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Pró-Fono Revista de Atualização Científica

Print version ISSN 0104-5687

Pró-Fono R. Atual. Cient. vol.19 no.3 Barueri July/Sept. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872007000300003 

ARTIGOS DE PESQUISA

 

Análise da produção científica nacional fonoaudiológica acerca da linguagem escrita*

 

 

 

Cíntia Mara Affornalli MunhozI,1; Giselle MassiII; Ana Paula BerberianIII; Claudia Regina Mosca GirotoIV; Ana Cristina GuarinelloV

IFonoaudióloga. Mestre pelo Programa em Distúrbios da Comunicação da Universidade Tuiuti do Paraná. Professora da Faculdade Palas Atena
IIFonoaudióloga. Doutora em Letras pela Universidade Federal do Paraná. Professora do Mestrado em Distúrbios da Comunicação da Universidade Tuiuti do Paraná
IIIFonoaudióloga. Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora e Vice-Coordenadora do Mestrado em Distúrbios da Comunicação da Universidade Tuiuti do Paraná
IVFonoaudióloga. Doutora em Educação pela Universidade Estadual Paulista
VFonoaudióloga. Doutora em Letras pela Universidade Federal do Paraná

 

 


RESUMO

TEMA: a produção científica nacional sobre a linguagem escrita no âmbito da Fonoaudiologia.
OBJETIVO: analisar parte da produção fonoaudiológica brasileira acerca da linguagem escrita, entre os anos de 1980 a 2004, levando em conta o período da publicação; a distribuição de freqüência por período; os tipos de publicações; as sub-temáticas abordadas e a autoria.
MÉTODO: a pesquisa de caráter documental configurou a opção metodológica selecionada para a realização desse estudo. Foram analisados livros, capítulos de livros e artigos publicados em sete periódicos nacionais de Fonoaudiologia (1980 a 2004).
RESULTADOS: as produções científicas em torno da linguagem escrita, no período considerado, perfazem um total de 236 publicações. Desse total, 3,39% foram publicadas na década de 1980; 44,1% na década de 1990; e 52,5% durante o período de 2000-2004. Quanto ao tipo das publicações, 18,5% foram publicadas em forma de livro, 39% de capítulo de livro e 42,5% de artigo em periódico. Quanto à autoria das publicações, 42 autores (76,36%), são vinculados a instituições de ensino superior, como docentes ou discentes, com maior concentração no Estado de São Paulo e menor no Rio de Janeiro. As produções analisadas versaram sobre cinco sub-temáticas: "distúrbios de linguagem escrita" (52%); "processo de apropriação da linguagem escrita" (23,5%); "surdez e linguagem escrita" (8,90%); "alterações neurológicas e linguagem escrita" (8,22%) e "escola e linguagem escrita" (7,53%).
CONCLUSÃO: a pesquisa permitiu recuperar parte da memória acerca da construção de um campo de atuação e de conhecimento da área fonoaudiológica: a linguagem escrita. O ascendente crescimento de publicações em torno dessa temática aponta para o implemento de pesquisas nesse campo da Fonoaudiologia e, portanto, a pertinência de estudos que objetivem analisar os rumos da produção científica relativa ao mesmo.

Palavras-chave: Indicadores de Produção Científica; Estudos de Linguagem; Pesquisa.


 

 

Introdução

Essa pesquisa partiu de inquietações relacionadas com a intervenção fonoaudiológica voltada ao processo de apropriação da linguagem escrita e com os diferentes aspectos que fazem parte desse processo, bem como do interesse em apreender um panorama da produção do conhecimento acerca de tais aspectos. A opção pela análise de produções científicas sobre a linguagem escrita pautou-se, portanto, na relevância que uma visão mais ampla do conjunto das características de parte da produção nacional representa para profissionais que atuam e/ou pesquisam aspectos em torno dessa temática.

Além de permitir a recuperação da memória desse campo de conhecimento, tal análise permite a visibilidade da trajetória percorrida por essa área em um determinado período, oferecendo aos profissionais interessados uma visão sobre recursos teórico-práticos disponíveis que podem subsidiar intervenções voltadas à linguagem escrita.

Campanatti-Ostiz e Andrade (2005a e 2005b), assim como Freire e Passos (2005), afirmam que estudos dessa natureza favorecem o implemento da produção do conhecimento, pois, além de permitir a apreensão de parte do estado da arte de um determinado campo do conhecimento, evidenciam aspectos que podem ser aperfeiçoados em publicações subseqüentes.

De acordo com Yamamotho et al. (1999), o Brasil tem se preocupado com o monitoramento da produção científica, abordando questões como a dispercepção-concentração da produção, a discrepância das várias áreas de conhecimento e o cotejamento dessa produção com a produção internacional.

Pesquisadores como Yamamotho et al. (2002); Ferreira e Yoshida (2004); Romancini, (2004); Campanatti-Ostiz e Andrade (2005a, 2005b) têm avaliado a publicação em periódicos científicos especializados, uma vez que tais veículos gozam de prestígio acadêmico, especialmente pelo papel fundamental que desempenham na disseminação, acessibilidade e visibilidade da produção do conhecimento, bem como na definição, aplicação e divulgação de critérios de qualidade que devem nortear tal produção.

Se é fato internacionalmente aceito que a mensuração do avanço e do rigor científico de uma área está relacionada com a produção de artigos publicados em periódicos indexados em bases de dados reconhecidas como de prestígio (Yamamotho et al., 1999; 2002), a produção em livros e capítulos de livros merece atenção, especialmente em campos do saber relativos às denominadas softs sciences, como é o caso dos campos da Fonoaudiologia que têm como objeto de estudo e intervenção a linguagem oral e escrita.

Assim, pesquisas que realizam levantamento e análise da produção científica na área da linguagem escrita, considerando também livros e capítulos de livros, são relevantes à medida que oferecem elementos para apreender aspectos relativos ao panorama quantitativo e qualitativo dessa produção.

Apesar de não contarmos com estudos sistemáticos que apresentem uma visão panorâmica da produção científica fonoaudiológica voltada à linguagem escrita e aos problemas relacionados com a mesma, essa área dispõe de dados que permitem visualizar alguns aspectos que caracterizam essa produção.

Com o objetivo de identificar os pressupostos teórico-metodológicos e as possíveis transições paradigmáticas da Fonoaudiologia Escolar na área da linguagem escrita, Teixeira (2005) analisou artigos publicados nas revistas científicas Pró-Fono Revista de Atualização Científica e Distúrbios da Comunicação, no período de 1997 a 2002. Essa autora considerou os conceitos de ciência, linguagem escrita e intervenção fonoaudiológica contidos em cada artigo. Identificou, fundamentando a referida produção, diferentes perspectivas teóricas que foram distribuídas em três momentos: primeiramente, um momento com o predomínio do paradigma positivista; um segundo momento denominado como período de transição, em que aparecem indícios da concepção positivista, bem como da humanista; e um terceiro momento que apresenta um conjunto de artigos que questionam a vertente positivista, a partir da adoção de concepções históricas, culturais e sociais.

Para investigar as concepções de linguagem que subsidiam produções científicas relativas à clínica fonoaudiológica voltada à linguagem escrita, Borges (2003) analisou anais de congressos nacionais e internacionais de Fonoaudiologia no período de 1991 a 2002. Os resultados qualitativos da pesquisa apontam que dos 116 resumos encontrados, 81 estão embasados numa concepção formalista da linguagem, derivada de modelos lingüísticos que a concebem como sistema. Em menor número, ou seja, 22 resumos estão pautados em concepções enunciativo-discursivo e sócio-discursivo que priorizam o uso da linguagem. Ressalta-se, ainda, a ocorrência de 13 resumos classificados como híbridos, uma vez que apresentam opções teóricas influenciadas simultaneamente pelos diferentes modelos lingüísticos. Do ponto de vista quantitativo, tal estudo evidencia um aumento anual da produção científica geral sobre a clínica da linguagem escrita nos trabalhos apresentados nos congressos. Se até meados da década de 1990 havia um número restrito de trabalhos, a partir de 1996 verifica-se uma tendência significativa de aumento dessa produção, especialmente daquelas que enfocam o uso da linguagem.

Ferreira e Russo (1994), em um estudo realizado para analisar a produção literária publicada por fonoaudiólogos brasileiros em forma de livros, no período de 1969 até 1994, constataram que a temática denominada como linguagem escrita e seus distúrbios ocuparam, dentre as 14 temáticas abordadas, o quarto lugar, representando 8,33%.

Ao mapearem o perfil das 203 teses de doutorado defendidas por fonoaudiólogos brasileiros, desde a primeira defesa em 1976 até o ano de 2003, Ferreira e Russo (2004) oferecem dados que permitem verificar que o tema linguagem escrita foi abordado em 5,2 % do total dessas produções. Isso representou um número inferior às temáticas audição, voz, motricidade oral e linguagem oral.

Segundo essas autoras, a distribuição dos temas reflete a história da Fonoaudiologia no que diz respeito à estruturação inicial dos cursos de Graduação e dos Programas de Pós-Graduação da área, os quais em geral privilegiavam nas suas estruturas curriculares, e em suas linhas de pesquisa, os campos da audição e da linguagem oral.

Diante do que foi exposto, este estudo tem como objetivo realizar o levantamento e a caracterização de parte da produção científica nacional da Fonoaudiologia brasileira acerca da linguagem escrita, publicada em forma de livro, capítulo de livro e artigos científicos, entre os anos de 1980 e 2004, considerando os seguintes aspectos: período da publicação; distribuição de freqüência por período; tipos de publicações; sub-temáticas abordadas e autoria.

 

Método

A pesquisa de caráter documental configurou a opção metodológica selecionada para a realização desse estudo.

Material

Os dados foram obtidos por meio de fontes documentais. Foram analisadas publicações referentes a produções científicas fonoaudiológicas que versam sobre a temática linguagem escrita. Dentre os critérios utilizados para a seleção dessas fontes destacam-se:

. quanto à periodicidade: produções publicadas entre 1980 e 2004;

. quanto aos tipos de produção: os livros e os capítulos de livros selecionados de acordo com a temática abordada, o periódico considerado e com o fato de serem produzidos por, pelo menos, um fonoaudiólogo brasileiro; os artigos publicados em revistas nacionais especializadas na área fonoaudiológica, ou seja, nas revistas Distúrbios da Comunicação, Pró-Fono Revista de Atualização Científica, Fono Atual, Fonoaudiologia Brasil, Revista CEFAC - Atualização Científica em Fonoaudiologia, Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia e Jornal Brasileiro de Fonoaudiologia;

. quanto à autoria: produções que contam com a autoria de pelo menos um fonoaudiólogo brasileiro.

Procedimentos

Tal pesquisa foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação da Universidade Tuiuti do Paraná, no período de 2005 e 2006.

O levantamento e a análise das publicações nacionais escritas por fonoaudiólogos sobre a linguagem escrita foram organizados a partir da distribuição de sua freqüência, levando-se em consideração os períodos das publicações, os diferentes tipos de produções, as sub-temáticas abordadas, bem como a autoria das mesmas.

Para a delimitação do período foi adotado como critério para o início do levantamento o ano de 1980, tendo em vista a regulamentação da profissão do fonoaudiólogo, em 1981, e a insipiente produção científica nacional fonoaudiológica acerca da referida temática anterior a esse período.

Para a categorização das sub-temáticas foram selecionadas 146 publicações, ou seja, aquelas produzidas por autores que contavam com, no mínimo, duas publicações e cujos nomes aparecem em primeiro lugar na relação de autores. As sub-temáticas apresentadas a seguir foram definidas a partir da leitura dos resumos e introdução dos trabalhos e se referem aos temas abordados com maior recorrência: distúrbios de linguagem escrita; processo de apropriação da linguagem escrita; alterações neurológicas e linguagem escrita; surdez e linguagem escrita e escola e linguagem escrita.

Para o mapeamento da autoria, foram considerados todos os fonoaudiólogos que possuem, ao menos, duas publicações a respeito da referida temática, incluindo aqueles que aparecem na condição de co-autores.

Para a identificação da afiliação com instituições de ensino superior, foi utilizada a referência indicada pelos autores na própria produção, ou tal informação foi retirada do currículo lattes/CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), conforme apontado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (2005). Ainda assim, do total de 55 autores que atenderam às condições anteriormente mencionadas, não foi possível identificar a afiliação institucional de 11 fonoaudiólogos.

 

Resultados

Quanto ao tipo e período das publicações, os resultados apresentados na Tabela 1 apontam um crescimento quantitativo no período compreendido entre 1980 e 2004. Nesses 25 anos, tal crescimento ocorreu tanto em relação às produções em forma de livros e capítulos de livros, quanto de artigos publicados nos periódicos específicos da Fonoaudiologia.

 

 

Considerando os percentuais relativos ao total de livros, de capítulos de livros e de artigos publicados, os dados da Tabela 1 demonstram que no período de 1980 a 1984 apenas três livros foram publicados, o que correspondeu a 7% do total de livros publicados desde 1980 a 2004. Nenhuma produção sob a forma de capítulo de livro e/ou artigo em periódico foi verificada entre os anos 1980 - 1984. No período seguinte, de 1985 a 1989, foram publicados um livro, um capítulo de livro e três artigos em periódicos, respectivamente 2%, 1% e 3% do total geral das publicações. Já entre os anos, 1990 a 1994, o número de livros publicados aumentou para 11 (25%), o de capítulos de livros para 13 (14%) e o de artigos para 4 (4%). No período seguinte, de 1995 a 1999, constam 12 livros (27% do total de livros publicados), 16 capítulos de livros (34% do total de capítulos publicados) e 30 artigos (30% do total de artigos publicados). Vale destacar, portanto, que nesse período o percentual referente ao número de artigos publicados em periódicos aumentou significativamente em relação aos períodos anteriores.

No período de 2000 a 2004 foram publicados 17 livros (39% do total de livros publicados), 34 capítulos (37% do total de capítulos de livros publicados) e 63 artigos (63% do total de artigos publicados).

Conforme os resultados apresentados na Tabela 1, obtidos a partir do Teste para Duas Proporções (Triola, 1999), obteve-se um nível de significância de 5%, p = 0,0000 (p < 0,05) para todos os tipos de produções, ou seja, houve um crescimento significativo das produções científicas do fonoaudiólogo brasileiro sobre linguagem escrita entre as décadas de 1980 e 1990.

Essa mesma Tabela 1 denuncia que, entre 1990 e 2000 (até 2004) houve um aumento considerável na produção de artigos (p = 0,0001), tendo em vista o nível de significância de 5%.

Tais dados evidenciam um crescimento ascendente quanto ao número de livros, capítulos de livros e artigos publicados em periódicos no decorrer desses 25 anos (Figura 1).

 

 

Verifica-se que do total geral de 236 publicações, 3,39% ocorreram na década de 1980; 44,07% na década de 1990 e 52,54% no período de 2000 a 2004. Tal distribuição revela um aumento significativo da produção em torno da referida temática nos últimos anos, pois as publicações realizadas entre os anos 2000 a 2004, que corresponde a um período de apenas quatro anos, supera o percentual de publicações das décadas de 80 e 90.

Há que ser destacado, ainda, o fato de que as produções publicadas sob a forma de livro (N = 44) e de capítulos de livros (N = 92) corresponderam, respectivamente a 18,64% e 38,98% das 236 publicações, totalizando um percentual expressivo de 57,62% das publicações veiculadas em livros.

Os dados apresentados no Quadro 1 referem-se à vinculação dos autores com instituições de ensino superior, quer seja como docente, quer seja como discente de cursos de graduação e de pós-graduação strictu e latu sensu.

Conforme descrito anteriormente, para a análise da autoria foram selecionados todos os autores que apresentam no mínimo duas publicações, inclusive aqueles que aparecem em co-autoria, o que totaliza cinqüenta e cinco autores. Desse total, ressalta-se que quarenta e dois autores (76,36%) são vinculados a instituições de ensino superior, como docentes ou discentes. Dentre esses, trinta e cinco (63,33%) atuam como docentes em cursos de graduação e pós-graduação, sendo que vinte e seis (47,27%) estão vinculados a apenas uma instituição e 9 (12,73%) apresentam vínculo em mais instituições, totalizando dessa forma dezenove indicações sobre vínculos. Em relação aos autores discentes, verificam-se sete (12,72%) vinculados a Programas de Pós-Graduação (PGs).

Quanto aos treze autores restantes (23,64%), não foi possível obter informações se mantinham ou não vínculo com instituições de ensino. Entre esses, dois autores (3,64%) tinham currículos cadastrados no CNPq, mas não apresentavam referência quanto ao vínculo junto a instituições de ensino superior. Quanto aos onze autores (20%) restantes não foi possível localizar qualquer identificação quanto ao vínculo empregatício e ao cadastro no CNPq.

Os dados relativos à localização regional das instituições às quais os autores estão vinculados são apresentados na Figura 2. É possível observar um maior número de vínculos às instituições localizadas na região sudeste, com concentração no Estado de São Paulo (67%) e menor expressão no Rio de Janeiro (7%). A região Sul também aparece representada, com destaque para o fato de que os restantes dos autores atuam em instituições do Paraná (14%) e do Rio Grande do Sul (12%).

 

 

Na Tabela 2, é possível verificar que foram elencadas 5 sub-temáticas a partir da análise das publicações.

 

 

Os distúrbios de linguagem escrita caracterizaram a sub-temática mais freqüentemente tratada nas produções com maior número de publicações (52%). Isso correspondeu a 67%, a 42% e a 55% das temáticas abordadas, respectivamente, em livros, capítulos de livros e artigos publicados em periódicos. Conforme dados da Tabela 2, obtida a partir do Teste para Duas Proporções, as produções que abordam os distúrbios de linguagem escrita são significativamente superiores às demais ao nível de significância de 5%, pois p = 0,0000. As demais sub-temáticas não apresentaram diferença significativa.

As ocorrências referentes ao processo de apropriação da linguagem escrita determinaram a segunda posição, correspondendo a 23,5% do total de produções: 24% do total das temáticas abordadas em livros, 23% em capítulos de livros e 23% em artigos publicados em periódicos.

A terceira posição foi ocupada pela sub-temática surdez e linguagem escrita (8,90%), seguida de alterações neurológicas e linguagem (8,22%). Na última posição, correspondendo a 7,53% do total de publicações, ficou a subcategoria escola e linguagem escrita. Esses dados comparativos são ilustrados na Figura 3.

 

 

 

Discussão

De acordo com os dados apresentados na Tabela 1, a produção do período de 2000 a 2004 superou a produção dos períodos correspondentes às décadas de 80 e 90. Tais dados demonstraram que o crescimento da produção científica sobre a linguagem escrita acompanhou a trajetória da área como um todo, conforme os achados de Teixeira (1993), Ferreira e Russo (1994), Alves (2002) e Borges (2003), que identificaram, no início da década de 90, um aumento significativo nas produções científicas nacionais da Fonoaudiologia.

Para essas autoras, tal aumento decorre dos seguintes aspectos: do reconhecimento da profissão e expansão do número de cursos de graduação em Fonoaudiologia no início da década de 80; do crescimento do número de profissionais graduados nessa área; do aumento da demanda por docentes para atuar em novas instituições de ensino; do investimento dessas instituições na qualificação de seu corpo docente; das exigências da Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes), que adota como requisito para a avaliação dos Programas de Pós-graduação strictu sensu (PGs) a qualidade, a quantidade e a regularidade da produção intelectual dos docentes; e do crescimento do número de fonoaudiólogos inseridos em PGs em nível de Mestrado e Doutorado.

Dentre esses aspectos, Teixeira (1993), Ferreira e Russo (1994) e Alves (2002) atribuem um lugar de destaque à criação e à consolidação dos PGs, uma vez que dissertações de mestrado e teses de doutorado dão origem e, portanto, impulsionam a elaboração de artigos, livros e capítulos de livros.

A correlação entre pesquisa, publicação e pós-graduação pode ser evidenciada quando comparamos o crescimento das produções no período de 1990 a 2004, com a expansão da criação dos PGs recomendados pela Capes. Até o ano de 1990, a área contava com os Programas em Fonoaudiologia oferecido pela PUCSP e em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A partir da década de 90, os profissionais da área passaram a contar com oito PGs remendados pela Capes. São eles: Distúrbios da Comunicação Humana - Santa Maria (RS),1994; Distúrbios da Comunicação - Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), 1998; Ciências da Reabilitação do HRAC-USP - Bauru (SP), 2001; Fonoaudiologia - Universidade Veiga de Almeida (UVARJ), 2003; Ciências da Reabilitação USP/SP e em Fonoaudiologia da USP - FOB -Bauru (SP), 2004.

Destaca-se, ainda, como fator que condicionou o crescimento da produção fonoaudiológica a partir de meados da década de 80 até o final da década de 90, o aumento do segmento de periódicos brasileiros especializados em Fonoaudiologia: Distúrbios da Comunicação (1986) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Pró-Fono Revista de Atualização Científica (1989) da editora Pró-Fono; Fono Atual (1997) da editora Pancast; Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (1997) da editora Copypress; Fonoaudiologia Brasil (1998) do Conselho Federal de Fonoaudiologia; Revista CEFAC (1999) do Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica; e Jornal Brasileiro de Fonoaudiologia (1999) da Bio Editora.

Dentre os canais de comunicação e de implementação à ciência, os periódicos científicos ocupam lugar de destaque, pois possibilita maior intercâmbio e divulgação dos trabalhos científicos produzidos na área, insumo para novas pesquisas. Características ligadas à rapidez de produção e divulgação, alcance geográfico, capacidade de aglutinar interessados em um tema e validação do conhecimento fazem com que os periódicos científicos tenham um papel decisivo na constituição e consolidação de linhas de pesquisa.

Conforme Campanatti-Ostiz e Andrade (2005a, p. 153), "A publicação de artigos em periódicos científicos indexados favorece a velocidade, acessibilidade e visibilidade da produção de conhecimento".

Se não há dúvida da importância das publicações de periódicos para o avanço da área, as produções veiculadas em livros e capítulos de livros acerca da linguagem escrita superaram aquelas publicadas sob a forma de artigos nos periódicos, conforme os dados apresentados na Tabela 1. Tal fato confirma a relevância desse tipo de produção na veiculação dos conhecimentos formulados acerca de tal temática no campo da Fonoaudiologia.

Os dados apresentados no Quadro 1 confirmam a análise realizada por Teixeira (1993); Ferreira e Russo (1994); Alves (2002); Campanatti-Ostiz e Andrade (2005a), quando afirmam que a produção do conhecimento está vinculada, prioritariamente, a pesquisadores inseridos em Instituições de Ensino, especialmente nos PGs. A prevalência de vínculos dos autores às instituições localizadas nas regiões sudeste e sul está relacionada com o maior número de instituições de ensino superior nessas regiões, bem como dos programas de pós-graduação existentes em nosso país.

Os resultados apresentados na Tabela 2 evidenciaram que as produções sobre a linguagem escrita analisadas versaram, basicamente, sobre cinco subtemáticas:

1. Distúrbios de linguagem escrita.

2. Processo de apropriação da linguagem escrita.

3. Surdez e linguagem escrita.

4. Alterações neurológicas e linguagem escrita.

5. Escola e linguagem escrita.

Por meio da análise das produções que discutiram os distúrbios da linguagem escrita, foi possível verificar que prevaleceu o enfoque na compreensão sobre os fatores etiológicos e sintomatológicos desses distúrbios, bem como nas soluções aplicáveis à prática clinica. Nesse material, os autores apontaram principalmente as causas individuais, centradas na criança, como determinantes para a ocorrência desses distúrbios. As dificuldades cognitivas, aquelas relativas à maturação do sistema nervoso central quanto à sua estrutura e funcionamento, as de percepção visoespacial e auditiva e aquelas atreladas à correspondência grafo-fonológica foram as mais citadas como os fatores causadores desses distúrbios. As estratégias direcionadas ao desenvolvimento de competências fonológicas e à estimulação do processamento auditivo central foram aquelas mais indicadas para a solução de tais distúrbios.

Dessa forma, foi possível perceber que as produções que enfocaram os distúrbios da linguagem escrita estão embasadas em pressupostos teórico-metodológicos vinculados a modelos organicistas e cognitivistas, tanto para explicitar a concepção de linguagem escrita, quanto para justificar a forma de intervenção proposta para fatos da escrita que em tais modelos são classificados como sintomas de distúrbios. Os aspectos sociais, econômicos, políticos e educacionais relacionados à escrita não foram objeto de análise dessas produções.

O processo de apropriação da linguagem escrita configurou a segunda sub-temática mais abordada. Nas produções que tematizaram tal aspecto, foi atribuída grande ênfase ao papel da interação da criança com os sujeitos e com os contextos que estabelece relações. Sob influência de modelos teóricos que analisam os determinantes sócio-históricos, político-ideológicos, econômicos e educacionais envolvidos com a apropriação da linguagem escrita, as produções arroladas nessa sub-temática tecem críticas às noções organicistas e mecanicistas que embasam práticas de ensino e clínicas voltadas à aprendizagem/aquisição da leitura e escrita. A concepção de linguagem que embasa tais produções é considerada como atividade dialógica, interpessoal e determinada por contextos sócio-históricos. As noções de distúrbio e de sintoma são questionadas quando fundamentadas, exclusivamente, em manifestações de escrita fora do padrão, uma vez são analisadas como marcas singulares do processo de apropriação da escrita. Enfim, tais manifestações são analisadas como reveladoras dos processos lingüísticos e do conhecimento de mundo construídos particularmente pelos sujeitos a partir das condições materiais e subjetivas que dispõe o grupo social a que pertencem.

Quanto às produções relacionadas com a surdez e linguagem escrita, o enfoque de análise refere-se à inclusão da criança surda no ensino regular e seu acesso à linguagem escrita, bem como à intervenção fonoaudiológica relacionada com a linguagem escrita junto à surdez. É recorrente a crítica tecida em tais publicações acerca da falta de recursos técnicos e humanos do sistema educacional brasileiro, uma vez que tal falta restringe e/ou inviabiliza o acesso dos surdos a tal modalidade de linguagem. É também objeto de análise de tais produções, procedimentos e critérios utilizados na investigação sobre a escrita do surdo, considerando suas relações com o texto oral, com Linguagem Brasileira de Sinais (Libras) e com as variedades lingüísticas. Predomina, embasando tais produções, a concepção sócio-histórica, a partir da qual a escrita é compreendida como prática social e constitutiva dos sujeitos.

A sub-temática alterações neurológicas e linguagem escrita incluiu as publicações que abordaram a relação da linguagem escrita com a afasia, com a alexia/dislexia pura e com as doenças degenerativas do sistema nervoso central. Foi evidenciada a heterogeneidade quanto à adoção de pressupostos teórico-metodológicos que fundamentam tais produções, uma vez que alguns autores pautaram-se em modelos que priorizam as condições orgânicas e outros numa perspectiva discursiva que enfoca as condições subjetividades envolvidas com a funcionalidade da linguagem.

Por fim, a sub-temática escola e linguagem escrita, a menos abordada nas produções, foi discutida sob duas perspectivas. Uma voltada à apresentação de modelos de atuação fonoaudiológica na escola direcionada às ações individuais, centradas na criança e em habilidades auditivas, visuais e motoras. Representando 45% dessas produções, são analisadas fundamentalmente propostas de triagens, orientações a professores e familiares. Outra perspectiva, adotada em 55% das produções, diz respeito à análise de fundamentos teórico-práticos voltados às ações coletivas no contexto escolar que promovam o acesso da linguagem escrita por parte das crianças. Esses enfatizam a importância da parceria estabelecida entre fonoaudiólogos e educadores, apontando que cabe ao fonoaudiólogo socializar conhecimentos em torno das diferentes dimensões que participam dos processos de apropriação da linguagem escrita.

Tendo em vista a histórica vinculação entre a Fonoaudiologia e a Educação, bem como o fato dos processos de apropriação formal da linguagem escrita ocorrerem principalmente na escola (Berberian, 2001; Siqueira e Monteiro, 2006), a incidência das produções relativas a essa sub-temática podem ser consideradas restritas, quando comparadas às outras. Tal dado evidencia que aspectos envolvidos com a linguagem escrita ainda são, predominantemente, investigados no âmbito da clínica fonoaudiológica. Donde decorre que a instituição escolar e o sistema educacional ainda não têm sido considerados como espaços privilegiados para o desenvolvimento de pesquisas fonoaudiológicas voltadas à linguagem escrita.

 

Conclusão

A partir de inquietações relacionadas com a intervenção fonoaudiológica dirigidas aos processos de apropriação da linguagem escrita e do interesse em visualizar um panorama da produção nacional de fonoaudiólogos com relação a essa temática, por meio dessa pesquisa foi possível vislumbrar um aumento significativo das publicações sobre a linguagem escrita, de 1980 a 2004. A trajetória de tais publicações no período delimitado permite observar que, de um total de 236 publicações, mais da metade, ou seja, 124 dessas produções, estão concentradas entre os anos de 2000 a 2004.

De qualquer forma, os dados demonstram que o crescimento da produção científica sobre linguagem escrita acompanhou a trajetória da produção da área como um todo. Enfim, tal aumento esteve condicionado à consolidação e expansão, a partir da década de 1990, de periódicos brasileiros específicos da Fonoaudiologia e de cursos de Graduação e Pós-Graduação na área. Tais fatos possibilitaram não só o aumento das publicações, bem como passaram a viabilizar uma maior troca e divulgação de conhecimentos científicos entre os pesquisadores fonoaudiólogos de nosso país.

Quanto ao tipo de veículo das produções analisadas, apesar do crescimento de publicações sob a forma de artigos a partir da década de 1990, as publicações sob a forma de livros e capítulos de livros são mais recorrentes. Tal fato sinaliza para a importância do reconhecimento de tais publicações, assim como para a necessidade de sistematização de critérios para avaliação e validação das mesmas. Quanto à análise da autoria das produções, ressalta-se que a maior parte dos autores responsáveis pelas publicações estão vinculados a Instituições de Ensino Superior, especialmente, àquelas que contam com Programas de Pós-Graduação na área, geralmente localizadas nas regiões Sul e Sudeste.

Quanto ao perfil das temáticas abordadas nas publicações, tal estudo oferece elementos para tomadas de decisões estratégicas, especialmente no direcionamento da pesquisa, uma vez que sinalizou aspectos que, por não serem priorizados na produção científica, podem limitar a área a atender demandas em torno de determinadas problemáticas.

Por fim, esse trabalho permitiu recuperar parte da memória acerca da construção de um campo de atuação e de conhecimento da área fonoaudiológica: a linguagem escrita. A intenção foi contribuir com uma visão geral sobre a distribuição e características da produção nacional em torno desse campo. Os dados levantados afirmam a pertinência do desenvolvimento de pesquisas que permitam analisar os rumos da produção científica da Fonoaudiologia. Conclui-se que o espectro diversificado de sub-áreas, de objetos de estudo, de métodos, de contextos a partir dos quais as pesquisas e publicações são desenvolvidas sugerem estudos a partir da delimitação de campos específicos da Fonoaudiologia.

 

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Recebido em 12.12.2006.
Revisado em 02.03.2007; 26.03.2007; 30.07.2007.
Aceito para Publicação em 30.07.2007.

 

 

Artigo Submetido a Avaliação por Pares
Conflito de Interesse: não
* Pesquisa Realizada na Universidade Tuiuti do Paraná
1 Endereço para correspondência: Rua 7 de Setembro, 3949 - Casa 1 -Chopinzinho - Paraná - CEP 85560-000 (cintiaaffornalli@ig.com.br)