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Pró-Fono Revista de Atualização Científica

versão impressa ISSN 0104-5687

Pró-Fono R. Atual. Cient. v.20 n.3 Barueri jul./set. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872008000300012 

COMENTÁRIO

 

Tradução e adaptação transcultural de instrumentos estrangeiros para o Português Brasileiro (PB)*

 

 

Elisabete GiustiI, 1; Débora Maria Befi-LopesII

IFonoaudióloga. Doutora em Lingüística e Semiótica Geral pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
IIFonoaudióloga. Professora Livre-Docente do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Coordenadora do Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Desenvolvimento da Linguagem e suas Alterações

 

 


RESUMO

TEMA: tradução e adaptação transcultural de instrumentos estrangeiros para o Português Brasileiro.
OBJETIVO: no Brasil, a escassez de instrumentos formais e objetivos comercialmente disponíveis para avaliação e diagnóstico, na área da Fonoaudiologia é significativa e uma forma que alguns pesquisadores têm encontrado para amenizar esse problema é traduzir instrumentos já disponíveis em outras Línguas. Além disso, tal procedimento pode contribuir para a realização de estudos transculturais, que podem trazer maiores esclarecimentos acerca dos quadros de distúrbios da comunicação e de suas especificidades nas diferentes Línguas. O objetivo deste estudo é discutir os procedimentos que devem ser adotados nesse processo.
CONCLUSÃO: no processo de tradução e adaptação de instrumentos estrangeiros é fundamental que sejam adotados procedimentos metodologicamente apropriados.

Palavras-Chave: Linguagem Infantil; Testes de Linguagem; Avaliação; Tradução (Processo); Diagnóstico.


 

 

No Brasil, a escassez de instrumentos formais e objetivos comercialmente disponíveis e indicados para avaliação e diagnóstico, na área da Fonoaudiologia é significativa. Sabemos que os reais objetivos de um processo de avaliação só podem ser atingidos quando instrumentos e procedimentos adequados são utilizados.

Em outros países, como nos Estados Unidos, este contexto é diferente. Profissionais da área dispõem de um amplo conjunto de testes formais disponíveis para avaliação da fala e da linguagem. No Directory of Speech-Language Pathology Assessment Instruments, da American Speech-Language-Hearing Association, edição 2006, consta uma relação com mais de 100 testes.

Na área de linguagem infantil, por exemplo, no Brasil, até o momento, temos comercialmente disponíveis apenas um teste de linguagem infantil, o Teste ABFW (1), destinado à avaliação das áreas de fonologia, vocabulário, fluência e pragmática, indicado para crianças de 2 a 12 anos de idade e um Protocolo de Observação Comportamental (PROC) (2) para avaliação da linguagem e dos aspectos cognitivos infantis, indicado para crianças de 12 a 48 meses.

A falta de instrumentos formais e objetivos, além de refletir certamente no diagnóstico, também reflete na definição das condutas terapêuticas e na elaboração dos planos de intervenção, chegando a comprometer a eficácia e a eficiência dos tratamentos oferecidos (3, 4).

Uma forma que alguns pesquisadores têm encontrado para amenizar este problema é traduzir instrumentos já disponíveis em outras Línguas ao invés de criar novos instrumentos. Além de amenizar esta carência, tal procedimento pode contribuir para um outro aspecto que também possui grande relevância científica, que se refere à realização de estudos transculturais, que podem trazer maiores esclarecimentos e compreensão acerca dos quadros de distúrbios da comunicação e de suas especificidades nas diferentes Línguas.

A prática de tradução de instrumentos estrangeiros vem crescendo nos últimos anos e foi tema da 5th International Conference on Psychological and Educational Test Adaptation across Language and Cultures, realizada em 2006. Atualmente, um dos aspectos considerados pelos editores na criação de um novo teste, tem sido a possibilidade de tradução do teste para outros idiomas.

A tradução e a adaptação de instrumentos estrangeiros pode ser uma saída, porém os procedimentos adotados neste processo devem ser criteriosos e cuidadosos, uma vez que a tradução e a adaptação são tão importante quanto à construção de um novo instrumento. É necessário inclusive que sejam refeitos os estudos de confiabilidade e validade no novo contexto.

A busca pelo máximo de equivalência entre o instrumento original e sua versão traduzida deve guiar todo o processo, de maneira a evitar formas, muitas vezes sutis, de distorção (5-7).

Duarte e Bordin (8) referem que a elaboração e a testagem de um instrumento de avaliação na área da saúde mental infantil, por exemplo, é uma tarefa bastante complexa. Assim, segundo os autores, em culturas diferentes, é aconselhável utilizar versões de instrumentos já devidamente testados, ao invés de desenvolver um instrumento novo em cada um dos países que realizam o mesmo tipo de investigação. No entanto, umas séries de etapas devem ser rigorosamente seguidas para que determinado instrumento possa ser utilizado em um novo contexto cultural.

O primeiro passo é a tradução (forward) do instrumento original. Trata-se de uma atividade bastante complexa, pois, ao traduzir um instrumento, deve-se buscar diversos tipos de equivalência em relação ao original, como a cultural, a semântica, a técnica, a de conteúdo, a de critério e a conceitual. Uma técnica útil nesse sentido, para os autores, é o da retrotradução ou backtranslation, por meio da qual a tradução do instrumento é novamente traduzida (ou retrotraduzida) para o idioma original. A retrotradução deve ser realizada por um tradutor bilingüe, preferencialmente com experiência nas duas culturas. As duas versões (a original e a retrotraduzida) são, então, comparadas. É importante que tal comparação mantenha a equivalência nos diferentes níveis referidos. Além disso, os autores referem que é de especial relevância obter evidências da validade do instrumento no novo contexto cultural. Para isso, é preciso verificar se o instrumento realmente mede aquilo que se propõe a medir (5, 8).

Em algumas pesquisas relacionadas a este tema, existem referências que na tradução de um determinado instrumento, houve modificações quanto ao seu formato original, como retirada de algum item ou acréscimo de outros itens, modificações nos critérios de pontuação ou mesmo na aplicação do teste. Estas modificações, muitas vezes, comprometem a equivalência entre o teste original e a versão traduzida e, conseqüentemente suas características e aplicações.

Nascimento e Figuereido (9) referem que a utilização de um instrumento estrangeiro sem a sua devida adaptação pode colocar em risco a validade e a precisão de avaliações efetuadas. Por outro lado, ressaltaram que, embora as diretrizes preconizadas pela Comissão Internacional de Testes relacionadas ao processo de adaptação se constituam em fontes imprescindíveis para o desenvolvimento de pesquisas de adaptação, se depararam em suas pesquisas, com a escassez de referências práticas sobre os procedimentos e análises envolvidas na construção e adaptação de instrumentos psicológicos.

Freitas, et al. (7), apresentaram o processo de tradução e adaptação, para a Língua Portuguesa, da Binge Eating Scale (BES) - Escala de Compulsão Alimentar Periódica (ECAP) que avalia a gravidade da compulsão alimentar periódica em indivíduos obesos. As autoras referem que os procedimentos adotados na tradução e versão ou retrotradução do instrumento. Dois profissionais com experiência em transtornos alimentares e com fluência no idioma Inglês realizaram as traduções independentes que foram posteriormente discutidas e conculiu-se a primeira versão. Duas outras traduções foram feitas por professores de Inglês. Para cada item da escala foi analisada a equivalência semântica quando comparado ao Inglês, sendo elaborada então, uma versão sintética da escala. Esta versão foi traduzida para o Inglês por um professor e foi enviada para um dos construtores da escala, que sugeriu algumas modificações semânticas e chegou-se a versão final da escala. Como conclusão do estudo foi verificado que a versão em Português da escala foi considerada adequada para uso clínico.

Capovilla e Capovilla (10) realizaram um estudo, no qual forneceram a tradução brasileira para o Peabody Picture Vocabulary Test (PPVT) (11) e para o Language Developmental Survey (LDS) (12) ou Lista de Avaliação do Vocabulário Expressivo (LAVE) (13), realizaram uma pesquisa preliminar que teve como objetivo adaptar para o Português Brasileiro o Internacional Dyslexia Test (14), que avalia diferentes habilidades cognitivas relacionadas à aquisição de leitura e escrita. Não foram encontradas referências nos estudos apresentados, sobre os procedimentos adotados na tradução e na adaptação dos testes citados.

Scala, Naspitz e Solé (15) realizaram uma pesquisa que teve como objetivo traduzir e adaptar para o Português (cultura brasileira) o Pediatric Asthma Quality of Life Questionnaire (PAQLQ) (16) para uso em crianças e adolescentes com asma e validar a versão adaptada. As autoras apresentaram na pesquisa os procedimentos para adaptação do instrumento: inicialmente foi traduzido para o Português, a seguir foi feita a versão para o Inglês (back translation) por um professor de Inglês não conhecedor do instrumento. Não houve discrepâncias entre a versão original e a versão traduzida. Após a tradução, o instrumento foi aplicado de modo experimental a 20 pacientes com asma.

Além da preocupação e cuidado metodológico que se deve ter nas pesquisas sobre a tradução e aplicação de instrumentos estrangeiros, também é importante que a aplicação e a interpretação do teste seja criteriosa. As diretrizes Internacionais para a Utilização de Testes (International Test Commission) abrangem as responsabilidades que os utilizadores competentes devem ter, bem como as necessárias competências pessoais relacionadas à aplicação e à interpretação dos escores.

Um outro ponto importante descrito na literatura refere-se à necessidade do treinamento dos examinadores, antes da utilização do teste. Os testes são instrumentos técnicos e seu manejo necessita de pessoas treinadas e conhecedoras das regras de aplicação (17, 18).

Em alguns sites de venda de testes, o comprador só pode adquirir um teste se primeiramente passar por um treinamento. Nos cursos de Fonoaudiologia, por exemplo, nos Estados Unidos, existem disciplinas na graduação sobre a aplicação e a utilização de testes formais. Esse é um ponto bastante importante porque se pode ter um instrumento de qualidade, mas se o mesmo não for utilizado para a finalidade determinada ou se não for aplicado adequadamente, pode tornar-se inviável.

Pesquisas sobre esta temática têm sido amplamente implementadas, o que resultará em um futuro próximo, na disponibilidade de um maior número de instrumentos de diagnóstico na área da Fonoaudiologia, porém é importante seguir os passos aqui referidos para que o processo de tradução e adaptação seja devidamente realizado e os procedimentos adotados metodologicamente apropriados. Além do impacto que tais instrumentos terão na prática clínica e na pesquisa, constituirão um passo fundamental para a identificação dos problemas mais freqüentes em nosso meio e de seus fatores de risco, permitindo o melhor planejamento das políticas de saúde na infância e a avaliação das intervenções e tratamentos oferecidos.

 

Referências Bibliográficas

1. Andrade, CRF et al. ABFW: Teste de Linguagem Infantil nas áreas de fonologia, vocabulário, fluência e pragmática. 2. ed. Barueri: Pró-Fono; 2004.         [ Links ]

2. Zorzi J, Hage SRV. PROC: Protocolo de Observação Comportamental: Avaliação de linguagem e aspectos cognitivos infantis. São José dos Campos: Pulso, 2004; p. 93.         [ Links ]

3. Andrade, CRF. A fonoaudiologia baseada em evidências. Einstein. 2004;2:59-60.         [ Links ]

4. Andrade CRF, Juste F. Proposta de análise de performance e de evolução em crianças com gagueira desenvolvimental. Revista Cefac. 2005;7(2):158-70.         [ Links ]

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7. Freitas S, et al. Tradução e adaptação para o português da Escala de Compulsão Alimentar Periódica. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2001;23(4):215-20.         [ Links ]

8. Duarte CS, Bordin IAS. Instrumentos de avaliação. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2000;22(2):55-8.         [ Links ]

9. Nascimento E, Figueiredo VL. WISC-III e WAIS-III: alterações nas versões originais americanas decorrentes das adaptações para uso no Brasil. Psicologia: Reflexão e Crítica. 2002;15(3):603-12.         [ Links ]

10. Capovilla FC, Capovilla AGS. Desenvolvimento lingüístico na criança dos dois aos seis anos: tradução e estandardização do Peabody Picture Vocabulary Test de Dunn & Dunn, e da Language Development Survey de Rescorla. Ciência Cognitiva: Teoria, pesquisa e aplicação. 1997;1(1):353-80.         [ Links ]

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18. Pasquali L. Normatização dos testes. In: __. Psicometria: Teoria dos testes na psicologia e na educação. Petrópolis: Editora Vozes. 2003:226-60.         [ Links ]

 

 

Recebido em 08.10.2007.
Revisado em 02.06.2008.
Aceito para Publicação em 28.07.2008.

 

 

Comentário
Artigo Submetido a Avaliação por Pares
Conflito de Interesse: não
* Trabalho Realizado no Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
1 Endereço para correspondência: Av. Conego Manoel Alves, 782 - São Paulo - SP - CEP 13484-420 (e.giusti@uol.com.br).

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