.org/societe/socio/bourdieu/varia/odyssee.html>. Revisão: Fábia Berlatto e Bruna Gisi. No original: L'odyssée de la réappropriation, mas publicado primeiramente em Argel, na revista semanal Le Pays (BOURDIEU, 1998 [2004]). De acordo com o tradutor para o inglês, Loïc Wacquant, o texto de Bourdieu foi lido in absentia no colóquio realizado em Argel sobre "A dimensão magrebina da obra de Mouloud Mammeri". As notas a seguir são extraídas da tradução de L. Wacquant, publicada na revista Ethnography, v. 5, n. 4, p. 617-621, Dec. 2004. Revisão final: Adriano Codato.
2 "Escritor prolífico, dramaturgo, poeta, lingüista, antropólogo de sua terra natal, Cabília, e dos povos de línguas berberes, Mouloud Mammeri nasceu em 1917, filho do governante de sua vila – situada nas montanhas – e poeta-sábio tradicional (amusnaw). Estudou em Argel, Rabat e Paris, onde se graduou em Literatura, em 1938, na Sorbonne. Depois de combater na II Guerra, ensinou francês no interior da Argélia e publicou seus primeiros ensaios sobre a cultura cabila e a questão colonial, adquirindo crescente reputação como escritor, especialmente por sua trilogia de 'romances etnográficos', La colline oubliée (1952), Le sommeil du juste (1955) e L'Opium et le bâton (1965). Esteve no Marrocos, em exílio forçado, durante a guerra de libertação nacional, voltando para Argel em 1962, onde se tornou presidente da União dos Escritores Argelinos e professor de etnologia norte-africana e língua berbere na Universidade de Argel. Dirigiu, de 1969 a 1982, o Centro de Pesquisa Antropológica, Pré-histórica e Etnográfica, incentivando a 'argelinização' da pesquisa social e o desenvolvimento de estudos de campo sobre todas as etnicidades e regiões da Argélia, com ênfase maior nas culturas orais berberes e na cooperação interdisciplinar, apesar da crescente resistência das autoridades à pesquisa antropológica. Fundou, em 1985, o Centro de Estudos e Pesquisas da Cultura Amazigh (CERAM), em Paris, e sua revista Awal ("A palavra"), que Pierre Bourdieu ajudou a iniciar, concedendo a Mammeri uma entrevista intitulada 'Du bon usage de l'ethnologie' (BOURDIEU, 1985). Mammeri é autor de vários livros sobre a língua berbere – gramática, literatura, poesia, etnografia – e foi expoente liderança da resistência cabila à 'arabização' forçada de seu povo pelo Estado argelino, que impôs uma violenta repressão às revoltas populares nas últimas duas décadas. Com a morte de Mammeri, em 25 de fevereiro de 1989, vítima de um acidente automobilístico, Bourdieu publicou no Le Monde um texto em sua homenagem" (cf. BOURDIEU, 1989. Republicado na revista Awal. Cahiers d'études berbères, n. 5, p. 1-3, 1989) (Nota de Loïc Wacquant).
3 Cf. o artigo Diálogo sobre a poesia oral na Cabília, no presente número da Revista de Sociologia e Política (Nota dos editores).
4 Referência ao romance mais conhecido de Mammeri, La colline oubliée (1952), que trata da subversão da cultura tradicional nas montanhas da Cabília, resultado da guerra e da invasão colonial. O romance foi adaptado para o cinema, em 1996, pelo diretor cabila Abderrahmane Bouguermouh, que deu ao filme o mesmo título. Ficha técnica: La colline oubliée, França/Argélia, 1996, 105 min. Direção de Abderrahmane Bouguermouh; fotografia de Rachid Merabtine; trilha sonora de Cherif Kheddam e Taos Amrouche; produção de CAAIC/IM Products Films/APW Tizi Ouzou.