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Pró-Fono Revista de Atualização Científica

versão impressa ISSN 0104-5687

Pró-Fono R. Atual. Cient. vol.22 no.4 Barueri out./dez. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872010000400023 

ARTIGOS ORIGINAIS DE PESQUISA

 

Processamento auditivo e consciência fonológica em crianças com aquisição de fala normal e desviante*

 

 

Victor Gandra QuintasI, **; Tiago Mendonça AttoniII; Márcia Keske-SoaresIII; Carolina Lisbôa MezzomoIV

IFonoaudiólogo Clínico. Mestre em Distúrbios da Comunicação Humana pela Universidade Federal de Santa Maria - Rio Grande do Sul (UFSM/RS)
IIFonoaudiólogo. Mestre em Distúrbios da Comunicação Humana pela UFSM/RS
IIIFonoaudióloga. Doutora em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Professora do Curso de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação Humana da UFSM/RS
IVFonoaudióloga. Doutora em Linguística Aplicada pela PUC/RS. Professora do Curso de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação Humana da UFSM/RS

 

 


RESUMO

TEMA: processamento auditivo (PA) e consciência fonológica (CF) em crianças com e sem desvio fonológico.
OBJETIVO: comparar o desempenho de crianças com e sem desvio fonológico em teste de CF e verificar a possível relação entre os desempenhos nas distintas tarefas deste teste com o desempenho na avaliação do PA.
MÉTODO: participaram da pesquisa 44 crianças com e sem diagnóstico de desvio fonológico, com idades entre 5:0 anos e 7:0 anos e de ambos os sexos. Após coleta da amostra de fala os sujeitos foram divididos em grupo estudo (GE), composto por crianças com desvio fonológico, e grupo controlo (GC) com crianças sem desvios fonológicos. Foi feita avaliação da CF por meio do uso do Protocolo de Tarefas de Consciência Fonológica (PTCF), e avaliação simplificada do PA (triagem), Teste de Dissílabos alterados - Staggered Spondaic Word (SSW), Teste Dicótico de Dígitos e o teste de Fusão binaural.
RESULTADOS: tanto na avaliação de CF quanto nas avaliações do PA, as crianças do GC obtiveram resultados superiores àqueles obtidos pelas crianças do GE. Ao correlacionar o PA com a CF, houve mais correlações no GE.
CONCLUSÃO: há significativa relação entre o desempenho do PA e os êxitos obtidos nas tarefas de CF em crianças com desvios fonológicos.

Palavras-Chave: Criança; Fala; Testes Auditivos.


 

 

Introdução

O processo de aquisição e desenvolvimento fonológico do Português Brasileiro ocorre de maneira gradual, até que haja o estabelecimento do sistema fonológico, de acordo com a comunidade linguística que a criança está inserida1. Algumas crianças não possuem este perfil de aquisição, apresentando desvios no decorrer do processo. Estes desvios são alterações de fala sem etiologia orgânica aparente, mas nos quais há desordem linguística na representação mental dos sons de fala, assim é chamado de desvio fonológico2. É importante dizer que as crianças com desenvolvimento normal começam a balbuciar por volta dos seis aos nove meses e as primeiras palavras surgem em torno dos dez aos quinze meses. O sistema fonológico como um todo é estabilizado por volta dos cinco anos3.

Durante a aquisição fonológica, a criança pode alcançar um nível metacognitivo que a auxilia a entender a língua, demonstrando, por exemplo que, para ler, é necessário saber recodificar, ou seja, aprender as correspondências que existem entre os fonemas da língua e os grafemas que os representam. Para tanto, é preciso manipular os sons da fala, a chamada consciência fonológica (CF)4.

Sendo assim, acredita-se que as dificuldades na linguagem oral, entre elas déficit da CF e os desvios fonológicos, podem estar intimamente relacionadas aos distúrbios do processamento auditivo (DPA), pois a audição é a principal via de entrada para que a aquisição linguística se torne possível5-7.

A audição não é somente ouvir propriamente dito, é composta por mecanismos e processos do sistema responsáveis pelos fenômenos comportamentais, tais como localização sonora, discriminação auditiva, reconhecimento auditivo, resolução e ordenação temporal, desempenho auditivo com sinais acústicos competitivos e desempenho auditivo com sinais acústicos degradados. Tais efeitos são o Processamento Auditivo (PA)6,8.

Apesar da importância sobre o assunto apresentado e suas implicações clínicas evidentes, há poucos estudos na literatura atual que relacionem as habilidades de PA, a CF e o desenvolvimento de fala. Assim, esta pesquisa tem por objetivo investigar as relações entre o PA e o a CF em grupos de crianças com e sem desvio fonológico, e traçar um comparativo entre os dois perfis de aquisição.

 

Método

A presente pesquisa é do tipo transversal, prospectiva no qual o desvio fonológico é variável dependente e o resultado dos testes do PA e de CF constituem as variáveis independentes.

Este estudo foi aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa de uma Instituição de Ensino Superior sob número 0093.0.243.000-09.

Os dados foram coletados no segundo semestre de 2009, especificamente a partir do mês de agosto.

Para os sujeitos fazerem parte da amostra, foram considerados os seguintes critérios de inclusão: estarem autorizados pelos pais e/ou responsáveis para a participação na pesquisa por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e as crianças assentirem a sua participação; apresentarem diagnóstico de desvio fonológico para o grupo estudo (GE) e desenvolvimento fonológico típico para o grupo controle (GC); ser destro; de ambos os sexos; idade superior a cinco anos.

Como critérios de exclusão, consideraram-se os casos de: alterações evidentes nos aspectos neurológico, cognitivo e/ou psicológico; presença de perda auditiva; alteração do sistema estomatognático que pudessem estar relacionados com as alterações de fala; fazer uso de instrumentos musicais; realização de tratamento fonoaudiológico anterior; dificuldade de concentração detectada no momento da triagem.

Para seleção da amostra, avaliaram-se crianças selecionadas a partir da triagem de um serviço público de atendimento fonoaudiológico. O número de sujeitos na pesquisa baseou-se na demanda de atendimento anual apresentada na instituição. Todas as crianças foram avaliadas individualmente na própria instituição e todas passaram por uma triagem fonoaudiológica. Na triagem, foi realizada avaliação informal da linguagem compreensiva e expressiva; avaliação fonológica completa, com o instrumento AFC - Avaliação Fonológica da Criança9; para as crianças nas quais foi observada alteração no inventário fonológico. Este instrumento constitui-se de cinco desenhos temáticos, onde a amostra de fala é coletada por meio de nomeação e fala espontânea.

Além das avaliações do sistema estomatognático e audiológica. Quando necessário foram realizadas avaliações complementares neurológica, otorrinolaringológica e psicológica.

Passaram pela triagem um total de 30 crianças. Contudo, atenderam aos critérios de inclusão do GE 22 sujeitos, com idades entre cinco e sete anos e média de idade de 6:3, para comporem a amostra.

Para o grupo controle (GC), inicialmente passaram pela triagem 25 crianças, sendo sorteadas aleatoriamente 22, com idades semelhantes do GE.

Para coleta dos dados foi aplicado o Protocolo de Tarefas de Consciência Fonológica (PTCF)10: Segmentação de frases em palavras (T1); Realismo Nominal (T2); Detecção de rimas (T3); Síntese silábica (T4); Segmentação silábica (T5); Detecção de sílaba (T6); Reversão silábica (T7); Exclusão fonêmica (T8); Detecção de fonemas (T9); Síntese fonêmica (T10); Segmentação fonêmica (T11); Reversão fonêmica (T12).

Além do PTCF, para a coleta dos dados foi realizada a avaliação simplificada do processamento auditivo e os testes Dicótico de Dígitos (DD) - consiste em uma lista de palavras (ex: números) dita simultaneamente de forma dicótica; Fusão Binaural (FB) - lista de palavras monossílabas distorcidas acusticamente; e Dissílabos Alternados (Staggered Spondaic Word - SSW) - lista de palavras faladas de forma livre e de forma competitiva (Direita livre à direita competitiva à esquerda competitiva à esquerda livre e viceversa) - do Processamento Auditivo Central: Manual de aplicação11. Para a aplicação de cada prova, levou-se em consideração a idade padrão em que as habilidades auditivas se desenvolveram, bem como a indicação da literatura para a aplicação de determinado teste por idade. Todos os testes foram realizados em cabine acusticamente tratada, sem interferência do meio, e foram aplicados com audiômetro clínico de dois canais, da marca Fonix FA - 12, e uso de fone TDH 39.

As avaliações, desde a triagem até as avaliações específicas nos sujeitos da amostra selecionada, foram realizadas em duas etapas, em dias diferentes. Inicialmente, foi realizada a triagem fonoaudiológica, avaliação auditiva e a avaliação fonológica para seleção da amostra. Aqueles sujeitos que estavam de acordo com os critérios de inclusão compuseram a amostra. No segundo momento foram realizadas avaliações para a coleta dos dados, incluindo o desempenho no teste de CF e a avaliação do PA.

A análise estatística foi procedida utilizando o software estatístico SAS (Statistical Analisys System) versão 8.02. Foi realizada a Correlação de Pearson entre os valores obtidos na CF e no PA. Consideraram-se as correlações acima de 50% e p < 0,05.

 

Resultados

Na Tabela 1 estão os resultados de acertos obtidos nas tarefas de CF e PA em GE e GC.

A Tabela 2 indica as correlações entre os acertos das tarefas de CF e o PA no GC. Foram descritas apenas as correlações que se apresentaram iguais ou acima de 0,50 e com p < 0,05.

A Tabela 3 demonstra as correlações entre os acertos das tarefas de CF com o PA no GE. Foram descritas apenas as correlações que se apresentaram iguais ou acima de 0,50 e com p < 0,05. Nesta Tabela também é mostrada a correlação da CF com o grau do desvio fonológico.

Não foi realizada análise estatística entre os dois grupos, comparando os desempenhos em CF, uma vez que o objetivo é comparar somente o desempenho do PA no grupo com desvio fonológico e o grupo com aquisição normal.

 

Discussão

Os resultados estão de acordo com a hipótese de que crianças com desvio fonológico apresentam prejuízo no PA e consequentemente as habilidades de CF podem estar afetadas12.

A CF, de acordo com esta pesquisa, e corroborada pela literatura pesquisada4,13; não necessariamente estará prejudicada em crianças com a aquisição de fala desviante, sendo então, semelhantes os desempenhos nas duas populações pesquisadas.

Entretanto, apesar de não ter sido realizada análise estatística entre os grupos, é possível perceber que crianças com desenvolvimento fonológico normal possuem melhor desempenho em tarefas especificas do que crianças com desvio fonológico. Este achado é semelhante a outro estudo13.

As crianças de ambos os grupos, presentes neste estudo, obtiveram ainda escores mais baixos nas tarefas no nível fonêmico em comparação com as tarefas do nível de sílaba, sendo a tarefa de reversão silábica a única com valores semelhantes às tarefas no nível de fonemas.

É escassa a literatura onde há associação do Déficit de CF e o DPA, no entanto sabemos que há uma relação entre estas variáveis, pois a integridade dos mecanismos fisiológicos auditivos exerce um papel fundamental na percepção da fala, no aprendizado e na compreensão da linguagem e, consequentemente, é pré-requisito na aquisição da leitura e da escrita14-17. Este estudo, assim, pode mostrar que há relação entre estas duas áreas, visto que há correlações entre elas.

Em ambos os grupos, houve presença de algumas correlações negativas. Estas correlações demonstram que o os resultados obtidos no PA são inversamente proporcionais à CF, ou seja, quanto mais alterações nos testes de PA, menor o número de êxitos nas tarefas de CF.

Para o grau do desvio os resultados não foram estatisticamente significantes para o PA, e desta forma não foram tabelados, mas apresentaram-se importantes para três tarefas de CF. Estas correlações, que se apresentaram fortes sendo duas de forma positiva e uma de forma negativa.

As subtarefas de segmentação silábica (quadrissílabas) e síntese fonêmica (quatro fonemas) foram as que apresentaram correlação forte, positiva. Estes achados levam a crer que o grau do desvio elevado pode provocar erros nestas tarefas.

A subtarefa de segmentação fonêmica (cinco fonemas) foi a que apresentou correlação forte de forma negativa. Este resultado sugere que a realização desta subtarefa pode ser melhor em crianças com graus mais elevados de desvio.

Novamente é preciso ressaltar que há poucos estudos que descrevam a relação estabelecida por esta pesquisa, tanto em crianças com aquisição típica quanto com aquisição desviante, mas que estudos sobre aquisição de linguagem, por vezes, abordam a CF18-20.

 

Conclusão

Crianças com desvio fonológico podem apresentar alterações em alguns testes do PA, mas as tarefas de CF nem sempre estão alteradas. Entretanto, em comparação com população de desenvolvimento fonológico normal, é fato que as crianças com aquisição desviante apresentam desempenhos inferiores ao outro grupo, tanto no PA quanto nas tarefas de CF.

 

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Recebido em 04.01.2010.
Revisado em 28.06.2010; 17.11.2010.
Aceito para Publicação em 17.11.2010.
Conflito de Interesse: não

 

 

Artigo Submetido a Avaliação por Pares
* Trabalho Realizado na UFSM/RS.
** Endereço para correspondência: Av. Dr. Guilhermino de Oliveira, nº 466 - Contagem - MG - CEP: 32.341-290 (victorquintas@ymail.com).

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