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Pró-Fono Revista de Atualização Científica

Print version ISSN 0104-5687

Pró-Fono R. Atual. Cient. vol.21 no.3 Barueri July/Sept. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872009000300001 

EDITORIAL

 

 

Claudia Regina Furquim de Andrade

Professora Titular, Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo

 

 

Prezados leitores,

Nosso terceiro Editorial de 2009 terá como ponto principal o 6º. Congresso Mundial dos Distúrbios da Fluência, realizado entre 5 e 8 de agosto de 2009, na Universidade Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro. Esse Congresso é vinculado à International Fluency Association, sendo o principal evento internacional na área.

A International Fluency Association é uma associação internacional, interdisciplinar, sem fins lucrativos, que tem como objetivo a compreensão e o gerenciamento dos distúrbios da fluência, visando à promoção da qualidade de vida das pessoas que gaguejam.

O objetivo do 6º. Congresso foi aproximar clínicos, pesquisadores e pessoas que gaguejam para discussões sobre teorias, dados empíricos, clínicos e culturais relacionados principalmente com a gagueira.

Os professores responsáveis pela organização do evento foram os professores Mônica Medeiros de Britto Pereira, da Universidade Veiga de Almeida, e John Van Borsel, da Universidade de Gent, na Bélgica. É a primeira vez que esse Congresso é realizado na América Latina e, mesmo em tempos de crise financeira internacional, 27 países estiveram representados no evento.

Eu já participei dos eventos anteriores e posso garantir que nessa etapa brasileira a qualidade foi mantida e em alguns aspectos superada. Eu tive a honra de fazer a palestra de abertura do evento com um dos meus temas de pesquisa que é a gagueira familial. Sobre esse tema, com a parceria entre Fmusp, Unesp Marília e Unesp Botucatu, acredito que no próximo Congresso o Brasil já poderá apresentar dados pioneiros unindo as pesquisas fonoaudiológica e molecular na área da gagueira.

Na minha opinião, os destaques científicos do evento foram: a palestra do Professor Luc De Nil (Canadá) sobre as múltiplas facetas da gagueira segundo os achados da neuroimagem; o debate dos Professores Nan Bernstein Ratner e Gerald Maguire (EUA) sobre a posição da gagueira no CID 9/10 e o seminário sobre perspectivas globais na taquifemia envolvendo professores do mundo todo, coordenado pela Professora Isabella Reichel (EUA).

Quero parabenizar os Professores Mônica e John, o evento foi um sucesso! Muito obrigada em nome da Fonoaudiologia brasileira.

Vamos agora aos artigos desse nosso terceiro Número de 2009. São apresentados nove artigos originais de pesquisa, três revisões de literatura e uma carta sobre pesquisa.

Baseando-se no pressuposto de que a determinação dos limites de movimentos mandibulares é um importante procedimento na avaliação do estado funcional do sistema estomatognático, o objetivo do estudo apresentado por Machado et al. (2009) foi definir as médias dos limites de movimentos mandibulares em crianças brasileiras de 6 a 12 anos, verificando ainda possíveis diferenças entre os gêneros e faixas etárias. Além da determinação das medidas, os resultados indicaram não haver diferença estatística entre os gêneros e um aumento gradual nos limites dos movimentos mandibulares com o aumento da faixa etária, com diferenças significantes principalmente entre as faixas etárias de 6 a 8 anos e 10 a 12 anos.

Marangoni e Gil (2009) afirmaram que indivíduos com deficiência auditiva de grau profundo podem apresentar respostas por vibração com os fones supra-aurais devido a grande área do crânio exposta à vibração nestes transdutores. Por essa razão, as autoras realizaram uma pesquisa cujo objetivo foi verificar a influência do tipo de transdutor na obtenção dos limiares auditivos por via aérea em 50 indivíduos com deficiência auditiva neurossensorial de grau profundo. Os resultados apontaram que deficientes auditivos neurossensorias de grau profundo bilateral apresentam limiares de audibilidade mais elevados (piores) com os fones de inserção do que com os fones supra-aurais nas freqüências baixas, evidenciando a existência das respostas por vibração com os fones supra-aurais.

O objetivo do estudo proposto por Freitas et al. (2009) foi estimar a especificidade e taxa de falso-positivo de protocolos de triagem auditiva neonatal (TAN), realizados com emissões otoacústicas evocadas transientes (EOET) e potenciais evocados auditivos de tronco encefálico automático (PEATEa) em 200 recém-nascidos. Após análise dos resultados, as autoras concluíram que a taxa de falso-positivo e conseqüentemente a especificidade foram melhores no protocolo com PEATEa, seguido dos protocolos com EOET e com EOET e PEATEa.

Estudar o desempenho de escolares do Ensino Fundamental em tarefas de compreensão de leitura, segundo as variáveis série e rede de ensino foi o objetivo proposto no estudo apresentado por Carvalho et al. (2009). Foram triados 160 escolares de terceira a sexta séries do Ensino Fundamental e posteriormente avaliados por meio do reconto e respostas a questões sobre o texto. Os resultados do estudo apontaram que apenas nas quintas e sextas séries foi verificado melhor desempenho da rede particular em relação à pública, nas respostas a questões de conhecimento implícito. Todos os escolares mostraram ter alcançado algum nível de compreensão de leitura do texto.

Donicht et al. (2009) apresentaram uma pesquisa que comparou a inteligibilidade julgada do desvio fonológico a partir da análise de três grupos distintos de julgadores. A pesquisa foi composta de duas amostras, uma amostra julgada (30 sujeitos com desvio fonológico) e outra julgadora (fonoaudiólogas, leigas e mães). Foram analisadas pelos julgadores as amostras de fala espontânea das crianças pela narração de três seqüências lógicas, acompanhadas de questões para marcação da inteligibilidade. A análise dos resultados mostrou maior concordância entre os grupos de juízes para os extremos das possibilidades de julgamento (boa e insuficiente). A concordância entre todos os grupos de julgadores foi substancial para o julgamento da inteligibilidade boa sendo mais difícil o julgamento da inteligibilidade regular.

O objetivo do estudo apresentado por Coutinho et al. (2009) foi verificar o efeito imediato do monitoramento auditivo modificado (amplificação, atraso e mascaramento na voz) e fala de 26 indivíduos com doença de Parkinson, de acordo com o sexo. Os resultados do estudo indicaram melhora da qualidade vocal, aumento da loudness, maior tensão e melhor articulação na situação de mascaramento; piora da qualidade vocal, redução da loudness, menor tensão, lentificação na velocidade de fala e piora na articulação nas situações de atraso e amplificação, concluindo que a situação de mascaramento produz melhores efeitos imediatos na voz e na fala dos indivíduos com doença de Parkinson.

Verificar a eficácia de um programa de orientação sobre estratégias comunicativas à cuidadores de idosos com doença de Alzheimer (DA) moderada foi o objetivo da pesquisa realizada por Roque et al. (2009). Para isso, foi verificado o uso e a eficácia de estratégias comunicativas, antes e depois de treinamento realizado com os cuidadores. Os resultados obtidos demonstraram que após a aplicação do programa, verificaram-se o aumento na freqüência de uso das estratégias e relato de outras mudanças relacionadas à comunicação, concluindo que houve eficácia na aplicação do programa, uma vez que foram verificadas mudanças no comportamento comunicativo dos cuidadores.

Goulart e Ferreira (2009) apresentaram os dados da validação de um teste de rastreamento (Terdaf), desenvolvido por pesquisadores brasileiros, para detecção de alterações de fala em crianças. Para isso, foram avaliadas 2027 crianças de ambos os sexos, matriculadas na 1a série da rede municipal de ensino de Canoas (RS) selecionadas por meio de amostragem aleatória por conglomerados. Os autores concluíram que o Terdaf pode tornar-se um importante aliado no diagnóstico precoce e prevenção das comorbidades associadas às desordens de fala.

Levy e Rosemberg (2009) avaliaram a capacidade auditiva de crianças com encefalopatias crônicas não evolutivas (Ecne) e caracterizaram o benefício do uso da prótese auditiva para estas crianças. Foram realizadas avaliações neurológicas, otorrinolaringológicas audiológicas em 46 crianças portadoras de Ecne. Os resultados apontaram que mais da metade das crianças avaliadas apresentaram perda auditiva, no entanto, não houve relação quanto a etiologia e suspeita de perda auditiva. Os resultados indicaram ainda que todas as crianças com perda auditiva se beneficiaram com o uso da prótese auditiva.

O objetivo da revisão sistemática da literatura apresentada por Lemos et al. (2009) foi verificar a existência de evidência científica que comprove a efetividade do sistema freqüência modulada (FM) para o tratamento do transtorno do processamento auditivo (TPA). A busca resultou em 1589 trabalhos, dos quais somente 19 enquadraram-se nos critérios de inclusão. Todos os artigos analisados foram classificados com baixo nível de evidência (opinão de especialista ou estudo de casos), e obtiveram baixa pontuação na escala Consort (0 ou 1). Os autores concluíram que não foram encontrados estudos com evidência científica que comprovem a efetividade do uso do sistema FM na intervenção de indivíduos com TPA. Os autores afirmam ainda que, sendo este equipamento freqüentemente indicado na prática clínica para o tratamento do TPA, torna-se imprescindível a realização de estudos com alta evidência científica que possam guiar seguramente as tomadas de decisões clínicas.

A revisão de literatura de Spinardi et al. (2009) teve como foco a educação à distância (EaD), apontando que esta tem se tornado uma modalidade de impacto significante no ensino superior, oferecendo aos estudantes flexibilidade, mobilidade e escolha. A partir da revisão realizada, os autores defendem a posição de que a EaD é uma ferramenta de grande importância, uma vez que pode atender grandes contingentes de alunos e profissionais de forma mais efetiva que outras modalidades de ensino, sem reduzir a qualidade dos serviços oferecidos. Os autores afirmam ainda a necessidade de desenvolver no Brasil ações direcionadas a EaD na área da Fonoaudiologia, devido a distribuição irregular de profissionais fonoaudiólogos, fato que, segundo os autores, acentua a heterogeneidade da qualidade e disponibilidade dos serviços oferecidos no país.

Partindo da afirmação de que a ecolalia é um dos sintomas mais comuns dentre as características da linguagem no Autismo, a revisão de literatura apresentada por Saad e Goldfeld (2009) teve como objetivo detalhar o papel da ecolalia no desenvolvimento da linguagem de pessoas autistas, seguida de discussão sobre seu uso na prática clínica fonoaudiológica. As autoras apontaram que os estudos revisados mostraram classificações e critérios de análise da ecolalia no contexto discursivo. Alguns estudos se posicionam contra seu uso afirmando que a ecolalia não tem função comunicativa e, por isso, deve ser desestimulada; outros defendem que a ecolalia tem um valor comunicativo, podendo ser inclusive utilizada em terapia fonoaudiológica.

A carta sobre pesquisa apresentada por Mangilli et al. apresenta um estudo com o objetivo de caracterizar o controle motor e a morfologia do músculo masseter em indivíduos normais, verificando a compatibilidade entre a eletromiografia de superfície e a ultrassonografia. Participaram do estudo cinco indivíduos adultos, sem alterações no sistema estomatognático. Os procedimentos adotados para a avaliação dos participantes foram a eletromiografia de superfície e a ultrassonografia. A partir dos resultados encontrados, os autores concluíram que não houve correlação entre os métodos testados, sugerindo que os exames são complementares e não excludentes.

 

Abraço, Claudia

 

Referências Bibliográficas

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Coutinho SB, Diaféria G, Oliveira G, Behlau M. Voz e fala de Parkinsonianos durante situações de amplificação, atraso e mascaramento. Pró-Fono Revista de Atualização Científica. 2009 jul-set;21(3):219-24.         [ Links ]

Donicht G, Pagliarin KC, Mota HB, Keske-Soares M. A inteligibilidade do desvio fonológico julgada por três grupos de julgadores. Pró-Fono Revista de Atualização Científica. 2009 jul-set;21(3):213-8.         [ Links ]

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