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Pró-Fono Revista de Atualização Científica

versão impressa ISSN 0104-5687

Pró-Fono R. Atual. Cient. vol.22 no.3 Barueri jul./set. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872010000300020 

ARTIGOS ORIGINAIS DE PESQUISA

 

Percepção da fala em deficientes auditivos pré-linguais usuários de implante coclear*

 

 

Thais Corina Said de AngeloI,**; Maria Cecília BevilacquaII; Adriane Lima Mortari MoretIII

IFonoaudióloga. Especialista em Audiologia Clínica e Educacional pelo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC) da Universidade de São Paulo (USP). Fonoaudióloga do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP
IIFonoaudióloga. Professora Titular do Departamento de Fonoaudiologia da FOB - USP
IIIFonoaudióloga. Doutora em Ciências - Distúrbios da Comunicação Humana pelo HRAC - USP. Docente do Departamento de Fonoaudiologia da FOB-USP

 

 


RESUMO

TEMA: o implante coclear é um dispositivo eletrônico bastante promissor quanto aos benefícios, já que proporciona para a criança surda a apropriação da linguagem oral incidental.
OBJETIVOS:
avaliar o desempenho de audição do grupo das 60 primeiras crianças com deficiência auditiva neurossensorial pré-lingual implantadas no Centro de Pesquisas Audiológicas do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (CPA-HRAC/USP), após 16 anos de funcionamento do programa de implante coclear.
MÉTODOS: foram avaliadas 57 crianças com idades entre 9 e 18 anos, utilizando os seguintes testes de percepção de fala: listas de reconhecimento de vocábulos monossílabos e dissílabos; listas de reconhecimento de sílabas sem sentido - Consonant Confusion Study - Confuse Program (apresentado no software do Sistema de Implante Coclear Nucleus, na sua unidade de programação - versão 6.90); listas de reconhecimento de sentenças e lista de palavras como procedimento de avaliação de percepção dos sons da fala para crianças deficientes auditivas.
RESULTADOS: todas as crianças obtiveram resultados satisfatório com o implante coclear. Nos testes para o índice de reconhecimento de fonemas como para o reconhecimento de palavras, os resultados foram estatisticamente significante para o tipo de implante coclear Med-El em comparação com os demais tipos de implante.
CONCLUSÃO: o estudo revela que o implante coclear trouxe benefícios reais para o grupo de crianças estudado, uma vez que possibilitou o desenvolvimento máximo das habilidades auditivas.

Palavras-Chave: Percepção da Fala; Deficiência Auditiva; Implante Coclear.


 

 

Introdução

A deficiência auditiva caracteriza-se por privação sensorial e suas conseqüências afetam o desenvolvimento da função auditiva e da linguagem oral, podendo trazer implicações emocionais, educacionais, sociais e culturais1.

O tratamento da deficiência auditiva infantil envolve o uso de dispositivos eletrônicos aplicados à surdez. Na década de 90 o implante coclear foi amplamente utilizado em crianças, revelando-se um efetivo recurso para minimizar as conseqüências da deficiência auditiva e, por conseguinte, promover melhor qualidade de vida a estes indivíduos2-4.

A literatura tem relatado os benefícios que o implante coclear vem trazendo para as crianças deficientes auditivas, mostrando-se altamente efetivo no tratamento da deficiência auditiva, embora complexo pela interação de variáveis que interferem no desempenho da criança implantada5-6. Uma das variáveis a ser considerada é a idade na cirurgia, onde vários estudos mostram que crianças implantadas mais cedo alcançam melhor percepção auditiva, apropriação incidental da linguagem e inteligibilidade de fala7-11.

Quanto ao tipo de implante, observa-se que este aspecto está muito relacionado com o tempo de uso do dispositivo, o tempo de surdez e a estratégia de codificação de fala. A etiologia da surdez parece não interferir no desempenho das crianças implantadas5.

O tempo de uso do dispositivo também tem sido relevante nos resultados obtidos em crianças12-13. Em um estudo prospectivo e longitudinalmente, realizado com 30 crianças implantadas por um período de 10 a 14 anos foram avaliadas a percepção e a inteligibilidade de fala. Os resultados mostraram que 87% das crianças usavam o implante de forma efetiva e após 10 anos de uso, 60% alcançaram a categoria 7 da escala CAP (Categories of Auditory Peformance) e 77% desenvolveram inteligibilidade de fala próxima a de ouvintes14.

Devido aos resultados apresentados, o implante coclear mostra-se bastante promissor quanto aos benefícios, já que proporciona para a criança surda uma apropriação da linguagem incidental, fato que não ocorria ou ocorria pouco antes deste recurso.

No Centro de Pesquisas Audiológicas (CPA) do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC) da Universidade de São Paulo (USP) são acompanhadas todas as crianças que realizaram a cirurgia de implante coclear nesta instituição.

Este trabalho teve como objetivo estudar o desempenho de audição das 60 primeiras crianças com deficiência auditiva neurossensorial pré-lingual implantadas no CPA-HRAC/USP após 16 anos de funcionamento do programa de implante coclear. Os resultados possibilitarão a análise científica deste programa na população infantil.

 

Método

Este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do HRAC / USP, sob o ofício número 070/2009 - SVAPEPE / CEP. Todos os responsáveis dos participantes da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para a participação na pesquisa.

Sujeitos

O estudo foi realizado com 57 indivíduos do grupo das 60 primeiras crianças deficientes auditivas pré-linguais submetidas à cirurgia de implante coclear conforme critérios institucionais de seleção propostos pelo CPA / HRAC5. Não foram avaliados três dos 60 indivíduos, pois dois não compareceram ao retorno anual de acompanhamento, mesmo após varias tentativas de contato; e um indivíduo, com inserção parcial dos eletrodos, apresentou complicações após alguns anos, sendo necessário retirar o componente interno do implante.

A idade dos indivíduos estudados na avaliação variou de 9:2 a 18:2. O tempo de privação sensorial auditiva variou de 1:8 a 6:3, e o tempo de uso de implante coclear variou entre 6:10 a 13:11. Todos os 57 indivíduos tiveram inserção total dos eletrodos.

Material

Os procedimentos para avaliação da percepção dos sons da fala foram: listas de reconhecimento de vocábulos monossílabos e dissílabos15; listas de reconhecimento de sílabas sem sentido - Consonant Confusion Study - Confuse Program (apresentado no software do Sistema de Implante Coclear Nucleus, na sua unidade de programação - versão 6.90); listas de reconhecimento de sentenças número 116 e lista de palavras como procedimento de avaliação de percepção dos sons da fala para crianças deficientes auditivas17. Para alguns procedimentos foram necessários sistema em campo livre com audiômetro marca Midimate 622, disco compacto digital (compact disc - CD), desenvolvido pela Auditec Saint Louis, 1997 e CD Player Teac PD-P30 - Compact Disc Áudio.

Metodologia

O procedimento de avaliação de fala lista de palavras como procedimento de avaliação de percepção dos sons da fala para crianças deficientes auditivas e a lista de sentenças foram aplicados em cabine acústica, à viva-voz, em sistema de campo livre, em intensidade de 60dB, selecionado por meio do audiômetro, calibrado em 100 dB NA. As caixas acústicas posicionadas em ângulo de 45º Azimute, distantes 60 cm do ouvido da criança e com saída do som do lado do ouvido implantado.

Os demais procedimentos foram realizados nas mesmas condições que os anteriores, porém, a fala foi aplicada utilizando o disco compacto digital conectado ao audiômetro por meio do equipamento CD Player. Para a apresentação do estímulo de fala foi utilizada a intensidade de 60dB. Todos os procedimentos foram aplicados em todos os indivíduos e os resultados são oferecidos em porcentagem e puderam ser comparados estatisticamente.

Os procedimentos foram selecionados tanto em níveis mais fáceis como os aplicados para criança, como aqueles em níveis mais difíceis como aqueles elaborados para adulto. Optou-se por aplicar todos os procedimentos em todas as crianças para verificar como seria o desempenho destas nos diversos tipos de testes aplicados.

Análise dos dados

Para comparação dos resultados obtidos nos procedimentos de avaliação de percepção de fala e os diferentes tipos de implante foi utilizado o modelo de análise de variância com um fator. Para fazer as comparações post hoc foi utilizada a correção de Turkey18.

 

Resultados

A Tabela 1 apresenta a distribuição dos 57 indivíduos estudados quanto à idade, o tempo de privação sensorial auditiva e o tempo de uso do implante coclear.

A Tabela 2 apresenta a comparação entre os resultados dos testes de percepção de fala com os tipos de implante coclear do grupo dos 57 indivíduos estudados.

 

 

Discussão

Os melhores resultados foram obtidos na última prova, reconhecimento de palavras e fonemas, pois corresponde a um procedimento elaborado especificamente para crianças, formado por palavras que fazem parte do cotidiano da criança.

Quanto à idade no momento da avaliação pôde-se observar que os sujeitos mais velhos e com o maior tempo de privação sensorial auditiva estão no grupo dos deficientes auditivos usuários do implante coclear Nucleus 22 (Tabela 1), isto é justificado, pois no inicio do programa de Implante Coclear do CPA/USP, o critério de seleção para a cirurgia eram crianças acima de 3 anos de idade e a implantação iniciou com o implante Nucleus 22. Comparando o desempenho nos testes de percepção de fala (Tabela 2), observou-se que houve desempenho inferior destes sujeitos, o que pode estar relacionado com o tempo de privação sensorial auditiva, uma vez que a literatura aponta que este aspecto realmente influencia o desempenho dos implantados pré-linguais7-9.

O desempenho nos procedimentos de avaliação da percepção de fala quanto aos diferentes tipos de implante foi estatisticamente significante para o modelo Med-El em comparação com os demais modelos, tanto para o reconhecimento de palavras como o reconhecimento de fonemas17 (Tabela 2).

Os resultados não foram os mesmos encontrados em um estudo que avaliou a percepção de fala de usuários de implante coclear com 3 marcas diferentes de implante19. Consideráveis progressos nas habilidades de percepção de fala foram observados, independentemente do tipo de implante coclear19.

Em outro estudo cujo objetivo foi avaliar as habilidades de percepção de fala entre usuários de dois tipos de implante coclear (Med-El e Nucleus 24), os resultados obtidos evidenciaram melhor desempenho com o modelo C40+ Med-El, o que pode ser justificado pelo diferente processamento do sinal CIS, o qual enfatiza informações temporais da fala20.

Nesta pesquisa foi evidenciado desempenho satisfatório dos sujeitos estudados (Tabela 2) nos testes de percepção de fala aplicados, indo ao encontro da literatura4. Um estudo14 avaliou a percepção de fala de crianças implantadas após 10 anos de uso do dispositivo e observaram alto índice de desempenho das crianças nos testes de percepção de fala utilizados.

Vários estudos apresentaram os resultados benéficos quanto à percepção auditiva dos sons de fala e à aquisição da linguagem oral em crianças implantadas3-4,8, porém, devido aos inúmeros fatores que podem interferir no desenvolvimento da audição e da linguagem da criança usuária de implante coclear, mais pesquisas são necessárias para verificar e acompanhar o desenvolvimento destas habilidades.

 

Conclusão

O implante coclear como tratamento de deficientes auditivos pré-linguais é altamente efetivo, porém, vários fatores se correlacionam influenciando no desempenho com o dispositivo. Encontrou-se desempenho altamente satisfatório em todos os procedimentos aplicados, o que mostra a importância do implante coclear no desenvolvimento das habilidades auditivas do deficiente auditivo.

 

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Recebido em 15.07.2009.
Revisado em 17.06.2010; 15.07.2010.
Aceito para Publicação em 16.08.2010.
Conflito de Interesse: não

 

 

Artigo Submetido a Avaliação por Pares
* Trabalho Realizado no Centro de Pesquisas Audiológicas (CPA) do HRAC - USP.
** Endereço para correspondência: Av. Orlando Ranieri, 7-108 - Apto. 4 - Bloco 24 Bauru - SP CEP 17047-001 (thathasaid@yahoo.com.br)