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Pró-Fono Revista de Atualização Científica

versão impressa ISSN 0104-5687

Pró-Fono R. Atual. Cient. vol.22 no.4 Barueri out./dez. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872010000400028 

ARTIGOS ORIGINAIS DE PESQUISA

 

Desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva: diversidade e complexidade das produções infantis*

 

 

Fabíola Custódio FlabianoI, **; Karina Elena Bernardis BühlerII; Suelly Cecilia Olivan LimongiIII

IFonoaudióloga. Doutoranda em Comunicação Humana pelo Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Pesquisadora do Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Síndromes e Alterações Sensóriomotoras da FMUSP
IIFonoaudióloga. Doutora em Comunicação Humana pelo Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP. Fonoaudióloga do Hospital Universitário da USP
IIIFonoaudióloga. Professora Livre-Docente e Professora Associada do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP

 

 


RESUMO

TEMA: análise objetiva e sistematizada do processo de desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva.
OBJETIVO: caracterizar o desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva considerando a diversidade e complexidade das produções realizadas por crianças com desenvolvimento típico.
MÉTODO: o presente estudo compreendeu 20 sujeitos (10 do gênero masculino e 10 do feminino), com peso e idade gestacional adequados ao nascimento e ausência de intercorrências pré, peri e pós-natais. Os participantes foram submetidos a sessões mensais de observação da cognição e linguagem expressiva, com duração de 30 minutos cada, dos oito aos 18 meses de idade, utilizando-se o material sugerido de acordo com os procedimentos de aplicação do PODCLE-r.
RESULTADOS: é apresentada e analisada a quantidade de esquemas, gestos e verbalizações diferentes produzidos pelas crianças (diversidade e complexidade), tanto em uma única sessão de 30 minutos a cada mês de idade, quanto de forma cumulativa, dos oito aos 18 meses.
CONCLUSÃO: o PODCLE-r permitiu caracterizar o desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva por meio da observação objetiva desse processo em termos da diversidade e complexidade das produções das crianças estudadas, considerando-se o período compreendido entre a quarta fase do período sensóriomotor e início do pré-operatório.

Palavras-Chave: Desenvolvimento Infantil; Linguagem; Cognição; Protocolos.


 

 

Introdução

O Protocolo para Observação do Desenvolvimento Cognitivo e da Linguagem Expressiva - versão revisada (PODCLE-r)1 foi proposto frente à necessidade de se considerar a diversidade e complexidade das realizações e produções apresentadas por crianças durante a observação do desenvolvimento cognitivo e de linguagem expressiva, durante o período sensóriomotor e início do pré-operatório. Dessa forma, o PODCLE-r permite caracterizar esse processo não apenas em termos da presença ou ausência de determinados indicadores do desenvolvimento, como propunha sua primeira versão2; mas também quanto à qualidade das produções referentes aos indicadores do desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva.

Tal proposta visa cumprir o importante papel de utilização de protocolos que favoreçam a análise objetiva e sistematizada de dados de observação de comportamentos3-6; em geral vistos de forma qualitativa e subjetiva, principalmente se forem considerados os períodos iniciais do processo de desenvolvimento da criança7-10.

Assim, o objetivo do presente estudo foi caracterizar o desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva em crianças pequenas com desenvolvimento típico por meio do PODCLE-r, considerando a diversidade e complexidade das produções.

 

Método

Esta pesquisa foi aprovada pela Comissão de Ética do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (CEP HU-USP) sob o protocolo número 592/05 e pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa (Cappesq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo sob o protocolo nº 082/07. Os responsáveis pelos participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O estudo foi realizado com um grupo de 20 bebês, sendo 10 do gênero masculino e 10 do gênero feminino (peso médio: 3291g, idade gestacional média: 39 1/7s), frequentadores do ambulatório de puericultura e/ ou da creche do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU-USP). Os critérios de inclusão foram: peso e idade gestacional adequados ao nascimento, ausência de intercorrências pré, peri ou pós-natais, e exposição exclusiva ao Português Brasileiro.

A fim de verificar o quão representativo era o tamanho amostral do presente estudo, foi realizado o cálculo do erro amostral. Para tanto, tomou-se como base as estatísticas descritivas do grupo estudado. Os resultados revelaram erro amostral de 2,5%.

Os participantes foram submetidos a sessões mensais de observação da cognição e linguagem expressiva, com duração de 30 minutos cada, utilizando-se o material sugerido de acordo com os procedimentos de aplicação do PODCLE-r. Os sujeitos foram observados de um aos 18 meses de idade, totalizando 360 sessões, todas registradas em vídeo, transcritas e analisadas segundo os procedimentos de análise do referido protocolo.

Para o presente estudo, foram consideradas apenas as sessões referentes ao período dos oito aos 18 meses (220 sessões), visto que os indicadores do desenvolvimento que permitem a análise da diversidade, tanto em relação ao desenvolvimento cognitivo (imitação de esquemas sensóriomotores, uso de esquemas simbólicos simples e uso de esquemas simbólicos combinados) quanto em relação à linguagem expressiva (uso de gestos dêiticos, uso de gestos representativos, produção de verbalizações acompanhadas de gestos e produção de verbalizações isoladas), começaram a ser observados somente a partir do oitavo mês nos sujeitos estudados, momento em que estavam localizados na quarta fase do período sensóriomotor11.

Conforme os procedimentos de análise do PODCLE-r, foram considerados tanto a quantidade de esquemas, gestos e verbalizações diferentes produzidos pelos sujeitos a cada sessão, quanto a evolução da complexidade de tais produções ao longo do período em que foram acompanhados.

A fim de assegurar a fidedignidade das análises realizadas, foi utilizada a validação dos resultados por compatibilização interjuízes. Participaram como juízes desta pesquisa dois fonoaudiólogos, doutores e com experiência na metodologia empregada. Após a análise, obteve-se um índice de concordância de 88,6% para o juiz 1 e de 90,0% para o juiz 2.

Para a análise estatística foram utilizados os testes não paramétricos de Igualdade de Duas Proporções, Friedman e Wilcoxon. O índice de significância adotado foi de 0,05.

Para a obtenção do intervalo de confiança em relação à diversidade para cada indicador do desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva e seus subitens, para cada mês, foram utilizadas as estatísticas descritivas: média, mediana e desvio padrão.

 

Resultados

A análise da evolução dos sujeitos em relação à diversidade e complexidade das produções ao se considerar os indicadores do desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva (análise longitudinal) revelou resultados estatisticamente significantes para todas as comparações mês a mês ao longo do período estudado (p - valor < 0,001). Estes resultados estão apresentados nas Figuras 1 e 2.

 

 

 

 

Os resultados quanto à diversidade em relação aos subtipos dos indicadores do desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva para cada mês, dos oito aos 18 meses, estão apresentados no Tabela 1.

 

Discussão

O objetivo do presente estudo foi caracterizar o desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva quanto à diversidade e complexidade das produções, em crianças com desenvolviemnto típico por meio do PODCLE-r1.

Na primeira forma de análise, em que se verificou a evolução dos sujeitos ao longo do período de estudo, os dados foram considerados de forma cumulativa, ou seja, verificou-se quantos esquemas, gestos e verbalizações diferentes as crianças foram capazes de produzir dos oito aos 18 meses. Tal análise permite verificar o tamanho do repertório da criança para cada indicador do desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva ao final de determinado período de observação. Os pesos atribuídos refletem a complexidade das produções da criança, isto é, quanto mais complexos, maior o peso e, portanto, maior o total geral.

Essa primeira forma de análise pode ser utilizada para verificar o ritmo de desenvolvimento quanto à diversidade e complexidade das produções da criança, sendo possível realizar a comparação entre grupos controle e grupos pesquisa, como corroborado por estudo realizado recentemente12. Tal análise permite, ainda, verificar a efetividade de programas terapêuticos em relação ao desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva, após determinado período de intervenção.

A partir da segunda forma de análise, foram estabelecidos os valores da diversidade para os subitens que compoem os indicadores de desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva para cada sessão, ou seja, quantos esquemas, gestos e verbalizações diferentes são esperados que a criança produza em uma sessão de 30 minutos, a cada mês de idade. Esse segundo tipo de análise pode ser utilizado como referência para avaliações pontuais.

Observou-se que, além de apresentar esquemas, gestos e verbalizações cada vez mais complexos com o aumento da idade, as crianças apresentaram também aumento progressivo da diversidade de tais produções13-14; tanto em relação à observação longitudinal dos 8 aos 18 meses, quanto ao se considerar as produções realizadas em uma única sessão de observação.

Estes achados corroboram os princípios propostos pela Epistemologia Genética que fundamentaram a elaboração do PODCLE e do PODCLE-r. De acordo com tal modelo, o desenvolvimento é resultado de um processo dinâmico e contínuo, em que cada fase é resultado da anterior, ao mesmo tempo em que prepara a próxima11,15.

A análise qualitativa quantificada porposta pelo PODCLE-r encontra respaldo em outros estudos 3, 16-18; que também propõem a atribuição de pontos e pesos para determinados itens e subitens, de forma que os dados possam ser analisados e comparados de forma objetiva, mas sem desconsiderar aspectos qualitativos do processo de desenvolvimento dos sujeitos estudados. Assim, a análise mais geral e objetiva é complementada pela análise qualitativa mais específica, de maneira a valorizar as realizações e produções do indivíduo conforme sua complexidade e importância no processo de desenvolvimento.

Ao se considerar especificamente o desenvolvimento cognitivo e de linguagem, outros estudos também foram realizados utilizando-se a quantificação de dados qualitiativos, na tentativa de sistematizar as observações realizadas para que pudessem ser analisadas de forma objetiva19-22.

No presente estudo, por meio do PODCLE-r, foi possível realizar a análise objetiva da evolução dos sujeitos em relação às fases iniciais do desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva, porém sem desconsiderar aspectos qualitativos importantes desse processo, que se referem à diversidade e complexidade das produções apresentadas pelas crianças.

Os resultados permitem, portanto, que se tenha uma ideia do que é esperado em termos do uso de esquemas, gestos e da produção de verbalizações, dos oito aos 18 meses em crianças com desenvolvimento típico. Porém, apesar do erro amostral obtido para o presente trabalho ser considerado como dentro dos limites aceitaveis (0 a 5%), faz-se necessário a ampliação deste estudo para a obtenção de referências mais precisas da normalidade.

 

Conclusão

O PODCLE-r permitiu caracterizar o desenvolvimento cognitivo e da linguagem expressiva por meio da observação objetiva desse processo em termos da diversidade e complexidade das produções de crianças com desenvolvimento típico, considerando-se a fase de desenvolvimento estudada. Assim, a utilização de parâmetros cumpre o objetivo de controle e sistematização de avaliações e de processos terapêuticos, tomando como base as evidências observadas, tão necessárias às práticas fonoaudiológicas.

 

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Recebido em 23.11.2009.
Revisado em 09.10.2010.
Aceito para Publicação em 23.11.2010.
Conflito de Interesse: não

 

 

Artigo Submetido a Avaliação por Pares
* Trabalho Realizado no Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP. Pesquisa Financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) - Processo nº 06/55866-9.
** Endereço para correspondência: R. Cipotânia, 51 - São Paulo - SP - CEP 05360-160 (slimongi@usp.br).

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