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Revista de Sociologia e Política

On-line version ISSN 1678-9873

Rev. Sociol. Polit. vol.17 no.34 Curitiba Oct. 2009

https://doi.org/10.1590/S0104-44782009000300011 

DOSSIÊS

 

Internauta brasileiro: perfil diferenciado, opiniões indiferenciadas

 

The Brazilian internaut: different profiles, similar opinions

 

L'internaute brésilien: profil hétérogène, opinions homogènes

 

 

Rogerio Schlegel1

 

 


RESUMO

O artigo pretende contribuir para melhorar a compreensão das relações entre o uso da internet, de um lado, e a participação política dos cidadãos, de outro. Sua ênfase é nos fatores que determinam o uso regular da internet e no perfil do internauta em termos de participação e valores relacionados à política. A análise dos dados do survey Latinobarómetro de 2007 aponta a idade e a escolaridade como principais determinantes do uso da internet no Brasil, sendo que a ocupação e uma proxy para renda não tiveram impacto consistente na chance de conectar-se, contrastando com os casos de Argentina e Chile. Ao mesmo tempo, o público que integra a comunidade on-line mostrou maior mobilização, em termos de participação política tradicional, e pouca diferenciação em matéria de opiniões sobre política, na comparação com os não-usuários da nova tecnologia. Essas evidências sugerem que a conexão ao mundo digital tende a dar voz a segmentos que já contam com acesso privilegiado a governantes e elaboradores de políticas, sobretudo por seu capital cultural, embora haja sinais da existência de oportunidades para outros setores sociais. Também indicam que a importância do "digital divide" no país deve ser relativizada, uma vez que os internautas não apresentam opiniões com orientação claramente destoante do restante da população.

Palavras-chave: internet; participação on-line; democracia; confiança política.


ABSTRACT

This article attempts to contribute to improving our understanding of the relationship between Internet use, on the one hand, and the political participation of citizens, on the other. We emphasize the factors that determine regular internet use and user profiles in relation to political values and participation. Analysis of data from the Latinobarómetro 2007 survey indicate age and educational level as primary determinants of Internet use in Brazil. Occupation, as well as a proxy used for income did not have a consistent impact on people's probabilities of connecting, thus contrasting Brazilian data with data on Argentine and Chilean cases. At the same time, the public belonging to the on-line community demonstrated greater mobilization, in terms of traditional forms of political participation, and little differentiation in terms of political opinions, when compared to non-users of this new technology. This evidence suggests that connection to the digital world tends to enhance the voice of segments of the population that already enjoy privileged access to government and public policy managers, particularly given their cultural capital, although there are some signs of existing opportunities for other segments of society sectors. It also indicates that the importance of the country's "digital divide" can be relativized, since internauts do not hold opinions that are significantly different from those of the rest of the population.

Keywords: Internet; on-line participation; democracy; political trust.


RÉSUMÉ

L'article vise à contribuer à la compréhension des relations entre l'usage d'Internet d'une part, et la participation politique des citoyens, d'autre part. Nous mettons en relief les facteurs déterminant l'usage régulier d'Internet et le profil de l'internaute quant à leur participation et valeurs liées à la politique. L'analyse des données du survey Latinobaromètre de 2007 indique l'âge et la scolarité comme les causes principales de l'utilisation d'Internet au Brésil, tandis que l'activité professionnelle et une proxy n'ont pas eu d'impact important sur la chance de se connecter, ce qui contraste avec les cas argentin et chilien. Parallèlement, le public qui intègre la communauté on line a montré plus de mobilisation, en termes de participation politique traditionnelle et peu de contraste en matière d'opinions sur la politique, en comparaison avec les non usagers de nouvelles technologies. Ces évidences suggèrent que la connexion au monde numérisé tend à favoriser la parole à ceux qui ont déjà un accès privilégié aux autorités et responsables de politiques publiques, surtout grâce à leur capital culturel, bien qu'il y ait des signes d'existence d'opportunités pour les autres secteurs sociaux. Elles indiquent aussi que l'importance du « numérisé qui fragmente » doit être nuancée, puisque les internautes ne présentent pas d'avis tellement différents du reste de la population.

Mots-clés: Internet ; participation on line ; démocratie ; confiance politique.


 

 

I. INTRODUÇÃO

O estudo do impacto da internet na política brasileira até aqui tem enfatizado os usos e o potencial de interação por meio de portais de governos, as casas do poder Legislativo e as campanhas eleitorais. Embora de elevada relevância, essa abordagem tem feito que outras dinâmicas geradas pelas novas tecnologias sigam como um campo ainda pouco explorado pela pesquisa brasileira. O espectro de conseqüências possíveis para a expansão do universo digital é amplo: redução dos custos de acesso à informação, pluralização das fontes disponíveis, superação dos fluxos de comunicação unidirecionais, enfraquecimento do poder dos gatekeepers tradicionais, prolongamento das redes de mobilização para além de fronteiras nacionais, possibilidade de deliberação e tomada de decisão em massa e em tempo real. Da promoção de novos valores ao florescimento da democracia direta, os processos políticos passíveis de influência parecem ilimitados.

Este artigo pretende contribuir para melhorar a compreensão das relações entre o uso da internet, de um lado, e a participação política dos cidadãos, de outro. Sua ênfase é nos fatores que determinam o uso regular da internet e o perfil do internauta em termos de participação e valores relacionados à política. Diante das possibilidades de ampliação da participação que as novas tecnologias representam, nosso estudo tem caráter exploratório e trabalha duas questões de fundo: os determinantes do acesso regular à internet atuam apenas para reforçar a inclusão dos que já estão politicamente incluídos – como os mais escolarizados, os mais ricos ou os mais mobilizados – e assim vê-se frustrada a chance de dar voz a setores com menos acesso a políticas públicas e policy-makers? E as opiniões dos internautas são atualmente representativas do conjunto da população ou, ao contrário, revelam vieses capazes de gerar distorções em políticas e deliberações públicas caso sejam tomadas como voz da maioria?

As evidências obtidas neste trabalho, a partir da análise estatística de dados de uma onda do survey Latinobarómetro, sugerem que o universo virtual tende a reforçar o poder de quem já tem poder – sobretudo os detentores de capital cultural diferenciado. Mas essa afirmação abrangente tem de vir acompanhada de ressalvas. A comunidade digital é capaz de atrair segmentos não usualmente associados à participação política tradicional. Em linha com resultados internacionais, os mais jovens apareceram sobre-representados nessa comunidade2, um traço promissor caso essa presença converta-se em envolvimento com a política. Além disso, características sócio-demográficas que em outros contextos revelaram-se decisivas para reforçar a exclusão on-line de segmentos já com deficit de poder não se mostraram efetivas no caso brasileiro – etnia, ocupação, gênero e uma proxy para renda3 não afetaram as chances de conectar-se de forma regular à rede mundial de computadores.

Na tentativa de localizar o caso brasileiro no mapa global do uso de internet, foi feita análise comparativa com a Argentina e o Chile, usando dados da onda 2007 do Latinobarómetro. Trata-se de dois países selecionados por suas semelhanças com o Brasil do ponto de vista da trajetória histórica, ao mesmo tempo em que apresentam diferenças marcantes em termos de uso da World Wide Web; em matéria de acesso, ambos estão mais próximos da Europa do que do Brasil ou da América Latina. A comparação permitiu explorar em alguma medida a hipótese da normalização, segundo a qual distorções no acesso à internet relacionadas a características sócio-demográficas tendem a desaparecer à medida que o uso da nova tecnologia difunda-se para toda a sociedade (NORRIS, 2001)4. As evidências encontradas contrariam essa hipótese.

No que se refere ao perfil da comunidade on-line, também emergiram sinais de que conclusões sobre países de democracia mais antiga e maior desenvolvimento econômico não podem ser simplesmente transpostas para a realidade brasileira ou sul-americana. O internauta brasileiro hoje não demonstra de forma consistente valores diferentes do restante da população. Não há sinais robustos da inclinação liberal na economia, de maior apoio à democracia ou de maior confiança nas instituições, detectados em parte dos estudos internacionais.

De forma geral, são achados que justificam visão menos pessimista sobre a forma como a nova tecnologia tem se expandido no Brasil, embora os dados revelem que fundamentalmente a internet tem favorecido os setores com posição mais central na política e na sociedade. A internet hoje contribui para incluir quem já está incluído, mas há sinais de oportunidades para outros setores sociais.

Nas seções a seguir, revejo conceitos que contribuem para a compreensão das dimensões políticas do uso da internet, formulo as proposições que serviram como hipóteses de trabalho e procedo à análise estatística dos dados do Latinobarómetro. Por último, apresento interpretações para as evidências encontradas e aponto como estas podem ajudar a compreender parte das relações entre internet e política no Brasil contemporâneo.

 

II. INTERNET E DEMOCRACIA

A interpretação sobre o sentido das mudanças que a internet e as tecnologias digitais representam divide pesquisadores e ensaístas. Dentro dos limites deste artigo, é desnecessário revisar em detalhes as concepções conflitantes para o futuro da política e da sociedade, já sintetizadas em termos de abordagens ciber-otimistas, ciber-pessimistas e ciber-céticas (v. NORRIS, 2001). Mas, com a difusão em escala mundial da World Wide Web, rumando para a saturação nas nações pioneiras e ampliando em saltos sua penetração em países em desenvolvimento (como Brasil, Argentina e Chile), torna-se cada vez mais viável avaliar empiricamente em que direção caminha a influência das tecnologias digitais no campo político.

A participação é uma esfera privilegiada para a observação desses impactos: trata-se do mecanismo central do funcionamento democrático. Em sentido mais amplo, a participação dos cidadãos é a base para o autogoverno que diferencia a democracia de outros regimes políticos. O voto é a forma decisiva de tomar parte nos destinos da polity, mas há outros mecanismos que permitem ao indivíduo controlar as decisões coletivas que afetam sua vida, como os grupos de pressão, de associações voluntárias e os processos relacionados às dinâmicas de opinião pública que informam e contribuem para a accountability dos policy-makers (DAHL, 1989; PAGE & SHAPIRO, 1992; VERBA, SCHLOZMAN & BRADY, 1995).

Normativamente, é desejável que as decisões coletivas considerem igualitariamente as preferências de cada cidadão. No caso do voto, esse princípio é expresso pela máxima "um homem, um voto" e traduzido pela inclusão eleitoral ampla, que ao menos formalmente visa a garantir a igualdade como fundamento da escolha democrática. No caso do debate público, operam processos mais complexos, descritos por esquemas teóricos com diferentes ênfases: em termos de competição intra-elites (SCHUMPETER, 1984; DOWNS, 1999), especialização e foco em temas (DAHL, 1989; CONVERSE, 2006), divisão de trabalho entre segmentos do público (NEUMAN, 1986) e racionalização e deliberação coletiva (PAGE & SHAPIRO, 1992; HABERMAS, 2003), por exemplo. Ainda que a maneira pela qual esses processos sejam entendidos teoricamente seja controversa, é consistente a associação constatada entre preferências individuais e políticas públicas adotadas por governantes, ao menos em países como os Estados Unidos e o Reino Unido (PAGE & SHAPIRO, 1992; DELLI CARPINI & KEETER, 1997; WLEZIEN & SOROKA, 2007).

As necessidades e reivindicações dos grupos com mais condições de fazer chegar suas preferências ao sistema político tendem a ser mais acolhidas pelos mecanismos que processam esses inputs. Assim, a participação pelo voto (ou em campanhas), por meios não-eleitorais (em demonstrações públicas, abaixo-assinados, contato direto com governantes, participação em grupos de pressão etc.) e a expressão de demandas pela mídia tradicional são exemplos de canais para direcionar a atenção dos policy-makers para as preferências dos cidadãos, e assim levar ao seu atendimento por políticas públicas. Na medida em que a participação aumenta a chance de acolhimento de demandas, a não-participação opera no sentido inverso, distanciando do sistema político quem não dispõe de canais ou quem não expressa suas preferências. Não à toa, a participação desigual já foi descrita como persistente "dilema democrático não-resolvido" (LIJPHART, 1997).

Outro fator que torna a observação da participação especialmente relevante é o grande impacto esperado, nessa dimensão da política, por conta do avanço das novas tecnologias. A expansão da internet, seja em termos de acesso do público, seja em termos da atenção dedicada pelos policy-makers, renova a forma como a questão da participação coloca-se. Esse novo canal de expressão de preferências concorre com a mídia tradicional em matéria de transferir inputs para o sistema político. Em si, isso já representaria a abertura de uma nova frente para atuação na vida política. Mas as tecnologias digitais oferecem possibilidades ainda mais amplas e antes não imaginadas para os meios de comunicação, a exemplo da comunicação interativa e multidirecional, da capacidade de conexão instantânea, da erradicação das noções de distâncias e da oferta abundante de informação a custo baixo (BARBER, 1998; 2004). Torna possível, por exemplo, consultar a comunidade sobre determinada pendência em espaço curtíssimo de tempo ou mobilizar pessoas que não se conhecem em diferentes cantos do mundo.

A tecnologia digital também é descrita como tendo potencial para ampliar o engajamento do cidadão na vida política. O modelo de participação proposto por Verba, Schlozman e Brady (1995) é especialmente útil para a compreensão desse ponto. Ele dá centralidade à motivação do indivíduo e aos custos com que tem de arcar para influenciar nas decisões públicas. De forma geral, os custos de participar são desproporcionalmente altos em relação aos benefícios, quando estes são tomados apenas em termos de ganhos materiais individuais. Mas não há paradoxo em participar, sustentam os autores, pois há outras motivações e recompensas envolvidas, relacionadas ao mundo dos valores – a satisfação de demonstrar solidariedade, por exemplo. Ainda assim, os custos são capazes de limitar a participação; mesmo pessoas potencialmente interessadas necessitam de dinheiro, tempo, habilidades cívicas e conexões com redes de mobilização para superar os obstáculos iniciais. Isso ajuda a explicar por que, em décadas de investigação empírica, é mais provável que os cidadãos com melhor situação econômica e maior centralidade social participem mais – seus custos para tentar influenciar os governantes são menores em termos relativos, por conta de estoques menos limitados de recursos pessoais.

Nessa equação, a internet pode afetar tanto o fator motivação quanto o fator custos. É plausível pensar o internauta como tendo valores característicos, consolidados por efeito de seleção: a nova tecnologia atrai pessoas que tendem a ter perfil recorrente ou valores comuns; ou desenvolvidos no próprio universo virtual: alguém menos atento a determinado assunto pode desenvolver novas inclinações após participar, por exemplo, de chats envolvendo grupos de interesse. Se a internet vê de fato florescer uma 'cibercultura' com traços pós-materialistas, privilegiando a auto-expressão, as relações não-hierárquicas e a democracia participativa, pode-se esperar que esses valores favoreçam a motivação para participar. E, em matéria de custos, as tecnologias digitais reduzem drasticamente os recursos necessários na busca de informações e na comunicação, facilitando a organização de movimentos e entidades, a mobilização de ativistas e o contato com policy-makers ou intermediários, como líderes partidários e jornalistas. Os ganhos de produtividade também representam um ganho de tempo (DELLI CARPINI, 2000) – embora muitos adolescentes sejam testemunhas de que o próprio mundo virtual oferece mil atrativos e formas para gastar o tempo extra.

Dados do survey Eurobarômetro indicaram que, na virada da década passada, os internautas europeus eram mais participativos em termos de ações tradicionais, como discutir política, tentar persuadir conhecidos e votar nas eleições para a União Européia. Também tinham maior conhecimento sobre assuntos políticos e expunham-se mais ao noticiário de jornais e rádio – não ao de TV. Os mais jovens, os mais ricos, os mais escolarizados, os homens e os ocupantes de postos gerenciais eram proporcionalmente sobre-representados nas comunidades virtuais européias. Em termos de valores, os internautas tendiam à agenda pós-materialista, prezando a democracia participativa e o cosmopolitismo mais do que os não-conectados. E também tinham maior confiança nas instituições, inclusive governos nacionais e parlamentos (NORRIS, 2001).

Na revisão dos marcos teóricos relevantes para esta discussão, resta salientar diferenças entre as formas tradicionais de participação e a participação on-line. Nos Estados Unidos, algumas formas de participação pela internet já rivalizam com as formas tradicionais – há seis anos, era quase igual a proporção de cidadãos que entravam em contato com autoridades pela internet e a que utilizava meios como o correio e o telefone (CSRA, 2003). Já houve casos como o de Howard Dean, que surpreendentemente foi levado a liderar a disputa pela candidatura democrata à Presidência dos Estados Unidos em 2004 graças à mobilização via World Wide Web (LEVY, 2004).

Há sinais de que a participação on-line demande recursos diferentes da participação tradicional, operando em lógica que não permite a mera extrapolação das explicações teóricas da primeira para a segunda (KLING, 1999; BIMBER, 2000; KIESLER et alli, 2000). Best e Krueger (2005) encontraram evidências de que os fatores que predizem a participação on-line com freqüência são diferentes dos que influem na participação off-line; as habilidades cívicas que favorecem a participação off-line podem não representar diferencial no mundo virtual, sendo necessárias competências específicas para a navegação na World Wide Web, por exemplo.

II. 1. Desigualdade digital

Por tudo isso, as potencialidades ampliadas dos canais digitais agravam a preocupação com o chamado "digital divide" (NORRIS, 2001): a distância entre os que estão incluídos no universo digital e os que estão fora dele. Há temor de que a marginalização em relação ao mundo on-line possa produzir cidadãos de segunda classe, pessoas cuja condição de perdedor potencial seria aprofundada pela escassez de competências informacionais. Em princípio, os candidatos à marginalização ampliada são justamente os grupos que já apresentam déficits de poder no mundo pré-digital, a exemplo dos mais pobres, dos menos escolarizados, dos redundantes no mercado de trabalho. Sem acesso à internet e às novas tecnologias, correm o risco de se tornar invisíveis no mundo digital em que circulam governantes e policy-makers. Se essa tendência verificar-se, as novas tecnologias estarão contribuindo para ampliar a desigualdade social, reforçando a marginalização já presente em outras dimensões sócio-demográficas e econômicas. Além da renda, aparecem como fatores decisivos para a exclusão digital a escolaridade (desvantagem para os menos escolarizados), a ocupação (desvantagem para os trabalhadores manuais) e, em alguns países, a cor da pele (desvantagem para etnias discriminadas, como os negros nos Estados Unidos) e o gênero (desvantagem para as mulheres).

No que diz respeito especificamente à política, as novas tecnologias aprofundariam a diferença entre os que têm recursos e disposição para participar e os que não têm; com o agravante de que o grupo com mais recursos e o grupo com maior disposição tendem a sobrepor-se, pois ambos são compostos por indivíduos de melhor condição social. Pessoas com renda mais alta tendem a participar mais pelos caminhos tradicionais e também a ter mais acesso à internet. Vários estudos constataram a associação entre renda e acesso à internet em países com elevado nível de desenvolvimento econômico e humano (NTIA, 1999; OECD, 2000). E, ainda que os determinantes da participação on-line sejam diferentes dos da participação tradicional, os indivíduos de condição socioeconômica mais elevada tendem a contar com os dois conjuntos de características (BEST & KRUEGER, 2005).

Contra essa tendência, há a hipótese da normalização defendida por 'ciber-otimistas'. Eliminar o fosso entre diferentes segmentos sociais em termos de uso da nova tecnologia seria apenas questão de tempo, pois a difusão crescente tenderia a barateá-la e a tornar sua operação mais acessível. No limite, a internet tenderia à saturação, atingindo todos os segmentos sociais, a exemplo do que ocorreu em grande medida com o automóvel, a TV e o telefone. Norris (2001) não encontrou evidências que confirmassem essa hipótese para os países europeus na década de 1990. Os mais ricos tinham maior probabilidade de ter acesso no início do período e a distância manteve-se constante na segunda metade daquela década, apesar do crescimento próximo de 10% ao ano da população conectada na região. Mesmo nos países que poderiam ser considerados vanguarda na difusão da tecnologia, como Reino Unido, Dinamarca e Luxemburgo, o fosso não se fechou.

No Brasil, há sinais de haver grande associação entre posição social e acesso à internet. Pista disso é a distribuição do acesso segundo a escolaridade. No terceiro trimestre de 2008, o contraste entre as faixas de escolaridade seguia forte: no grupo com até o segundo grau completo, 45% usam a internet; esse índice sobe para 79% entre os que têm superior incompleto e atinge 92% para a faixa com superior completo ou pós-graduação (IBOPE, 2008)5. Os homens revelavam-se mais envolvidos com a tecnologia, com 73% deles afirmando ter acesso, contra 64% entre as mulheres. O acesso era mais comum na residência (45%) do que no local de trabalho (30,8%) ou na escola (31,9%). A idade aparecia como inversamente associada ao uso: no público entre 16 e 24 anos, 90% têm acesso; esse percentual cai a cada degrau etário, até chegar a 23% para as pessoas com mais de 65 anos.

Em relação aos outros países considerados neste estudo, o Brasil tem os mais baixos percentuais de acesso à internet, apesar de ter apresentado o maior crescimento nesta década e de liderar em número absoluto de internautas (Gráfico 1). A taxa brasileira de acesso, pelos critérios do Internet World Stats, é de 26,1% – próxima da média latino-americana (24,2%) e da média mundial (21,9%). Argentina, com 39,3%, e Chile, com 44,9%, estão mais próximos da média européia (48,5%).

 

 

A partir desses dados e da revisão teórica, esse estudo foi formatado para responder a duas perguntas de fundo: no Brasil, os fatores que determinam o acesso regular à World Wide Web atuam apenas para reforçar a inclusão dos que já estão politicamente incluídos, como os mais escolarizados ou de renda mais alta, que também tendem a participar mais por meios tradicionais? E as opiniões dos internautas são atualmente representativas do conjunto da população, ou produzem representações da polity com distorções que podem influenciar o julgamento de governantes – por meio de enquetes on-line ou contato via e-mail, por exemplo? Para avançar no entendimento dessas questões, passamos à análise inferencial dos dados, contemplada na seção seguinte.

 

III. ANÁLISE DOS DADOS

Para avaliar os determinantes do acesso à internet no Brasil e o perfil do internauta em termos de participação tradicional e atitudes políticas, apresentando perspectiva comparada com Argentina e Chile, foram usados dados do survey Latinobarómetro, onda de 2007, com as características descritas no Quadro 16.

 

 

Os surveys Latinobarómetro são desenhados para avaliar atitudes e valores políticos de cidadãos de 18 países latino-americanos, sem preocupação especial com o impacto das novas tecnologias. A partir de 2000 (e com a exceção de 2004), foram incluídas nos questionários perguntas sobre a World Wide Web, em geral questionando se o entrevistado costuma acessar a internet e qual o tipo de uso mais freqüente quando acessa.

O trabalho com análise secundária de dados impõe limitações. Seria especialmente desejável avaliar a participação on-line, mas o questionário utilizado pelo Latinobarómetro não contemplou esse tipo de conteúdo em nenhuma onda anual. No caso da renda, foi utilizada uma proxy, pois em 2007 não havia pergunta direta sobre rendimentos individuais ou familiares do entrevistado7. Em matéria de valores, o desenho ideal de pesquisa envolveria baterias de perguntas que permitissem construir índices, de forma a aumentar a consistência com que a posição do respondente é localizada; no entanto, o questionário aplicado em 2007 não tinha esse objetivo expresso e para algumas dimensões só oferece perguntas isoladas.

Levando em conta limitações como essas, foram consolidadas quatro proposições principais, tomadas como hipóteses de trabalho: (1) no Brasil, escolaridade, renda e ocupação são determinantes consistentes do acesso regular à internet, reproduzindo o padrão de países economicamente desenvolvidos; (2) o internauta brasileiro apresenta níveis de participação tradicional mais elevados do que o restante da população, reproduzindo o padrão de países desenvolvidos; (3) o internauta brasileiro apresenta valores ligados à política diferenciados do restante da população, reproduzindo o padrão de países desenvolvidos: espera-se que apóie mais a democracia, que tenha maior confiança nas instituições, que seja mais liberal e menos estatista em matéria de economia, que defenda pontos de vista mais igualitários em termos sociais e que seja mais tolerante nos julgamentos morais; (4) Argentina e Chile apresentam menor diferenciação entre usuários e não-usuários da internet, se comparados ao Brasil, por conta da normalização decorrente da maior difusão proporcional da nova tecnologia nessas duas sociedades. A hipótese estará tanto mais perto de ser confirmada à medida que as variáveis sócio-demográficas mostrarem-se ineficazes como determinantes do uso da internet, num sinal de equalização do acesso.

III. 1. Determinantes do acesso

O primeiro passo da análise foi identificar fatores sócio-demográficos, políticos e relacionados ao uso da mídia tradicional que podem favorecer o acesso à World Wide Web. Foi utilizada como variável dependente o uso regular da internet8, entendido como acesso diário ou ocasional, que apresentou as freqüências descritas no Quadro 29.

 

 

Na análise inferencial, foram utilizadas regressões logísticas múltiplas, modalidade mais ade quada para tratar uma variável dependente que se apresenta como binária (0 ou 1), como a descrita acima10. Para cada país, foram construídos três modelos de regressão. O primeiro tem apenas quesitos sócio-demográficos como variáveis independentes; o segundo inclui variáveis políticas (interesse declarado pela política e participação em entidades e associações secundárias) e o terceiro abrange o uso da mídia tradicional, isto é, exposição intensiva (mais de 5 vezes por semana) a noticiários de TV, jornal ou rádio.

Os modelos para o caso brasileiro (Quadro 3) apontaram a consistência da escolaridade como determinante do acesso à internet. Nos três casos, as variáveis relativas à educação formal tiveram significância e com razões de chance elevadas. No primeiro modelo, a chance de alguém com superior incompleto ou mais escolaridade ter acesso regular foi 63,6 vezes a de alguém que tem primário incompleto – a categoria de referência para essa variável – mesmo com o controle das outras variáveis sócio-demográficas11.

 

 

A idade, como era de se esperar, também se mostrou um determinante robusto em todos os modelos. A chance de acessar a internet diminui com os anos de vida do entrevistado: todas as faixas etárias que aparecem no Quadro tiveram razão de chance menor do que 1, o que indica que são fator de desfavorecimento se comparadas à categoria de referência (idade de 16 a 25 anos). Uma pessoa com mais de 55 anos tem 0,081 vez a chance de um jovem de 16 a 25 anos de conectar-se; calculando inversamente, o grupo mais jovem tem 12,3 vezes a chance do mais velho, controladas as demais variáveis.

Uma variável relacionada ao local de moradia revelou influência consistente nos três modelos. Pessoas que moram em grandes centros, com mais de 100 mil habitantes, têm maior chance de serem usuárias da internet do que quem mora em municípios menores.

Renda, ocupação, gênero e etnia não mostraram influência para determinar o acesso à internet. No quadro, suas razões de chance e valores de p não aparecem em negrito, pois não tiveram significância estatística e não foi possível rejeitar a hipótese nula – ou seja, pode não haver associação entre essas variáveis e a variável dependente. O resultado para a renda é especialmente surpreendente, sem significância em todos os modelos. É preciso relembrar que se trata de uma proxy; no entanto, a variável teve significância nos casos de Argentina e Chile, como se verá adiante.

Os resultados do modelo 2 indicaram que o interesse por política também é um determinante efetivo do acesso. Controladas as outras variáveis desse modelo, quem declarou muito ou algum interesse por política tem 1,884 vez a chance de conectar-se em relação a uma pessoa que se considera desinteressada. E, no modelo completo, a variável manteve sua significância. Pertencer ou ter pertencido a partido, sindicato ou igreja não foi determinante para o acesso. Tomar parte em associação esportiva, de lazer ou cultural, sim. É possível supor que no Brasil esse tipo de entidade tenda a disponibilizar pontos de acesso à World Wide Web, favorecendo o acesso – e o achado pode ser um indicativo relevante para informar políticas públicas e a ação de ONGs.

Por fim, no modelo 3, apenas a leitura freqüente de jornais mostrou-se determinante adicional para o uso regular da internet. É preciso observar que, por limitações na coleta de dados para as variáveis da mídia tradicional, 19,8% das observações entradas nesse modelo foram consideradas missing. Isso comprometeu parcialmente a capacidade do modelo para prever os casos de y=1, isto é, os casos de uso regular da internet, como indica o teste de Hosmer e Lemeshow em nível crítico (0,030), mas acima do patamar que recomendaria descartar o modelo (0,010).

Os resultados para a Argentina (Quadro 4) têm mais semelhanças do que diferenças em comparação com o caso brasileiro. Idade, escolaridade, local de moradia e interesse por política tiveram significância em todos os modelos em que foram incluídos. No entanto, também mostraram influência consistente a renda e a ocupação, que não tiveram significância no caso brasileiro. Alguém que declarou estar nos degraus mais elevados da riqueza – portanto caracterizado aqui como tendo renda alta – tem 2,2 vezes a chance de uma pessoa que se vê nos degraus mais baixos. No caso da ocupação, o que fez diferença foi a condição de aposentado, dona-de-casa ou desempregado: argentinos definidos como não-PEA (fora da População Economicamente Ativa) têm menos chance de serem usuários de internet do que empregados manuais.

 

 

No quesito associativismo, são os sindicatos – mais do que as entidades esportivas e culturais – que favorecem a conexão à internet, eventualmente por disponibilizarem pontos de acesso aos associados. E, no que toca à mídia, tanto a exposição a jornais quanto a notícias no rádio foram determinantes com significância. Também no caso argentino houve elevada proporção de missings (16,3%) no terceiro modelo.

Nos modelos para o Chile (Quadro 5), mais uma vez renda e ocupação aparecem como variáveis cruciais para determinar o acesso à internet. Com uma novidade: as condições de proprietário, profissional liberal ou funcionário gerencial favoreceram a conexão se comparadas à do assalariado manual; a de não-PEA desfavoreceu. Arredondando os números, o proprietário de um negócio no Chile tem duas vezes mais chances de estar conectado à internet do que um funcionário seu que faça um trabalho manual; e um desempregado tem metade da chance desse funcionário manual de ter acesso regular à rede mundial digital.

 

 

Idade, escolaridade, porte da cidade de moradia e interesse por política de novo tiveram significância em todos os modelos. Usos da mídia tradicional não se mostraram determinantes no terceiro modelo (que teve 29,8% dos casos dados como missing).

O modelo 2, do Chile, foi o único em que uma variável relacionada à cor da pele indicou fazer diferença. As variáveis relativas à etnia foram codificadas de maneira diversa, conforme o país. No Brasil, a categoria de referência é a de negros, mulatos e mestiços (mestiço foi entendido como filho do negro com o branco); a categoria "outros" inclui indígenas, orientais e indivíduos que também não se classificaram como brancos. Nos outros dois países, a categoria de referência é a de indígenas e mestiços (e mestiço foi entendido como filho do indígena com o branco); a categoria "outros" engloba negros, mulatos e pessoas que se classificaram de forma diferente das anteriores.

III. 2. Participação tradicional

No passo seguinte, foi utilizada a análise de médias para verificar se os internautas dos três países diferenciam-se do restante da população em termos de participação tradicional. A internet dará voz a quem já tem meios e disposição de participar pelos canais tradicionais? Nesse ponto do estudo, a idéia é comparar os dois públicos sem o controle de outras variáveis sócio-demográficas ou políticas. Dessa forma, os resultados espelharão diferenças que podem ser entendidas não como geradas independentemente pelo uso da internet, mas também como fruto da própria condição social e demográfica dos usuários12.

Como se verifica nas quadros 6 a 8, tanto no Brasil quanto na Argentina e no Chile o usuário da internet apresenta-se como um tipo de cidadão mais participativo do que o restante da população. Questionado sobre as três formas de participação contempladas no questionário do Latinobarómetro, o grupo que usa regularmente a internet respondeu mais positivamente a cada um dos quesitos do que os não-usuários. E as diferenças demonstraram significância estatística, ressaltada em negrito, o que permite rejeitar a presunção de que, na população, as médias entre os dois grupos seriam iguais.

 

 

 

 

 

 

III. 3. Opiniões do internauta

A última etapa da análise avaliou as eventuais diferenças de opinião entre a comunidade on-line e o restante da população. Em quesitos relevantes como a preferência pela democracia e o apoio à ação estatal, os internautas diferenciam-se em relação aos não-conectados? A escolha das atitudes observadas dependeu em grande medida da disponibilidade de questões no instrumento do Latinobarómetro 2007. As perguntas encontradas permitiram avaliar as seguintes dimensões: apoio à democracia, confiança em instituições, atitude liberal ou estatizante em economia, proximidade com a Igreja, sensibilidade social e temor à criminalidade. Também nesses testes foi usado o teste de diferença de médias, como forma de deixar que diferenças no perfil sócio-demográfico de usuários e não-usuários expressassem-se.

Os resultados para o Brasil aparecem no Quadro 9: por aqui, o internauta confia menos no governo, no Congresso e na Igreja; confia mais nas empresas privadas; é mais sensível à desigualdade de renda e mais tolerante em relação ao aborto. Nos outros seis quesitos não foram observadas diferenças consistentes nas atitudes dos dois segmentos do público. São resultados que, genericamente, sugerem um público de usuários de internet sem uma diferenciação de sentido claro em relação aos não-usuários – embora essa conclusão mereça ressalvas, como será discutido na última seção do artigo.

 

 

No caso da Argentina (Quadro 10), os internautas são mais democratas e confiam menos no governo, na Igreja e nas Forças Armadas, e também são mais tolerantes com o aborto.

 

 

Nos demais quesitos, conectados e não-conectados não apresentaram diferença de atitudes com significância estatística. Para o Chile (Quadro 11), houve diferenciação dos internautas também em cinco quesitos, mas com orientação mais clara: foi detectada alguma inclinação liberal, a partir de diferenças significativas nos quesitos sobre intervenção estatal e confiança em empresas privadas. Como no caso brasileiro, também apareceu uma inclinação secular, expressa pela maior desconfiança na Igreja e pela maior tolerância com o aborto.

 

 

IV. CONCLUSÕES

De forma geral, as evidências levantadas neste estudo sugerem que, no contexto brasileiro atual, a internet tende a dar voz a setores que já têm mais condições de fazer chegar seus inputs aos operadores do sistema político e formuladores de políticas públicas. Mas há sinais de oportunidades para a ampliação da participação de outros segmentos sociais, cujo deficit de poder no mundo pré-digital não se traduziu em maior dificuldade de acesso à internet. E a importância do "digital divide" deve ser relativizada por conta da menor diferenciação de opiniões entre quem está e quem não está conectado.

Para analisar em mais detalhes, voltemos às proposições utilizadas como hipóteses. A hipótese 1 apontava escolaridade, renda e ocupação como determinantes, de forma independente, do uso regular da internet. Trata-se de indicadores promissores da posição de centralidade na sociedade e na política. Ela foi confirmada apenas parcialmente, pois a escolaridade demonstrou forte impacto na chance de acesso, mas a ocupação e uma proxy de renda não apresentaram influência, o que também ocorreu com a etnia e o gênero – todas características sócio-demográficas recorrentemente apontadas como decisivas para a inclusão ou exclusão digital. A comparação com a Argentina e o Chile aqui se revelou especialmente útil. Em ambos os países, ocupação e proxy de renda foram capazes de influenciar a chance de acesso regular ao universo digital.

Esse resultado é um indício de que o chamado "digital divide" pode ter características próprias no Brasil, que por sua vez demandam uma pesquisa mais aprofundada e eventuais ações de combate específicas. O fato de a escolaridade aparecer com tanta força como determinante do aces so à internet pode indicar que o combate à exclusão digital no Brasil deve passar pela inclusão educacional, com ampliação do acesso à escola de qualidade. Naturalmente, a escolaridade é ela própria um indicador de posição social, refletindo a renda e a centralidade nas redes sociais e no sistema político (BORDIEU & PASSERON, 1990; NIE, JUNN & STEHLIK-BARRY, 1996; MENEZES-FILHO, 2008). São conhecidos os trabalhos acadêmicos que mostram a heterogeneidade na escolaridade da força de trabalho como o principal determinante do nível geral de desigualdade salarial observada no Brasil, a exemplo de Neri (2000) e Barros, Henriques & Mendonça (2000). Mas um olhar mais amplo para os resultados sugere a preponderância do que se pode chamar de capital cultural – basicamente informação e conhecimento – como determinante do uso regular da internet. A julgar pelas variáveis com significância nos modelos de regressão para o Brasil – idade, escolaridade, tamanho da cidade de moradia, interesse por política, participação em associação esportiva ou cultural e leitura intensiva de jornais – a inclusão digital passa pela inclusão cultural mais do que por iniciativas voltadas ao mundo do trabalho. A constatação de que a ocupação não diferencia o brasileiro em termos de conexão à rede digital aponta para a menor necessidade de ações voltadas exclusivamente ao mercado de mão-de-obra. Tendência semelhante ocorre no caso da cor da pele: o fato de não ser decisiva para o uso regular pode indicar, de um lado, sucesso das iniciativas públicas ou privadas de equalização do acesso e, de outro, que ações afirmativas com esse foco correm o risco de não ser a melhor opção de aplicação de energia e recursos com vistas à democratização das novas tecnologias.

Os achados também recomendam que a discussão dos impactos políticos da internet não se deixe aprisionar pela visão de um dilema sem solução entre a interpretação de que a nova tecnologia apenas reforça a voz dos que já têm voz e, pelo outro lado, a de que promoverá uma mobilização espetacular de novos participantes. Junto de sinais de que o acesso à internet em grande medida reproduz o poder de expressão dos que têm mais conhecimento e informação, apareceram as possibilidades de participação ampliada de segmentos diferenciados – sobretudo os mais jovens. Estudos internacionais consistentemente demonstram que os mais jovens engajam-se na política em nível muito menor do que os mais velhos; eles têm menor probabilidade de mostrar interesse no assunto, votar, participar de atividades não-eleitorais e engajar-se em esforços de mobilização (VERBA, SCHLOZMAN & BRADY, 1995; DELLI CARPINI, 2000; PUTNAM, 2000). A maior presença jovem na internet, um meio que diminui os custos de informar-se e de participar, é um dado promissor – embora estudos recentes recomendem cautela, por constatarem que a baixa motivação dos jovens para a política reproduz-se nos meios digitais (LIVINGSTONE, COLDRY & MARKHAM, 2007).

A hipótese 2 foi confirmada, pois o internauta brasileiro apresentou níveis de participação tradicional mais elevados do que o restante da população. Isso serve de indício adicional de que são aqueles que já têm perfil mais atuante na política off-line que terão voz no mundo político virtual. Naturalmente, isso não é o mesmo que verificar as condições em que a participação on-line acontece ou acontecerá, pois ela está sujeita a dinâmicas e condicionantes próprios. Os que estão conectados são mais os participativos, mas a partir daí não se pode inferir diretamente que a participação on-line será dominada por essas mesmas pessoas. Trata-se, antes, de um sinal de alerta: se as tecnologias digitais reduzem os custos de participação e eventualmente aumentam a motivação, são os setores mais ativados da sociedade brasileira que hoje têm mais condições de tirar proveito dessas possibilidades. Além disso, se a participação via internet contribuir "apenas" para reproduzir as desigualdades já constatadas nos meios tradicionais, reproduzindo a política usual (MARGOLIS & RESNIK, 2000), estará em risco uma das fontes de seu potencial para fortalecer a democracia.

Mais otimismo pode gerar o teste da hipótese 3, pois o internauta brasileiro não apresenta valores diferenciados do restante da população de forma marcante. Como o uso regular da internet privilegia estratos sociais mais integrados culturalmente, o prejuízo potencial para o tratamento igualitário das preferências de todos os cidadãos será tanto maior quanto maior a distância entre as opiniões de incluídos e excluídos digitais. De forma geral, não houve divergências com um sentido claro e consistente entre conectados e não-conectados, contrariando os achados de Best e Krueger (2005) para os Estados Unidos e de Norris (2001) a partir do Eurobarômetro de 1999.

No caso brasileiro, porém, há ressalvas relevantes: o internauta mostrou-se mais crítico em relação a duas instituições centrais para o funcionamento democrático – governo e Congresso. É um sinal oposto ao que costuma ser encontrado em estudos sobre países desenvolvidos. Criadas para assegurar a distribuição de poder na sociedade e também para possibilitar aos cidadãos avaliarem e julgarem o desempenho dos que governam em seu nome, a desvalorização pública dessas instituições pode levar ao seu esvaziamento (MOISÉS, 2007). Por outro lado, a desconfiança nessas instituições pode ganhar novos contornos quando cotejada com outros achados do estudo. Também a confiança na Igreja é menor entre os internautas, ao mesmo tempo em que é maior a tolerância ao aborto. No conjunto, esses traços poderiam indicar a emergência de valores pós-materialistas, como definidos por Inglehart (2002): ênfase na sociabilidade, na auto-expressão, na qualidade de vida, na participação e na autoridade não-hierárquica, com conseqüente declínio do apego à religião e às instituições democráticas tradicionais. Um trabalho anterior publicado neste periódico (RIBEIRO, 2007) desaconselha essa linha de inferência por não detectar traços pós-materialistas em públicos brasileiros mais jovens, e serve como mais um sinal da necessidade de investigação mais detalhada para compreender essas evidências.

Por fim, os dados da Argentina e do Chile tiveram sinal contrário à tese da normalização, trabalhada na hipótese 4 e entendida como inclusão crescente dos diversos setores sociais até o limite em que todos estariam representados no mundo digital. A maior proporção de cidadãos conectados não significou equalização de oportunidades de uso regular. Idade, escolaridade, proxy de renda, ocupação, porte da cidade de moradia, interesse por política e, no caso argentino, uso intensivo da mídia tradicional, foram variáveis que diferenciaram o cidadão em termos de inclusão digital. Os valores do r2 de Negelkerke, que serve de indicador sobre quanto da variação da dimensão de interesse foi explicado pelo modelo de regressão logística, estiveram próximos dos encontrados para o Brasil, na faixa de 55%. Isso significa que o cabedal do indivíduo em termos socioeconômicos e demográficos continua sendo decisivo como determinante para o acesso também nesses dois países. As evidências levantadas neste estudo não podem ser tomadas como capazes de refutar a tese da normalização, mas indicam que, se ela pode ocorrer, ainda está distante nos países latino-americanos observados.

No que toca a atitudes, manteve-se nos dois países a tendência de pouca diferenciação entre conectados e não-conectados, com raras divergências consistentes. O internauta argentino apresentou perfil mais próximo do cidadão crítico, descrito por Norris (1999): alguém que preza a democracia, mas avalia com severidade as instituições. No caso chileno, foi o perfil liberal em economia o traço que mais se destacou, acompanhando os resultados de Best e Krueger (2005).

Novos estudos são necessários para aprofundar as questões apenas arranhadas neste trabalho, sobretudo com objetivos mais específicos, a partir de bases de dados mais amplas e com desenhos de pesquisa mais focados. Este artigo terá atingido seus objetivos se conseguir ao menos realçar a relevância de abordagens que dêem centralidade ao usuário na pesquisa sobre o impacto das novas tecnologias no país.

 

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Recebido em 2 de fevereiro de 2009.
Aprovado em 25 de fevereiro de 2009.

 

 

Rogerio Schlegel (rschlegel@usp.br) é Doutorando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e bolsista da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).
1 Gostaria de agradecer a contribuição dos pareceristas anônimos da RSP, cujas observações contribuíram para aprimorar a elaboração teórica deste trabalho. Além disso, agradeço ao Nuffield College, da Universidade de Oxford, pelo acesso aos dados do Latinobarómetro".
2 Em diferentes países, acesso e uso são proporcionalmente maiores nos segmentos mais jovens, embora haja usuários em todas as faixas etárias (COLE et alii, 2003; LLOYD & BILL, 2004; LIVINGSTONE, COULDRY & MARKHAM, 2007).
3 Trata-se de uma variável que presumivelmente tem forte correlação com a variável cuja utilização seria desejável – no caso, a renda – e que é incluída na análise como medida aproximada dela.
4 O conceito de "normalização" tem sido utilizado com duas acepções diferentes na pesquisa sobre internet. Norris (2001, p. 30-31) emprega-o com um sentido próximo ao de saturação: à medida que a nova tecnologia difunde-se pela sociedade, por conta de queda no preço e maior facilidade de operação, grupos sociais inicialmente excluídos do uso passariam a ter acesso, no limite equalizando os diferentes segmentos – a exemplo do que ocorreu com o automóvel, a TV e o telefone. Para Margolis e Resnik (2000, p. 2), a hipótese da normalização consiste na presunção de que, à medida que a internet desenvolve-se ela reproduz padrões de relações socioeconômicas e políticas existentes no mundo off-line. Neste artigo, emprego o termo com o primeiro sentido.
5 Os levantamentos do Ibope nessa área usam como universo de amostra o conjunto das pessoas com 16 ou anos ou mais que possuem telefone.
6 A base de dados inclui 18 países latino-americanos e está disponível para download no sítio da corporação Latinobarómetro (Cf. LATINOBARÓMETRO, 2009), com custo fixado em 100 euros.
7 O entrevistado foi convidado a imaginar uma escada com dez degraus, em que o primeiro degrau conteria o mais pobre e o décimo, o mais rico. Em seguida, foi instado a localizar-se em um dos degraus. Após observação da distribuição de freqüências, foi construída a variável utilizada nas análises seguintes, atribuindo-se renda baixa aos que se localizaram até o degrau quatro, renda média para os que se localizaram no degrau cinco e renda alta para os que se localizaram em degraus mais elevados.
8 A pergunta utilizada pelo Latinobarómetro 2007 foi a seguinte: "Alguma vez em sua vida o sr. usou correio eletrônico ou se conectou à internet?". E as respostas: "Sim, todos os dias"; "Sim, ocasionalmente"; "Sim, quase nunca" e "Não, nunca" (tradução do autor a partir do questionário em espanhol).
9 Para o Chile, a proporção de usuário apresentou discrepância em relação aos dados do Internet World Stats, enquanto Brasil e Argentina estão em patamares compatíveis com aqueles números. Isso se explica pela maneira diversa com que as duas fontes obtiveram o indicador: o Latinobarómetro pretende representar 100% da população do país, mas usa variáveis sócio-demográficas para estratificar a amostra; o Internet World Stats trabalha com amostragem destinada a apurar mais precisamente a parcela de usuários da internet. A discrepância precisa ser levada em consideração na interpretação dos dados, pois no caso do Chile o teste da hipótese de normalização pode acabar prejudicado.
10 O procedimento estatístico permite avaliar o impacto de cada variável independente considerando sua atuação conjunta com as demais, isto é, equivale a controlar todas as variáveis incluídas no modelo ao mesmo tempo (HOSMER & LAMESHOW, 2000; LATORRE, 2004; PERES, OLIVEIRA & ANOROZO, 2008). Aqui os resultados foram expressos em razões de chance (em inglês, odds ratio) e espelham a direção e a intensidade com que alterações na variável dependente influenciam a variável independente. Valores acima de um indicam que um aumento na variável independente produz um aumento na variável dependente, portanto, trata-se de um fator que favorece o resultado definido como sucesso – no caso, o uso regular da internet. Valores abaixo de um indicam diminuição na variável dependente quando há aumento da independente, resultado que aponta um fator de proteção ou desfavorecimento. Razão de chance igual a um sugere que a variável independente não tem impacto na dependente, da forma como se apresenta no modelo de regressão. A significância de cada fator foi apurada usando o teste de Wald e representa a possibilidade de que não haja associação (ou variação coordenada) entre a variável independente e a variável dependente – isto é, representa a probabilidade de rejeitar a hipótese nula. Arbitrariamente, foi definido o patamar de 95% de probabilidade (p<=0,05) como limiar para rejeitar a hipótese nula.
11 O número de casos incluídos na análise (N) aparece no rodapé dos quadros a seguir e é menor do que a amostra total porque os casos em que não havia informação para uma das variáveis consideradas (missing) foram excluídos do teste. Também estão no rodapé o r2 de Negelkerke, que pode ser tomado como indicador da proporção da variação da variável dependente explicada em cada modelo, e o teste de Hosmer e Lemeshow, para verificar a adequação do modelo para prever os casos de sucesso (y=1).
12 A abordagem pode ser considerada adequada levando-se em conta que o objetivo é mais cotejar a comunidade on-line com o restante da população do que verificar onde se originam eventuais diferenças de perfil – hipótese em que regressões multivariadas seriam mais indicadas. Com o procedimento estatístico adotado, não há controle de outras variáveis: se os mais ricos ou mais escolarizados estão desproporcionalmente representados no mundo virtual, a análise possibilitará que o efeito disso expresse-se. O teste t, de diferença de médias, sinaliza se é possível inferir que as diferenças das médias da amostra reproduzem-se no universo geral da população. Diferenças de médias sem significância estatística podem indicar gradientes gerados aleatoriamente, sem que a população apresente de fato discrepância consistente; nesses casos, não se pode rejeitar a hipótese nula, de que os dois grupos comparados na verdade apresentam valores iguais para a variável observada. Uma vez que as variáveis utilizadas também nesta etapa são binárias, as médias que aparecem nos quadros abaixo resultam da proporção entre respostas negativas (0) e positivas (1) para cada um dos quesitos – por exemplo, média 0,300 é resultado de 30% de respostas positivas entre os entrevistados que pertencem a determinado grupo. Dessa forma, a segunda linha do Quadro 6 revela que 12,2% dos internautas brasileiros já assinaram abaixo-assinado, contra 6,9% dos não-conectados, e assim por diante.

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