SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 número1Alongamento vocálico e apagamento em coda medial nos desvios fonológicos índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Pró-Fono Revista de Atualização Científica

versão impressa ISSN 0104-5687

Pró-Fono R. Atual. Cient. vol.22 no.1 Barueri jan./mar. 2010

https://doi.org/10.1590/S0104-56872010000100013 

ARTIGO ORIGINAL DE PESQUISA

 

Validade da prova calórica monotermal em comparação à estimulação bitermal*

 

 

Luciana Cristina Matos CunhaI, 1; Lilian FelipeII; Sarah Araújo CarvalhoIII; Ludimila LabancaIV; Maurício Campelo TavaresV; Denise Utsch GonçalvesVI

IFonoaudióloga. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde: Infectologia e Medicina Tropical da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
IIFonoaudióloga. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde: Infectologia e Medicina Tropical da UFMG. Professora Substituta do Curso de Fonoaudiologia da UFMG
IIIFonoaudióloga. Mestre em Saúde Pública pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da UFMG
IVGraduanda em Fonoaudiologia pela UFMG
VEngenheiro. Doutor em Engenharia Elétrica com Ênfase em Engenharia Biomédica pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professor do Curso de Engenharia da Universidade Católica de Pelotas
VIMédica Otorrinolaringologista. Professora Adjunto do Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da UFMG

 

 


RESUMO

TEMA: a estimulação calórica monotermal tem sido considerada como alternativa à prova calórica bitermal para triagem das assimetrias vestibulares.
OBJETIVO: avaliar a confiabilidade da estimulação monotermal em relação à bitermal para o diagnóstico das assimetrias labirínticas.
MÉTODO: avaliaram-se 389 resultados de vectoelectronistagmografia realizados entre 1998 e 2007. A estimulação monotermal de 30ºC e 44ºC com pontos de corte de predomínio labiríntico (PL) em 20% e em 25% foi comparada à bitermal com ponto de corte em 25% (padrão ouro). Na análise, interessou encontrar qual foi à prova monotemal (30°C ou 44°C) e com qual ponto de corte (20% ou 25%) que apresentou os valores mais elevados de sensibilidade e especificidade quando comparada à prova bitermal.
RESULTADOS: a sensibilidade e especificidade da prova monotermal foram respectivamente de: 84% e 80%, a 30°C com PL em 20%; 78% e 90%, a 30°C com PL em 25%; 81% e 78%, a 44°C com PL em 20%; 76% e 85%, a 44°C com PL em 25%.
CONCLUSÃO: a prova monotermal com estimulo a 30°C apresentou valores mais elevados de sensibilidade e especificidade quando comparada a bitermal. Contudo, não se observou diferença significativa em relação aos valores observados com estímulo a 44°C. Em todas as análises, a prova monotermal apresentou a limitação da baixa sensibilidade, de modo que testes alterados pela bitermal podem passar como normais pela prova monoternal. Ao se decidir pela realização da prova monotermal como triagem, deve-se realizá-la em indivíduos com menor probabilidade de estar com doença vestibular, a partir da história clínica.

Palavras-Chave: Eletronistagmografia; Testes Calóricos; Tontura.


 

 

Introdução

A prova calórica é considerada uma importante etapa da vectoeletronistagmografia (Veng), por oferecer medida objetiva da função vestibular1. O tipo mais amplamente utilizado tem sido a prova calórica bitermal (PCB), que envolve estimulações por meio de irrigações com água nas temperaturas fria (30ºC) e quente (44ºC) em cada lado separadamente2.

O teste monotermal, primeiramente descrito por Torok (1969)3, é baseado nas respostas vestibulares a partir da estimulação com água em uma mesma temperatura. Esta técnica foi proposta como uma alternativa à PCB, atuando com a mesma acuidade no diagnóstico das vestibulopatias e, ao mesmo tempo, diminuindo a administração do tempo e o desconforto do paciente4-5.

Contudo, pesquisas envolvidas com a investigação da efetividade da estimulação monotermal demonstraram resultados variados com baixa especificidade, e altas taxas de resultados falso-negativos6-8. Tal variabilidade interfere na confiabilidade do teste monotermal e são justificadas, dentre outros fatores, pelas diferenças de valores corte de predomínio labiríntico utilizados pelos estudos.

Atualmente, são poucos os estudos que se propõem a elucidar a acuidade da estimulação monotermal nos diagnósticos vestibulares. Interessa, pois, avaliar a validade desse teste com a estimulação monotermal para triagem de doença vestibular.

O objetivo desse estudo foi verificar a validade dos testes monotermais em relação aos bitermais, considerando-se diferentes valores de normalidade de predomínio labiríntico na prova calórica monotermal.

 

Método

Este estudo foi analisado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) (ETIC 118/07).

Avaliaram-se os resultados obtidos com a seleção randomizada de prontuários de 387 exames, referentes a 103 pacientes do sexo masculino e 284 do sexo feminino, avaliados no Ambulatório de Otoneurologia do Hospital das Clínicas da UFMG, no período de 1998 a 2007. A idade dos sujeitos variou entre 18 e 91 anos, com média de 51 anos e desvio padrão de 17 anos.

Incluíram os sujeitos que continham os dados completos das estimulações calóricas realizadas e excluíram aqueles que revelaram arreflexia vestibular e suspeita de alteração central (alteração dos movimentos oculomotores, ausência de efeito inibidor da fixação ocular e inversão nistagmográfica à estimulação bitermal). Além disso, excluiu-se pacientes com idade inferior a 18 anos.

O teste calórico foi realizado por meio de estimulações com água nas temperaturas de 44°C e 30°C, utilizando-se um vectoeletronistagmógrafo com quatro canais (Contronic, versão SCV 5.1, Brasil).

Durante o registro do nistagmo, o paciente permaneceu na posição supina, com cabeça elevada a 30°, para estimulação máxima dos canais semicirculares laterais. A prova calórica foi realizada na seguinte seqüência: direita 44ºC, esquerda 44ºC, direita 30º C e esquerda 30º C.

Para interpretação da prova calórica bitermal e cálculo do predomínio labiríntico (PL), utilizou-se a fórmula proposta por Jongkess9. As respostas monotermais foram calculadas utilizando-se a seguinte fórmula10:

Fórmula similar foi aplicada para o estímulo monotermal a 30ºC.

Na prova calórica bitermal, a faixa de normalidade em valores absolutos da velocidade angular da componente lenta (VACL) foi de 3ºC a 50ºC11. Em relação aos valores de PL, considerou-se como normal o valor inferior a 25%12 (ponto de corte) na prova calórica bitermal (padrão ouro). Os resultados obtidos por meio da prova calórica bitermal foram agrupados em simétricos (testes normais, hiporreflexia ou hiperreflexia bilateral) e assimétricos (hiporreflexia ou hiperreflexia unilaterais com predomínio labiríntico). Estes resultados foram comparados com os das respostas monotermais (30ºC ou 44ºC) com pontos de corte de predomínio labiríntico (PL) em 20%7 e em 25%13.

Utilizou-se o programa Epi-Info 3.4.2 para entrada dos dados e o programa Stata 9.2 para a realização do cálculo da sensibilidade e especificidade, considerando-se a prova calórica bitermal como o teste padrão ouro.

 

Resultados

Dos 387 sujeitos avaliados, a prova calórica bitermal identificou 322 exames com PL normal e 65 com PL alterada.

Comparando-se os resultados da estimulação monotermal a 30ºC com os da bitermal, dos 322 exames identificados como normais a partir da prova bitermal, 62 foram vistos como alterados com ponto de corte para PL em 20% e 33 para PL em 25%. Dos 65 exames identificados como alterados pela prova bitermal, 10 foram vistos como normais pela monotermal com ponto de corte para PL em 20% e 14 para PL em 25%.

Comparando-se os resultados da estimulação monotermal a 44ºC com os da bitermal, dos 322 exames identificados como normais a partir da prova bitermal, 72 foram vistos como alterados com ponto de corte para PL em 20% e 49 para PL em 25%. Dos 65 exames identificados como alterados pela prova bitermal, 12 foram vistos como normais pela monotermal com ponto de corte para PL em 20% e 15 para PL em 25%.

Os valores comparativos de sensibilidade e especificidade para ambas as estimulações, com os diferentes pontos de corte foram descritos na Tabela 1.

 

Discussão

A prova calórica monotermal é considerada como um teste de triagem na pesquisa de assimetrias vestibulares. Diante da dúvida no resultado, a estimulação bitermal deve ser realizada10,14-15. É sabido que o objetivo de qualquer teste de triagem é ser confiável para os resultados normais (maior sensibilidade). Este raciocínio vale para testes que são utilizados, seja para a triagem de doenças infecto-contagiosas, seja para a triagem auditiva neonatal16.

No presente estudo, os resultados indicaram que a confiabilidade das respostas demonstradas pela prova calórica monotermal variou pouco quando se utilizou a temperatura de estímulo de 30ºC ou de 44ºC. Por outro lado, quando se alterou o valor de normalidade da PL de 20% para 25%, observou-se uma diminuição nas taxas de sensibilidade e aumento na especificidade. Estes resultados concordam com os achados de Jacobson et al. (1995)14, quando variaram o valor de normalidade de PL de 24,5% para 29% na prova calórica monotermal a 44ºC. De fato, quanto maior o ponto de corte da PL, maior a confiabilidade dos resultados alterados (maior especificidade). Contudo, maior também é a probabilidade de que exames de pacientes com doenças vestibulares que causam assimetrias menores sejam considerados como exames normais (menor sensibilidade). Exemplos seriam doenças vestibulares em fases iniciais ou doenças vestibulares que não causem assimetria vestibular significativa. Neste contexto, o ponto de corte da PL em 20% (e não em 25%) estaria considerando uma maior sensibilidade e menor risco de se considerar como normais exames que seriam, na verdade, alterados. Contudo, mesmo o ponto de corte de PL em 20% não é suficiente para oferecer total confiabilidade no resultado normal, pois a maior sensibilidade observada foi de 86% (Tabela 1).

De forma geral, a especificidade dos testes monotermais obtida neste estudo para os estímulos de 30ºC e de 44ºC foi satisfatória, principalmente utilizando-se o ponto de corte de normalidade da PL em 25%, conforme pode ser visto na Tabela 1. Isto vem demonstrar que os resultados alterados a partir da prova monotermal são geralmente confirmados pela prova bitermal (maior especificidade). Em contrapartida, analisando-se a sensibilidade, o ponto de corte de normalidade de PL em 25% estaria associado a um maior risco de não diagnóstico (menor sensibilidade). O dano vestibular bilateral causado por uso de drogas vestíbulo-tóxicas, como é o caso da gentamicina, antibiótico aminoglicosídeo de uso frequente em Medicina, é um exemplo típico de lesão vestibular com resultado normal da PL na prova calórica17-18. Neste caso, a história clínica e os valores absolutos da resposta calórica, com hiporreflexia ou arreflexia bilateral, esclareceriam o diagnóstico.

Em relação ao predomínio direcional (PD), esse estudo não se focou em tal parâmetro de avaliação, uma vez que seu significado clínico tem sido fonte de controvérsias. Segundo estudos, alterações no PD podem ser observadas nas vestibulopatias centrais, periféricas, ou até mesmo em indivíduos normais20-24. Além disso, o PD não representa evidência de assimetria do sistema vestibular como representa o PL e não tem valor para localização do sítio da lesão21-24.

Com base nos resultados desse estudo, o uso da prova calórica monotermal como instrumento de triagem não é recomendado na rotina clínica de pacientes com suspeita de doença vestibular, concordando com outras investigações8,14-15,19. Mesmo considerando-se o conforto do paciente e o menor tempo para a administração do teste, a baixa sensibilidade vista para todos os valores de corte avaliados no estudo poderiam tornar a validade do exame monotermal duvidosa, auferindo normalidade para sujeitos com doença labiríntica que causa pouca assimetria. Logo, sempre que possível, a utilização da prova monotermal deve ser evitada. Quando necessária, deve-se, preferencialmente, utilizá-la com estímulo calórico de 30 ºC e valor de normalidade de PL em até 20%. Este ponto de corte oferece taxas de sensibilidade mais satisfatórias, tornando o exame mais confiável para definir ausência de doença vestibular.

 

Conclusão

Para ser considerado como exame de triagem, o teste calórico monotermal, com estimulação nas temperaturas, seja fria seja quente, apresentou baixo valor de sensibilidade, independente do ponto de corte de PL utilizado. Assim, testes vestibulares considerados alterados na prova calórica bitermal passariam como normais na prova monotermal. Apesar dessas limitações, a partir dos dados da história clínica e da faixa etária, a estimulação monotermal teria a sua aplicabilidade em indivíduos que apresentam baixa probabilidade de apresentar doença vestibular.

 

Referências Bibliográficas

1. Chawla N, Olshaker JS. Diagnosis and management of dizziness and vertigo. Emerg Med Clin North Am. 2006;90(2):291-304.         [ Links ]

2. Fitzgerald G, Hallpike CS. Studies in human vestibular function I: Observations on the directional preponderance ("nystagmusbereitschaft") of caloric nystagmus resulting from cerebral lesions. Brain. 1942;62(2):115-37        [ Links ]

3. Torok N. Differential caloric stimulations in vestibular diagnosis. Arch Otolaryngol. 1969;90(1):52-7.         [ Links ]

4. Longridge NS, Leatherdale A. Caloric screening tests. J Otolaryngol. 1980;9(6):478-81.         [ Links ]

5. Norré ME. Evaluation of a screening procedure by hot water caloric test. Acta Otorhinolaryngol Belg. 1975;29:558-564.         [ Links ]

6. Dayal VS, Farkashidy J, Kuzin B. Clinical evaluation of the hot caloric test as screening procedure. Laryngoscope. 1973;83(9):1433-1439.         [ Links ]

7. Becker GD. The screening value of monotherm caloric tests. Laryngoscope. 1979;89:311-4.         [ Links ]

8. Keith RW, Pensak ML, Katbamna B. Prediction of bithermal caloric response from monothermal stimulation. Otolaryngol Head Neck Surg. 1991;104(4):499-502.         [ Links ]

9. Jongkees LB, Maas JP, Philippsen AJ. Clinical nystagmography. Pract. Otorhinolaryngol (Basel). 1962;24:65-93.         [ Links ]

10. A. Sameh Farid, Shereen M, El-Abd, Maha H, Abou-Elew. Monothermal caloric test its value in assessment of vestibular function. International Congress Series. 2003;1240:1319-24.         [ Links ]

11. Mor R, Fragoso M, Taguchi CK, Figueiredo JFFR. Vestibulometria & Fonoaudiologia: como realizar e interpretar. São Paulo: Lovise; 2001. p.186.         [ Links ]

12. Jacobson GP, Newman CW. Background and technique of caloric testing. In: Jacobson GP, Newman CW, Kartush JM. Handbook of balance function testing. Singular Publishing Group: San Diego-London. 1997.         [ Links ]

13. Jacobson G, Newman C, Peterson E. Intermpretation and usefulness of caloric testing. In:Jacobson G, Newman C, Kartush J, eds. Handbook of balance testing. St louis, Mo: mosby-Year Book, 1993:193-233.         [ Links ]

14. Jacobson GP, Calder JA, Rupp KA, Shepherd VON, Newman GW. Reapraisal of the monothermal warm caloric screening test. Ann Otol Rhinol Laryngol. 1995;104:942-4.         [ Links ]

15. Enticott JC, Dowell RC, O'Leary SJ. A comparison of the monothermal and bithermal caloric tests. J Vestib Res. 2003;13(2-3):113-9.         [ Links ]

16. Méndez Colunga JC, Alvarez Méndez JC, Carreño Villarreal JM, Alvarez Zapico MJ, Manrique Estrada C, Fernández Alvarez ML, et al. Neonatal hearing loss screening: our results three years after starting the program. Acta Otorrinolaringol Esp. 2005;56(2):55-8.         [ Links ]

17. Selimoglu E. Aminoglycoside-induced ototoxicity. Curr Pharm Des. 2007;13(1):119-26.         [ Links ]

18. Buszman E, Wrzesniok D, Matusinski B. Ototoxic drugs. I. Aminoglycoside antibiotics. Wiad Lek. 2003;56(5-6):254-9.         [ Links ]

19. Jacobson GP, Means ED. Efficacy of a monothermal warm water caloric screening test. Ann Otol Rhinol Laryngol. 1985;94(4pt 1):377-81.         [ Links ]

20. Fitzgerald G, Hallpike CS. Studies in human vestibular function I: observations on the directional preponderance of caloric nystagmus resulting from cerebral lesions. Brain 1942;62(part 2):115-37        [ Links ]

21. Gonçalves, Denise Utsch; Felipe, Lilian; Lima, Tânia Mara Assis. Interpretação e utilidade da prova calórica. Rev. Bras. Otorrinolaringol. 2008; 74(3): 440-446.         [ Links ]

22. McGee M. Electronystagmography in peripheral lesions. Ear Hear 1986;7(3):167-75.         [ Links ]

23. Eviatar A, Wassertheil S. The clinical significance of directional preponderance concluded by electronystagmography. J Laryngol Otol 1971;85(4):355-67.         [ Links ]

24. Coats AC. Directional preponderance and unilateral weakness as observed in the electronystagmographic examination. Ann Otol Rhinol Otolaryngol 1965;74(3):655-68.         [ Links ]

 

 

Recebido em 08.08.2008.
Revisado em 20.12.2008; 10.02.2009; 23.12.2009.
Aceito para Publicação em 01.02.2010.

 

 

Artigo Submetido a Avaliação por Pares
Conflito de Interesse: não

* Trabalho Realizado no Serviço de Otoneurologia do Hospital das Clínicas da UFMG.
1 Endereço para correspondência: Av. Professor Alfredo Balena, 190 Belo Horizonte - MG - CEP 30130-160 (deniseg@medicina.ufmg.br).

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons