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Revista de Sociologia e Política

Print version ISSN 0104-4478

Rev. Sociol. Polit. vol.20 no.42 Curitiba June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-44782012000200001 

Editorial

 

 

Neste número a Revista de Sociologia e Política apresenta o dossiê "Novas repúblicas: construção de nações na América Latina do século XIX", organizado pela professora Hilda Sabato, da Universidade de Buenos Aires (UBA, Argentina). Resultado de um Congresso Internacional de História Política ocorrido em Amsterdã, no final de 2010, o presente dossiê reúne artigos de autores das mais diversas procedências hispano-americanas. Dessa forma, desde a organização até os textos selecionados, é um dossiê que reflete um esforço consciente, da parte da Revista de Sociologia e Política, de ampliar os laços intelectuais e acadêmicos com pesquisadores de outros países.

Na seção de texto fundamental, publicamos o artigo de Stephen D. Krasner, "Causas estruturais e conseqüências de regimes: regimes como variáveis intervenientes". Esse texto preenche com perfeição os critérios definidos pela Revista de Sociologia e Política para a seção "Textos fundamentais": é um artigo de referência na área de Relações Internacionais, extremamente citado e, embora já com 30 anos de publicação original, somente agora ganha tradução para a língua portuguesa.

A seção de artigos variados abre-se com mais uma tradução, agora de um artigo do sociólogo francês Phillipe Steiner, a respeito das categorias utilizadas pela Nova Sociologia Econômica para definir as "trocas", em contraposição às definições apresentadas pela teoria econômica. Aliás, convém notar que esse artigo é publicado em versão bilíngüe: ao mesmo tempo em português e no original em francês (pelo que agradecemos a gentil permissão do autor).

Em seguida, Rafael Cardoso Sampaio apresenta um modelo teórico e empírico para medir o grau de deliberativismo dos debates virtuais. Ludmila Ribeiro, Julita Lemgruber e Klarissa Almeida Silva discutem as concepções e os conteúdos específicos de "cidadania" conforme compreendido pelas diversas corporações de Polícia Civil no país; na seqüência, Darcilene Gomes, Leonardo Barbosa e Silva e Sidartha Sória analisam como se deram as relações de trabalho no serviço público durante as duas gestões de Luís I. Lula da Silva como Presidente da República.

Igor Ferraz da Fonseca, Marcel Bursztyn e Adriana Mª M. de Moura investigam como é que se dão as relações de poder no seio do Conselho Nacional do Meio Ambiente, especialmente em termos de participação e de afirmação de conhecimentos técnicos. Encerrando o número, José Alexandre da Silva Jr. e Dalson B. Figueiredo Fº analisam como é que as diversas ondas de renovação na Câmara dos Deputados, entre 1999 e 2003, influenciaram a profissionalização da atividade (de representação) política.

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Uma alteração recentemente anunciada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na base eletrônica de currículo Lattes é importante de ser mencionada por nós: a inclusão de duas nova abas, correspondentes a, por um lado, atividades de divulgação e educação científicas e, por outro lado, inovação.

A inovação é uma das mais importantes exigências sociais e intelectuais contemporâneas; embora consista no cotidiano da ciência - ela inova-se todos os dias -, o que se cobra é que a academia busque integrar-se mais com o chamado setor produtivo, isto é, com as empresas e que procure soluções para os inúmeros problemas que cada localidade, o Brasil e a humanidade enfrentam.

Para a Revista de Sociologia e Política, todavia, é a preocupação com divulgação e educação científica que assume maior importância. Por certo que a divulgação desejada pelo CNPq não é a realizada interpares, como a que as revistas científicas realizam: o que a agência tem em mira são as atividades que procuram levar à grande população, ao público leigo, os resultados, pesquisas, metodologias, questões, reflexões da academia brasileira. É fácil entender, assim, por qual motivo a referida aba da plataforma eletrônica Lattes, conforme anunciado, incluirá também a educação científica: a divulgação não visa somente a levar para fora das universidades o que é produzido dentro - com vistas a obter legitimidade política e social e também gerar riqueza -; a divulgação assume um papel educativo, no sentido de apresentar à sociedade em geral os principais resultados e as pesquisas em curso e, com isso, auxiliar a compor a visão de mundo de nossos concidadãos.

Não se trata de sugerir que os pesquisadores tenham a visão definitiva da realidade e que, portanto, estariam aptos a orientar politicamente a população: essa forma de conceber as relações entre ciência, cientistas e a sociedade em geral escamoteia a natureza crítica e reflexiva da ciência e, por outro lado, concebe a cidadania como uma atividade essencialmente passiva. Trata-se, bem ao contrário, de aproximar a sociedade da ciência desenvolvida no Brasil - cujos investimentos e resultados são crescentemente maiores - e de conceber a atividade científica não como atividade esotérica, reservada aos "iniciados", e/ou produtora de tecnologia, geradora de aplicações práticas mais ou menos imediatas e lucrativas, mas como uma forma criativa, instigante e rigorosa de conhecer a realidade. Essa forma de conhecer a realidade, ao ampliar a concepção individual e coletiva que se tem do mundo e da sociedade, permite que os cidadãos desenvolvam sua capacidade crítica, exigindo argumentos bem-elaborados, bem fundamentados e razoáveis nos crescentemente complexos debates públicos contemporâneos.

A despeito de a Revista de Sociologia e Política procurar difundir pesquisas de alto nível recém-concluídas ou em andamento do público acadêmico para o próprio público acadêmico, consideramos que um de nossos objetivos é facilitar a difusão do que é produzido nas universidades, nos termos sugeridos acima entre conhecimento científico e cidadania. Assim, vemos como bastante bem-vinda a iniciativa do CNPq.

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A Revista de Sociologia e Política integra o Programa de Apoio a Periódicos da Universidade Federal do Paraná e conta com seu patrocínio, bem como do curso de Especialização em Sociologia Política do Departamento de Ciências Sociais da mesma instituição, além do apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), aos quais expressamos nossos sinceros agradecimentos.

 

Gustavo Biscaia de Lacerda
Editor