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Pró-Fono Revista de Atualização Científica

versão impressa ISSN 0104-5687

Pró-Fono R. Atual. Cient. vol.22 no.3 Barueri jul./set. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872010000300033 

ARTIGOS DE ESTUDOS DE CASO

 

Disfonia psicogênica associada a outras doenças: desafio para o tratamento fonoaudiológico*

 

 

Kátia NemrI,**; Marcia Simões-ZenariII; Suelen Fernanda MarquesIII; Juliane Pereira CortezIV; Andreza Luciane da SilvaV

IFonoaudióloga. Doutora em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Professora Doutora do Curso de Fonoaudiologia do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
IIFonoaudióloga do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP. Doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP
IIIFonoaudióloga. Bolsista de Capacitação Técnica - Fapesp
IVFonoaudióloga Clínica. Especialista em Voz pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo
VFonoaudióloga. Aprimoranda do Programa de Aprimoramento do Hospital das Clínicas da FMUSP

 

 


RESUMO

TEMA: sucessos e dificuldades no tratamento de disfonia psicogênica.
OBJETIVO: discutir as limitações da terapia fonoaudiológica para disfonia psicogênica associada a outras doenças.
MÉTODO: foram utilizados protocolos de avaliação e registros de terapia para discussão do caso.
RESULTADOS: a paciente chegou com importante alteração vocal e, após avaliação, diagnosticou-se disfonia psicogênica. O tratamento envolveu ativação vocal e modificação do ajuste fixado. Observaram-se mudanças positivas como estabilidade no padrão vocal, redução da rouquidão, aspereza, soprosidade e desconforto laríngeo e na qualidade de vida relacionada à voz, mas que não se sustentaram na medida em que houve piora dos outros problemas de saúde.
CONCLUSÃO: o tratamento fonoaudiológico pode ser limitado, contudo desafiador, quando a disfonia psicogênica ocorre de maneira concomitante com outras doenças.

Palavras-Chave: Voz; Distúrbios da Voz; Fibromialgia.


 

 

Introdução

Disfonias psicogênicas são distúrbios de natureza psicológica, caracterizam-se principalmente por alteração vocal sem lesão estrutural laríngea ou doença neurológica, sendo mais prevalentes em mulheres1-3. Conflitos relacionados à família e trabalho podem predispor o indivíduo a essas alterações1-2,4. O tratamento pode envolver fonoterapia, psicoterapia e até estimulação magnética transcraniana3,5. Pacientes com este distúrbio poderiam ser mais suscetíveis para outras doenças de origem emocional6. fibromialgia é fortemente associada à depressão e ansiedade7-9.

Considerando que a disfonia psicogênica é uma doença complexa, o objetivo deste estudo é relatar e discutir as limitações do tratamento fonoaudiológico de paciente com este diagnóstico associado à fibromialgia e outras doenças.

 

Método

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição de origem (protocolo 070/2008). Consideraram-se os protocolos das avaliações e registros das sessões de fonoterapia ocorridas numa clínica-escola.

 

Resultados

A paciente de 47 anos veio para atendimento fonoaudiológico encaminhada pelo Serviço de Fisioterapia da mesma instituição, onde estava em tratamento de fibromialgia. Apresentava importante alteração vocal, referindo grande impacto na qualidade de vida.

Na anamnese relatou ter sido essa alteração de início brusco, após intoxicação por produtos químicos no hospital em que trabalhava como auxiliar de serviços gerais. Estava afastada do emprego, recebendo benefícios da previdência social. Relatou ser atendida por diversos especialistas e usar doze medicamentos/dia, devido ao extenso histórico de doenças, além da fibromialgia: artrose, osteoporose, hérnia de disco, problema renal, labirintite, hipertensão, depressão, ansiedade e asma. Ex-tabagista há três anos, fumou durante 22 anos. Diversos sinais e sintomas como rouquidão, quebras vocais, esforço ao falar, falta de ar e engasgos foram relatados.

Durante avaliação inicial a qualidade vocal estava muito alterada, predominantemente soprosa, chegando à afonia. Seus índices de qualidade de vida e voz encontravam-se alterados. No exame otorrinolaringológico nada foi encontrado, levantando a hipótese de simulação.

Ao iniciar a fonoterapia apresentava-se muito deprimida, referindo dores e dificuldades alimentares importantes associadas à náusea. O foco principal do trabalho foi ativação vocal e mudança dos ajustes fixados, com boa resposta. A cada sessão a paciente chegava para o atendimento no mesmo ajuste inicial alterado, mas logo conseguia sair dele com ajuda da terapeuta, apresentando períodos cada vez mais longos de melhora e relatando ganhos na qualidade de vida. Com o decorrer do tratamento (45 sessões de fonoterapia) foi se confirmando o diagnóstico de disfonia psicogênica3,10, inclusive pelo desejo da paciente em retornar ao trabalho. Ela continuou progredindo muito, até estabilizar em um padrão bem melhor do que o apresentado inicialmente. As outras doenças também estavam controladas, não apresentava dor frequente e não estava mais tão deprimida.

A alta foi considerada e discutida com ela, sendo bem aceita, uma vez que parecia ter chegado ao seu limite de melhora. Porém, no início do ano seguinte voltou pior da voz e da saúde geral, começou a faltar muito e a ficar deprimida novamente. Referia dor durante as sessões, principalmente pelo problema renal, e passou a chorar muito. Desenvolveu um tumor benigno na cabeça, lipoma, extraído com sucesso no decorrer deste mesmo ano.

 

Discussão

Apesar de seu empenho, a paciente atingiu um pico de melhora que não se sustentou, devido suas condições físicas e emocionais. Apresentou problemas importantes, que se destacaram também pela quantidade. Considerou-se junto ao psiquiatra que a atende a questão do quanto ela "precisa" ficar doente.

Ainda assim, atualmente está com um padrão vocal melhor do que o do início do tratamento, sendo novamente considerada a alta.

 

Conclusão

Foi possível atingir um padrão vocal estável, com redução da rouquidão, aspereza, soprosidade e desconforto laríngeo, mas que ficou comprometido pela saúde geral da paciente. O tratamento fonoaudiológico pode ser limitado nesses casos, contudo desafiador.

 

Referências Bibliográficas

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Recebido em 01.03.2010.
Revisado em 28.06.2010; 30.08.2010.
Aceito para Publicação em 01.09.2010.
Conflito de Interesse: não

 

 

Artigo Submetido a Avaliação por Pares
* Trabalho Realizado no Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Voz do Curso de Fonoaudiologia do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP.
** Endereço para correspondência: R. Cipotânea, 51 São Paulo - SP CEP 05360-160 (knemr@usp.br)