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Pró-Fono Revista de Atualização Científica

Print version ISSN 0104-5687

Pró-Fono R. Atual. Cient. vol.21 no.1 Barueri Jan./Mar. 2009

https://doi.org/10.1590/S0104-56872009000100005 

ARTIGOS ORIGINAIS DE PESQUISA

 

Medidas antropométricas orofaciais de crianças paulistanas e norte-americanas: estudo comparativo*

 

 

Débora Martins CattoniI; Fernanda Dreux Miranda FernandesII

IFonoaudióloga. Doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professora do Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica (Cefac)
IIFonoaudióloga. Livre-Docente. Professora Associada do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

TEMA: medidas antropométricas orofaciais de crianças paulistanas e norte-americanas.
OBJETIVO: descrever medidas antropométricas orofaciais em crianças paulistanas e comparar as médias dessas medidas com os padrões de normalidade publicados para a população norte-americana.
MÉTODO: participaram 254 crianças, leucodermas, em dentição mista, com idades entre 7 e 11 anos e 11 meses, sem histórico de distúrbios ou tratamento fonoaudiológicos. As medidas antropométricas orofaciais coletadas foram a altura do lábio superior, a altura do lábio inferior, o comprimento do filtro e a altura do terço inferior da face. O instrumento utilizado foi um paquímetro eletrônico digital Starrett Series 727.
RESULTADOS: os dados obtidos nesta amostra para a altura do lábio superior, altura do lábio inferior e altura do terço inferior da face encontram-se abaixo das médias descritas para as crianças norte-americanas. Os resultados desta amostra, referentes ao comprimento do filtro, coincidem com as médias descritas para as crianças norte-americanas.
CONCLUSÃO: os resultados das medidas da presente amostra referentes a altura do lábio superior, altura do lábio inferior e altura do terço inferior da face foram menores do que aqueles publicados para as crianças norte-americanas. Os dados de normalidade da população norte-americana não são válidos para as crianças da nossa população, exceto para o comprimento do filtro.

Palavras-Chave: Face; Medidas; Antropometria; Criança; Sistema Estomatognático.


 

 

Introdução

A antropometria, ciência que estuda as medidas de tamanho, peso e proporções do corpo humano1, fornece dados objetivos na avaliação da morfologia craniofacial, por meio de uma série de medidas da cabeça e da face2. A antropometria oferece inúmeras vantagens na avaliação da morfologia do complexo craniofacial por utilizar técnicas simples, não invasivas, sem risco para o sujeito e com baixo custo. Devido à sua simplicidade, torna-se instrumento clínico importante, além de fornecer dados de referência da normalidade para uma grande variedade de medidas faciais da população caucasiana3-5.

Diferenças morfológicas faciais são demonstradas em estudos com diferentes populações, pois o complexo craniofacial, especialmente a face, é uma das regiões que mais sofre variações de acordo com a raça6-8. Portanto, é importante utilizar referências da população que tenham correspondência com as origens raciais. Com esse enfoque, Farkas e Deutsch9 comentaram que a validade de medidas normais depende necessariamente da comparação com normas da população apropriada. É extremamente importante que o clínico compreenda que as normas populacionais de uma determinada amostra não são necessariamente válidas para outras amostras ou grupos, principalmente quando há variações geográficas e raciais10.

No que se refere às medidas antropométricas faciais, a altura do lábio superior (sn-sto) corresponde à distância entre o ponto subnasal (sn) e o ponto mais inferior do lábio superior (sto)1,11. A altura do lábio inferior (sto-gn) corresponde à distância entre o ponto mais superior do lábio inferior (sto) e o gnátio (gn)11. A altura do filtro (sn-ls) corresponde à distância entre o ponto subnasal (sn) e o ponto labial superior (ls)1. O terço inferior (sn-gn) corresponde à medida do subnasal (sn) ao gnátio (gn)12-13.

Em uma pesquisa realizada com população caucasiana norte-americana saudável, observou-se que a altura do lábio superior (sn-sto) mede entre 18,7 e 19,9mm (milímetros) aos 6 anos de idade, sendo que há um pequeno aumento aos 12 anos de idade (medida entre 19,9 e 20,8 mm). Também, os autores indicaram que a altura do lábio inferior (sto-gn) mede entre 40 e 41mm aos 6 anos de idade, aumentando para 44mm aos 12 anos de idade. Descreveram, ainda, que a altura do filtro (sn-ls) mede entre 12,6 e 14,4mm aos 6 anos de idade, sendo que, aos 12 anos de idade, essa estrutura mede em torno de 14,4mm14.

O interesse para a realização desta pesquisa cresceu à medida que foi observada a falta de pesquisas que investiguem se os valores de referência internacionais das medidas antropométricas orofaciais valem para a nossa população. O objetivo da pesquisa foi descrever medidas antropométricas orofaciais em crianças paulistanas e comparar as médias dessas medidas com os padrões de normalidade publicados para a população norte-americana.

 

Método

Os responsáveis pelas crianças autorizaram a realização da pesquisa, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido aprovado pela Comissão de Ética de Projetos de Pesquisa (CAPPesq) da Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (número 668/01), consentindo a divulgação desta pesquisa e seus resultados conforme Resolução 196/96.

Foram avaliadas 254 crianças, na faixa etária entre 7,0 e 11,11 anos, 137 do sexo masculino (54%) e 117 do sexo feminino (46%), freqüentadoras de escolas particulares da Cidade de São Paulo. As crianças foram divididas de acordo com a idade: 48 crianças de 7 a 7 anos e 11 meses; 52 crianças de 8 a 8 anos e 11 meses; 50 crianças de 9 a 9 anos e 11 meses; 54 crianças de 10 a 10 anos e 11 meses e; 50 crianças de 11 a 11 anos e 11 meses.

Os critérios de inclusão das crianças neste estudo foram: ser leucoderma e estar em dentição mista com a erupção completa dos quatro primeiros molares permanentes. Os critérios de exclusão foram: existência de queixa(s) fonoaudiológica(s), histórico de tratamento fonoaudiológico prévio e/ou atual e histórico de síndrome e/ou doença neurológica e/ou úvula bífida.

O instrumento utilizado na obtenção das medidas orofaciais foi o paquímetro eletrônico digital série 727 da marca Starrett, fabricado no Brasil, feito de aço inoxidável e com mostrador de cristal líquido com indicação do sistema de unidade em milímetros (mm), com resolução e reprodutibilidade de 0,01mm.

Durante a coleta das medidas antropométricas orofaciais, foi solicitado a cada criança que permanecesse sentada, com os pés apoiados no chão, com a cabeça em posição de repouso e com os lábios ocluídos. As medidas antropométricas orofaciais obtidas de cada criança foram: altura do lábio superior (do subnasal ao estômio ou sn-sto); altura do lábio inferior (do estômio ao gnátio ou sto-gn); altura do filtro (do subnasal ao labial superior ou sn-ls) e; altura do terço inferior da face (do subnasal ao gnátio ou sn-gn). Foram realizadas, posteriormente, as análises que compararam os achados referentes às medidas antropométricas orofaciais entre as crianças paulistanas e as crianças norte-americanas, conforme os padrões de normalidade publicados por Farkas et al.14.

Análise estatística

Foi realizada a comparação das médias das medidas antropométricas orofaciais, segundo idade e sexo. Para cada medida antropométrica, foi calculado o intervalo de confiança de 95% de confiança. As análises foram realizadas utilizando o pacote estatístico SPSS para Windows versão 12.0, sendo que foi considerado o nível de significância de 5%.

 

Resultados

Foram obtidas 1.016 medidas antropométricas orofaciais.

No que se refere à altura do lábio superior (sn-sto) e à altura do lábio inferior (sto-gn), é possível observar que os valores médios obtidos neste estudo foram sempre menores do que as médias propostas por Farkas et al.14. Essas últimas apresentam valores superiores ao intervalo de confiança obtido neste estudo, em todas as faixas etárias, para ambos os sexos. Pode-se concluir, a partir desses dados, que as médias verificadas por Farkas et al.14 para as duas medidas orofaciais são estatisticamente maiores do que as desta amostra. Em relação à altura do filtro (sn-ls), os valores médios descritos para as crianças norte-americanas encontram-se dentro do intervalo de confiança obtido neste estudo aos 7, 8 e 9 anos de idade, no sexo masculino. Os resultados obtidos neste estudo coincidem com os dados apontados nas pesquisas de Farkas et al.14 (Tabela 1).

Na Tabela 2, pode-se observar que, em relação à altura do terço inferior da face (sn-gn), todas as médias apontadas por Farkas et al.14 estão acima do intervalo de confiança obtido neste estudo, em todas as faixas etárias, em ambos os sexos. Esses resultados sugerem que há diferença estatística entre as médias das diferentes populações.

 

Discussão

Optou-se pela aplicação da metodologia indicada em estudos antropométricos clássicos1-3,5,15-19. Quanto aos critérios empregados na seleção das crianças, consideraram-se os trabalhos realizados por diversos autores2,15-17,20-21. Foram, também, selecionadas apenas crianças leucodermas, assim como em alguns estudos14,16-18, pois diferenças nas medidas faciais são demonstradas em estudos com populações compostas de diversas raças e regiões7-9,22.

Como foi possível observar, nesta amostra, os valores obtidos para a altura do lábio superior (sn-sto), para altura do lábio inferior (sto-gn) e para a altura do terço inferior da face (sn-gn), foram menores em todas as faixas etárias, em ambos os sexos, daqueles verificados para a população norte-americana14. As médias apresentadas por este autor encontram-se acima das médias e dos intervalos de confiança deste estudo, indicando que o lábio superior (sn-sto) é maior na população norte-americana.

Os resultados obtidos neste estudo relativos à altura do filtro (sn-ls) coincidem com os dados obtidos na pesquisa de Farkas et al.14, indicando que essa estrutura apresenta a mesma altura na população norte-americana e nesta população.

Esse trabalho apresenta suas limitações no sentido de comparar duas populações específicas e também por estar composto por uma amostra relativamente restrita, devendo ser um passo para futuras investigações.

O conhecimento sobre as medidas orofaciais em crianças, bem como suas variações no que se refere à origem, verificando se há diferenças estatísticas entre diferentes populações, trazem maior precisão e sentido na análise dos resultados. Além disso, contribui para a avaliação da motricidade orofacial e para o estabelecimento do diagnóstico funcional realizado pelo fonoaudiólogo, devido à possibilidade de quantificar as estruturas da face e fornecer dados objetivos sobre a morfologia orofacial.

 

Conclusão

Os resultados obtidos para as crianças paulistanas para o lábio superior, lábio inferior e terço inferior da face encontram-se abaixo das médias descritas para as crianças norte-americanas. Os resultados para o filtro coincidem nas duas populações estudadas.

 

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Endereço para correspondência:
Rua Barão da Passagem, 1330 - Apto 91C
São Paulo - SP
CEP 05087-000
(dmcattoni@uol.com.br)

Recebido em 26.05.2008.
Revisado em 05.10.2008.
Aceito para Publicação em 03.02.2009.

 

 

Artigo Original de Pesquisa
Artigo Submetido a Avaliação por Pares
Conflito de Interesse: não
* Trabalho Realizado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

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