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Pró-Fono Revista de Atualização Científica

versão impressa ISSN 0104-5687

Pró-Fono R. Atual. Cient. v.17 n.3 Barueri set./dez. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872005000300006 

ARTIGOS DE PESQUISA

 

Impacto da voz na qualidade de vida de professore(a)s do ensino fundamental*

 

 

Maria Helena Marotti Martelletti GrilloI,1; Regina Zanella PenteadoII

IFonoaudióloga. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos. Docente dos Cursos de Fonoaudiologia, Direito e Letras da Universidade de Ribeirão Preto
IIFonoaudióloga. Doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Docente dos Cursos de Mestrado, Especialização e Graduação em Fonoaudiologia da Universidade Metodista de Piracicaba

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

TEMA: relação voz e qualidade de vida.
OBJETIVO: avaliar o impacto da voz na qualidade de vida de professores do Ensino Fundamental de escolas públicas.
MÉTODO: aplicação do questionário protocolo de Qualidade de Vida e Voz (QVV) em 120 professores. A análise engloba o cálculo do Domínio Global (questões de 1 a 10), a análise descritiva das questões e o cálculo dos coeficientes de correlação de Spearman entre o Domínio Global, a questão "como avalia a sua voz", a idade, o tempo de magistério e a carga horária de trabalho.
RESULTADOS: a média do Domínio Global é 84,2 a maioria (49,2%) avaliou a voz como boa, apesar de enfrentarem dificuldades ao falar, especialmente quando se trata de falar forte em ambientes ruidosos e do ar acabar rápido e precisar respirar muitas vezes enquanto fala (questões 1 e 2, respectivamente). A questão isolada apresentou correlação linear significativa com todas as questões do QVV, ao passo que idade e carga horária não apresentaram correlação significativa com nenhuma das questões. Tempo de magistério apresentou correlação com as questões 2 e 5, relacionadas a problemas como falta de ar e depressão, respectivamente. O impacto da voz na qualidade de vida evidencia-se, portanto, no uso da voz em forte intensidade, na incoordenação pneumofônica, no trabalho e nos sentimentos negativos, diretamente relacionados às necessidades vocais da categoria.
CONCLUSÃO: o impacto da voz sobre a qualidade de vida e trabalho é ainda pouco percebido pelos professores, que têm necessidades vocais que demandam ações de promoção da saúde que levem em conta a relação entre voz e qualidade de vida do professor.

Palavras-Chave: Fonoaudiologia; Voz; Qualidade de Vida; Docente.


 

 

Introdução

A voz se faz presente nos processos de socialização humana, como um dos componentes da linguagem oral e da relação interpessoal, produzindo impactos na qualidade de vida dos sujeitos, especialmente daqueles que fazem o uso da voz falada e/ou cantada em sua profissão (Penteado e Bicudo-Pereira, 2003).

Na profissão docente, a voz é fator relevante para o desempenho profissional e a atuação do professor em sala de aula, especialmente enquanto componente constitutivo da identidade do professor como trabalhador, do impacto do docente sobre o discente e componente do processo ensino-aprendizagem (Penteado, 2003; Penteado e Bicudo-Pereira, 2003; Grillo, 2004).

Nas ações fonoaudiológicas em saúde vocal docente é preciso ampliar a percepção e análise dos determinantes do processo saúde-doença vocal de professores, deslocando o eixo patologia/tratamento para saúde/promoção e incorporando os aspectos do cotidiano e da qualidade de vida que relacionam-se à voz e à saúde vocal (Penteado, 2003; Grillo, 2004).

Para tanto, contribuem as pesquisas que se propõem a investigar e a relacionar a saúde vocal à qualidade de vida; uma vez que ajudam a compreender os sujeitos a partir das suas experiências subjetivas e da percepção e satisfação deles em relação à sua própria saúde e condição de existência, levando em conta os aspectos relacionais, culturais, sociais, do trabalho, da historicidade e da subjetividade que interferem na produção vocal nos diversos espaços e relações sociais implicados na vida cotidiana. Alguns estudos fonoaudiológicos já despontam nessa direção, focalizando a temática da qualidade de vida relacionada à voz (Penteado e Bicudo-Pereira, 1999; Murry e Rosen, 2000; Vilkman, 2000; Behlau et al., 2001; Ma e Yiu, 2001; Serrano e Ferreira, 2002; Guimarães e Abberton, 2004; Murry et al., 2004).

O objetivo desse artigo é avaliar o impacto da voz na qualidade de vida de professores do Ensino Fundamental de escolas públicas.

 

Método

A pesquisa englobou 120 professores de Ensino Fundamental das Escolas Estaduais e Municipais da Região de Ribeirão Preto.

Este trabalho vincula-se à pesquisa "Aspectos de Qualidade de Vida e de subjetividade na promoção da saúde vocal do professor", de Penteado (2003), e o Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo analisou e aprovou, em 13/11/2001, o Protocolo de Pesquisa a ela referente, sob o número 588. Todos os participantes concordaram em participar dessa pesquisa e leram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A metodologia consistiu na aplicação do questionário protocolo de Qualidade de Vida e Voz (QVV) nos referidos professores. Tal questionário refere-se a uma adaptação e tradução, para o Português, do instrumento (VRQOL - Voice-Related Quality of Life Measure), desenvolvido por Hogikyan e Seturaman (1999). O QVV vem sendo utilizado em diversas pesquisas da área fonoaudiológica para a investigação das relações entre qualidade de vida e voz em professores e sujeitos com e sem alterações vocais e vem sendo apontado como importante instrumento para avaliar o impacto da disfonia sobre a vida de sujeitos em atendimento fonoaudiológico; para avaliar a capacidade de percepção dos sujeitos quanto ao impacto da voz sobre sua qualidade de vida; para realizar o acompanhamento da evolução do atendimento clínico na área de voz e subsidiar o planejamento de ações para a promoção da saúde vocal docente (Behlau et al., 2001; Penteado e Bicudo-Pereira, 2003).

O QVV envolve apenas dez itens e uma questão isolada (como avalia a sua voz) e relaciona qualidade de vida e voz envolvendo os domínios Físico (questões 1, 2, 3, 6, 7 e 9), Sócio-Emocional (4, 5, 8 e 10) e Global (questões de 1 a 10). Esta pesquisa utiliza o cálculo do domínio Global do QVV (envolvendo todas as questões) por ter sido esse avaliado, em pesquisas recentes, como o mais interessante e confiável dos domínios (Penteado e Bicudo-Pereira, 2003).

O QVV foi aplicado nos sujeitos pela primeira pesquisadora (Grillo), na ocasião da realização de um encontro dos docentes das escolas Estaduais e Municipais de Ensino Fundamental de Ribeirão Preto e Região.

Para o cálculo do domínio global padronizado da QVV, foi utilizada a seguinte expressão, proposta na literatura (Hogikyan e Sethuraman, 1999; Behlau et al., 2001):

O domínio Global apresenta valores que variam entre zero e cem, sendo considerados piores os valores mais próximos de zero e melhores os mais próximos de cem; e um sujeito que tenha valor igual a cinqüenta para determinado domínio pode ser considerado mediano para esse domínio.

Quanto à metodologia estatística utilizada, inicialmente fez-se uma descrição geral da amostra, através de análise descritiva das questões, utilizando-se tabelas de freqüência e de classes de freqüência, de acordo com a natureza da variável, qualitativa ou quantitativa, respectivamente. Os resultados foram ilustrados através de gráficos de barras.

Na seqüência foram calculados os coeficientes de correlação entre as variáveis de interesse. No caso de variáveis medidas através de escores, a literatura consultada sugere que é melhor optar pelo cálculo do coeficiente de correlação de Spearman, que é não-paramétrico, ao invés do coeficiente de correlação de Pearson (Spiegel, 1993).

 

Resultados

A Tabela 1 mostra a descrição da amostra para sexo, idade, tempo de magistério e carga horária.

Na Tabela 1, verifica-se o predomínio do gênero feminino nesta categoria profissional, sendo que apenas sete docentes são do sexo masculino. A idade dos sujeitos variou de 23 a 65 anos, com média de 38;7 anos, e as classes mais freqüentes foram de 31 a 40 anos (33,3%) e de 41 a 50 anos (31,7%).

O tempo médio de magistério foi de 12;7 anos, variando de 1 a 45 anos, sendo que apenas 18 deles estão a mais de 20 anos no magistério. A carga horária de trabalho semanal teve variação de 2 a 63 horas/semana, com média de 32,2 horas/semana. Observa-se que somente 9,2% dos docentes trabalham até 20 horas/semana, enquanto que 4,2% lecionam mais do que 50 horas/semana.

Os resultados mostram que a maioria dos sujeitos exerce a profissão docente há mais de cinco anos, com uma carga horária semanal alta de uso profissional da voz e, por serem, na maioria, mulheres, estão mais dispostos ao acúmulo de papéis sociais e responsabilidades familiares e de trabalho doméstico que, muitas vezes, podem chegar a configurar uma dupla jornada de trabalho, redobrando a demanda de uso da voz no cotidiano e a carga que isso representa para a saúde vocal.

A Tabela 2 apresenta a análise descritiva da questão na qual o professor avalia a sua própria voz.

Verifica-se que 24,1% dos sujeitos avaliaram sua voz como muito boa ou excelente; 49,2% como boa, enquanto que 26,7% avaliaram como razoável ou ruim. Os resultados mostram que, em geral, o(a)s professore(a)s encontram-se satisfeitos com a qualidade vocal que apresentam. É interessante notar que diversos docentes que avaliaram suas vozes como boa, muito boa ou excelente enfrentam dificuldades ao falar, especialmente quando se trata de falar forte em ambientes ruidosos e do ar acabar rápido e precisar respirar muitas vezes enquanto fala (aspectos levantados pelas questões 1 e 2 do QVV e relacionados ao uso profissional da voz) - os resultados da Tabela 3 evidenciam que a porcentagem de sujeitos que consideraram esses quesitos (Q1, Q2) como problema de moderado a ruim é superior a 26,7%, indicando a possibilidade de haver uma restrição nas capacidades de auto-avaliação vocal nas atividades de vida diária. Não se pode esquecer que a voz é somente um dos elementos presentes no contexto da sala de aula. Neste caso, para que a voz possa causar um impacto negativo na comunicação, é necessário que apresente um grau severo de alteração. Isto pode, em parte, explicar a dificuldade do professor em auto-avaliar-se (Grillo, 2004).

A Tabela 3 apresenta a análise descritiva das questões da QVV, com as respostas (categorias) e respectivos escores.

Nota-se que 30,0% dos sujeitos nunca têm dificuldades em falar forte (alto) ou ser ouvidos em ambientes ruidosos (Questão 1), enquanto que, para 40% deles, esse quesito é considerado um problema de moderado a ruim. A situação de docência envolve, em geral, o uso da voz em ambientes ruidosos, o que leva o professor à elevação da intensidade vocal pela competição sonora e necessidade de superar o ruído ambiente (Pereira et al., 2000). A prática docente exige resistência vocal para o uso da voz com forte intensidade e boa projeção vocal, componentes de uma psicodinâmica vocal que sugere autoridade e confiabilidade (Vilkman, 2000). Por isso, demanda coordenação pneumofônica e o desenvolvimento da respiração diafragmático-abdominal ou costodiafragmático-abdominal, completa ou total, que é aquela tida como mecanicamente mais eficaz para o desenvolvimento da voz profissional (Behlau et al., 2001). Desta maneira, o fato de que 40% dos sujeitos enfrentam problemas com o uso da voz em forte intensidade indica uma necessidade de desenvolvimento vocal dessa categoria profissional, uma demanda para a ação fonoaudiológica voltada à promoção da saúde e aprimoramento vocal docente.

Na segunda questão, verifica-se que 33,0% dos professores afirmaram que nunca acontece do ar acabar rápido e precisar respirar muitas vezes enquanto fala; 30,8% respondeu que isso acontece pouco e 35,8% afirmaram que isso é um problema de moderado a ruim. Uma emissão com coordenação pneumofonoarticulatória adequada é resultante da inter-relação harmônica das forças expiratórias, mioelásticas da laringe e musculares da articulação, numa unidade funcional equilibrada de todas as estruturas envolvidas. A emissão com adequada coordenação pneumofonoarticulatória é uma necessidade do uso profissional da voz docente, pois ela transmite ao ouvinte a sensação de estabilidade, domínio e harmonia; e a incoordenação pneumofônica pode gerar compensações, como a hiperfunção laríngea, que leva à fadiga vocal, assim como pode chegar a comprometer a inteligibilidade da fala (Behlau et al., 2001).

Na terceira questão, 50% dos sujeitos assinalaram que nunca acontece de não saberem como a voz vai sair quando começam a falar, 30,8% afirmaram que isso acontece pouco e raramente é um problema, enquanto somente 19,2% consideraram esse aspecto um problema de moderado a ruim. Os resultados demonstram que, em geral, os docentes de Ensino Fundamental não enfrentam problemas de instabilidade e variabilidade da qualidade vocal, o que sugere que eles não estejam enfrentando problemas de saúde vocal. Entretanto, a análise dos resultados conduz para outra perspectiva de reflexão, no sentido de considerar-se a possibilidade de que este(a)s professore(a)s não estejam suficientemente sensibilizado(a)s para a auto-análise de sua qualidade vocal e das sutis variações que ela poderia apresentar. Há estudos que mostram que o professor apresenta dificuldade de se perceber como profissional da voz, o que pode ser um fator de impedimento para que ele avalie sua própria voz, uma vez que a voz não se constitui, para ele, numa ferramenta de trabalho (Grillo et al., 2000).

A maioria dos sujeitos assinalou o escore um para as questões 4 a 10, indicando que as professoras de Ensino Fundamental não se deprimem, não deixam de participar de suas atividades sociais nem alteram seu comportamento social em função da sua voz/saúde vocal. Esses resultados confirmam aqueles obtidos por Penteado e Bicudo-Pereira (2003) em pesquisa realizada junto a professore(a)s do Ensino Médio e indicam pouca percepção dos sujeitos acerca da relação entre voz e emoções/sentimentos e relacionamentos sociais.

Contudo, apesar de 60,0% terem assinalado o escore um na questão 7, nota-se que 20% dos sujeitos enfrentam problemas no trabalho ou para desenvolver a profissão por causa da voz e consideraram que o problema varia de moderado a ruim. O(a) professor(a) é um(a) profissional da voz, que depende dela como instrumento de trabalho e recurso na relação professor-aluno e no processo ensino-aprendizagem (Dragone, 2001; Grillo, 2004). Nesse sentido, o resultado de que 20% dos sujeitos estejam enfrentando problemas no trabalho e na profissão em decorrência do uso da voz pode ser confrontado aos resultados da Questão 1 (de que 40% enfrentam problemas para falar forte ou ser ouvidos em ambientes ruidosos) e aos da Questão 2 (de que 35,8% enfrentam problemas com a coordenação pneumofonoarticulatória) a fim de se discutir como o(a)s professore(a)s, apesar de identificarem algumas dificuldades ou problemas no uso da voz, ainda têm dificuldades em relacioná-los ao seu trabalho e em perceber o impacto deles na profissão (apesar da voz ser importante recurso de trabalho docente, o número de sujeitos que identificou problemas no uso da voz foi maior do que aquele que reconheceu o impacto da voz no trabalho/profissão). Isso indica a importância de se pensar a relação voz/trabalho docente, bem como a necessidade do(a)s fonoaudiólogo(a)s investirem esforços na organização de ações coletivas para promoção da saúde vocal que considerem tal relação (Orlova et al., 2000; Grillo, 2004).

Considerando que os escores maiores ou iguais a três representam algum problema para os professores, pode-se evidenciar que a questão mais comprometida é a questão 1 (40,0%); seguida pelas questões 2 (35,8%), 7 (20,0%), 3 (19,2%), 4 (17,5%), 9 (16,7%), 5 (10,8%), 6 (9,2%) e 10 (6,6%), nesta ordem, e a menos comprometida é a questão 8 (4,1% assinalaram escores maiores ou iguais a três), que está relacionada a evitar sair socialmente por causa da voz.

Assim, percebe-se que o impacto negativo da voz sobre a qualidade de vida de professore(a)s do Ensino Fundamental relaciona-se diretamente às necessidades vocais dessa categoria profissional, ou seja, o impacto é mais evidente nos aspectos ligados à demanda pelo uso da voz em ambientes ruidosos e em forte intensidade, à coordenação penumofonoarticulatória e à estabilidade da qualidade vocal. Nesse sentido, outros autores, como Orlova et al. (2000), já apontaram dificuldades dos professores relacionadas ao uso excessivo da voz.

A Figura 1 apresenta o histograma do Domínio Global do QVV.

 

 

Os valores dos escores do domínio global variaram de 7,5 a 100, com média de 84,2, o que pode ser considerado bom. Os escores do domínio global estão concentrados nos valores mais elevados da escala (entre 80 e 100), indicando que, em geral, os professores da amostra não têm grandes problemas com o impacto da voz sobre sua qualidade de vida (Figura 1). Isso nos leva a refletir sobre a capacidade de atenção e de percepção do(a)s professore(a)s acerca da própria voz e dos usos cotidianos que fazem dela, bem como do impacto que as alterações e problemas de saúde vocal possam exercer sobre a sua qualidade de vida. Sugere, inclusive, que esses estejam sendo subestimados por esta categoria de trabalhadores.

A Tabela 4 mostra os coeficientes de correlação de Spearman entre o domínio global da QVV e de "Como você avalia sua voz" com "Como você avalia sua voz", idade, tempo de magistério e carga horária.

 

 

Observa-se que, a exceção da correlação entre "Como você avalia sua voz" e o Domínio Global do QVV, as demais correlações não foram significativas (p > 0,05). Apesar da correlação entre "Como você avalia sua voz" e o Domínio Global do QVV ser negativa (-0,692), ela denota que quanto pior o indivíduo avalia sua voz, pior o resultado do Domínio Global do QVV (pior é o impacto negativo da voz sobre a qualidade de vida), já que os escores das respostas da questão "Como você avalia sua voz" estão em ordem inversa. Esses resultados conferem com estudos realizados com docentes de Ensino Médio, que apresentaram o mesmo tipo de correlação (Penteado e Bicudo-Pereira, 2003).

A Tabela 5 mostra os coeficientes de correlação de Spearman e teste "t", para o cruzamento das questões de qualidade de vida e voz (QVV) com "como você avalia sua voz", idade, tempo de magistério e carga horária.

"Como você avalia sua voz" também apresentou correlação linear significativa com todas as questões de QVV, em conformidade com os resultados de estudos similares realizados com docentes de Ensino Médio (Penteado e Bicudo-Pereira, 2003); sendo que as maiores correlações foram com as questões 1 (0,626), 3 (0,562), 7 (0,518) e 9 (0,506), e menor correlação foi com a questão 8 (0,221), que está relacionada a evitar sair socialmente por causa da voz (Tabela 5).

A idade e a carga horária não apresentaram correlação significativa com nenhuma das dez questões da QVV, enquanto o tempo de magistério apresentou correlação significativa com as questões 2 e 5. A interpretação dessas duas correlações mostra que conforme aumenta o tempo de magistério mais o professor tem problema com falta de ar (Questão 2) e depressão por causa da voz (Questão 5). Ramig e Verdolini (1998); Orlova et al. (2000) afirmam que os distúrbios vocais causam estresse psicoemocional, depressão e frustração, afetando negativamente o funcionamento social e causando um impacto significante na qualidade e na eficiência do trabalho do indivíduo. Parece-nos que, com o passar dos anos de profissão aumentam as chances de problemas com o uso da voz e de comprometimento da saúde vocal e geral do professor. Isso indica que a ação fonoaudiológica para a promoção da saúde vocal deve iniciar-se na formação do(a) professor(a) e se estender ao longo da sua carreira, integrando as propostas de formação continuada e de promoção da saúde desse trabalhador.

 

Conclusão

A média dos escores do Domínio Global do QVV foi de 84,2 e a maioria avaliou a voz como boa, o que demonstra que, em geral, o(a)s professore(a)s encontram-se satisfeitos com a qualidade vocal que apresentam.

Apesar disso, a análise descritiva das questões evidenciou que necessidades e problemas relacionados ao uso da voz provocam impacto negativo na qualidade de vida do(a)s professore(a)s de Ensino Fundamental. As principais necessidades e problemas são percebidos em situações da vida cotidiana relacionadas ao desenvolvimento da profissão e trabalho docente - tais como aquelas que requerem do sujeito falar em forte intensidade em ambientes ruidosos (como o das salas de aula e de reuniões) e aquelas que demandam adequada coordenação pneumofonoarticulatória - além das situações que envolvem aspectos subjetivos (como as emoções e sentimentos negativos dos sujeitos em relação à própria voz).

O confronto dos resultados favoráveis, obtidos pela média dos escores do Domínio Global do QVV e pela auto-satisfação com a própria voz, com aqueles da análise descritiva das questões, que indicam impactos na qualidade de vida do(a) professor(a), mostra a importância de se buscar conhecer as representações que o(a)s professore(a)s têm acerca da própria voz, dos seus usos profissionais e do processo saúde-doença-cuidado a ela relacionado para que esses dados possam subsidiar futuras ações educativas em saúde vocal no sentido de contribuir para o desenvolvimento da atenção e valoração da voz/saúde vocal docente.

A prevalência de mulheres dentre os docentes de Ensino Fundamental indica que as questões de gênero não podem ser desconsideradas ao se pensar em ações fonoaudiológicas de promoção da saúde vocal e geral de professore(a)s que levem em conta a qualidade de vida, uma vez que elas estão mais expostas às responsabilidades e cargas de trabalho decorrentes do acúmulo de papéis sociais nos ambientes de trabalho e familiar.

A relação entre o aumento do tempo de magistério e piores escores do QVV mostra que, com o passar dos anos de profissão, aumentam-se as chances de que os docentes venham a ter problemas com o uso da voz e comprometimento da sua saúde vocal e geral, ainda que pesquisas não confirmem a relação queixa vocal/tempo de magistério.

Conclui-se que, sendo a docência uma profissão que envolve questões de gênero e que possui demandas e necessidades específicas relacionadas ao uso profissional da voz, sob longas jornadas e precárias condições de trabalho que se repetem ao longo dos anos, a ação fonoaudiológica para a promoção da saúde vocal deve iniciar-se já na formação do(a) professor(a) e se estender ao longo da sua carreira, integrando as propostas de formação continuada e de promoção da saúde desse(a) trabalhador(a).

 

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Endereço para correspondência
Maria Helena Marotti Martelletti Grillo
R. Ayrton Roxo, 307 - Alto da Boa Vista
Ribeirão Preto - SP - CEP: 14025-270.

Recebido em 13.10.2004.
Revisado em 28.02.2005; 17.06.2005; 30.09.2005; 31.10.2005.
Aceito para Publicação em 31.10.2005.

 

 

Artigo de Pesquisa
Artigo Submetido a Avaliação por Pares
Conflito de Interesse: não
* Trabalho Realizado na Universidade de Ribeirão Preto e na Universidade Metodista de Piracicaba.
1 (mhgrillo@terra.com.br)