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Pró-Fono Revista de Atualização Científica

Print version ISSN 0104-5687

Pró-Fono R. Atual. Cient. vol.17 no.3 Barueri Sept./Dec. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872005000300015 

ARTIGO DE OPINIÃO

 

Experiência e relato pessoal sobre pesquisa de cooperação internacional - Brasil, Bulgária e Turquia - que avalia as atitudes em relação à gagueira*

 

 

Kenneth O. St. LouisI,1; Claudia Regina Furquim de AndradeII; Dobrinka GeorgievaIII; Filiz Oruç TroudtIV

IFonoaudiólogo. Professor Associado - Department of Speech Pathology and Audiology, West Virginia University
IIFonoaudióloga. Professora Titular do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
IIIFonoaudióloga. Professora Associada - Department of Logopedics of South-West University
IVFonoaudiólogo. Doutorado pela Louisiana State University Health Sciences Center

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

TEMA: as pessoas gagas são freqüentemente consideradas como sendo tímidas, nervosas, introvertidas e assustadas. Muitos gagos são submetidos a situações constrangedoras em decorrência da ridicularização ou da discriminação e preconceito ilegal.
OBJETIVO: até o momento não existe nenhum instrumento, largamente aceito e padronizado, para medir as atitudes públicas sobre a gagueira. Em 1999 foi iniciado o Projeto de Atitudes em Relação à Gagueira (IPATS) que foi uma iniciativa para desenvolver um instrumento de avaliação de opinião, que foi chamado de Pesquisa de Opinião Pública dos Atributos Humanos (POSHA).
MÉTODO: a experiência aqui apresentada compara os resultados obtidos em três países — Brazil, a Bulgária e a Turquia, como representantes da América do Sul, da Europa e do Oriente Médio. Os participantes foram agrupados segundo seu país e língua de origem. Todos os questionários foram respondidos na língua de origem do participante.
RESULTADOS E CONCLUSÃO: esse estudo piloto sugere que algumas diferenças de atitudes entre os participantes podem ser explicadas pela influência da interação entre a nacionalidade, cultura, etnia, religião e língua materna. A contribuição específica de cada um desses componentes não pode ser determinada. A continuidade do projeto envolverá a análise comparativa entre os resultados dos países de língua materna não inglesa e os de língua materna inglesa.

Palavras-Chave: Gagueira; Avaliação; Percepção Social.


 

 

As pessoas gagas são freqüentemente consideradas como sendo tímidas, nervosas, introvertidas e assustadas (Shapiro, 1999). Muitos gagos são submetidos a situações constrangedoras em decorrência da ridicularização ou da discriminação e preconceito ilegal (Blood, 1999). Em resposta a essas atitudes pejorativas ou de ignorância do público algumas iniciativas de sensibilização pública e campanhas educacionais tem sido formuladas, tendo como objetivo promover atitudes positivas.

Até o momento não existe nenhum instrumento, largamente aceito e padronizado, para medir as atitudes públicas sobre a gagueira. Em 1999 foi iniciado o Projeto de Atitudes em Relação à Gagueira (Ipats) que foi uma iniciativa para desenvolver um instrumento de avaliação de opinião, que foi chamado de Posha (Pesquisa de Opinião Pública dos Atributos Humanos). A proposição foi elaborada por St. Louis, et al. em 2001. Esse instrumento é composto por uma parte geral (que compara a gagueira a outros oito atributos considerados como "âncoras" - como inteligência, preferência manual e doença mental), por uma parte específica sobre a gagueira e por uma parte de caracterização demográfica. Esse instrumento foi aplicado em vários países, envolvendo aproximadamente 900 adultos entrevistados que completaram o questionário representando a primeira, de duas versões experimentais do instrumento. O Posha-E1 é composto pela marcação de descritores com escalas contínuas. O Posha-E2 é composto pela marcação numérica de 1 a 9 (circular o número).

A experiência aqui apresentada compara os resultados obtidos em três países - Brasil, a Bulgária e a Turquia, como representantes da América do Sul, da Europa e do Oriente Médio. Os participantes foram agrupados segundo seu país e língua de origem. Todos os questionários foram respondidos na língua de origem do participante. A tabela 1 apresenta o perfil demográfico do estudo.

As taxas obtidas tanto no Posha-E1 quanto no Posha-E2 foram convertidas num contínuo de - 100 a + 100 como os extremos negativo e positivo. O zero representando a taxa neutra. A análise dos questionários permitiu uma extensa disponibilidade de dados. Testes de significância estatística foram aplicados. Os resultados indicam:

. as diferenças não foram significantes entre os três grupos quando a gagueira foi comparada com as outras oito características mas os brasileiros apresentaram as impressões gerais sobre a gagueira mais baixas. Os turcos foram os que apresentaram a menor disposição para serem gagos e os búlgaros apresentaram o menor conhecimento sobre o distúrbio;
. o quesito querer ser um gago foi considerado o atributo mais negativo, semelhante a ter sobrepeso, usar cadeira de rodas ou ter doença mental;
. significantemente, melhores atitudes caracterizaram os brasileiros em relação a etiologia da gagueira não atribuindo o distúrbio: aos vírus, às doenças, aos atos de Deus ou atos dos fantasmas/demônios/espíritos. Os turcos obtiveram mais pontos na atribuição da etiologia aos atos de Deus ou atos dos fantasmas/demônios/espíritos;
. os búlgaros foram os mais propensos e os brasileiros os menos propensos em acreditar que os gagos deveriam procurar ocupações que envolvessem a fala;
. os búlgaros foram os que menos acreditaram que os gagos apresentam diminuição da inteligência mas foram os que mais apresentaram pena dos gagos;
. os turcos foram significantemente mais propensos a interferir na fala dos gagos, completando as palavras ou sugerindo que falassem mais devagar ou relaxadamente;
. os brasileiros indicaram serem menos preocupados se a professora do seu filho(a) for gaga mas apresentaram maior escore de preocupação caso seu filho(a) fosse gago (a).

Esse estudo piloto sugere que algumas diferenças de atitudes entre os participantes podem ser explicadas pela influência da interação entre a nacionalidade, cultura, etnia, religião e língua materna. A contribuição específica de cada um desses componentes não pode ser determinada. A continuidade do projeto envolverá a análise comparativa entre os resultados dos países de língua materna não inglesa e os de língua materna inglesa.

Relato pessoal

EUA: esse e outros estudos piloto tem apresentado os primeiros dados comparativos entre culturas e entre línguas em relação às atitudes para a gagueira. A relevância desse estudo foi que mesmo sendo aplicado em três diferentes traduções de uma pesquisa originalmente de língua inglesa, foram encontradas similaridades e diferenças nas atitudes dos grupos pesquisados. Os participantes, nas diferentes amostras, também parecem compreender e responder aos questionários com suficiente similaridade e seriedade, de maneira a fornecer comparações significativas.

Brasil: o estudo piloto envolveu a participação de 50 alunos de graduação em fonoaudiologia na atividade de campo. O estudo foi aplicado em duas cidades: São Paulo (SP) e Alfenas (MG). Houve um número pequeno de diferenças significantes entre as duas cidades. Os principais resultados encontrados no Brasil foram: a gagueira é considerada uma deficiência séria e o brasileiro tem um alto grau de desinformação e mal entendimento do que seja a gagueira.

Bulgária: o Posha foi distribuído em duas cidades da Bulgária, Sofia (capital) e Blagoevgrad. Dez estudantes de Fonoaudiologia da Universidade de South West distribuíram os questionários. Não foram encontradas diferenças óbvias entre os participantes das duas cidades. Os resultados da Bulgária incluíram algumas atitudes positivas em relação às pessoas com gagueira mas também alguns equívocos sobre esse distúrbio.

Turquia: o Posha foi traduzido e distribuído em quatro cidades do oeste da Turquia sendo que alguns participantes eram originários do leste da Turquia. O nível educacional dos participantes variava da escolaridade elementar à universitária. A resposta ao questionário foi positiva. Algumas pessoas incluíram um endereço de retorno para receber o resumo dos resultados. Os resultados na Turquia sugerem que a religião e a cultura foram fatores de influência na opinião pública sobre a gagueira.

 

Referências Bibliográficas

BLOOD, G. W. The stigma of stuttering: centuries of negative perceptions and stereotypes. ASHA Convention, San Francisco, CA, 1999.         [ Links ]

SHAPIRO, D. A. Stuttering intervention: a collaborative journey to fluency freedom. Austin, TX: Pro-Ed., 1999.         [ Links ]

ST. LOUIS, K. O.; YARUSS, J. S.; LUBKER, B. B.; PILL, J.; DIGGS, C. C. An international public opinion survey of stuttering: pilot results. In: Bosshardt, H. G.; Yaruss, J. S.; Peters H. F. M. (Eds.). Fluency disorders: theory, research, treatment and self-help. International Fluency Association, 2001.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Kenneth O. St. Louis
805 Allen Hall, PO Box 6122 -
West Virginia University -
Morgantown, WV 26506-6122 - USA.

Recebido em 7.06.2005.
Revisado em 10.07.2005; 19.07.2005; 13.09.2005.
Aceito para Publicação em 13.09.2005.

 

 

Artigo de Opinião
Artigo Submetido a Avaliação por Pares
Conflito de Interesse: não
* Trabalho Realizado no Department of Speech Pathology and Audiology, West Virginia University.
1 (kstlouis@wvu.edu)